Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Frank, Anita (2021). Os Desaparecidos. Lisboa: TopSeller

Nº de páginas: 416

Início da Leitura: 14/06/2021

Fim da Leitura: 18/06/2021

Os Desaparecidos é um livro que se insere no género literatura fantástica com laivos de gótico, escrito por Anita Frank e traduzido por Leonor Bizarro Marques.

Stella Marcham acabara de perder o noivo, Gerald, que a guerra ceifou demasiado cedo. A esta irremediável perda, juntam-se as recordações que teve enquanto enfermeira que vivenciou a guerra na frente de combate. Esta tragédia, acaba por fazê-la fechar-se em si própria e, apesar de os pais acharem que ela estava doente, Stella ripostava afirmando que apenas se sentia de luto.

Entretanto, é-lhe proposto pelo cunhado, Hector, que ela vá com ele para sua casa, uma vez que a irmã, Madeleine, precisa dela e poderia ser bom para ambas. Madeleine estava grávida e teria perdido um bebé antes do regresso de Stella. Stella decidiu levar com ela a criada, Annie Burrows, uma rapariga enigmática, que, apesar de a deixar desconfortável, é a única disponível para a acompanhar.

Já em Greyswick, a mansão rural da família de Hector, acaba por perceber que a irmã não está bem. Esta revela-se muito ansiosa e confidencia-lhe que ouve uma criança chorar e que não se sente segura ali. Também Stella começa a aperceber-se de situações estranhas, como o bebé que chora no quarto das crianças e os soldadinhos de chumbo que vão sendo colocados de forma a que ela os descubra e se amedronte.

Quando o cunhado regressa, traz consigo o Sr. Sheers, que lhe garantira que conseguiria provar que não existiam ali fantasmas, que era tudo fruto da imaginação das irmãs Marcham. Também o cunhado acredita que é tudo fruto da imaginação delas, não dando crédito aos acontecimentos que Madeleine lhe conta. Porém, quando vivencia uma situação em que, na sala onde se encontravam todos, sucedem acontecimentos muito estranhos, acaba por levar Madeleine consigo. Stella fica e tenta perceber o que se passa na mansão. Entretanto, descobrira que Annie tinha o poder, tal como tivera o pai dela, de comunicar com os mortos, que iam deixando pistas para ela ler. Mas serão mesmo entes mortos que pairam na mansão? Não será, como Sr. Sheers afiançava, fruto da imaginação das irmãs? Ou haveria alguém por detrás de todos os acontecimentos insólitos que decorrem na mansão?

Esta é uma história que, apesar de não avançar rapidamente, de ter alguns momentos um pouco lentos, vai-nos prendendo até ao fim.

Apesar de não ser uma apreciadora de fantasia, gostei deste livro. Mantém-nos presos à narrativa, com o suspense necessário para o leitor viver o adensar do mistério, se questionar e sentir curiosidade na resolução dos mistérios. As próprias descrições contribuem para criar esse clima místico e enigmático. A linguagem é fluente e ajuda na recriação de um ambiente de início do século XX.

Recomendo a leitura!

Novo, Isabel Rio (2018). A Febre das Almas Sensíveis. Lisboa: Dom Quixote.

Nº de páginas: 200

Início da leitura: 12/06/2021

Fim da leitura: 13/06/2021

A Febre das Almas Sensíveis, escrito pela portuense Isabel Rio Novo lê-se num ápice. É absolutamente viciante!

Ousaria começar com uma passagem da obra: “A quase todos nós, filhos do tempo, a eternidade inspira uma angústia involuntária, e o infinito, um medo misterioso. Talvez por isso gostemos das histórias de assombrações, que escutamos com um misto de arrepio e espanto.”

Foi com este misto de “arrepio e espanto” que adentrei nesta leitura.

Intercalando uma narrativa de primeira pessoa com uma de terceira, surgem-nos personagens distintas e uma teia de histórias que se cruzam e se fundam na própria História, em que a tuberculose, doença das multidões operárias das cidades, mal alimentadas e consumidas pelo excesso de trabalho, dos sobreviventes das guerras, dos estropiados, dos desnutridos, dos miseráveis. Essas eram, na verdade, as almas sensíveis.

Assim, é-nos contada a história de um “estranho” agregado familiar das Fontainhas, a par da visita a um sanatório em ruínas por uma jovem, que aí descobre umas páginas escritas e outros objetos, que funcionam como uma espécie de apontamentos que vai recolhendo, e ainda um outro narrador de terceira pessoa, que vai recordando vários tuberculosos famosos que foram vítimas desta doença, de entre médicos, professores e, essencialmente, poetas. E, essencialmente poetas, pela sua condição de almas sensíveis e frágeis, de quem mais facilmente a doença se poderia apropriar. De entre estes escritores, são referidos Walt Whitman, as irmãs Brontë, Anton Tchekov, Balzac e, entre nós, Cesário Verde, António Nobre, Júlio Diniz, Soares de Passos, Sebastião da Gama, José Duro, entre outros.

Uma narrativa engenhosa, extremamente bem escrita e cativante.

A história que mencionei no início é a da família de Alice e Manuel, cujos filhos foram nascendo em diferentes localidades de Portugal: Figueiró dos Vinhos, Peniche, Buarcos, tendo vivido ainda em Vila da Barca, Figueira da Foz, Coimbra, uma vez que Alice era professora e não tinha colocação efetiva. O pai dividia-se entre “vários sonhos e a frustração de nunca os ver concretizados”. Certo era, que não havia grande amor naquela casa, com uma mãe ausente e um pai que “oscilava entre a ternura e a severidade”. Eduardo assumia perante os irmãos, Gilberto e Armando, as responsabilidades dos pais ausentes. No meio desta desestruturação toda, Alice começa a trair o marido com outro homem.

Quando Armando apresenta a futura esposa à mãe, esta rege mal e, perante a afronta que sente quando Manuel se coloca do lado do filho, Alice decide que, a partir daquele dia, deixaria de ser mãe deles e nunca mais queria vê-los sequer. Gilberto foi o único que ficou com a mãe. Quando a mãe diz a Eduardo que nunca conseguirá concretizar o seu sonho de ser médico, este promete a si mesmo que o há de conseguir.

Armando acaba por casar com Natália e têm uma menina, a Laura. A criança é a primeira a morrer vítima de tuberculose. Armando acaba por ser internado num sanatório, no Caramulo.

