Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Miller, Derek B. (2014). Um Estranho Lugar para Morrer. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Tânia Ganho

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 28/03/2022

Fim da leitura: 31/03/2022

**SINOPSE**

Sheldon, um judeu americano, parece ter chegado ao fim da linha. É viúvo, tem 80 anos, e revela sinais de demência. A filha, preocupada, decide levá-lo para Oslo, onde vive com o marido. Um dia, quando o deixa sozinho no apartamento, Sheldon ouve ruídos na escada. Percebe que é uma vizinha a ser perseguida, a tentar proteger desesperadamente um filho pequeno. A mulher acaba por ser morta selvaticamente. Mas o octogenário consegue, in extremis, esconder a criança dos perseguidores. É o ponto de partida de um romance onde tudo nos surpreende. Aos poucos, juntamos as peças do puzzle. Sheldon é afinal um ex-veterano da Guerra da Coreia, que há décadas vive num secreto inferno, a tentar expiar um crime involuntário. Num último esforço para se redimir, assume como missão salvar o filho da vizinha. Numa terra desconhecida para ambos, começa uma fuga épica, que os levará aos confins da Noruega - e uma perseguição implacável, movida por um gangue kosovar.

Um estranho lugar para morrer, considerado o melhor romance do ano por uma série de publicações, desafia qualquer definição. O ritmo e a tensão absolutamente sufocantes remetem para o thriller moderno, do mais fino recorte escandinavo. Mas o autor, um ativista do desarmamento e dos direitos humanos, usa a dramática epopeia de Sheldon para pôr a nu a violência latente na cultura ocidental.

**OPINIÃO**

Este livro deve ser lido com alguma atenção, uma vez que alterna entre vários momentos da vida do protagonista, o que acaba por ir ao encontro da sua possível demência. Sheldon vive entre o presente, com 80 anos, em Oslo, com a neta e o marido desta e vários momentos dispersos do passado, dos quais destaco a morte do filho, a altura do romance com a mulher, antes do nascimento do filho, a sua história na guerra da Coreia, o momento em que a mulher engravida e o nascimento do filho. Fantasmas do passado dispersos que vão surgindo de forma igualmente dispersa na mente de Sheldon.

Mas é no presente que Sheldon assiste ao homicídio de uma vizinha e decide esconder o filho dela, uma criança pequena, para o proteger. É neste momento que começa a aventura que leva Sheldon a empreender uma fuga muito improvável com a criança, que o catapulta para o passado, para o filho que perdeu, para uma culpa que o persegue. Não quer que aconteça o mesmo a esta criança, quase como uma expiação da sua culpa.

Não classificaria este livro como thriller e muito menos estabeleceria comparações entre o autor e Stieg Larsson ou Jo Nesbo. Diria antes que é um drama familiar, com alguma aventura.

É um livro bem escrito, que se torna leve, malgrado a temática abordada.

Couto, Mia (2009). Jesusalém.  Alfragide: Editorial Caminho.

Nº de páginas: 296

Início da leitura: 23/03/2022

Fim da leitura: 27/03/2022

**SINOPSE**

Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor em plena posse das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa. A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.

                                                                                                                        António-Pedro Vasconcelos

 **OPINIÃO**

É através de uma linguagem poética, muito pessoal, muito sua, que Mia Couto nos conduz a esta ficção encantadora.

Silvestre Vitalício, após a morte da esposa, resolve ir para o mato com os seus dois filhos, Ntunzi e Mwanito. Poderia ser uma procura por si mesmo, mas é mais uma morte para o mundo. A este seu novo mundo, que escolheu para se esconder da vida, dá o nome de Jesusalém, um lugar esquecido, fora do mundo.

“E assim, vagamente, meu pai derivava sobre a extinção do cosmos.”

Conduzidos pela voz de Mwanito, o jovem narrador, entramos na vida destas personagens para tentar perceber o que motiva um pai a sacrificar os filhos, a impedi-los de ter uma vida como as outras crianças, os segredos que esconde e que o tornaram num ser tão duro. Mwanito é uma criança adorável, inocente, inteligente e com muita vontade de aprender e conhecer o outro lado, apesar de não gostar de desobedecer às ordens do pai. Aprende a ler praticamente sozinho, com a ajuda do irmão, sempre às escondidas, sabendo de antemão que, se o pai soubesse, o castigaria. O irmão, Ntunzi, vive contrariado, conheceu o outro lado, pois era mais velho quando foram para Jesusalém. Sabe de coisas que, raramente, conta ao irmão e também sonha sair dali para sempre.

“Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando…”

Mas, por vezes, a vida vê-se virada do avesso. Foi o que aconteceu quando os irmãos encontraram “na casa grande” uma mulher. Mwanito nunca vira uma mulher e sentia muito a falta de uma mãe, Dordalma, de quem não se lembrava, mantendo-se atento a todos os comentários que surgissem sobre ela.

Esta mulher, Marta, teria vindo para África à procura do marido, que viajara para lá, segundo ele, para se encontrar a ele próprio.

Mwanito, sempre que ela sai, aproveita para remexer nos seus pertences, curioso com umas cartas que encontra, a troca de correspondência de Marta com o marido e vai conhecendo a sua vida, os seus segredos (“Ela escrevia lembranças, eu afinava silêncios”). Se ele sentia uma cumplicidade em relação a esta mulher, quase uma mãe ou a melhor referência que tinha para uma mãe, o irmão fica irremediavelmente atraído por ela, o que leva Mwanito a dizer-lhe “Essa moça subiu-lhe para a ponta dos olhos”. Quando o pai sabe da existência desta mulher, decide que o melhor é expulsá-la. Mas mais não conto, pois não quero retirar o prazer de lerem este livro maravilhoso!

Adichie, Chimamanda Ngozi (2006). Meio Sol Amarelo. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Tânia Ganho

Nº de páginas: 544

Início da leitura: 22/03/2022

Fim da leitura: 26/03/2022


**SINOPSE**

Com uma elegância apenas ao alcance dos grandes escritores, Chimamanda Ngozi Adichie entrelaça as vidas de cinco personagens inesquecíveis: Ugwu, um humilde criado de treze anos a quem o mundo se desvendará pela mão do seu senhor, Odenigbo, que, na intimidade da sua casa, planeia uma revolução. Este jovem professor universitário mantém uma relação apaixonada e sensual com a bela e mágica Olanna, cuja irmã gémea, Kainene, é alvo do amor desesperado de Richard, um jovem inglês a braços com o seu papel de homem branco em África.

Todos eles vão ser forçados a tomar decisões definitivas sobre amor e responsabilidade, passado e presente, nação e família, lealdade e traição. Todos eles vão assistir ao desmoronar da realidade tal como a conheciam devido a uma guerra que tudo transformará irremediavelmente.

