terça-feira, 2 de outubro de 2018

Os Loucos da Rua Mazur, João Pinto Coelho

Célia Gil

Coelho, João Pinto (2017). Os Loucos da Rua Mazur. Alfragide: Leya.


Neste romance, João Pinto Coelho aborda a história de uma comunidade da “rua Mazur”, situada na Polónia, uma sociedade que convivia pacatamente, não fazendo prever a crueldade praticada pelos cristãos em relação aos judeus durante a II Guerra Mundial. O convívio inicial é substituído, de forma perversa, pela denúncia e antissemitismo extremistas, que acontecia entre os polacos, sem que fossem necessários campos de concentração para se viver uma situação infernal de fragmentação da sociedade e de execução.
Uma narrativa que nos prende desde o início e para a qual é necessária alguma concentração, uma vez que vai mudando o espaço, o tempo da ação e os próprios acontecimentos se vão intercalando.
Tudo começa com dois velhos, Yankel, cego, dono de uma livraria em Paris, que só aceitava como amantes quem se transformasse nos seus olhos e lhe prometesse “maratonas de leitura” e Eryk, amigo de infância de Yankel, que o procura para escrever um livro, depois de anos a fio a escrever supostos ensaios do único que queria escrever. Para tal, considera que precisa da ajuda de Yankel que, apesar de cego, teve sempre uma visão mais ampla de todos os momentos e acontecimentos. Apresenta-se na livraria com a sua mulher, Vivianne, a fria editora de Eryk. Mas quem seria mesmo esta Vivianne? EryK está doente e não quer morrer sem se redimir com o livro que quer escrever.
A narrativa, a partir deste momento, passa a ser a duas vozes, a de Yankel, que fala e a de Eryk, que escreve, dando dinamismo e diferentes perspetivas de cada acontecimento.
Eryk decide começar este romance pela inocência e é assim que conhecemos a história de Yankel, Eryk e Shionka, na adolescência. Um triângulo perturbador de amizade e amor. O primeiro, cego e judeu; o segundo, cristão e maquiavélico e a última, uma bela jovem convenientemente muda. E é neste ambiente inocente que começa a ser brilhantemente abordada a história de uma comunidade polaca de shtetl, uma pequena cidade no leste da europa, de cristãos e judeus, de sãos e loucos, que se fragmenta com a invasão de alemães e russos, uma invasão cruel que haveria de a dizimar.
“Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.”
Os Loucos da Rua Mazur, prémio Leya 2017, é, sem dúvida, um livro marcante que aconselho vivamente à leitura.
                                                                                                             Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

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