É incrível a descrição minuciosa que é feita da vida de Armando no Sanatório, os amigos que faz, o que observa, a solidão que enfrenta, a morte a que assiste. É tudo de um realismo e, ao mesmo tempo, de uma poeticidade (um decadentismo romântico) que nos enternecem a alma.

Impressionante também é conseguir encontrar-se um ideal de beleza feminina nas feições marcadas por esta febre que tanta gente matou: “A palidez dos olhos húmidos, as faces enrubescidas e a rouquidão da voz sublinhavam a languidez dos corpos, a alvura dos dentes e a tonalidade dos cabelos, tornando os anjos tísicos modelos da estética feminina cultuada pelos românticos”.

Ter-se-á Armando curado e regressado a casa, para junto de Natália? E Eduardo, conseguiu ele formar-se? E Alice, conseguiu ela cumprir a sua promessa de nunca mais querer ver os filhos?

Certo é que é de forma febril que se lê este livro, absolutamente intenso e brilhante!

Carvalho, Cristina (2011). A Casa das Auroras. Lisboa: Planeta.

Nº de páginas:192

Início da leitura: 12/06/2021

Fim da leitura: 12/06/2021

A Casa das Auroras é um romance de Cristina Carvalho. A sinopse despertou-me logo a atenção. Quando comecei a ler, percebi que é daqueles livros que requer uma certa introspeção, um silêncio, para se poder entrar nesta casa e sentarmo-nos com as personagens a beber um chá redentor.

Esta é uma casa com pelo menos 300 anos e de mulheres, que a visitam. Porém, ninguém sabe quem são, nem por que se encontram ali todas as noites, nem quantas são. Consta ainda que nunca morrerão.

A narradora, de primeira pessoa, afirma que terá sido o mistério que envolve esta casa, as situações insólitas que por lá se passam, “inusitadas, estranhas, fantasmagóricas”, que a terão levado ali. É uma repórter e terá chegado ali com o intuito de escrever sobre uma morte ocorrida em condições estranhas. E nunca mais saiu dali. Sem conseguir desvendar o mistério, a Casa das Auroras constitui a mola que a faz viver, porque, ao mesmo tempo que a assusta, encanta e prende cada vez mais.

E onde fica esta casa? Supostamente situa-se num local ficcional, Quintas, uma pequena aldeia em Portugal. Pela descrição, chega-se lá por um desvio da praia da Calada.

Tiágostinho, o homem mais velho da aldeia, era pai de Bela, a rapariga desaparecida. Quando a narradora lhe pergunta pela filha e pela amiga, Alex, ele refere-lhe que elas continuam a aparecer na Casa, mas que ninguém as vê.

Quando a repórter visita a Casa das Auroras, fica numa espécie de letargia, um estado anestesiado, que a faz ver 6 mulheres sentadas à volta de uma mesa, a beber chá. Não se conheciam umas às outras e, todos os dias, eram mulheres diferentes. Eram as Auroras. Em torno da mesa, propõe-se contar os seus relatos, os seus segredos, as histórias que envolveram as suas mortes, os que as rodeavam, faziam parte das suas vidas, como se comportavam…

De entre essas histórias, temos, por exemplo:

-  A mais velha, de 91 anos, que conta a história da mulher-lobo, do padre que cai em tentações da carne e do filho que nasceu dessas circunstâncias;

- A mais nova, que sempre desejou flutuar, levitar no espaço, cuja professora de Moral implicava com ela por querer conhecer a Lua tal como Neil Armstrong ou Edwin Aldrin. Implicava também por ela usar calças (coisas de homem), estando, no entender da professora, possuída pelo demónio.

- A jovem de 20 anos, muito apaixonada, que viu desmoronar o seu sonho de amor durante um tremor de terra, na década de 60.

…

E outras tantas histórias, que aqui não conto, mas que poderão conhecer quando lerem o livro.

Numa escrita rica, a autora vai pintando uma série de quadros improváveis, mas com uma mestria que cativa o leitor.

Recomendo.

Gonçalves, Hugo (2019). Filho da Mãe. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 240

Início da Leitura: 09/06/2021

Fim da Leitura: 11/06/2021

 


Filho da Mãe é um romance biográfico de Hugo Gonçalves, no qual o autor faz uma incursão ao passado, na tentativa de recordar a mãe, o impacto que a sua doença e morte tiveram nele.

Não foi um tema fácil para mim, uma vez que me revejo sobretudo no que concerne à doença, de que foram vítimas os meus pais, com 49 e 55 anos.

Num relato pessoal e introspetivo, começa por nos contar sobre o momento em que perdeu a mãe, em 1985, tinha ela apenas 32 anos e ele 8. Vai intercalando vários momentos da sua vida, numa busca pelo passado, por tudo o que ficou esquecido nas brumas da memória e a procura que fez, ouvindo familiares e amigos que, de alguma forma, conheceram a mãe.

Em 2015, a avó entrega-lhe um saco de plástico com o testamento do avô, que ele só abrirá um ano depois.

Sobre a doença da mãe pouco sabia e pouco ficou a saber pelo pai que se fechou “à beira do precipício de uma depressão”.

Recorda que, quando tinha 8 anos, sabendo que a mãe estava doente, embora não se falasse nisso, achava que “se andasse pela casa de joelhos, esfolando a pele”, as suas feridas poderiam, de alguma maneira, substituir as da sua mãe. Nesta altura, combatia o mistério da doença, refugiando-se no sobrenatural e na ficção. Estas são breves recordações. Muitas são as perguntas que se coloca, uma vez que grande parte das suas vidas “em comum foi apagada”. Sabia apenas que “A doença era uma criatura incorpórea, capaz de atravessar paredes” e “O cancro: um apaixonado pacto suicida unilateral”.

Em breves conversas com o pai, anos depois, fica a saber que ele e a mãe tinham uma forte ligação.

Quando a mãe morreu, “…sentia a brutalidade da sua ausência – inarredável, sem solução, o silêncio soprado nas veias como no interior das paredes de uma casa devoluta.”

No momento em que o pai refez a sua vida com Rita, ele passou a andar com uma foto dela para não lidar “mais com o constrangimento de dizer aos novos colegas” que a mãe tinha morrido.

Aos 17 anos, entregou-se aos vícios - sexo, drogas e álcool – formas de “escapismo, um recurso simples para algo profundo”, porque “por vezes, revolta e autodestruição são a mesma coisa”.

Com quase 40 anos, assume, pela primeira vez, que a perda exige o luto. Foi então que abriu o testamento do avô.