**OPINIÃO**

Que livro! Adichie é, com efeito, uma contadora de histórias maravilhosa, que nos conduz, através da força das suas palavras, aos espaços onde decorre a ação. É fácil sentir tudo o que nos é contado. É fácil criar empatia por personagens como Ugwu, um criado que vai servir para casa de um professor, Odenigbou; Olanna, esposa de Odenigbou e Kainene, irmã gémea de Olanna, que ficarão na memória, com toda a certeza. 

Ugwu é um jovem maravilhoso, dedicado, sempre a querer agradar ao "senhor”, dedicado também aos estudos, interessado. Mas, acima de tudo, é uma personagem muito humana, tão humana que acaba por também cometer erros dos quais, mais tarde, se arrepende.

Olanna é uma mulher apaixonada, moderna e compreensiva, que acaba por adotar a filha de uma relação do marido com outra mulher (também ela vítima de bruxaria por parte da sogra de Olanna).

Kainene vai crescendo à medida que a ação avança, tornando-se numa pessoa imprescindível na ajuda aos sobreviventes, fazendo tudo para ajudar, não baixando os braços ou desistindo, mesmo com as mortes diárias e as crianças a quem cai o cabelo e cresce a barriga, pela falta de alimentos.

E é num cenário de guerra que nos são contadas histórias de amor, traição, vingança, crenças e tradições. O meio sol amarelo, da bandeira de Biafra, é, ao longo da história, um símbolo muito importante de um futuro que se queria glorioso.

O facto de a autora ter partido de um acontecimento real, a guerra entre a Nigéria e o Biafra, torna a história mais credível e emocionante. Apesar de ficcionais, as personagens foram criadas a partir de pessoas reais, tendo a autora, como nos diz na sua nota final, efetuado várias pesquisas para fundamentar os relatos que vai criando.

É incrível como se ignora ou se tenta ignorar a guerra e o facto de nos poder atingir. E nunca, nunca se está verdadeiramente preparado.

Uma leitura que recomendo sem reservas!

 Smith, Ali (2017). Outono. Vialonga: Edição Elsinore.

Tradução: Manuel Alberto Vieira

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 18/03/2022

Fim da leitura: 21/03/2022

**SINOPSE**

«Ela percebe-lhe um terrível abatimento nos olhos. Ele percebe que ela o percebe. Ele põe-se ainda mais severo. Abre uma gaveta, dela retira uma chapa laminada e coloca-a no balcão. Balcão Fechado. Isto não é ficção, diz o homem. Isto é a estação dos correios.»

Daniel tem a idade de um século. Elisabeth, nascida em 1984, está de olho no futuro. O Reino Unido e a Europa estão despedaçados, divididos por um verão histórico. Ganha-se amor, perde-se amor. A esperança caminha de mãos dadas com o desespero. As estações sucedem-se, como sempre, assim como as perguntas: Qual é o nosso valor? Quem somos? De que matéria somos feitos?

Eis o lugar em que vivemos. Eis o tempo na sua forma mais contemporânea e naquilo que tem de mais cíclico.

Eis uma história sobre o envelhecer e o tempo e o amor e as próprias histórias. Este é o primeiro livro do quarteto.

Da imaginação única de Ali Smith nasce uma tetralogia feita a partir da ideia de transição, abrangente na sua escala temporal e marcada por um caminhar leve através das suas narrativas.

Eis o Outono.

**OPINIÃO**

Este não é um livro para todos. Não é um livro fácil. Não é um livro de leitura rápida, mas é um livro de uma leitura assídua. Não se pode parar a leitura, porque se corre o risco de nos perdermos. Requer uma predisposição para ler nas entrelinhas. Diria mesmo que tem muito de prosa poética, muito de divagações, de vago, de mistério, de mensagens subliminares. A alternância entre o passado e o presente faz-se sem uma ordem certa, o que acontece em alguns romances onde há alternância de tempos entre os capítulos. Aqui, podemos estar no passado e, quando nos apercebemos, já estamos no presente.

A ação começa no presente, com Daniel, num suposto sonho com a morte.

Elisabeth tem 32 anos e vê-se vê a braços com a instabilidade profissional de um contrato sem termo nem horário fixo, a morar no mesmo apartamento que arrendara ainda estudante. Na estação dos correios onde tenta atualizar o passaporte, aguarda horas intermináveis e depara-se com todas as dificuldades e burocracias que isso envolve. Implicam com tudo, até com a dimensão da fotografia. Elisabeth visita Daniel, um homem com mais de cem anos, num Lar Hospital.

Entretanto, ficamos a saber como Elisabeth conheceu Daniel, quando, aos 8 anos, pediu à mãe para visitarem o vizinho a pretexto de fazer uma entrevista para a escola.

A partir daí, surge uma amizade muito especial. Uma das primeiras perguntas que Daniel lhe fez foi sobre o que estava ela a ler. Quando lhe respondeu que nada, ele referiu "devemos estar sempre a ler alguma coisa. (...) Mesmo que não estejamos a ler fisicamente. Caso contrário, como seremos nós capazes de ler o mundo? Imagina o processo como uma constante". E é Daniel que vai despertar em Elisabeth o gosto pelos livros, pela arte, pela vida, pelo poder da mente e do sonho, a capacidade de recriar a vida, de a movimentar como um fantoche.

Apesar de reconhecer que a escritora escreve realmente bem, não foi um livro que me prendeu a uma leitura compulsiva.

Novo, Isabel Rio (2022). Madalena. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 200

Início da leitura: 16/03/2022

Fim da leitura: 17/03/2022

**SINOPSE**

Enquanto se submete a tratamentos para um tumor, uma jovem professora ocupa os longos dias a examinar papéis, retratos e cartas dos bisavós que encontrou num velho armário de livros que outrora lhes pertenceu. É assim que vai desvelando a história dos dois, envolta em mistério, na qual a traição, o ciúme e a tragédia são os ingredientes principais.

Álvaro Amândio, o bisavô culto e ensimesmado, mas sobretudo Madalena Brízida, a bisavó sedutora, enigmática e talvez cruel, vão ganhando contornos diante da jovem mulher, à medida que ela própria se vai descobrindo, nos seus amores do passado, nos seus sofrimentos recalcados, talvez até nas razões para ser como é.

Muito mais do que uma narrativa sobre a doença ou os seus efeitos sobre o indivíduo, Madalena - obra vencedora do Prémio Literário João Gaspar Simões - é um romance notável sobre a família e sobre o que, em cada um de nós, é construído pelos que vieram antes, assinado por uma das grandes vozes da ficção portuguesa contemporânea.

