segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Budapeste, Chico Buarque

Célia Gil

Budapeste é um romance escrito por Chico Buarque, que ganhou os prémios Jabuti 2004 e Passo Fundo Zaffari & Bourbon 2005. Um romance diferente, que nos surpreende, muitas vezes choca, outras tantas, indigna, mas que nos faz refletir sobre a quantidade de anónimos Costas haverá espalhados pelo mundo.

A intriga é basicamente a seguinte: José Costa é um escritor anónimo e ganha a vida com textos que escreve para quem lhos solicita: artigos, dissertações, monografias, cartas, petições de advogados, na Agência Cultural Cunha & Costa, onde é sócio junto com seu amigo de faculdade Álvaro Cunha.
Ao contrário de outros escritores como ele, José Costa não almeja o reconhecimento, sentindo-se até grato ao ver os seus textos assinados por outra pessoa.
Costa é casado com Vanda, apresentadora de um telejornal, e que não entende exatamente o que o marido escreve, não se interessando mesmo pelo seu trabalho.

Quando, numa viagem a Istambul, para participar num congresso de autores anónimos, se vê obrigado a aterrar em Budapeste, devido a uma avaria no avião em que seguia, fica bastante curioso em relação ao húngaro, língua que, segundo as más línguas, é a única língua que o diabo respeita, repleta de sonoridades e sensações. Fica obcecado pelo húngaro, até pela própria dificuldade que sente em compreender as palavras.

Ao voltar ao Rio de Janeiro, José Costa tem a missão de escrever a biografia encomendada de um alemão. Após terminar o livro, devido a alguns conflitos no trabalho, decide tirar férias, as férias com que Vanda há muito sonhara. Porém, quando Vanda abre a passagem que Costa lhe entrega, fica a saber que irão para Budapeste e não para o destino por ela sonhado, e decide trocar o seu bilhete para Londres. Viajam, então, para destinos diferentes, rumo a um afastamento que se tornará cada vez mais acentuado. Costa está apenas interessado em aprender a falar húngaro. Acaba por ter aulas de húngaro com Kriska, com quem se envolve.
Seguem-se várias viagens entre o Rio de Janeiro e Budapeste. Se por um lado, os padrões normativos da sociedade o fazem arrepender-se do tempo passado longe da mulher e do filho; por outro lado, é em Budapeste que Costa se sente realizado. Mas estes afastamentos, quer de Vanda, quer de Kriska, levam-nos a todos a longos silêncios. Silêncios que não são fáceis e em que os conflitos interiores o levam a pensamentos do género, que passo a citar:
"Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol no Rio de Janeiro, para ter olhos de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco."

Este é um romance que deixa o leitor intrigado até ao fim. Qual dessas viagens entre Budapeste e o Brasil será a última? Para desvendar este mistério e apreciar este romance tão sui generis, convido-o a encetar esta fantástica viagem a Budapeste de Chico Buarque.

                                                                                                          Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

1 comentários:

  1. Deve ser muito lindo! Não conheço e fiquei curiosa pra saber ! bjs, chica

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