sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Quando nos esquecemos de viver?

Célia Gil


      Desde cedo, aprendemos a viver para os outros, em função dos outros e pelo que os outros pensam.
      Aprendemos a viver para alcançar sucessivos objetivos: a formação escolar, o casamento, o lar, o marido, os filhos, a família, a profissão...
      Na ânsia de querermos dar o melhor de nós em cada circunstância, constatamos que a vida foi passando e que não vivemos. Passámos por tudo a correr, continuamos a correr...
      Para quê? Para onde? 
    Há que parar um pouco para nos questionarmos. Afinal onde queremos ir? O que procuramos tão desesperadamente? Que nos leva a não ter um minuto para o que realmente somos e gostamos?
      Já paramos para nos questionarmos sobre a razão de viver nesta ansiedade, que nos consome as forças? Esperamos, porventura, que a tristeza em que vivemos o presente seja a cruz que nos permitirá a redenção futura? Que redenção? Estaremos à espera de viver quando já não tivermos força ou até vontade? Quando verificamos que a vida nos passou ao lado e que estamos cansados, cansados até de pensar em viver. Tão cansados, que já nem prazer sentimos quando alcançamos algo que desejamos  a vida toda.
   Não nos rimos desalmadamente, porque ficava mal. Não fizemos algo, porque era incorreto. Não saímos, porque tínhamos obrigações que nos encarceravam. Não ignorámos nunca o que a sociedade pensa, a forma como somos vistos, a imagem que queremos passar. Esquecemo-nos, isso sim, que, agindo desta forma, deixámos, muitas vezes, de ser quem somos, do que nos fazia realmente felizes e ficámos de tal forma acomodados a uma vida que vivemos, que nos esquecemos da vida que sonhámos. Isto pode ficar mal... Isto pode fazer-me mal...Podia, mas nunca fez, porque nunca nos demos a oportunidade de "pular a cerca" das suposições.
   E andamos uma vida inteira com duas palas nos olhos, enxergando um objetivo predefinido pela própria sociedade, uma capa social que serve a todos, e que deixa a descoberto apenas o que poderemos ser, fazer ou viver. Uma capa social que restringe quem quer fazer a diferença, abafa a personalidade de cada um e não deixa respirar a felicidade.
      A vida estava, afinal, ali mesmo, no que permanece para lá das palas, no que nos faz realmente felizes, no que não é programado ou exigido, no que seria genuinamente ser feliz.
                                                                                                                        Célia Gil


Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

2 comentários:

  1. Palavras lindas, tão reflexivas e caem bem pra cada um de nós...Vivemos a nossa vida, a dos que nos cercam e a cada dia mais e mais somos exigidos... E quantos dias são passados sem aproveitar o que realmente vale: a vida! Adorei te ler! bjs, ótima OTONO por aí! chica

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  2. Verdade, sim! E receio que seja impossível mudar.
    Beijo

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