Termino com mais uma frase do autor, que, quanto a mim, resume bem esta obra: “de todos os eventos biográficos da família, nenhum foi tão decisivo e irrevogável. A ausência da minha mãe é aquilo que sou”, sendo que a sua maior mágoa foi nunca se ter despedido da mãe.

Este foi um livro que li de forma íntima, revendo-me na dor sentida, nas perguntas que o autor ia colocando (“Como era a voz dela? Como era a voz do seu cansaço ou entrecortada por um soluço?... Qual o tom do seu riso? Cantava ao estender a roupa? Como dizia o meu nome?").

É impossível ficar indiferente, por exemplo, quando, ao falar do pai, refere: “Um homem que teve de a deixar no hospital, entregue a estranhos, que pegariam no corpo e o levariam para a morgue…O meu pai esperou na sala de embarque e entrou no avião sabendo que, nas duas horas e meia que se seguiam, a sua mulher morta estaria no porão, debaixo dos seus pés, viajando a três quilómetros da face da terra onde seria enterrada”.

Um livro que se lê com um aperto no peito, uma amálgama de memórias que nos contraem os músculos e nos fazem, inevitavelmente, deixar escapar umas lágrimas teimosas.

Silva, Rui da Conceição (2015). Quando o Sol Brilha. Barcarena: Marcador.

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 08/06/2021

Fim da leitura: 09/06/2021

Quando o Sol Brilha é um romance escrito por Rui Conceição Silva, um escritor português, nascido em 1963 em Figueiró dos Vinhos.

A ação decorre na Quinta dos jardins, em Granja dos Pardais, onde vive o narrador, Edmundo, a família, onde se inclui o pai de Edmundo, Felismino, também conhecido por Jardins, que deixou de reconhecer o próprio filho, a quem trata por vizinho e que passa os dias sentado numa cadeira à beira de uma janela, através da qual vê passar cavalos imaginários. Ficara assim desde que encontrou a mulher, Alice, morta na horta.

Numa linguagem metafórica e doce, onde perpassa a nostalgia de um passado perdido nas brumas da memória, o narrador relembra e conta-nos a sua vida. Os bons momentos da infância, da sua íntima relação com a natureza. Tornou-se uma pessoa triste, “refém da sua melancolia” quando, no fim da infância, aprendeu a “ler os rostos das pessoas”. Estudou apenas até aos dez anos, altura em que o pai o mandou pastar as ovelhas. Tinha um grande amor pelos livros e fazia-se acompanhar nos montes por livros que requisitava na biblioteca. A partir dos catorze anos, o pai arranjou-lhe emprego numa fábrica de fundição de vila velha. Casou com Evangelina e teve três filhos. 

O narrador alterna histórias das pessoas da aldeia e a sua própria história pessoal, utilizando uma linguagem coloquial típica da região que retrata. É uma pessoa feliz.

Mas há um acontecimento na vida do protagonista que lhe vai roubar os sonhos e que o faz ver, pela primeira vez, os mesmos cavalos que o pai via e aos quais chamava de “os filhos do vento”. Este incidente despoleta incidentes tristes que vêm transtornar e transformar Edmundo, trazendo-lhe um sofrimento tão intenso que “todos os olhos morreram de lágrimas”.

Enternecedora e comovente. Nesta obra perpassa a dor, a angústia, a revolta que vem como um gélido silêncio, que não se evita, não se contorna, apenas para ser mais bonito.

Até que ponto este sofrimento pode arrastar o protagonista para o limbo ao ponto de deixarem de se reconhecer? Será que, após mergulhar neste sofrimento absoluto, é possível livrar-se da noite que lhe morava na alma? É possível que o sol volte a brilhar?

Esta é uma história que nos dói, porque, apesar de ficcional, a reconhecemos de histórias que presenciámos, pessoas que conhecemos, histórias que ouvimos contar e, por isso mesmo, com uma verosimilhança que a torna avassaladora. 

Aconselho a leitura!

 

 

Cruz, Afonso (2021). O Vício dos Livros. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 128

Início da leitura: 08/06/2021

Fim da leitura: 08/06/2021

Quando se chega ao fim de um livro e se diz “já?”, “Não pode acabar agora!”, é porque nos tocou. Era previsível. Primeiro, o título foi logo um braço estendido a pedir-me “Lê-me!”, não fosse também meu “O Vício dos Livros”. Depois, Afonso Cruz é Afonso Cruz.

O Vício dos Livros de Afonso Cruz é um livro tão bom que sabe a pouco! Para além de nos conduzir, através das suas reflexões pessoais, curiosidades e memórias, ao âmago de um “amor maior”, fala-nos de livros e de autores que, de alguma forma, o marcaram no seu percurso de leitor. E fá-lo de uma forma simples, com sentido de humor, de forma poética que cativa e deixa o leitor rendido e sem vontade de pousar o livro.

Falar deste livro é citar Afonso Cruz, pois é quase impossível contar o que é incontável se não pelo autor. Desde a ternura com que fala da avó que se esquecia do avançado da idade ao contar as suas histórias, que o faz pensar na “luz por dentro” (de que falava Mário Quintana) que embeleza as “histórias dos velhos”. Ou quando nos conta como os livros podem influenciar até uma relação amorosa. Ou quando nos diz que, como “a morte também é leitora”, devemos andar “sempre com um livro na mão” para a distrair. Ou quando nos conta a história de uma escritora árabe que se divorciou porque, nas palavras que o autor cita da mesma “Comecei a ler e libertei-me”. Ou quando explica que o que afasta as pessoas da leitura são argumentos falaciosos e, citando António Basanta, refere que “não é a falta de tempo que impede a leitura: é a falta de desejo”. Argumentos como “gostaria muito, mas não tenho tempo para ler”, “adoro ler, mas o trabalho não deixa”, “costumava ler, mas as responsabilidades agora são muitas” não passam de desculpas, porque se pode ler até “entre trabalhos e tarefas” “nos transportes”, “enquanto almoça”, “na casa de banho”, “antes de dormir”. Adorei a passagem sobre “O poeta que foi assassinado pelos próprios livros e não pude deixar de rir com os exemplos, de que cito apenas um: “o pianista e compositor Charles-Valentin Alkan morreu a 30 de março de 1888 esmagado pela sua biblioteca”. Literalmente, sentiu “o peso esmagador do que leu”.  Depois, a forma como cada um organiza a sua biblioteca e a surpresa que pode ter ao colocar um livro meio ao acaso e com o qual tem “encontros inesperados”.

