Rodrigues, José (2026). A Vendedora de Flores. Porto: Porto Editora.
"Cidália vê a sua neta Constança, a única família que lhe resta, partir para a faculdade, deixando a Aldeia da Paz. Para combater a solidão e a saudade, resolve procurar Isménia, uma amiga de quem há muito não tem notícias, e é surpreendida pelo seu frágil estado de saúde.
Movida pelo inesgotável desejo de ajudar os outros, Cidália resolve levar Isménia consigo para a Quinta do Velho, onde mantém a custo uma pequena exploração agrícola. Aí, o ritmo lento do quotidiano, a companhia de Jacó, o fiel papagaio, e a unida comunidade que tão bem a acolhe trazem a Isménia a paz e o conforto que a vida lhe parecia ter negado. Constança, por sua vez, encontra novas razões para visitar mais frequentemente a aldeia, quando conhece João, o jovem fisioterapeuta que acompanha a amiga da avó.
Entre gestos simples e o aroma das flores, a força invisível da bondade de Cidália faz renascer a esperança e transforma a vida de todos os que a rodeiam. Por onde quer que passe, a amizade e o amor que Cidália coloca em cada gesto juntam-se à memória de dias passados e assumem-se como as maiores fontes da felicidade humana."
Esta não é uma história cor-de-rosa, nem pretende apresentar uma visão idealizada das relações humanas. Pelo contrário, José Rodrigues aborda realidades duras, como o abuso, a perda e a morte, colocando as personagens perante situações que deixam marcas profundas. Ainda assim, existe uma naturalidade na forma como estes temas são introduzidos e desenvolvidos que me parece ser uma das maiores qualidades do livro.
A emoção surge sobretudo através das personagens, das suas experiências, dos seus segredos e das consequências que determinados acontecimentos têm nas suas vidas. É uma abordagem que permite ao leitor acompanhar o sofrimento sem sentir que está perante uma narrativa artificialmente dramatizada.
Também aqui se reconhece uma escrita muito centrada nas relações humanas. São as personagens, aquilo que vivem e a forma como lidam com o que lhes acontece que dão ao romance a sua força. Há fragilidade, dor e perda, mas também existe a capacidade de continuar, mesmo quando a vida obriga a enfrentar circunstâncias difíceis. Gostei, muito particularmente, da D. Cidália, uma personagem forte, altruísta e bondosa (visível na relação com as pessoas que lhe são mais queridas, como a neta e a amiga Isménia) e, por isso mesmo, inspiradora.


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