Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas

Rodrígues, Eider e Ribas, Julen (2022). Santa Família. Prior Velho: A Seita.
Tradução a partir do castelhano: Pedro Cleto
N.º de páginas: 48
Início e fim da leitura: 03/10/2026

**SINOPSE WOOK**
"Os nossos amigos, a nossa forma de vida, a nossa roupa, a música... tudo isso são coisas que escolhemos. Mas a família... a família não, essa é-nos imposta à nascença. Só que Nora decidiu romper com essa regra. E há algum tempo que guarda um segredo, um segredo tremendo, e chegou a altura de o revelar, o que vai fazer com que a mais sagrada instituição da sua vida vá ser abalada. A sua família. A sua santa família, que está quase a ir pelos ares! Mas se esta história nos ensina alguma coisa, é que às vezes são necessárias pequenas revoluções para que tudo volte a ser... como dantes!

Um álbum de BD representativo da nova geração de autores espanhóis bascos, num tom entre a crítica social e de costumes da nossa sociedade moderna, e um realismo fantástico desarmante."

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Em Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas constroem uma novela gráfica que parte de uma realidade aparentemente familiar para explorar as relações, os silêncios e as feridas que podem existir dentro de uma família. O título, desde logo, encerra uma certa ironia: por detrás da ideia de família, tantas vezes associada à união, à proteção e ao afeto, podem esconder-se conflitos, ressentimentos, segredos e sentimentos difíceis de verbalizar.
A história coloca-nos perante personagens cujas relações são marcadas por aquilo que dizem, mas sobretudo por aquilo que não dizem. Há uma tensão que se vai instalando progressivamente e que resulta menos de grandes acontecimentos do que da acumulação de pequenos gestos, memórias e comportamentos. É nesse espaço entre o que é mostrado e o que permanece oculto que a narrativa encontra grande parte da sua força.
Eider Rodríguez demonstra uma particular atenção às relações humanas e à complexidade dos afetos.  Cada personagem carrega a sua própria história, as suas fragilidades e a sua maneira de interpretar aquilo que aconteceu. A família surge, assim, como um lugar simultaneamente de pertença e de conflito, onde o amor pode coexistir com a mágoa e onde nem sempre é fácil distinguir o cuidado do controlo, a preocupação do julgamento ou a proximidade da obrigação.
A novela aborda também questões relacionadas com a passagem do tempo e com a forma como as relações familiares se transformam. Há acontecimentos que não desaparecem simplesmente porque os anos passam. Pelo contrário, podem permanecer silenciosamente presentes e reaparecer quando determinadas circunstâncias os trazem novamente à superfície. A memória desempenha, por isso, um papel importante, sobretudo porque aquilo que cada personagem recorda nem sempre corresponde àquilo que os outros recordam.
Santa Família é também uma reflexão sobre as expetativas que depositamos na família. Existe uma ideia socialmente construída de que os laços familiares devem ser naturalmente fortes e incondicionais, mas a realidade é bastante mais complexa. As famílias podem ser espaços de amor e de segurança, mas também podem reproduzir padrões, alimentar conflitos e deixar marcas profundas. Reconhecer essa complexidade não significa negar o afeto, mas aceitar que as relações mais próximas são, muitas vezes, também as mais difíceis.
O que mais me interessou nesta novela gráfica foi precisamente essa capacidade de partir do quotidiano para chegar a questões mais profundas. Não é necessário recorrer a acontecimentos extraordinários para falar de culpa, ressentimento, envelhecimento, perda, amor ou dificuldade de comunicação. Muitas vezes, é dentro de uma casa, entre pessoas que se conhecem há anos, que se encontram os conflitos mais difíceis de resolver.

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