Ainda tem o poder de dizer o que penso, o que me faz pensar realmente, quando refere, com alguma mágoa, das histórias que poderia ter ouvido e, pura e simplesmente ignorou numa dada altura da sua vida. Refere que “a maior viagem possível é ouvir” e dá conta de uma frase de um livro de Antonio Basanta, que diz “A primeira biblioteca que conheci na minha vida foi a minha mãe (…) Cada noite, antes de dormir, visitávamos as estantes da sua memória”.

Termino com uma passagem que não poderia mesmo deixar de citar, por me identificar tanto com ela: “Por vezes, os livros que não são lidos podem assumir um ar acusador. Muitos leitores sentem alguma culpa quando olham para pilhas de livros por ler. No meu caso, considero estes livros uma possibilidade de ser livre: não tenho apenas um livro para ler, tenho muitos, e isso permite-me escolher o próximo”.

Peixoto, José Luís (2021). Almoço de Domingo. Lisboa: Quetzal Editores.


Nº de páginas: 264

Início da leitura: 05/06/2021

Fim da leitura: 05/06/2021 

Almoço de Domingo é um romance biográfico do comendador Rui Nabeiro. O próprio facto de o narrador ser, na maioria da obra, de primeira pessoa, na pessoa do próprio Rui, confere-lhe esse caráter ficcional. As memórias apresentadas são as de um homem de 90 anos. Talvez por esse facto, surjam, na maior parte das vezes, alternadas, diria mesmo quase fundidas, mescladas. Porém, sem nunca perder a lucidez que ainda o caracteriza e que é por demais evidente nas mesmas memórias. É de louvar esta lucidez, a forma como recorda lugares, gentes, acontecimentos, cheiros, sabores, regressos a casa.

Se fosse, à letra, uma biografia, haveria com certeza muito mais que dizer. Assim, nota-se que José Luís Peixoto escolheu os episódios que considerou mais marcantes e mais ligados à vida pessoal deste homem.

Rui Nabeiro é-nos apresentado com toda a humildade, convicções e espírito de sacrifício que o tornaram no empresário de sucesso e de renome como há poucos.

Quando, em 1961, cria a marca Delta, poderia pensar-se num empresário como tantos outros. Mas Rui era diferente. Fazia questão de se fazer presente. Nas fábricas, junto dos comerciantes e donos de cafés e restaurantes que lhe comprariam o café, no estrangeiro… A sua presença não era, contrariamente à de tantos empresários, uma presença distante. Ele falava com todos, sorria a todos, sempre pouco preocupado com, por exemplo, o “fato de treino fora de moda” que envergava. Eram esta simplicidade e humildade que cativavam.

Muitos são os acontecimentos que recorda, desde os pais, os irmãos, a irmã mais nova doente e que morre demasiado nova; quando é chamado à inspeção; os tempos de escola; o pão que ajudava a migar, na infância, para as sopas de pão; o tio Joaquim e os jantares com ele; o olhar de Marcelo Caetano; o jogo que foi ver, onde estava também Jorge Sampaio; o rapaz de quem o pai tomava conta; a morte do “amigo sincero”; o almoço com Mário Soares e Felipe Gonzalez nas mesas improvisadas da Cooperativa Progresso Campomaiorense, entre muitos muitos outros acontecimentos em que nos envolvemos e nos cativam.

Porém, de todos os acontecimentos, o que mais me emocionou foi, sem dúvida, a sua relação com a esposa, Alice. Não imagina “que vida teria tido sem ela”. Recorda o dia do casamento, um casamento simples, no qual “havia demasiada igreja para um ajuntamento tão modesto”. Casou aos 22 anos. Alice tinha 20 e trabalhava na costura. São setenta e sete anos que recorda com carinho. Relembra, com especial ternura, as manhãs de sábado com Alice, mesmo quando já tem de a ajudar a levantar-se, quando ela lhe pede que abra algumas persianas para entrar “mais sábado sobre os tapetes”. Relembra a voz dela “a ganhar primaveras no momento em que dizia o nome dos filhos, netos e bisnetos”, nestes sábados “que acrescentavam mais sabor à comida”. E que bonita a passagem em que nos fala do amadurecimento da sua relação: “…havia uma delicadeza especial, uma espécie de segredo, um encanto a que apenas se chega depois de muitos anos. Alice, esse nome atravessava o tempo, e o tempo era a vida”.

E, por fim, o regresso a Campo Maior, agora tão diferente do que era antes, mas que continua a considerar como o seu “regresso a casa”. É um regresso a casa para um almoço de domingo, onde celebrará os seus 90 anos, com toda a família e amigos.

Para além de uma vida riquíssima, dos episódios eximiamente escolhido pelo autor, temos a linguagem e o estilo de José Luís Peixoto, que nos consegue cativar e prender à narrativa. As repetições utilizadas concedem intensidade à mensagem que se quer transmitir, como se se tornassem parte dos nossos pensamentos, ficando a “martelar”. E depois, depois o mais importante: a poeticidade da linguagem de Peixoto, que nos comove, que nos arrepia, e que, neste livro, me fez sentir este regresso a casa como meu, como se nesta memória de um almoço de domingo, fosse um dos presentes, a sentir este aconchego de família. E que aconchego nos dá este livro! Recomendo tanto!

 

Zusak, Markus (2019). Nada Menos que um Milagre. Lisboa: Editorial Presença.

Nº de páginas: 496

Início da leitura: 05/06/2021

Fim da leitura: 06/06/2021

Nada Menos que um Milagre é um livro do escritor australiano Markus Zusak, traduzido por Miguel Romeira.

Devo dizer que parti para a leitura deste livro com muitas expectativas, uma vez que tinha adorado o seu livro mais conhecido A Rapariga que Roubava Livros, uma obra emblemática que decorre na Segunda Guerra.

Porém, não se revelou tão fácil entrar nesta história, talvez pela própria estrutura do livro ou pelo facto de nos dar a conhecer um grande número de personagens logo no início da história. Fui gostando do livro, à medida que fui avançando na história, deixando-me enredar na trama, nas alegrias e sofrimentos das personagens, com as quais é fácil criar empatia, unidas por um laço forte de amizade, até, finalmente, ter gostado. Não tanto como do anterior, sou sincera, mas é uma boa história, bem escrita.

