Histórias Soltas Presas Dentro de Mim
"Todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm."(García Lorca)


(imagem de camilalourencomorena.blogspot.com)




Uma folha em branco olha-me ansiosa
Pelas letras que eu possa conjugar
E em preciosas palavras formar
Uma mensagem bela e poderosa.

Mas os dedos contraem-se de dor,
As letras não saciam o papiro,
Não nascem palavras do meu suspiro
E a mensagem é puro desamor.

Pudesse eu ser uma grande poetisa
Deleitar com a pena a página em branco
Letras que fluiriam como a brisa.

E a folha brilharia de emoção,
Resplandeceria com mais encanto,
Abrilhantando a mais pura ficção.
                                                Célia Gil

(imagem de mariamarlipuglielli.blogspot.com)

Teus dedos dedilham notas ansiosas,
Nas longas teclas gastas do piano.
E a alma queda-se naquele engano
Ávida de notas harmoniosas.

Os músculos cansados descomprimem,
Um sorriso desenha-se na face,
Buscando o som perfeito que o enlace
E os olhos descrentes também sorriem.

E todo o meu ser é música em si,
As minhas artérias respiram música
A alma preenche-se com Vivaldi.

Os meus olhos absorvem os teus dedos,
O meu corpo anseia o teu toque em súplica
Para revelar os sons dos meus segredos.
                                                    Célia Gil


(imagem de conexioncubana.net)



O meu eu remete-se ao silêncio
das questões por resolver.
Debate-se em comícios interiores,
em reflexões intensas até doer.
Sinto-me desponderada.
A minha balança pende para um dos lados.
No prato do lado esquerdo
está o que me prende à vida,
os bons momentos,
os bons sentimentos,
os meus rebentos,
o bem do mundo,
o amor profundo,
a lealdade, a fraternidade, a amizade,
a liberdade, a paz, a tranquilidade.
No prato do lado direito
estão as vicissitudes da vida,
os objectivos por alcançar,
os sonhos por atingir,
as metas por cruzar,
os ideais por conseguir,
o ódio, o desprezo, a guerra,
o ciúme, a inveja, a desconfiança,
o medo, o engano,
a vida que cai por terra,
os obstáculos por ultrapassar,
um mundo sórdido e insano.

A minha balança está desponderada
e pende para o lado direito.
Procuro então preencher o vazio
do prato do lado esquerdo.

Preciso de me voltar a equilibrar
e encontrar o contraponto da dor,
acalmar o meu ser sofredor
e poder voltar-me a encontrar.
                                         Célia Gil
(imagem de castelodesartel.blogspot.com)

Mergulho em águas cálidas
envolvo-me na água pura e cristalina,
que me abraça com a sua imensidão
estendendo braços doces,
abraçando-me como uma carícia breve.

Mergulho neste rio imenso
e sinto-me dona do Universo.
Aspiro o doce aroma do rio,
dos salgueiros, das giestas,
e estamos a sós
eu e tu, mãe natureza!
Quão grandioso é o teu esplendor,
Quantos tons de vida tem o teu silêncio!

Como pode o Homem ferir-te
em toda a tua beleza e harmonia?
Como pode o Homem destruir-te
se te dás, assim, sem nada pedir,
num acto de entrega total,
numa dádiva divina,
mãe natureza?
                                  Célia Gil
(imagem de aprendizdoinvisivel.blogspot.com)
Queria entrar na minha mente
e arrumar o caos permanente,
desarrumá-lo, limpá-lo, poli-lo
e voltar a pôr tudo no lugar.

Quantas vezes nos sentimos um caco
um pedaço de nada perdido,
um ser feito farrapo,
de si ausente e esquecido?

É preciso recuperar a auto-estima,
elevar o ego e encontrar a paz,
nesse ser que, solitário, caminha
sem horizontes, num eu que jaz.

Preciso arrumar o espaço caótico
em que vive aprisionado o meu ser,
sair deste estado neurótico
que não me deixa em plenitude viver.

Entrarei, devagar, na minha mente,
deitarei todo o lixo fora,
guardarei numa das gavetas da mente
apenas o auge da memória.