 

**OPINIÃO**

Gosto muito da escrita de Isabel Rio Novo, da elegância e sensibilidade conjugada com a força das palavras, do ritmo que prende, da reflexão que estimula. Do ar que faz conter no peito e da emoção que passa.

Este livro não foi exceção, se bem que seja um tema que mexe muito comigo. A protagonista, uma jovem professora, debate-se com um cancro de mama, em estágio avançado. As dúvidas, os tratamentos, a forma como vê e é vista pelos outros, o novo conceito de tempo, as adaptações a cada estágio da doença, e as muitas questões que já me passaram tantas vezes pela cabeça, foram, em muitos momentos, de cortar a respiração! A par deste processo de tratamentos, vai desvelando, por meio de pertences que encontrou, a história dos seus bisavós. Acabam por se entrelaçar a sua vida até ali, quando se via na foto tirada na praia, onde as sombras ainda não pairavam sobre os seus pensamentos e os seus dias, a memórias de tudo quanto viveu e deixou por viver, a história dos bisavós e o presente. Nunca ninguém prevê o que o futuro nos reserva, nunca ninguém sabe como vai encarar os “murros no estômago” que a vida nos pode dar. E nunca ninguém sabe o que se passa na cabeça de quem vive situações como esta. Certo é que a jovem que ela vê na fotografia é cada vez menos ela, está cada vez mais distante, como fazendo parte de uma outra vida. E é nas cartas, nas fotos dos bisavós que se vai encontrar a si própria, identificando-se com a bisavó Madalena.

Aconselho vivamente a leitura deste livro!

Moriarty, Liane (2019). Nove Perfeitos Desconhecidos. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Elsa T.S. Vieira

Nº de páginas: 496

Início da leitura: 12/03/2022

Fim da leitura: 15/03/2022

**SINOPSE**

Se alguém lhe garantisse uma transformação total em apenas 10 dias, você aceitava?

Nove pessoas aceitam. Os seus motivos são diferentes, mas todas embarcam num retiro de luxo. Esperam massagens, meditação e dieta detox. Estão longe de imaginar o desafio que têm pela frente.

Frances Welty é uma escritora bestseller em plena crise de inspiração (entre outras). Quer recuperar a alegria de viver.

Ben e Jessica ganharam 22 milhões de dólares na lotaria. Já não lutam para esticar o dinheiro até ao fim do mês, mas passaram a lutar um com o outro. Querem salvar a sua relação.

Napoleon, Heather e Zoe sofreram uma tragédia familiar. Querem perdoar-se a si mesmos e reencontrar a paz (possível).

Tony é um ex-jogador de futebol que perdeu aquilo que mais amava.

Carmel é uma mãe (exausta) de quatro filhos que foi trocada por uma mulher mais nova.

Lars é um advogado gay que se debate com um dilema impossível…

Será que estas nove pessoas vão encontrar a solução para os seus problemas?

Ou será melhor fugirem enquanto podem?

É que Masha, a diretora do retiro, tem para os seus clientes um plano que nenhum deles conhece…

**OPINIÃO**

Este é um daqueles livros de leitura fácil. Do que menos gostei foi mesmo do fim, penso que a autora poderia ter pensado num final diferente. Ainda assim, é um livro que entretém, está bem escrito, tem uma excelente premissa, personagens bem construídas, o que desculpa o final “menos feliz”.

Quem não ficaria seduzido em passar umas férias num retiro de luxo, para recuperar energias, perder peso, relaxar num spa, fazer umas massagens e salvar relações?

As personagens são muito bem construídas, desde a escritora de meia idade, abandonada pelo marido, que não consegue lidar com as críticas aos romances que escreve e que acabara de ser enganada por um homem que conhecera na Internet e lhe extorquira muito dinheiro. Um jovem casal, que ganhou a lotaria e pensa encontrar neste retiro uma razão para salvar um casamento em declínio.  Ela, desfigurada por várias cirurgias estéticas. Ele, que não reconhece nesta “boneca insuflada” a mulher por quem se apaixonou. O casal, com a filha, que acredita que este retiro possa ser a forma de expiar os seus fantasmas, a dor da perda de um filho, que se suicidou e que todos consideram ter uma quota parte de culpa. O ex-jogador de futebol que caiu numa vida rotineira, em que se limitou a parar e engordar. Uma mulher cujo marido trocou por uma mulher mais nova e está convencida de que, se perder peso, talvez ele se arrependa. Um advogado gay que adora retiros deste género. São os nove perfeitos desconhecidos.

Não conto o que se passou neste retiro de luxo, apenas menciono que nada é o que parece.

Com sentido de humor, a autora conduz-nos a uma estadia à mente de cada uma das personagens tão reais, tão características do que é, hoje em dia, a nossa sociedade. Alguns dos pensamentos, ações, medos e angústias são tão comuns, que nos levam a pensar que poderia ser qualquer um de nós. E, apesar de nem tudo ser o que parece, penso que em todos se operam mudanças.

Depois, penso em como o ser humano é tão suscetível, tão problemático, pois cria problemas onde não existem. Os problemas estão na cabeça de cada um.

Nestes tempos conturbados, este é um bom livro para entreter, soltar umas gargalhadas, rirmos desta nossa condição humana que nos torna, por força das circunstâncias da vida e da mente de cada um, tão comezinhos, tão fúteis! Acaba por dar para rir e refletir!

Joshi, Alka (2022). A Tatuadora de Jaipur. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Raquel Dutra Lopes

Nº de páginas: 384

Início da leitura: 07/03/2022

Fim da leitura: 12/03/2022

**SINOPSE**

Aos dezassete anos, Lakshmi foge de um casamento arranjado e ruma a Jaipur, a vibrante metrópole cor-de-rosa. É lá que se reinventa como artista, conseguindo tornar-se tatuadora de hena das mulheres mais ricas da cidade, que a buscam atraídas pelo talento, mas também pelos seus poderes de curandeira e pela sua discrição como confidente. Mas embora muitos segredos lhe sejam revelados, os dela têm de permanecer guardados a sete chaves.

À medida que a popularidade de Lakshmi aumenta, também os seus esforços para proteger a reputação e a carreira se intensificam. A ameaça, porém, não tarda a bater-lhe à porta: o marido encontrou-a, tem um plano, e não está sozinho, vem acompanhado de uma menina de treze anos, Radha, a irmã que a Lakshmi não sabia ter.

Radha é curiosa e rebelde, uma combinação perigosa que preocupa Lakshmi. Agora que as vidas de ambas estão intrinsecamente ligadas, será ela capaz de manter a liberdade que conquistou a pulso e, ainda assim, proteger a irmã?