Temos como narrador o irmão mais velho, Matthew, que nos conta como, a certa altura da sua vida, ele e os seus quatro irmãos perderam a mãe e o pai abandonou a casa, deixando-os sozinhos, imersos no caos de uma vida sem adultos, mas, apesar de tudo, feliz.

Entretanto, o pai regressa com um desafio: gostaria de ter a ajuda de um dos filhos para construir uma ponte. Clay é o único filho que aceita o desafio do pai. Mas o que estará por detrás desta decisão? Que segredo esconde Clay? Não será a ponte uma metáfora da própria vida? Um elo de ligação com um novo rumo, um novo sentido, uma nova forma de acreditar, uma redenção, um milagre? Não será a ponte o caminho que todos os mortos têm de percorrer, transpor, para alcançar a salvação? Ou, tão simplesmente, uma forma de aceitar a morte e de nos reconciliarmos com a vida?

Sem dúvida, um livro a ler!

 

Carey, Peter (2011). O Japão É Um Lugar Estranho. Lisboa: Tinta-da-China

Nº de páginas: 176

Início da leitura: 05/06/2021

Fim da leitura: 05/06/2021

O Japão É Um Lugar Estranho é um livro do australiano, nascido em 1943, Peter Carey e traduzido por Carlos Vaz Marques. Neste livro, o autor conta-nos a viagem que o autor fez com o filho ao Japão, decisão que tomou quando o filho lhe disse “Quando for grande, vou viver para Tóquio”. Charley, o filho, tem apenas 12 anos quando se apaixona por mangas, a banda desenhada representativa do Japão, em particular Akira, que começou como manga, mas depressa se tornou no filme de animação, ou melhor, anima, que se caracteriza pela conjugação de realismo e exagero e uma enorme quantidade de temas abordados.

Esta viagem permitiria a Carey estreitar laços com o filho, abordar a cultura que está na origem de mangas e todo o exotismo deste país asiático.

Pai e filho estão decididos a visitar o que designam como o “verdadeiro Japão”, com o intuito de conhecerem escritores e produtores de mangas e anima.

Reconheço a mestria da escrita de Carey e as descrições pormenorizadas e bastante interessantes de Tóquio. Gostaria apenas de estar mais familiarizada com a banda desenhada japonesa para usufruir plenamente de toda a história. Ainda assim, considero que viajei pelos olhos deste exímio observador, apreciei as histórias que foram sendo contadas e aprendi mais sobre a cultura oriental. O Japão é, sem dúvida, “um lugar estranho”.

Backman, Fredrik (2020). Um Homem Chamado Ove. Lisboa: Editorial Presença.

Nº de páginas:312

Início da leitura: 24/05/2021

Fim da leitura: 29/05/2021

Um Homem chamado Ove, de Fredrik Backman, traduzido por Alberto Gomes, é mais um livro muito ao estilo deste autor, que tem o dom das palavras e uma grande dose de humor e criatividade. Um livro simples em termos de linguagem, que serve para descontrair após leituras “mais fortes”. Contudo, desengane-se se pensa que este livro se esgota no humor que passa ao leitor. A temática abordada é delicada - o suicídio - a perda do sentido da vida e o desejo de abandonar tudo e deixar de viver.

Contudo, a história não se esgota por aqui. Ove é um homem que nos cativa, pois, apesar do constante mau humor, tem um bom coração e, ainda que não o dê propriamente logo a entender, preocupa-se com o próximo.

Ove é um homem de meia idade, cuja vida é feita de rotinas e que sente prazer em manter a ordem e o bem-estar do bairro onde vive. Vistoria, todas as manhãs, a ordem o cumprimento de regras e a segurança do bairro. Certifica-se de que não houve ladrões a tentar assaltar alguém, de que os caixotes do lixo estão impecáveis, de que os condutores respeitam as regras de circulação e de proibição. Conduz um Saab…

Sendo um homem de hábitos, houve duas situações que vieram alterar as suas rotinas e que, consequentemente, o fizeram pôr em causa a sua razão de viver: a mulher, Sonja, morreu, com cancro e ele está em vias de perder o emprego, com uma proposta de reforma antecipada, por não se adaptar à exigência das novas tecnologias.

Toma, então, a decisão de morrer. Veste o seu melhor fato. Porém, várias são as circunstâncias que o vão impedindo de pôr termo à vida. De entre essas circunstâncias, estão os novos vizinhos, especialmente a nova vizinha e as suas filhas. Também o gato, os amigos improváveis e uma série de acontecimentos vão atrasando a sua decisão. Será a amizade capaz de o fazer superar os traumas e ganhar novo sentido pela vida?

Apesar de ser um rezingão, tem bom coração, é trabalhador, um homem de princípios, que vive numa profunda solidão.

É impossível não nos deixarmos cativar e comover com as personagens deste livro, em especial com o Ove.

Aconselho sem reservas!

5*

Agualusa, José Eduardo (2006). O Vendedor de Passados. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 231

Início da leitura: 23/05/2021

Fim da leitura: 23/05/2021

O Vendedor de Passados é um livro escrito por José Eduardo Agualusa e é muito peculiar. Fazendo lembrar uma fábula, a história chega-nos através de uma osga, o Eulálio, que se sentia ignorada por Félix Ventura até ao dia em que ele a ouviu rir. A partir daí, Félix passa a chegar mais cedo a casa e a conversar com ela, pelo que ela chega a pensar que já se sentem ligados por “um fio de amizade”. Além de testemunha, confidente, esta é uma osga com sonhos e emoções.

Félix, um negro albino, residente em Luanda, apresenta-se, normalmente, como um genealogista, mas o que ele realmente faz é vender passados que lhe encomendam, sendo uma espécie de traficante de memórias, um negócio secreto com que lucravam ambas as partes. Ele, que as vendia, e quem lhas comprava também, uma vez que passava a ter um passado com ilustres ancestrais, uma árvore genealógica, até com fotografias dos avós e bisavós. Compravam um passado decente, uma família numerosa, mostrando-se, às vezes, muito exigentes. Os seus clientes eram, geralmente, empresários políticos, generais, pessoas importantes da emergente burguesia angolana.

Esta construção de passados é, para Félix, de certa forma, fácil, uma vez que possui uma vasta biblioteca, herdada pelo pai, que era alfarrabista. O seu interesse pelos livros, pelas histórias, a pesquisa que efetua, permitem-lhe criar árvores genealógicas verosímeis.

Um livro diferente, bem escrito, revelando um grande sentido de humor por parte do escritor, uma imensa criatividade. O final também é surpreendente.