Organizarei este caos em que vivo,
limparei com zelo os bons sentimentos,
despojar-me-ei do que não preciso,
decorarei tudo com os bons momentos.

E, então, de mente lavada,
voltarei a sorrir para a vida
ganharei de novo a face rosada
nas malhas do tempo esquecida.

Soltarei os cabelos orgulhosos,
caracóis em cascata, livres,
em olhos brilhantes formosos,
cheios de vida e felizes.
                                      Célia Gil


(imagem de avitrinedesonhos.blogspot.com)


O Outono chega acompanhado
pelo vento que se vai transformando,
suave, frio, lancinante, cortante.
Abre a sua enorme bocarra de ar
e sopra em cada folha,
desnudando as secas árvores,
que se vergam ante a sua passagem,
temerosas, pesarosas…
As folhas caem por terra,
amarelas, laranjas, castanhas.
É a terra clamando por elas,
num acto telúrico.
Estação do envelhecimento,
do eterno questionamento,
das dúvidas, do silêncio,
da necessidade de se ficar a sós
e reforçar laços e nós.
Estação incerta, insegura,
apodrece, de madura
e cai em abismos estrepitosos,
em ecos solitários e estrondosos.
Outono da vida,
irrompendo pleno de interrogações,
alma de si perdida, esquecida,
repleta de imensas questões!
É preciso varrer as folhas-questões,
juntá-las num montinho
resgatá-las devagarinho
para não se dissipar a réstia das ilusões!
                                                            Célia Gil
(imagem de canaldasdicas.com)

(imagem do Google)

O Verão inunda a vida
com os seus intensos raios de sol,
invade, vasculha, penetra espaços,
reaviva a memória esquecida,
prende-nos no seu anzol,
juntando de novo os pedaços
da alma ansiosa,
de forma desarmoniosa.
Verde, dourado, vermelho vivo.
O corpo quente clama, sedento
de amor, prazer, diversão,
ansiando de novo a ilusão,
o suco do fruto sumarento,
a chama da paixão,
uma brisa que dê alento.
Não pede licença, invade;
não avisa, irrompe;
não se arrepende ou sente saudade,
fica a sós connosco, olha-nos defronte.
Não murmura, afronta;
não se sensibiliza, grita;
não se verga, espevita;
não cede, confronta.
É o Verão dos sentidos,
das férias, da renovação da vida,
que nos convida
a reviver sonhos perdidos.
                                  Célia Gil





A Primavera toca com os seus raios de sol
o ser humano consumido pelo Inverno.
O seu esplendor faz renascer
o brilho nos olhos,
o viço no corpo,
a vida na pele.
A encosta entra em festa
num arco íris de cores em profusão.
Os pássaros entoam os seus cantos,
arvoredos dançam ao som da brisa.
As flores despertam para a vida,
Inebriando tudo em seu redor com seus odores.
Renasce a esperança,
a vontade, a fé, a confiança.
Recuperam-se as forças perdidas no longo Inverno,
o riso volta a encher-nos o rosto,
novos projectos parecem concretizáveis
e a vontade ganha proporções gigantes.
Tudo parece mais fácil, leve e possível.
Os sonhos despertam dos sonos escuros,
Num amarelo – dourado – laranja intenso,
brindam com néctar divino.
Despem-se os corpos do peso das vestes
que nos vergam e nas quais nos encolhemos no Inverno,
para ganhar a sensualidade, a cor e a leveza
que fazem a alma levitar
e desejar viver intensamente um novo despertar.
                                                                           Célia Gil
(imagem de revoluodaalma.blogspot.com)


O Inverno cai sobre o telhado da casa
ensombrando a alma,
escurecendo os dias
num cinza-azul escuro-negro profundo.
Suga as energias guardadas,
bebe a paciência e devora as forças,
leva a persistência, antevê a morte.
O céu chora intensamente
grossas gotas de chuva que caem nos beirais,
um vento frio e agreste brame-nos nos ouvidos,
uivos, gemidos estrepitosos, roubando a paz.
A ansiedade domina o sombrio ser humano
e as vestes negras cobrem a encosta,
ocultando a beleza de outrora,
enegrecendo o coração, esfriando a alma.
Os olhos perdem brilho,
a pele, esplendor, cinza baço,
ansiando o toque de um novo raio de sol
que o faça recuperar todo o seu fulgor.
                                                       Célia Gil

