Amaral, Ana Luísa (2013). Ara. Porto: Sextante Editora.
N.º de páginas: 88Início e fim da leitura: 07/02/2026
**SINOPSE**
"Primeiro: a prosternação diante do altar. A hesitação diante da proliferação dos ritos: sacrifício, louvor, cântico, narrativa. Figuras e vozes, acólitos. Insurgências. Japoneiras e túneis do sentido. Discrepância a todas as vozes acumulando num sentido. Não único, mas unívoco. Desde a infância.
Segundo (como se diz de um andamento ou de um painel): o tríptico dentro do tríptico das DUAS IRMÃS: a narrativa oblatória e clara da paixão sáfica. Ardente e casta. Sem falso pudor. Vergonha é não te amar. A oferenda lírica.
Terceiro: não é coisa de rasgar como romance este romance. Assente na pedra do lar um prisma multifacetado e translúcido: o amor único, a palavra. A brisa do arado sobre a ara.
Maria Velho da Costa"
Ara, de Ana Luísa Amaral, não é um romance consensual nem procura sê-lo. A sua receção dependerá, em grande medida, da disponibilidade do leitor para aceitar uma escrita profundamente poética, que se afasta das convenções narrativas mais habituais. Quem conhece a obra da autora reconhecerá desde logo a poetisa: a linguagem é densa, reflexiva, por vezes fragmentária, mais próxima do poema em prosa do que do romance tradicional. Nesse sentido, Ara pode afastar leitores que procuram uma narrativa linear ou uma intriga bem definida, mas oferece uma experiência literária singular a quem se dispõe a entrar nesse jogo.
Um dos aspetos mais interessantes do livro reside na forma como se inicia, com duas vozes que dialogam entre si sobre o próprio romance e sobre a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, de o escrever. Há uma consciência metanarrativa constante: a narradora (ou narradoras) questiona-se sobre o que deve ou não fazer parte do texto, sobre a necessidade de construir personagens com corpo, forma e presença, e sobre a sensação persistente de nunca ter escrito verdadeiramente um romance. O texto constrói-se, assim, a partir dessa hesitação, desse pensamento em movimento, dando ao leitor acesso ao processo criativo em si.
Durante grande parte da obra, a ausência de personagens é sentida como um vazio deliberado, quase um espaço em suspenso. No entanto, esse vazio vai sendo progressivamente preenchido e, no último capítulo, surgem finalmente “os outros”: aqueles que vivem o Natal e a passagem de Ano, em contraste com os que passam fome, mesmo em épocas tradicionalmente associadas à abundância e à celebração. Este contraste introduz uma dimensão ética e social que reforça o alcance do livro, ligando a reflexão íntima à realidade coletiva.
Ao longo de Ara, destaca-se ainda a importância da ideia de amor, entendida de forma ampla e plural, seja ele humano, solidário, íntimo ou abstrato. É esse fio que, de algum modo, atravessa a obra e lhe confere unidade, apesar da sua estrutura pouco convencional. Ara não é um romance fácil, nem pretende agradar a todos, mas é um livro que desafia, interroga e permanece. Para quem aceita esse desafio, a leitura revela-se profundamente estimulante. Eu gostei, se bem que gostasse de ter visto alguns acontecimentos e ideias mais desenvolvidos.
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