Não é um livro fácil, mas é um livro que nos faz pensar. Até que ponto pode ir a manipulação da memória? Só seremos alguém se tivermos um passado brilhante? Até que ponto não seremos todos nós criadores de passados? Ao recordarmos o passado, não o fazemos de forma pessoal, recriando e ficcionando acontecimentos de acordo com os nossos desejos? Não escrevemos todos nós o nosso passado? Até que ponto, a guerra e a perda de alguma identidade esteve na origem desta necessidade de recriar passados, sem manchas de sangue, de guerra, de opressão?

Aconselho a leitura!

Coben, Harlan (2019). Não Desistas. Lisboa: Editorial Presença

Nº de páginas: 288

Início de leitura: 22/05/2021

Fim da leitura: 22/05/2021

Não Desistas é um policial escrito por Harlan Coben e traduzido por Marta Mendonça.

É um livro que cativa desde o início, revelando um grande sentido de humor, uma linguagem bastante acessível e, diria mesmo, cinematográfica, pelo seu ritmo acelerado, sem momentos mortos, em que estamos permanentemente ansiosos por saber o que vem a seguir. É, com efeito, um livro que se lê num ápice, apesar da letra pequena (o que as editoras poderiam evitar).

Só para terem uma ideia deste sentido de humor passo a citar a frase que dá abertura ao livro: “Daisy usava um vestido preto muito justo e com um decote tão profundo que quase estaria habilitado para dar aulas de Filosofia.”

A história tem início com Dale Miller, num café, a próxima vítima de uma burla levada a cabo por Daisy e Rex, que, a pedido de um elemento de casais em divórcio, para ficarem com a custódia dos filhos, solicitavam os seus serviços. Daisy só tinha de seduzir a vítima, fazê-lo beber o máximo que podia e depois pedir-lhe que a levasse a casa. Rex, que era polícia, faria uma operação stop, na qual multava e prendia o condutor que acompanhava Daisy por excesso de álcool. Já haveria aqui pano para mangas. Mas, desta vez, não corre tudo como o planeado. Rex e Daisy serão surpreendidos pela vítima e mais não digo.

E é a seguir que começa o enredo propriamente dito. Nap é um detetive, que vive em Nova Jérsia e que terá seguido esta profissão com o intuito de descobrir quem, há cerca de 15 anos, assassinou o seu irmão gémeo, Leo, com o qual vai conversando mentalmente, e a namorada do irmão, Diana. Relembra o homicídio, em que ninguém acredita, referindo-se antes ao acontecimento como “suicídio duplo” ou “morte acidental”.

É aqui que esta história se começa a ligar à anterior, uma vez que são encontradas impressões digitais, no carro que fora mandado parar pela polícia, de Maura. Começamos a associar Daisy a Maura, que seriam a mesma pessoa. Maura teria sido namorada de Nap e terá desaparecido desde o trágico “acidente” que vitimou Leo e Diana. Apesar de os pais de Maura não a terem dado como desaparecido, vimos a perceber que foi o próprio Nap quem a deu como desaparecida no Sistema Automático de Identificação de Impressões Digitais. Maura, juntamente com Leo, Diana e outros colegas do secundário, teria feito parte de um Clube da Conspiração, ao qual Nap, na adolescência, não terá dado grande importância, considerando-o inofensivo e infantil. Porém, a certa altura, começa a perceber e a interligar os acontecimentos. Os membros do grupo têm vindo a aparecer mortos. Quem andariam eles a desafiar, na juventude, o que teriam eles descoberto que pudesse levar alguém a querer livrar-se deles.

Vale a pena acompanhar o percurso desta investigação, uma vez que é sempre surpreendente, até ao fim, mantendo o suspense até se descobrir toda a verdade.

Deixo apenas mais uma passagem para terem uma pequena noção do sentido de humor que perpassa neste livro:

“ – Quer fazer uma luta de orelhas comigo?

- Uma quê?

- O seu mano – faço sinal com a cabeça na direção do Polícia Dois – vai-se embora. Trancamos a porta. Pousamos as armas. Um de nós sai deste quarto com a orelha do outro na boca. Que me diz?

Aproximo-me dele e simulo uma dentada.” 

Glaiter, Seni (2019). O Senhor Doubler e a Arte de Cultivar Batatas. Cacém: HarperCollins.

Nº de páginas – 384

Início da leitura: 21/05/2021

Fim da leitura: 22/05/2021

O Senhor Doubler e a Arte de Cultivar Batatas é um livro escrito pela autora inglesa Seni Glaister e traduzido por Ana Filipa Velosa.

Como falar deste livro? Pela capa e título, não fazia ideia do conteúdo abordado. Mas o certo é que, talvez por ser diferente, vi-me curiosa perante o conteúdo. E devo dizer que superou as minhas expetativas.

Com magia, ironia, verdade e sentido de humor, este livro aborda temáticas importantíssimas, que muitas vezes desvalorizamos ou evitamos pensar. De entre estas temáticas, destaco a velhice, a capacidade de amar na velhice, o menosprezo dos filhos que tomam decisões em função dos seus interesses, o cancro, a vida e a morte, Deus, o altruísmo, as convicções, os sonhos, os propósitos…

É impossível ler este livro sem refletir, sem nos colocarmos questões como: a velhice será em si um fim? Serão os filhos um reflexo da educação que receberam ou podem ser simplesmente maus, geneticamente maus? Até que ponto algumas atitudes inadequadas do ser humano nos permitem julgá-lo e condená-lo? O que existe por detrás de alguns comportamentos e formas de vida? Não ignoraremos o que nos rodeia, por ser mais fácil assim e porque observar e intervir dá trabalho? Até que ponto nos poderemos aprisionar dentro de nós mesmos e deixar de ver o que nos rodeia? Será uma pessoa louca pelo facto de as outras a considerarem louca?

Não, não é um livro de autoajuda, tem enredo, tem personagens às quais depressa nos afeiçoamos, outras que nos chocam pelas suas atitudes e pelo facto de parecer que as conhecemos do nosso dia a dia.

É um livro completo. Não tem momentos mortos. Há, isso sim, tempo para refletir, tempo para viver e é impossível não nos comovermos, não darmos uma boa gargalhada. São livros assim que nos deixam com uma autêntica ressaca literária. O que ler a seguir? Como entrar agora noutra história?

Claro, como já se devem ter apercebido, adorei!

