Vareille, Marie (2026). A Frágil Luz do Mundo. Lisboa: Marcador.
Tradução: Helder Guégués
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 13/02/2026
Fim da leitura: 14/02/2026
**SINOPSE WOOK**
"Há mais de vinte anos, Abigaëlle retirou-se para um convento na Borgonha, onde os seus dias decorrem em solidão. Do passado, guarda apenas memórias turvas, sem conseguir sequer recordar o acontecimento que mudou o seu destino e a obrigou a afastar-se do mundo, deixando para trás a casa onde vivia com a família.
O irmão de Abigaëlle, Gabriel, visita-a quinzenalmente e, à distância, ela acompanha a vida dele, que, já adulto, se tornou um escritor de sucesso. Entretanto, chega o dia em que um acaso junta Gabriel à deslumbrante Zoé.
Embora a história comece de forma luminosa, Abigaëlle não consegue deixar de ter medo, porque só ela sabe contra que demónios o irmão luta, o inferno que foi a sua infância ao lado de um pai imprevisível e perigoso, que maltratava a mãe, incapaz de fugir, e que mantinha a família num clima de terror."
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A Frágil Luz do Mundo, da autora francesa Marie Vareille, é um romance que se afirma, antes de mais, pela solidez da sua escrita e pela capacidade de manter o interesse do leitor do início ao fim. A autora constrói uma narrativa emocionalmente densa sem recorrer a excessos, optando antes por uma abordagem contida, mas eficaz.
O livro centra-se na vivência de duas crianças que crescem num ambiente marcado pela violência doméstica exercida pelo pai sobre a mãe. Esta escolha de perspetiva revela-se particularmente feliz: ao acompanhar os acontecimentos através do olhar dos irmãos, o leitor é confrontado com uma violência que raramente se mostra de forma explícita, mas que se infiltra nos silêncios, nos gestos interrompidos e nas rotinas deformadas pelo medo. É precisamente nesta subtileza que reside grande parte da força do romance.
Marie Vareille explora com sensibilidade as dúvidas e contradições próprias da infância em contextos de abuso: a dificuldade em nomear o que se passa, o amor ambíguo por quem fere, a culpa silenciosa e a tentativa de normalizar o inaceitável. As marcas deixadas por esta experiência não são apresentadas como feridas que o tempo apaga, mas como cicatrizes profundas que moldam identidades e relações futuras.
Ao longo da narrativa, a autora evita julgamentos simplistas e não procura soluções fáceis. A violência é retratada como um fenómeno complexo, cujas consequências se prolongam muito para além do espaço doméstico e do tempo da infância. Ainda assim, A Frágil Luz do Mundo não é um livro desesperado: existe nele uma luz ténue, frágil, mas persistente, que se manifesta na resistência silenciosa, nos laços entre irmãos e na possibilidade, ainda que imperfeita, de reconstrução.


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