quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro

Célia Gil
Pedro, João Ricardo (2012). O Teu Rosto Será o Último. Alfragide: Leya.


  
Prémio Leya 2011, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, é um livro que nos conta a história de uma família que, sem ser uma história linear, pois trata-se de três gerações, que vão sendo retratadas de forma alternada, encaixam-se todas no final, através de uma personagem que serve de elo de ligação entre elas, Duarte, uma criança. Uma família marcada por longos anos de ditadura, pela revolução de abril, pela repressão política e pela guerra colonial.
Em traços muito gerais, tudo começa com Augusto, o avô de Duarte, um médico que compra uma casa na Gardunha, entre o Fundão e Alpedrinha e que aí se estabelece (curiosamente, a certa altura é explicado que Gardunha quer dizer “refúgio, ou esconderijo. Em árabe”). Compra a propriedade a um amigo, Policarpo, que segue o seu sonho de viajar pela Europa e lhe vai escrevendo cartas que ele guardará na sua biblioteca. Estas cartas serão, mais tarde, lidas pelo próprio neto, o Duarte, ajudando a formar a sua personalidade.
António, o pai de Duarte, teve, por sua vez, uma vida de sacrifício, fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra, que havia de ser a mãe de Duarte, numa livraria.
Duarte, uma criança dotada de um grande talento, um pianista precoce e prodigioso, cresce no meio destas histórias, das cartas de Policarpo ao avô, de tragédias familiares, da morte do seu amigo Índio, da doença da mãe, e cresce nele uma revolta que o deixa de costas voltadas para o piano. Nem o médico o consegue ajudar a resolver esta incompatibilidade:

“Depois de um longo silêncio, o médico perguntou-lhe se, quando ouvia essas músicas tocadas por outros pianistas, experimentava a mesma sensação.
Duarte respondeu que nunca ouvia música. Não tinha discos. Não ia a concertos.
O médico perguntou-lhe se gostava de música.
Duarte não soube responder.
O médico perguntou-lhe porque começara a tocar piano.
Duarte disse: “Não fui eu que comecei a tocar piano. Foram as minhas mãos.”

Se ainda não leu, não pode deixar de conhecer esta família, os episódios hilariantes, contados com um grande sentido de humor, bem como os dramas que constituem a vida de tantos portugueses. Um romance a não perder, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro. 
                                                                            Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

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