(imagem de  julieta-ferreira.com)


Vivo cada viagem que faço
como se não houvesse amanhã,
não registo ou fotografo,
guardo apenas na memória
cada momento ou paisagem.
No meu bloco escrevo impressões,
mais reais que a fotografia,
imprimo as vivências
numa branca folha vazia,
com traços marcados pelas emoções
vividas em cada momento.
Assim, são mais belas.
E, um dia, quando lerem o bloco,
descobrirão paisagens nunca vistas,
acontecimentos impossíveis de registar
em simples películas de fotografia.
Verão que nesse local,
houve coisas que não viram,
pessoas que passaram despercebidas,
sentimentos que não sentiram
na fotografia guardada.
E de cada vez que viajo,
ainda que para o mesmo sítio,
descubro sempre algo novo
que registo no meu bloco.
Ao ler as minhas viagens,
volto aos sítios onde estive
e vivo novas experiências.
A cada viagem que releio,
de uma coisa tenho a noção,
renovo a emoção
como se voltasse lá,
e vivo cada viagem
como se não houvesse amanhã.
                                          Célia Gil
(imagem do Google)

Dedicado ao meu marido, namorado, amante, amigo Henrique Teixeira!



Sussurra o meu nome
com doçura e meiguice.
Toca-me suavemente
com carinho e desejo.
Olha-me nos olhos
e mergulha nos meus.
Conta-me histórias
para eu adormecer.
Sacia-me a sede
com a força dos teus beijos.
Limpa-me as lágrimas
quando estas invadirem as nossas vidas,
chora comigo as nossas dores,
Faz-me rir até à exaustão,
abraça-me,
pega-me na mão…
Vamos passear,
viver a vida,
aproveitar cada momento
com fé e emoção.
Dá-me guarida
quando me sentir perdida.
Senta-me no teu regaço
e deixa-me abraçar-te com força,
prender-me ao teu colo!
Fiquemos assim, até sermos velhinhos,
de mãos dadas, pelo caminhos!
                                        Célia Gil


(imagem de poesia comemocoes.blogspot.com)



Por ela procuro,
noite e dia,
na penumbra do quarto,
na sala solarenga,
e não encontro a Poesia.

Onde a esconderam
que não a encontro?
A vida deixa de fazer sentido
sem a força das palavras.
Não me deixarei derrubar,
continuarei em sua busca,
com persistência e luta
sei que a acabarei por encontrar.

Querem-ma silenciar,
e para sempre ocultá-la,
mas sei que hei-de encontrá-la
p’ra minha alma acalmar.

Poesia? Onde Tu estás?
Minha deusa e conselheira,
amiga eterna e verdadeira,
que levaste contigo a minha paz.

Roubaram-te por seres tão preciosa
como um objecto, guardaram-te
para uso pessoal, restrito,
sem te quererem partilhar.
Mas tu és demasiado divina
para ser cobiçada pelo ciúme
guardada pela inveja.

Tu és nossa, do poeta
que te quer glorificar,
e que, qual profeta,
precisa de ti até para respirar.
                                     Célia Gil
(imagem de trilhosdepo.blogspot.com)



Natureza mágica,
guia o Poeta no seu ofício.
Deixa-o deleitar-se com o teu perfume,
as tuas cores, os teus encantos secretos.

Enche-o dessa plenitude que és
no teu estado mais puro.
Acaricia-o com o sol da manhã
E delicia-o com a tua brisa.

Fá-lo esquecer que é um ser impuro
que a sonhar se esquiva
das contrariedades da vida.
Que, rumando ao infinito,
foge ao mundo real, cruel e maldito.

Toca-o com a magia dos teus dedos.
Fá-lo renascer e acreditar
que, um dia, todos os seus medos
terminarão. As feridas irão sanar.
                                              Célia Gil
(imagem de vida-demulher.blogspot.com)


Amar não é sufocar,

é deixar respirar

e viver sem medo e ansiedade.

É agradecer cada dia a dádiva

de amar e respeitar.



Amar é fazer chorar de alegria,

é vibrar com o riso e a felicidade

de quem se ama.