Exótico e envolvente, A Tatuadora de Jaipur é um retrato fulgurante de um país e de uma mulher. Há algo de mítico (e místico) na sabedoria ancestral de Lakshmi e na sua ânsia por liberdade numa sociedade que oscila ainda entre as velhas tradições e a modernidade, um mundo que é simultaneamente sumptuoso e fascinante, austero e cruel.

Esta é uma história de amor-próprio e perseverança, de vingança… e perdão.

**OPINIÃO**

A escritora inspirou-se na vida da sua mãe para criar a personagem Lakhsmi, a artista de hena, o que a torna mais credível. Gostei do contacto com estas tradições indianas, com mezinhas que embelezavam, serviam de contracetivo, rituais para engravidar, para que a criança viesse saudável, para curar infeções, entre muitas outras finalidades que substituíam e até surpreendiam a medicina convencional.

Gostei da premissa, da protagonista, que é, num meio tão convencional e arreigado de tradições, uma jovem independente, que abandona o marido que a maltrata para ir em busca de uma vida melhor. É uma personagem que se entrega ao que faz, com paixão, que trabalha para conquistar a sua independência, construir a sua casa, o que não era uma atitude comum e que, inclusive, chega a fazer com que pusessem em causa a sua reputação, uma vez que não sabiam como teria ela conseguido o dinheiro para construir uma casa. O contacto com as pessoas certas, o bom trabalho que executava, estariam na origem dessa conquista. Muitas das moças que tentavam, desta forma, a sua sorte, não tinham o fim de Lakshmi, pois acabavam, para sobreviver, por cair na prostituição. Este facto endurece-a e, quando se vê a braços com a educação da irmã, revela-se, muitas vezes intransigente e dura. Era a sua forma de cuidar da irmã, porque se preocupava com ela.

O glossário, que surge no fim do livro, permite-nos ir vendo e conhecendo um pouco mais das tradições indianas. Por fim, também considerei extremamente interessante, termos acesso à receita da hena e outras receitas de alimentos que vão sendo mencionados ao longo do livro.

Gostei, de um modo geral, deste livro. Tem uma escrita simples e leve, que sabe bem ler entre leituras mais duras. Recomendo a quem gosta de viajar pelas tradições do mundo. E que bela viagem!

Alcoot, Louisa May. Mulherzinhas. Lisboa: Guerra e Paz. 2022.


Tradução: Rita Carvalho e Guerra.

Nº de páginas: 392

Início da leitura: 05/03

Fim da leitura: 11/03

**SINOPSE**

As irmãs Meg, Jo, Beth e Amy conhecem algumas dificuldades depois da partida do seu pai para a guerra e dos problemas económicos que a família enfrenta. Mas o espírito lutador e de união que reinam naquele lar ajudam-nas a seguir em frente.

Quer em casa quer nas relações com os amigos e vizinhos, elas conseguem surpreender e continuar e ser fiéis aos seus sonhos, vivendo cada dia com esperança e boa-disposição.

Uma história em que o amor e a coragem se revelam mais fortes do que todas as dificuldades que estas quatro raparigas, juntamente com a sua mãe, têm de enfrentar.

**OPINIÃO**

Regressar, após muitos anos, a este clássico da literatura (publicado, pela primeira vez, em 1868), foi uma verdadeira delícia. Adoro as personagens. Encanta-me a história, a forma despojada com que está escrita.

Este livro é um regresso à infância, aos sonhos, aos suspiros, ao que eram as preocupações quando não existiam ainda grandes preocupações.

Para estas irmãs, a pobreza e o facto de terem de trabalhar era, quanto a mim, uma benesse, pois tinham vidas preenchidas, contrariamente a muitas jovens da época, que nem sequer tinham de se preocupar com o que vestir no dia seguinte, de um vazio e futilidade típicos de quem não sabia o que era verdadeiramente a vida.

Estas Mulherzinhas são quatro irmãs, cada uma com uma personalidade que a torna única. Quando estão a entrar na adolescência, que todos sabemos não ser um momento fácil, veem as suas vidas viradas do avesso com a partida do pai para a guerra. Assim, para subsistirem, veem-se obrigadas a largar os estudos e a trabalhar. Cada uma reage a esta mudança de forma diferente, mas todas, cada uma à sua maneira, se vê obrigada a amadurecer mais cedo do que era previsto.

Sensibilizou-me a união entre elas, malgrado os desentendimentos comuns a todos os irmãos. Agradou-me a forma como usufruíam dos seus tempos livres, ou até de como trabalhavam com alegria, sem deixarem de lado os seus sonhos.

Por mais esgotante que fosse o trabalho, nada tinha a ver com o que agora nos consome todos os minutos. Também, as formas de diversão eram diferentes. Eu, que ainda passei, na infância, por esse contacto com a natureza, a paz da sombra de uma macieira, a leitura ao ar livre, não pude deixar de ler este livro com um enorme saudosismo, de sorrir, de sentir o vento a entrar-me pelas frestas das recordações e a ganhar ímpeto nas palavras do livro.

De todas as irmãs, a que mais me cativa é, sem dúvida, a Jo, pela irreverência, pelo ar arrapazado e até pelos distúrbios que causa. Agrada-me a espontaneidade, a modéstia, o gosto pelos livros e pela escrita, a maneira caricata de ser e de encarar os acontecimentos e as pessoas.

Este livro é uma lufada de ar fresco que aconselho, sobretudo quando a vida se está a tornar muito cinzenta.

Claro que já não concordamos com muitas das ideias que existiam, mas este livro tem de ser lido à luz da época em que foi escrito. E penso até, que para a época, era bastante “à frente”, sobretudo a Jo!

Adichie, Chimamanda Ngozi (2013). Americanah. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Ana Saldanha

Nº de páginas:720

Início da leitura: 01/03/2022

Fim da leitura: 05/03/2022

**SINOPSE**

Ainda adolescentes, Ifemelu e Obinze apaixonam-se. A Nigéria vive dias sombrios sob o jugo de uma ditadura militar e quem pode abandonar o país fá-lo rapidamente.

Ifemelu, bela e ousada, vai estudar para os Estados Unidos. Para trás, deixa o país, a família e Obinze, a quem chama Teto, um nome que testemunha uma intimidade absoluta e irrepetível.

Obinze, introvertido e meigo, planeava juntar-se-lhe, mas a América do pós-11 de setembro fecha-lhe as portas. Sem nada a perder, ele arrisca uma vida como imigrante ilegal em Londres.

Anos mais tarde, na recém-formada democracia nigeriana, Obinze é um homem rico e poderoso. Nos Estados Unidos, Ifemelu também vingou: é autora de um blogue de culto. Mas há algo que nem a América nem o tempo conseguem apagar. E quando decide regressar à Nigéria, Ifemelu terá de reinventar uma linguagem comum com Obinze e encontrar o seu lugar num país muito diferente do que guardou na memória.

