terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Breve viagem a aldeias do interior

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(imagem do google)

É sempre interessante viajar pelas aldeias, costumes, tradições e crenças da nossa região. É agradável encontrar vestígios de tradições, do que é genuíno, em conversa com o passado, os mais idosos, os grandes contadores de histórias.


Nesta breve viagem gostaria de realçar a importância de um passado que se vai perdendo num presente desinteressado e num futuro incerto, na tentativa de salvaguardar o valor de todo um património cultural que a nossa região encerra.

No que respeita ao património monumental, apesar da desfiguração física, cada vez mais abrangente, da maior parte das nossas aldeias, com reconstruções e novas construções, há ainda resquícios que nos transportam às tradições populares regionais – os pelourinhos, as igrejas com o seu adro e toque característico dos sinos, as capelas, os terreiros, as fontes e chafarizes, os fornos, os coretos, as pipas, as janelas de madeira com portadas para dentro, a roda da azenha, as capoeiras, entre outros.

A circundar as aldeias da Cova da Beira, temos o verde da Serra da Gardunha, os cerejais, as giestas, o rio Zêzere, os riachos, as ribeiras, as aves, o gado que pasta, os aromas telúricos, que continuam a embelezar a nossa região e a torná-la tão especial.

Entrando em casas mais antigas, em conversa com os mais idosos, se recuperam tradições, quer a nível da construção, quer no que respeita a crenças e tradições.

As casas tinham, normalmente, a loja no primeiro piso, onde se guardavam as pipas de vinho, o tanque onde se pisavam as uvas, as panelas de azeite, o milho para debulhar em grupo de família, amigos e vizinhos. No primeiro piso os quartos, onde dormiam imensos filhos, a varanda repleta de vasos com legumes para transplantar, salsa, roseiras, cravos e sardinheiras, tábuas onde se secavam frutas para o inverno. Nas cozinhas, parte principal das casas, a lareira, o fogão a lenha, as paredes negras e fuliginosas, era onde se fritavam as filhoses, se faziam e penduravam os enchidos em traves para o fumeiro, se coziam as morcelas e se faziam os queijos de leite de cabra. As refeições eram feitas à base de legumes, em grandes travessas das quais comia toda a família. No meio da lareira, a panela de ferro e em redor os bancos baixinhos de madeira, nos quais se sentava toda a família, em conversa, desde os assuntos mais práticos, como a distribuição de tarefas para o dia seguinte, até às anedotas e histórias reais ou ficcionais, funcionando como uma autêntica escola para os mais novos.

No terceiro piso, os sótãos, repletos de lenha, cachos de uvas a secar, ramos de cebolas, batatas e outros alimentos. Também aqui funcionava a casa de banho, só mais tarde construída com o aproveitamento do espaço de um dos quartos, em metades de pequenas pipas ou bacias, que se despejavam nos quintais ou tapadas.

Viajando pelas tradições, encontramos, no Natal, a Missa do Galo e os madeiros nos adros; na Páscoa, a recepção do Senhor, em que o padre se fazia acompanhar de um crucifixo a todas as casas, para que beijassem o Senhor, por entre uma mesa posta com iguarias da época e da região e velas acesas para iluminar o caminho do Senhor e libertar as casas do mau-olhado. Entre as tradições se contam também as superstições e as crenças; as rendas e os bordados em torno da lareira ou na varanda em conversa com as vizinhas; as procissões com as colchas nas janelas; a banda de música; as tascas; as festas populares, normalmente de carácter religioso; a concertina, com a qual os rapazotes desfilavam pelas ruas em cantorias; os bombos; o lavar das roupas nos rios, ribeiras e riachos; a educação dos filhos a cargo dos pais, a das filhas a cargo das mães; o apego à terra, aos trabalhos agrícolas, que aprendiam desde a infância; a delicadeza no trato dos pais por parte dos filhos, que pediam a benção e os chamavam de “meu pai” e “minha mãe”.