Amar é acreditar a cada dia,

sem tentar encontrar falsas razões

para duvidar, com crueldade.

É não deixar morrer a chama,

não destruir no amor as ilusões.



Amar não é suplicar migalhas de amor,

é dar para receber,

acarinhar para ser acarinhado,

é elogiar, fazer um louvor

e beber as lágrimas do ser amado.



Amar é pensar em quem se ama

antes de se preocupar consigo,

é acreditar sem questionar,

é ser amante e amigo

é instigar a fé e a confiança,

não é viver para duvidar.



Amar é aceitar o ser amado

com todos os defeitos que possa ter.

amar não é um mero acto premeditado

de exigências. É deixar SER!

Não é anular o outro,

mas dar as mãos e VIVER!

(imagem de psicologalu.blogspot.com)



O vosso amor era uma bela fonte

de águas límpidas e puras correntes,

de rancores e de infelicidade ausentes,

amor que contempla a dois o horizonte.



Os risos inebriam-me as lembranças,

os carinhos trocados eram puros,

livres de sentimentos mais escuros,

momentos de vitórias e de esperanças.



Mas tudo o que é puro não é eterno

e a sombra atravessou-vos o caminho,

breve em alegria, infinito inferno.



A separação urgia, com a morte

pronta a mudar e mexer no Destino,

p’ra vos roubar p’ra sempre amor tão forte.

(imagem de luzesesonhos.blogspot.com)

Quando terei da vida a resposta desejada,

quando?

Quando estarei completamente feliz,

inconscientemente feliz?

Ninguém me responde nem diz,

porque morre na ansiedade

a alma que agora sorri?

Porque nunca é pleno

o momento de felicidade?

Há sempre uma dor prestes

a eclodir nos melhores momentos.

Quando conseguirei a união

entre o que sinto e o que em mim existe?

Quando deixará de ser ilusão

a alegria que subsiste?

A plenitude do momento

não existe. É quimera!

Pudera eu arrancar o pessimismo

transpô-lo para outra esfera,

num truque de ilusionismo!

Mas sou humana o quanto baste,

para não conseguir viver

plenamente sem sofrer.

Não há gesto de heroísmo

que me liberte desta condição,

de viver na opressão

entre sentimentos opostos

que, num gesto de cinismo,

celebram a alegria em desgostos.

Quando?

Quando conseguirei eu ser completamente feliz?


Quando o cansado e triste ser humano
desce à cave húmida da existência,
não há retorno, tudo é vil e insano
e afoga-se no lodo da demência.

A dor é tão forte, a dor lancinante
que nos oprime e comprime o nosso ego.
Abraçamos um frio arrepiante
que torna o ser um simples verme cego.

Há que sair da auto-destruição,
largar o sofrimento umbilical,
rasgar as fortes grades da prisão.

Deixar de se auto-compadecer,
matar em nós o feroz animal
que nos impede de ser e viver!
                                                  Célia Gil
(imagem de catedral.weblog.com.pt)


Alma fechada em dores e agonias,
alma oclusa, em longa busca incessante,
alma ausente de singelas mãos frias,
alma vadia, em louca vida errante.

Onde está a tua real verdade,
que não a vislumbro onde quer que vá?
Quero libertar-me desta ansiedade,
saber a verdade e a Fé, onde está?

Grandes os nevoeiros que escurecem
os sentimentos áureos que perdi,
as memórias de um dia que padecem

pela vacuidade de que são possuídas,
me ausentam de tudo quanto vivi,
invisíveis, de suas vestes despidas.
                                                Célia Gil


Ouço-te o gemido, mar que me embalas,
rouco gemido de louco mostrengo
e grito ao Céu “quão bem te compreendo”
mar de grandes tragédias que em ti calas.

E de ti, furores intensos se erguem
em triste queixume pela humanidade,
que tudo destrói, tudo assim invade,
privacidade te arrancam e bebem.

Mas é tão grande a tua imensidão,
que ainda assim me deixas contemplar-te,
dás colo ao meu cansado coração.

E deixas-me beber a inspiração,
nas ninfas que sorriem ao mirar-te,
nas gotículas cheias de emoção.
                                          Célia Gil


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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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