Nome maior da literatura contemporânea, Chimamanda Ngozi Adichie disseca conceitos fundamentais tais como identidade, nacionalidade, raça, diferença, solidão e amor. Americanah parte de uma história de amor para construir um romance de ideias tão universal quanto implacável. Uma incontestada obra-prima.

**OPINIÃO**

Gostei muito deste livro, vencedor do National Book Critics Circle Award. Magistralmente conduzidos por Adichie, entramos de rompante num romance que, desde logo, nos cativa. A protagonista Ifemelu vive um primeiro amor com Obinze, ambos nigerianos. Mas este idílico amor vê-se interrompido, a partir do momento em que Ifemelu emigra para os Estados Unidos à procura de alternativas às Universidades locais e Obinze parte para o Reino Unido, enfrentando uma série de problemas para se legalizar naquele país. A partir daqui, percebemos que Americanah é muito mais do que um livro sobre uma relação amorosa.

Ao mesmo tempo em que Ifemelu vai revelando sucesso nos estudos, novas adversidades surgem, uma vez que vê ali postos em causa os seus sonhos e agravadas as dificuldades de ser mulher e de ser negra. Dominada pela frustração, decide, então, escrever um blog, cujas temáticas são preponderantemente a imigração ilegal, questões raciais, desigualdades de género, imperialismo, penteados, entre outros aspetos que Ifemelu observa no seu dia-a-dia.

No meu entender, o que faz de Ifemelu uma personagem cativante é o facto de, indo para os EUA, não se ter deixado americanizar. Também apreciei compreender os diferentes conceitos de racismo, visto pelos americanos e pelos nigerianos. Racismo, que é uma palavra quase proibida na América, e que, no entanto, não deixa de estar sempre presente, por mais que o tempo passe e que, para os nigerianos é uma palavra que existe e continuará a existir, sem que, na Nigéria, sintam o peso dessa palavra.

Quando, 13 anos depois, já com uma vida razoavelmente feita, regressa à Nigéria – Lagos, à procura se si mesma, da sua real identidade. Conseguirá Ifemelu reencontrar-se? Recuperará uma história de amor interrompida há 13 anos?

Nem tudo é cor-de-rosa, pois estas são personagens bastante verosímeis, com virtudes, sim, mas também tecidas de defeitos, que toda a gente os tem, não é verdade? E é mesmo esse facto que dá ainda mais credibilidade à história. Recomendo vivamente.

Deixo uma passagem:

“Compreender a América para o Negro Não Americano:

Tribalismo Americano

Na América, o tribalismo está vivo e de saúde. Há quatro tipos – de classe, de ideologia, de região e de raça. Em primeiro lugar, o de classe. É bastante fácil. Gente rica e gente pobre.

Em segundo lugar, o de ideologia. Liberais e conservadores. Não discordam meramente em questões políticas, cada um dos lados acredita que o outro é malévolo. O casamento entre tribos é desencorajado e nas raras ocasiões em que acontece é considerado digno de nota. Em terceiro lugar, a região. O Norte e o Sul. Os dois lados combateram numa guerra civil e persistem nódoas difíceis dessa guerra. O Norte despreza o Sul, enquanto o Sul sente ressentimento pelo Norte. Finalmente, a raça. Há uma escala de hierarquia racial na América. A raça branca está sempre no topo, especificamente os Brancos Anglo-Saxões Protestantes, também conhecidos pela sigla WASP, os Negros Americanos estão sempre no fundo da escala e o que fica entre os dois extremos depende do tempo e do lugar. (Ou, como dizem aqueles versos maravilhosos: If you’re white, you’re all right; if you’re brown, stick around; if you’re black, get back!) Os Americanos partem do princípio de que toda a gente compreende o seu tribalismo. Mas demora algum tempo a apreender tudo. Por isso, na faculdade tivemos a visita de um palestrante, e uma colega da turma segredou a outra: «Oh, meu Deus, ele parece tão judeu!» com um estremecimento, um estremecimento de facto. Como se ser judeu fosse uma coisa má. Não percebi. Tanto quanto eu via, o homem era branco, não muito diferente da própria colega da turma. Judeu, para mim, era algo vago, algo bíblico. Mas aprendi rapidamente. Sabem, na escala de raças da América, judeu é branco, mas também alguns degraus abaixo de branco. Um pouco confuso, porque eu conhecia uma rapariga com cabelo da cor da palha e sardas que dizia que era judia. Como é que os Americanos conseguem distinguir quem é judeu? Como é que a minha colega de turma soube que aquele tipo era judeu? Li algures que as universidades americanas costumavam perguntar aos candidatos o apelido da mãe, para se certificarem de que eles não eram judeus, porque não admitiam estudantes judeus. Então, talvez seja assim que se sabe? Com base no nome das pessoas? Quanto mais tempo se está cá, tanto mais se começa a compreender.

Se és branco, está tudo bem; se és castanho, fica por cá; se és negro, volta para a tua terra!”

 

Cruz, Afonso (2021). Sinopse de Amor e Guerra. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 192

Início da leitura: 24/02/2022

Fim da leitura: 26/02/2022

**SINOPSE**

Theobald Thomas e Bluma Janek estão fadados a ficar juntos desde que vêm ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito.

Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro o mais famoso da História e a promessa do primeiro beijo fica adiada.

O novo romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no fado individual de dois amantes o reflexo de algo universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

**OPINIÃO**

É sempre um prazer ler Afonso Cruz. A forma poética como nos conduz pela história, por mais dura que seja, é sempre um deleite.

Berlim, após a Segunda Guerra Mundial, vê-se dividida pelo muro que divide a parte ocidental da oriental. As personagens cativam-nos desde o início. O sonho de Theobald é casar com Bluma, uma jovem leitora. Para a conquistar, decide ler os livros por ela lidos e os seus encontros são todos em torno dessas leituras. Muitas vezes, quando Bluma diz em voz alta passagens de livros, Theobald surpreende-a, dizendo o final com ela.

A construção do muro de Berlim veio trocar as voltas ao destino e separar Theobald e Bluma. Poderá a guerra afastar os que se amam? Até que ponto somos capazes de transpor os muros, as barreiras com que a vida nos vai confrontando?

Como o título indica, é uma “sinopse”, não tendo sido desenvolvidos alguns acontecimentos e pormenores como eu gostaria. Não deixa de ser um bom livro, apesar de me ter sabido a pouco.

Bértholo, Joana (2018). Ecologia. Alfragide: Editorial Caminho.