“…as nossas lembranças raramente coincidem. Os factos são os mesmos, mas a forma de retê-los depende muito do nosso estado de espírito naquele momento e do uso que damos a essas lembranças…” (pp. 282-283)

 Dalton, Trent (2019). O Rapaz que Conquistou o Mundo. Madrid: HarperCollins.

 

Nº de páginas: 480

Início da Leitura: 10/05

Fim da Leitura: 19/05

O Rapaz que Conquistou o Mundo é um romance escrito por Trent Dalton, autor australiano, e traduzido por Fátima Tomás da Silva.

Este é um livro que fala de situações cruéis que existem e que, muitas vezes, preferimos ignorar ou nem pensar, para não nos magoarem. Há assuntos tabu, que são autênticas bofetadas, mas depois…depois há um carinho que perpassa e que dói pelo contexto em que acontece.

Eli Bell, o narrador da história, tem apenas 12 anos e, em 1980, vive nos subúrbios de Brisbane com a família, destacando-se a mãe, Frances, o padrasto, Lyle e o irmão August, tratado por Gus, que não fala (mais tarde, ficamos a saber o motivo, que traumas o terão deixado assim). A mãe consome drogas, o padrasto é traficante e Eli quer apenas vir a ser uma boa pessoa, tornar-se num jornalista de renome. Conseguirá Eli não se deixar contaminar por toda a podridão que o envolve?

Eli é uma criança que, apesar de crescer neste ambiente, tem em si muito amor e sentido de proteção em relação à família. Protege a mãe, por quem sente um amor incondicional; quer acreditar que Lyle, no fundo, é um homem bom e está disposto a fazer tudo para o agradar. No que se refere ao irmão, há entre eles uma relação muito bonita, um entendimento e um amor que transparece e Eli entende o irmão, mesmo que este fale por gestos, desenhando palavras nos ar. Eli capta o sentido de todas! E esta relação entre os dois irmãos é uma relação que comove, pois está acima de tudo o que de mau lhes vai acontecendo nas suas vidas tão jovens.

São crianças que crescem num ambiente muito duro, de tráfico de droga, de impropérios que se tornaram vulgares, de violência e que, mesmo assim, têm em si um amor que vai resistindo e os vai ajudando a viver.

Quando é desmantelada esta rede de tráfico, Eli e Gus sentem o seu mundo desmoronar e veem-se obrigados a ir viver com o pai, um homem bêbado e deprimido.

É uma história dura, infelizmente mais realista do que gostaria (apesar de ser ficcionada).

Um livro a ler!

Martínez, Agustin (2018). Monteperdido, A vila das meninas desaparecidas. Carnaxide: Suma das Letras.

Nº de páginas: 464

Início da leitura: 11/05/2021

Fim da leitura: 17/05/2021

Monteperdido é um livro escrito por Agustin Martínez, nascido em Espanha e traduzido por Gonçalo Neves. É um thriller psicológico, cuja ação se desenrola numa vila situada nos Pirenéus.

Tudo decorria tranquilamente, até ao dia em que, após um comum dia de escola, Ana e Lucía, duas jovens de 12 anos, em vez de regressarem como habitualmente a suas casas, desapareceram.

Acontece que, cinco anos depois, ocorre um acidente, no qual morre o condutor e uma jovem fica gravemente ferida. Quando reconhecem a rapariga como Ana, uma das raparigas desaparecidas, os inspetores responsáveis pelos seus processos, reaberto o caso, Sara Campos e Santiago Bain, questionam-se e dão início a uma investigação exaustiva, uma vez que ainda haverá a possibilidade de encontrarem Lucía com vida.

Ao longo da narrativa vão-se intercalando momentos presentes com momentos passados. Monteperdido é um local fechado e repleto de segredos, não sendo fácil tentar, num sítio destes, descobrir o que, de facto aconteceu. Mas cinco anos é muito tempo, muitas coisas mudaram, muitas relações pessoais alteraram e os próprios pais de Ana, agora divorciados, já não são os mesmos.

O espaço onde a ação se desenrola é magnífico, capta pelo mistério envolvente, o ambiente sombrio e os animais que adquirem grande simbolismo na narrativa.

Apesar de considerar que é uma boa história, penso que peca pelo excesso de informação, pela morosidade da narrativa, que poderia, muito bem, contar com menos páginas.

Considero que é um livro bem escrito, sem ser excecional, mas que vale a pena ser lido.

Schulman, Alex (2021). Sobreviventes. Porto: Porto Editora.


Nº de páginas: 224

Início da leitura: 07/05/2021

Fim da leitura: 09/05/2021

Sobreviventes é um livro escrito pelo escritor e jornalista sueco Alex Schulman e traduzido por João Reis. Posso afirmar que é daqueles livros que nos prendem logo à primeira página, envolvendo-nos de tal forma que seríamos capazes de o ler sem interrupções, se assim pudéssemos e tivéssemos tempo. A própria forma como a intriga está estruturada, alternando momentos passados, em que os protagonistas eram ainda crianças e o momento presente, em que, como adultos, regressam à casa de campo onde foram criados, para sepultar a mãe. Os verdadeiros acontecimentos decorreram na infância e são eles que explicam as personagens que se nos apresentam no momento presente, especialmente um acidente que os mudou para sempre, que explicam o seu caráter, os seus traumas, os seus medos, as suas ousadias, as suas raivas e as suas frustrações. Em todo o percurso de leitura, sentimos que nada sabemos e, quando, enquanto leitores, nos julgamos detentores da história, eis que ela se reconstitui seguindo um percurso inesperado. Talvez, por isso mesmo, nos mantenha presos, de coração apertadinho, a bater numa pulsação de ansiedade em conhecer o resto da história.

Sem dúvida, que até o título foi bem escolhido. Sobreviveram aos acontecimentos mais atrozes, às rivalidades criadas pelos próprios progenitores, aos momentos de raiva, a tudo o que os tornava diferentes uns dos outros, à indiferença a que foram votados, durante toda a vida, pelos próprios pais. E sobreviveram porque, ainda assim, apesar de todos os acontecimentos e divergências, havia um laço que os unia…

E mais não digo, pois quero que sintam o que senti ao ler este livro!

Há muito que não lia um livro assim, em que nada é supérfluo, em que tudo faz sentido, em que, depois do livro, fica o próprio livro, a residir nos nossos pensamentos. Ainda não sou capaz de o arrumar na estante. Tenho de olhar para ele, virar e revirar, reler o último capítulo…

Spence, Alan (2009). A Terra Pura. Lisboa: Editorial Presença. 