Se hoje a tendência é apagar a chama das lareiras com a frieza e perda até das relações familiares, com ela se apaga a chama da família, a estabilidade familiar, a escola familiar, as memórias. Enfim, as tradições populares regionais.
                                                        Célia Gil

13 comentários:

  1. Que lindo passeio esse e que não se percam as tradições.

    As chamas das lareiras e seu crepitar gostoso são aconchego, assim como família o é.

    Lindos detalhes, bel narrativa!

    Feliz niver e tens a idade de minha filha mais velha, ela fez 42 em outubro.


    um beijo,bons festejos! chica

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  2. Olá Célia,
    Níver? Parabéns e felicidades!

    Gostei dessa viagem pelas tradições!
    Tanta coisa boa já se perdeu... É lastimável!

    Parabéns pela bela narrativa!

    Beijos.

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  3. Oi Célia,
    Eu atravessei uma boa parte de Portugal de ônibus e vi muitas aldeias (são muito diferentes do que temos aqui no Brasil), mas o tempo era pequeno e não pude ter contato com o povo do local. Eu gostaria muito de viver esta experiência.
    Beijos 1000 e uma noite maravilhosa para vc.

    www.gosto-disto.com

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  4. OLá,Célia!!

    Que linda aldeia, me encantei pela imagem e narrativa!Pena que se perde tanto das tradições...a mudança é necessária,mas não podemos nunca abandonar as belezas do passado!É nossa história!
    **Estas de aniversário?!!!FELICIDADES QUERIDA POETISA!!!!!Muita saúde, e sucesso pra ti!!!!
    Tudo de bom!!!!Beijos!
    *Vou ir a praia visitar minha mana!Volto na segunda!!!!

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  5. oi Célia,

    lindo relato,
    adoro vilarejos,
    casinhas coloridas,
    janelas de madeira e coretos no meio
    da praça...
    trazem histórias que o tempo não apaga,
    nem com a chama da lareira miudinha...

    beijinhos

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  6. Célia,eis um programa que me agrada!
    Pena que algumas aldeias estejam desertificadas.
    Beijinho

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  7. Hola Celia la imagen es preciosa, muy bonitas tus letras, que tengas un feliz comienzo de año.
    un abrazo.

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  8. Olà, Célia. Concerteza um belo programa... O passado tem muitas histórias e é preciso que seja preservado. Em cada história tem toda uma vida. Adorei o post! deixo um grande abraço e bjos com carinho.

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  9. Oi Célia, niver teu? Parabéns e muitas felicidades!
    Acabei de voltar e ainda não dei conta de visitar todos, só posto de novo no VSE quando conseguir e prefiro assim, aí não deixo ninguém de fora, nem que leve uma semana rsss
    Legal a tua narrativa, muitos costumes e crenças que não levam a nada já não estão mais sendo usados e até concordo, mas no que tange a família, a convivência e o respeito, esses devem ser preservados pela eternidade, afinal são os mais importantes.
    Desejo um feliz 2012 pra ti, cheio de realizações, paz e saúde.
    Beijossss

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  10. Passei para deixar um beijinho e sugerir que mostres as costuras.
    Beijo da Nina

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  11. Olá Célia, parabéns pelo aniversario, aqui no Brasil, adoro ver lugares que são restaurados, que valorizam nossas tradições, até já postei no meu blog....Ano 2012 maravilhoso....Bjks...Gil

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  12. Fazer uma viajem assim é como sentir o cheiro de terra molhada, retorna lembranças que afagam a alma. Bjs

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  13. Fiquei encantada com esse texto Célia, principalmente, por eu ser do interior e muitos costumes que você narrou foram comuns à minha família. A evolução do mundo, de fato, não permite mais o convívio tão aconchegante que havia antes. Hoje o individualismo impera e o consumismo afasta ainda mais as pessoas umas das outras.
    Parabéns pela riqueza de detalhes nessa sua postagem!

    Beijos

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