 

Nº de páginas:504

Início da leitura: 17/02/2022

Fim da leitura: 24/02/2022

 

**SINOPSE**

Numa sociedade que se fundiu com o mercado - tudo se compra, tudo se vende - começamos a pagar pelas palavras.

A estranheza inicial dá lugar ao entusiasmo.

Afinal, como é que falar podia permanecer gratuito? Há seis mil idiomas no mundo.

Seis mil formas diferentes de dizer ecologia, e tão pouca ecologia.

Seis mil formas diferentes de dizer paz, e tão pouca

paz. Seis mil formas diferentes de dizer juntos, e cada um por si.

 

**OPINIÃO**

Começo por alertar para o facto de este não ser um romance muito vulgar, não só pela temática e forma como é abordada, mas pela própria estrutura e pela escrita da autora. Depois, quem quiser fruir desta leitura, não o pode fazer de forma rápida, pois, necessariamente, sentimos necessidade de nos determos em algumas passagens para refletirmos ou para, simplesmente, complementar a informação que nos é dada com o que se esconde por detrás dos códigos QR, que nos vão surgindo ao longo do texto, ou mesmo em algumas imagens.

No meu entender, há toda uma lógica na forma como está escrito, nas longas listas de palavras, nos jogos de palavras, porque tudo contribui para realçar a mensagem que se pretende transmitir.

Lucía trabalha para uma empresária de sucesso, há muito que existe entre ela e o marido um grande distanciamento e nem sempre tem paciência para a filha questionadora, que coleciona palavras num caderninho e que, quando não percebe, questiona, ainda que algumas questões nos arranquem sorrisos ou até gargalhadas, pelo facto de nunca nos ter passado tal ideia pela cabeça. Candela é uma criança deliciosa, que satura os adultos, mas a quem eu acho muita piada. Dou aqui alguns exemplos. Quando a mãe fala nos “dias que correm”, Candela questiona “Por que é que correm? Qual é a pressa? Correm para onde?” ou quando a mãe diz que "o tempo está embrulhado", questiona "quem, como se "embrulha"?, é um presente, e é uma oferta para quem?".

Trabalha para Darla Walsh, uma diretora-executiva de uma multinacional sediada em Dublin. Carolina é a Mulher – Eco de Darla, tendo por única função repetir o que Darla diz.

Num mundo onde tudo se paga, tudo se taxa, determina-se que as palavras ditas terão de se começar a pagar. E é Darla que subsidia um centro de estudo da linguagem, um “laboratório de Línguas”, numa perpetiva unicamente economicista.

A narradora vai sendo bastante irónica, quando critica o facto de o ser humano tudo aceitar, arranjar formas de achar normal o impensável (ex: “Uma mulher paga a outra mulher para que lhe limpe a casa enquanto ela vai a um ginásio correr numa plataforma estática.” (…) “uma jovem paga a uma mulher mais velha para que lhe coloque pestanas mais longas sobre as suas pestanas originais. Comentam:

- Ninguém diria que são falsas!”

“Um jovem crente paga à sua Igreja para que o seu Deus zele por ele”. E muitos, muitos exemplos desta sociedade em que vivemos. De tal forma se paga por tudo e se encontram explicações para os benefícios que esse pagamento nos trouxe, que o resultado é uma evolução tecnológica desenfreada.

Este romance distópico, é um manifesto de intervenção, um grito de revolta, uma mão na consciência.

A privatização da linguagem vai decorrer em três grandes vagas e, aos poucos, à medida que as vagas avançam, o ser humano está completamente controlado pelo progresso tecnológico, que permite vigiá-lo constantemente, e fazê-lo pagar avultadas somas em multas, que levam a uma necessária contenção, um fechar de bocas, como se, progressivamente as pessoas se fossem esvaziando do que ainda lhes restava, como que automatizadas. Esta é uma situação que angustia, nos deixa de coração apertado. O que nos vale é Candela, a criança que continua a colecionar palavras, a querer compreendê-las, aprender novas palavras, perceber por que podem ter mais de um significado. Onde nos poderá conduzir a tragédia da incomunicabilidade?

Se a autora tivesse reduzido determinadas listas de palavras, não se teria perdido o conteúdo e a mensagem da obra. Porém, é um grande livro, um bom livro, de que aconselho a leitura. Para quem tem paciência em termos de leitura!

 

Chiziane, Paulina (2003). Ventos do Apocalipse. Lisboa: Editorial Caminho.


Nº de páginas:296

Início da leitura:14/02/2022

Fim da leitura: 16/02/2022

**SINOPSE**

Guerra. Destruição. Miséria. Sofrimento. Humilhação. Ódio. Superstição. Morte. 
Este é o cenário dantesco, boscheano, que encontramos nas páginas de Ventos do Apocalipse. As palavras fortes, cruas, incisivas, dilacerantes e delirantes da autora levam-nos a questionar-nos quanto de ficção existirá no realismo das descrições deste palco apocalíptico em que a guerra mais aberrante será talvez a de dois povos, os mananga e os macuácua, colocados entre dois fogos e não sabendo quem os defende e quem os ataca.

 Paulina Chiziane é uma contadora nata de estórias. Consegue levar-nos ao âmago do mais baixo dos mais baixos degraus de degradação do ser humano. Com ela percorremos as vinte e uma noites de pesadelo e tormentos que foi o êxodo dos sobreviventes de uma aldeia. Através dela aprendemos a respeitar Sixpence, tornado o herói simbólico, emblemático, e líder venerado desses fugitivos.

**OPINIÃO**

Chiziane, vencedora do Prémio Camões 2021, é uma excelente contadora de “estórias”. Nesta obra, a autora recria um cenário ficcional do resultado que as longas e sucessivas guerras de Moçambique terão tido nos povos Mananga e Macuácua, vitimados pela violência, a fome e a morte. E é de forma dura que retrata a seca, a fome, a guerra, o fogo, o desespero, a loucura, a morte, a perda de valores – o apocalipse. Conta-nos sobre o momento em que, tendo a natureza deixado de ser feliz, também os homens se tornaram infelizes: “A terra abre violentas fendas ávidas de água. Será necessário desabar o céu inteiro para dar de beber à terra e aos homens com ela.” (pág. 24). Mesmo perante a “decadência do mundo, o desnudar da terra” (pág. 55), ou quando “a morte das árvores vaticina a morte dos homens” (pág. 66) e “o silêncio de sepultura” toma conta dos caminhos de areia enegrecidos, dos “campos calcinados” (pág. 95), estes homens carregam dentro de si a esperança, demonstrada através dos cânticos que erguem aos céus, onde estão os seus queridos defuntos, porque “dentro de cada homem há soldados nobres que combatem” a dor (pág. 117). Esta força, não a vão buscar aos livros nem às bibliotecas, que não têm, vem de uma herança dos seus antepassados, pois “os seus segredos residem na massa cinzenta dos antigos, cada cabeça é um capítulo, um livro, uma enciclopédia, uma biblioteca” (pág.120). Mas conseguirá o povo, perante a barbárie de todas as catástrofes, manter-se fiel às suas crenças, tradições e defuntos, mesmo perante a morte iminente? Que mudanças lhes reservarão os ventos?