Nº de páginas: 336 
Início da leitura: 02/05/2021
Fim da leitura: 06/05/2021 

A Terra Pura é uma obra escrita por Alan Spence e traduzida por Manuela Madureira, que, apesar de ser ficcional, parte de um fundo histórico, ao inspirar-se na biografia de Thomas Glover, um escocês, que é o protagonista da história narrada (a sua trágica paixão por uma cortesã deu origem à criação da ópera Madame Butterfly, de Puccini). 

Glover é um escocês que decidiu ir trabalhar para Nagasáqui, em 1858, onde se estabeleceu e se deixou cativar pela cultura nipónica e cuja vida se pautou por uma extrema ambição. Para além de ser dotado para os negócios, o seu carácter confiante, comunicativo e ousado, conferiu-lhe sempre algum carisma, que lhe possibilitou uma fácil integração e uma relação com algumas das pessoas mais importantes da sua época. Começou por trabalhar numa empresa chá, mas rapidamente abriu a sua própria empresa, exportando chá. Mas a sua ambição levou-o à venda de ópio, armas, canhões, navios. Inaugurou a primeira locomotiva no Japão. Foi inteligente ao casar-se com Sono do clã Satsuma, que lhe permitiu ampliar o negócio e não ser visto como estrangeiro. Glover foi um apoiante do período Meiji japonês, pelo seu desejo de abrir o Japão ao Ocidente. Depois de falir, terá desenvolvido a mina de carvão Takashima, revelando-se como uma figura preponderante na industrialização do Japão fundador de uma empresa naval que, mais tarde se tornou na Mitsubishi do Japão. E não foi só a nível profissional que se salientou. A sua vida amorosa foi igualmente tumultuosa. Teve três filhos de três mulheres diferentes. 

É um livro interessante pelos factos reais em que é baseado relativamente a Thomas Glover e à própria história do Japão. Porém, não achei extraordinário, talvez por não ter conseguido criar empatia com o protagonista. Nem sempre a ambição é positiva, talvez esse seja um dos fatores para não me ter identificado de todo com Thomas Glover.

 


Cruz, Afonso; Carvalho, Ana Margarida; Ferraz, Carlos Vale-, Carvalho, Cristina; Beja, Filomena Marona; Fanha, José; Real, Miguel; Camarneiro, Nuno; Carvalho, Sérgio Luís de (2016). Uma Terra Prometida. Lisboa: Zero a Oito.

Nº de páginas: 192

Início da leitura: 30/04/2021

Fim da leitura: 01/05/2021

Este é um livro que resulta de um desafio lançado a José Fanha para escrever sobre um determinado tema atual e motivador, escolhendo para tal vários escritores e foi assim que nasceu esta obra, que integrou o Plano Nacional de Leitura do 3º Ciclo do Ensino Básico.

Gostei muito dos contos, sendo que o que menos me cativou foi o do Carlos Vale Ferraz.

Destaco, de entre todos, igualmente bons, os que mais me cativaram, falando um pouco sobre eles.

“Déjeneur sur l’Herbe com Alguém a Afogar-se” é um conto de Afonso Cruz, que nos fala de uma família que vai fazer um piquenique no campo. Enquanto comem, veem alguém no rio a afogar-se. Não percebem se se trata de um homem, uma mulher ou até de uma mulher com um filho nos braços. Ainda assim, continuam a comer calmamente. Quando fazem uma caminhada, voltam a ver a imagem do outro lado do rio e percebem que está aflito. Parece-lhes que está a acenar. A mãe acena de volta, mas ignora, uma vez que “não conhecia aquela gente de lado nenhum”, podiam ser “pessoas desinteressantes ou aborrecidas ou até delinquentes…”. Pode, ainda, ser “um pobre”. A filha atira um brigadeiro que nem chega lá e o filho continua a ler e a comover-se com a sua leitura, no regresso para casa. Um conto pequeno mas tão completo! A forma de escrita de Afonso Cruz é absolutamente extraordinária. Consegue, com algum humor (negro) e muita ironia colocar num conto tudo quanto sofrem os refugiados, esta indiferença de que são alvo, por parte de pessoas que se comovem com ficção, mas que se mantêm no seu mundinho, impávidas e serenas perante o sofrimento alheio. Muito bom.

No conto “O meu Prédio” de Cristina Carvalho saliento a mensagem e a forma como está escrito. O narrador é um jovem de 11 anos, cuja família, apesar de pobre, manteve-se sempre unida e nunca lhes faltou comida na mesa, até a guerra lhes levar tudo. No dia em que a mãe resolve fazer um bolo, rebenta uma bomba nos prédios ao lado, que deixará na memória deste jovem, quando sente o cheiro de bolos, uma náusea e uma sensação de “tristeza infinita”. E passo a citar algumas passagens de entre tantas que me comoveram: “A guerra estava ali a estalar na avenida, a lamber os prédios, a galgar passeios e rotinas, a dizimar as vidas de tanta gente”. “Eu sei o que é ter fome, isso sei! É uma sensação escarlate, esta sensação de fome. Começo por ter dores de estômago, que vão descendo e passam a ser cólicas na barriga. Depois vem um formigueiro intenso na ponta dos meus dedos, quero levar as mãos à cabeça, levantar os braços e não consigo. Não tenho forças”. Conseguem partir para as ilhas Féroe, na Dinamarca, mas nem todos conseguem lá chegar e é este narrador, de onze anos que refere: “Se me lembro dos meus pais e dos meus irmãos? Lembro-me, sim. Vejo-os a boiar, inchados, já muito perto da praia. Eu tive sorte.”

Em “Europa! Europa!”, de Miguel Real, é-nos contada a viagem de barco de Muhammad, Mirian e a sua bebé. A criança, fruto da violação de Mirian em Missnana, não é aceite pelo marido, que considera que a deviam ter abandonado na mesquita, pois constituía só mais um fardo. Agora, ali, enfrentando a apinhada embarcação uma forte ondulação, Mirian confessa que ouvira dizer que os passadores lançavam pessoas ao mar, caso a ondulação piorasse. Muhammad tenta convencer Mirian de que a bebé só causará problemas, está doente, cheia de febre e eles não terão dinheiro para as despesas dos médicos. Acaba por sugerir-lhe que a lance ao mar. Mas, Mirian não larga a filha. Até que lhes parece avistar a Europa. Será?

Aconselho a leitura deste livro!

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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