quarta-feira, 13 de junho de 2018

Esvaziamento do ser

Célia Gil

(https://unsplash.com/photos/ll3fwwExWc0)

Dulce estava consciente de que a vida galgava a um ritmo alucinante. Entre milhares de tarefas diárias, sentia se, no entanto, só. Na sua luta diária, tantas vezes incompreendida, onde criara o hábito de corresponder ao que queriam dela - ia às compras, preparava as refeições, arrumava, limpava, tratava da roupa, dos horários e... esperava. Aprendeu a esperar calada, porque tudo o que espontaneamente dizia, era erroneamente interpretado. E ai dela se ousasse queixar-se! Não fazia nada de mais, tomara muita gente! Tinha uma vida de rainha! E todos os dias as tarefas de todos os dias se repetiam ao som dos ponteiros de um relógio inimigo e imparável.
Dulce aprendeu a calar-se, a consentir, a assentir. Porém, aos poucos, foi deixando de ser, até se esvaziar qual autómato que se limita a responder a vozes de comando, uma boneca de trapos cada vez mais velha e inútil.
Os olhos foram apagando o brilho. As lágrimas secaram, deixando um olhar baço de desamor. Os seus olhos ainda seguiam o rasto do afastamento dos que amava. Afastavam-se sob falsos pretextos, vivendo vidas paralelas, onde ela deixara de pertencer, onde  fora remetida ao mesmo valor dos objetos da casa.
Deixara de ser, de se pertencer. Apagara-se-lhe a sede de viver, de sorrir com as pequenas coisas, de chorar com outras tantas. A porta fechava-se-lhe irremediavelmente por fora e por dentro e o lugar que habitava na alma fora escurecendo até deixar de o ver, de o sentir, de o temer nas suas penumbras, onde a ausência de tudo são paredes vazias de encontro às quais a alma embate.
E se  o coração ainda lhe bate, é porque tenta ignorar e não se consciencializa da ausência de vida que arrasta.
Dulce, numa vida tão amarga quanto a demência. Mais amarga que a demência, porque lhe resta uma lucidez que a faz continuar a ter consciência da sua degradação, do seu não eu. 

                                                                                                                      Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

1 comentários:

  1. Lindo conto e triste a vida de Dulce! Gostei de ler! beijos, tudo de bom,chica

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