Adorei este livro, a forma como Chiziane escreve. Consegue falar de acontecimentos terríveis de forma direta e crua, mas, ao mesmo tempo, tão poética, tão comovente! E sempre em contante diálogo com o leitor, numa linguagem repleta de marcas de oralidade, que nos faz sentir ali, a observar todos os acontecimentos que nos são narrados. Absolutamente imperdível!

Dueñas, Maria (2021). Sira. Porto: Porto Editora.

Tradução: Carla Ribeiro

Nº de páginas: 608

Início da leitura: 07/02/2022

Fim da leitura: 13/02/2022

**SINOPSE**

A Segunda Grande Guerra está a chegar ao fim, e o mundo avança para uma reconstrução tortuosa. Depois de cumprir as suas obrigações como colaboradora dos serviços secretos britânicos, Sira encara o futuro ambicionando alguma serenidade. Mas essa paz tarda em chegar. O destino reserva-lhe um infortúnio trágico que a obrigará a reinventar-se e a, mais uma vez, tomar as rédeas da sua vida sozinha e lutar com todas as forças para se adaptar ao futuro.

Entre factos históricos que marcarão uma época, Jerusalém, Londres, Madrid e Tânger serão os cenários para as novas aventuras de Sira, onde enfrentará desgostos e novos riscos, reencontros inesperados e a experiência da maternidade.

Sira Bonnard – antes de Arish Agoriuq, antes de Sira Quiroga – não é a inocente costureira que nos deslumbrou com figurinos e mensagens clandestinas, mas o seu encanto permanece intacto.

Sira está de volta, carismática e inesquecível.

O regresso da protagonista de O tempo entre costuras.

**OPINIÃO**

Como tinha lido e gostado imenso de O Tempo Entre Costuras, quando surgiu este livro fiquei logo com vontade de o ler, porque Sira é, sem dúvida, uma personagem carismática e interessante. Realmente, Dueñas não desilude. Escreve muito bem. De tal forma que não damos pela passagem das 608 páginas. O ritmo fluído, a ação constante e emocionante, a temática abordada do pós Segunda Guerra, prendem-nos à história do início ao fim.

Sira é uma inspiração, uma mulher de garra que, mesmo na adversidade, não esmorece, adaptando-se a cada novo desafio que a vida lhe vai reservando. Ex modista, desde O Tempo entre Costuras que se vê envolvida como espia ao serviço do governo britânico. Agora, tenciona viver calmamente a vida com o filho, mas é novamente arrastada para o mundo da espionagem, quando lhe propõem acompanhar Eva Perón a Espanha.

Para além de ser envolvente e muito bem escrito, está historicamente muito bem contextualizado. A autora presenteia-nos, no fim do livro, na “Nota da autora”, com vários títulos de livros, cerca de 30, que leu para mais fidedignamente esboçar um fiel panorama do ambiente e acontecimentos narrados. Excelentes propostas de que anotei algumas para a minha lista infindável de livros a ler.

Aconselho vivamente a leitura. 

Ishiguro, Kazuo (2019). As Pálidas Colinas de Nagasáqui. Lisboa: Gradiva.

Tradução: Gabriela Gonçalves

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 04/02/2022

Fim da leitura: 05/02/2022

**SINOPSE**

Depois do suicídio da filha, Etsuko, viúva japonesa que mora em Inglaterra, fica a sós com as suas recordações.

Etsuko é assim transportada a um verão quente de Nagasáqui, num tempo em que procurava reconstruir a vida, depois da guerra. E quando as reminiscências a levam à sua estranha amizade com Sachiko, uma mulher rica que ficou reduzida a uma vida errante, o passado e o presente fundem-se numa narrativa intensamente envolvente e de uma perturbante nitidez.

**OPINIÃO**

Este foi o romance de estreia de Ishiguro, publicado originalmente em 1982. O facto de o autor ter nascido em Nagasáqui, confere às descrições um grande realismo.

Neste romance, vão-se intercalando o presente, em que Etsuko vive em Inglaterra e recebe a visita da filha mais nova Niki, após o suicídio da filha mais velha, Keiko. A visita da filha, desencadeia recordações por parte de Etsuko. Surge assim a memória de um passado, logo após a bomba que deixou Nagasáqui em “ruínas carbonizadas” e em reconstrução. É incrível a descrição que o autor faz da terra devastada, das valas que se abriram, da água estagnada, do lodo, da noção de que muitas doenças adviriam desta devastação.

Etsuko recorda a sua improvável amizade com Sachiko, uma estranha mulher recém-chegada a Nagasáqui, num momento em que ela está grávida de Keiko. Estranha também era a forma como Sachiko tratava e educava a filha, Mariko, que não só não frequentava a escola, como era deixada sozinha por várias vezes, correndo sérios riscos nas margens inseguras do rio.

Etsuko relembra ainda a altura em que o sogro os foi visitar, a forma como via o trabalho do marido, que não tinha tempo para se dedicar à família, a forma preconceituosa com que ele encarava o casamento, considerando que a mulher deveria fazer tudo o que o marido mandava e que considerava que uma mulher que não votasse no partido do marido, era o princípio de uma relação doente e que estas modernices vinham dos EUA.

Este contraste de mentalidades é também muito evidente entre Etsuko e Sachiko, cujo sonho era emigrar para a América. Aliás, são vários os momentos da obra em que se sente a fusão entre as duas culturas, a noção de perda de uma identidade japonesa.

Apesar de ter sentido que gostava de saber um pouco mais sobre o que sucedeu a Sachiko e à própria filha de Etsuko, Keiko, não posso deixar de salientar esta capacidade de Ishiguro de nos transportar para as histórias, os locais, as personagens, através de diálogos intimistas que convocam a nossa presença e atenção constantes. Não adorei, mas gostei!

Cronin , Marianne (2021). Os Cem Anos de Lenni e Margot. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria do Carmo Figueira

Nº de páginas 336

Início da leitura: 29/01/2022

Fim da leitura: 04/02

**SINOPSE**

Lenni tem 17 anos e pouco tempo de vida.

Mas o encontro com Margot, um espírito rebelde com 83, está prestes a mudar tudo nos seus dias.

A vida é curta. Ninguém sabe isso melhor do que Lenni, de 17 anos, internada numa enfermaria para doentes terminais. Em breve, apren­derá que não é apenas o que se faz com a vida que importa - mas também como e com quem a partilhamos.
Contrariando as ordens do médico, Lenni começa a frequentar aulas de arte. É lá que conhece Margot, uma doente de outra enfermaria, com 83 anos e um espírito rebelde. O laço que se cria entre elas é instantâneo, ao perceberem que, somando as suas idades, viveram cem anos incríveis.

Para celebrar o seu século em comum, decidem pintar as histórias das suas vidas: de como é envelhecer e ser jovem, dar alegria, receber bon­dade, perder o amor ou encontrar a pessoa da nossa vida.

À medida que esta maravilhosa amizade se aprofunda, os dias de Lenni e Margot ganham cada vez mais luz, esperança e… vida.

Extraordinariamente espirituoso e cheio de ternura, Os Cem Anos de Lenni e Margot é um romance que nos relembra de que é feito, ver­dadeiramente, o admirável dom da vida. Uma história sobre a nossa capacidade infinita de criar amizade e amor, mesmo nos momentos mais difíceis - em que mais precisamos deles.

**OPINIÃO**

Gostei muito deste livro. Não é um tema que me seja fácil de ler. Falar de doenças terminais é uma temática que mexe comigo, que me deixa desconfortável. Porém, as personagens que se destacam neste livro, tornam esta realidade menos penosa, talvez pela maneira de serem e encararem a doença.

Lenni surpreende-nos logo aquando da sua visita à capela. É de forma dura, mas tão compreensível que ela pergunta ao reverendo: “Porque é que eu estou a morrer?". Lenni revela-se, nas suas conversas com o padre, uma jovem muito perspicaz, curiosa, preocupada e amiga.

O próprio facto de Lenni proibir o pai de voltar ao hospital, é revelador da sua maturidade, pois entende que os que estão a sofrer com ela, estão a morrer com ela. Sentiu, então, necessidade de os libertar das garras da morte, para amenizar o sentimento da perda e não verem a evolução doença que leva o ser a um estado vegetativo que só poderia deixar ainda mais tristes os que os amam e acompanham.

Nada é por acaso, como o encontro entre a jovem Lenni, de 17 anos e a senhora de 83 anos, Margot, na sala das artes. Aos poucos edifica-se entre elas uma amizade improvável mas muito forte. A partir das pinturas, e depois através de registos escritos que Lenni prefere às pinturas, estas duas pessoas condenadas à morte, contam histórias do seu passado, das suas vidas. Ao perceberem que juntando as idades das duas, a conta perfaz cem, decidem que é a idade delas é essa, a soma das suas idades. Por isso, já viveram muito, já viveram 100 anos! 

«Mas, à minha frente, estavam dois números importantes, dois números que seriam importantes para o resto dos meus dias contados.

— As nossas idades juntas — disse-lhe em voz baixa — são cem anos.»

Ambas não tiveram vidas fáceis e interessam-se pela vida uma da outra. Achei extremamente interessante a capacidade de Lenni de se transpor para o passado de Margot e de se imaginar lá, com ela. Afinal, é o sonho que nos mantém vivos. Não necessariamente para sempre, mas enquanto vivemos, ainda que de forma apagada, sem brilho, confinados ao espaço de um hospital. Também é importante o sonho para percebermos que a luz está lá em cima, nas estrelas e, saber que as estrelas que brilham são as que já morreram, também ameniza a própria aceitação da morte, como algo natural, como a continuação da vida terrena numa outra esfera, numa outra dimensão, que poderá até ter mais luz, menos sofrimento, mais harmonia. 

«Não me lembrava da última vez que tinha visto as estrelas. (...) Faziam o mundo parecer outra vez grande. Há tanto tempo que o meu mundo estava reduzido ao hospital.»

A narrativa é fluída, a linguagem simples. E é tão fácil gostar e admirar a Lenni. Aconselho vivamente a leitura.

Gunnis, Emily (2019). A Rapariga da Carta. Amadora: TopSeller.

Tradução: Ana Reis

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 30/01/2022

Fim da leitura: 03/02/2022

**SINOPSE**

No inverno de 1956, a jovem Ivy Jenkins engravida e é enviada em desgraça para St. Margaret, uma sombria casa de acolhimento para mães solteiras, no sul de Inglaterra. A bebé é adotada contra a sua vontade, e Ivy teme nunca sair daquele lugar aterrador. Sessenta anos mais tarde, Samantha Harper, uma jornalista desesperada por um furo, depara-se com uma carta do passado, e o seu conteúdo chocante comove-a. A carta é de Ivy, uma jovem mãe que implora para ser resgatada de St. Margaret… antes que seja tarde de mais. Samantha é arrastada para esta história trágica e descobre uma série de mortes repentinas e inexplicáveis em torno daquela rapariga e da sua filha.

Com o edifício antigo de St. Margaret prestes a ser demolido, Samantha tem apenas algumas horas para desvendar os terríveis segredos que aquele lugar esconde, antes que a verdade, perturbadoramente perto de si, se perca para sempre…

** OPINIÃO**

Que livro! Este é daqueles livros em que é impossível não nos comovermos. É uma história muito intensa. Apesar de St. Margaret ser um espaço ficcional, tal como toda a história, a autora parte de uma investigação que fez sobre muitas casas de acolhimento que existiram, em especial na Irlanda, tendo existido casas semelhantes no Reino Unido. Para estas casas eram enviadas as mães solteiras, para que as famílias não tivessem de passar pela vergonha. Os bebés, após o nascimento, eram tirados às mães contra a sua vontade. As recém-mães eram tratadas como pecadoras, maltratadas pelas freiras que geriam estas casas. A maior parte das crianças era adotada, mas havia muitas que ficavam escondidas, chegando a ser submetidas a ensaios clínicos por parte de farmacêuticos. Muitas destas mães não conseguiram ter mais filhos, acabando por sofrer de doenças mentais. Toda a comunidade compactuava e deixava que acontecessem verdadeiras atrocidades.

Um livro que não se esquece facilmente e que angustia, porque nos apresenta o ser humano no que de pior este pode ter e ser.

A história prende logo desde o início e torna-se quase impossível parar a leitura. Intercalando diversos momentos da ação passados com presentes, torna-se viciante e impossível de largar até desvendar todo o mistério que nos vai sendo apresentado. Uma história que choca, que dilacera e uma escrita fluída, direta e envolvente, fez-me gostar muito deste livro. Aconselho a leitura, mas alerto os mais suscetíveis para a dureza de todos os pormenores.

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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