Histórias Soltas Presas Dentro de Mim


                                 (imagem do google)

           

11 de Setembro, de 2000

Há quanto tempo tenho adiado estas conversas inevitáveis e que fazem transbordar da minha alma todo o anseio, a saudade, a deceção?!...


Pai, agora, na solidão que me envolve, tu, meu querido, ouvir-me-ás, onde quer que estejas, para além da tua ausência, onde possivelmente ainda velas por mim.


Não fui certamente a filha ideal, a mulher ideal, porque o ideal, talvez não o saibas ou não o queiras saber, é uma perfeição suprema, fruto de uma imaginação, para a qual se canalizam todas as frustrações pessoais. Não há perfeições supremas. Há virtudes e há erros, tal como há sol e seca, chuva e dilúvio. E, se em mim houve tantas vezes sol, outras tantas houve uma estiagem tão estéril que me deixou inativa e perdida. E, se em mim, tantas vezes, os ideais meus ou teus foram regados e fortalecidos pela chuva da vontade, outras tantas se tornaram temporais avassaladores, capazes de arrasar qualquer sonho.


Hoje, nesta pequena quinta do interior, olho tantas e repetidas vezes esta paisagem que foi nossa, que me esmago na solidão do meu ser cansado, para me reencontrar naquilo que fui, naquilo que tive e que faz parte de um passado que transporto até hoje e para sempre.


O dia termina. Estou cansada da noite. O meu desabafo embala-me e o sono espreita pelas janelas deste humilde quarto em que me encontro a conversar contigo.


(excerto inicial)
                                                               Célia Gil
           

                 Hoje transpus-me para casa da minha madrinha, em África. A chave da memória não me permite ver o exterior, só o interior. Abro lentamente e vejo, à minha esquerda, a porta da cozinha aberta. Vejo-me a abrir o frigorífico para tirar um pouco de coco. Está fresco e sabe-me bem. Tenho um ar feliz. Vejo ainda chegar uma criada negra, muito bonita, mas não são as feições do seu rosto que vejo, são as unhas numas belas mãos esguias, unhas longas bonitas e pintadas. Eu e os meus primos escolhemos, cada qual, a sua unha e ela é tão nossa, tão meiga, que ter uma unha sua é um privilégio que nos enche a alma pequenina.
                Subo as escadas a correr e entro no quarto dos meus primos. Eles lêem banda desenhada e eu observo-os. Sempre me deu prazer observar as pessoas, estudar os sentimentos que transmitem em cada gesto, em cada relance de olhar, em cada palavra. Estou feliz! Tenho uns primos inteligentes! Eu sei que terão sucesso no futuro, porque o brilho dos seus olhos mo confessa, porque têm interesses, uma infância preenchida e uns pais que os adoram e farão tudo por eles. Sou, muitas vezes, a prima chata, mais nova, que têm de suportar por umas escassas horas. Mas sou feliz porque os tenho para os chatear, para os questionar ou apenas…para os observar.
                Fecho a porta e regresso, ultrapassando o espaço onde estou para estar com eles. O meu pensamento pousa-lhes uma mão no ombro para lhes dizer que tenho saudades destes tempos de infância, em que a nossa felicidade estava em coisas tão pequenas como na escolha das unhas de uma negra bonita. É incrível como pequenos pormenores nos marcam para sempre.
                                                                                                                            Célia Gil


A família é tudo o que nos prende à vontade de viver. É o nosso objetivo. O cerne de todos os nossos pensamentos. É preciso mantê-la unida. Lembrarmo-nos de quem nos é querido em todos os momentos. Em momentos em que a sociedade, os ditos "amigos" e os colegas tendem a julgar-nos sem se preocuparem com o que verdadeiramente somos ou sentimos, é a família que está sempre "ali" para nos apoiar. É ela que ama incondicionalmente. É ela que não aponta o dedo em riste, mas sugere o melhor caminho, sem condenar. É ela que não age por interesse, mas partilha o que de melhor lhe vai no coração. É ela que não nos deixa cair, nos dá sempre a mão. E mal de quem não pense assim da sua família, é porque não a considera tão "sua" quanto devia, não a preserva, não a merece.

E, por falar em família, aproveito para dar um grande beijo ao meu marido, que me conhece como ninguém, que me valoriza e se preocupa comigo. Abraço os meus filhos que me dão todas as razões para me orgulhar deles e um amor incondicional que é o melhor do mundo.

No próximo sábado, o meu filhote mais velho, de 16 anos, lançará o seu segundo livro, desta feita um romance policial envolvente, fluído, com um enredo dinâmico e que se lê num ápice. Não digo isto por ser meu filho, mas porque este é realmente o género literário para o qual ele está vocacionado. Desejo-lhe muito sucesso, todo o sucesso do mundo. Todo o sucesso que uma mãe pode desejar a um filho.


Bom fim de semana a todos!



                         (imagem do google)

Nas brumas da memória
dançam esqueletos de histórias antigas.
Cruzam-se fisionomias indistintas
traçadas a carvão em recordações de ardósia.
Ouço o seu canto,
longínquo canto perdido nas recordações,
vagueando sem ilusões
a ecoar no meu pranto.
                                               Célia Gil





(imagem do google)

Posso fechar os olhos,
perder-me,
adormecer,
esquecer-me quem sou,
que vou reconhecer-te sempre.
O teu cheiro,
os teus dedos na minha face,
a tua pele na minha,
a tua voz sussurrante
no meu ouvido,
o teu carinho…

Posso estar a entrar
no meu último sono,
que ainda abrirei
uma última vez os olhos
só para te ver,
te absorver
e te levar comigo.

E quando me cerrares as pálpebras,
beija-as mais uma vez,
para sentir o calor dos teus lábios,
na minha fria tez.
Não me dês agora a nossa flor,
vou de tudo despojada,
mas não vou desamparada,
que levo o teu amor.
                              Célia Gil


(imagem do google)

Quieta, no meu lugar comum,
sinto-me invadir por ti,
nos espaços mais recônditos da minha alma,
sem que te espere,
sem que te anseie,
sem que te deseje.
Penetras os meus espaços sagrados,
rasgas ideias pré-concebidas,
vens destruir a autoconfiança,
deitar as tuas sementes do medo,
da angústia, do desassossego.
Espezinhas ínfimas partículas de felicidade,
expremes-me a alma até rolar
em grossas gotículas de lágrimas,
edificas em meu redor paredes de insegurança.

E o que resta de mim?
Um ser a tentar ser sem o perceber.
Uma sombra a tentar ganhar consistência.
Uma miragem de um sonho que não se concretizou.
Partícula de um passado que acabou.
                                                            Célia Gil


(imagem de cá)

Na minha alma impera o outono,
há sentimentos contraditórios
que se difundem no meu peito,
sentimentos puros, simplesmente ilusórios
aos quais me submeto, me sujeito.
Impregna-me o perfume da instabilidade,
a beleza dos campos de cogumelos semeados,
medronhos vermelhos dão cor ao castanho
das folhas secas caídas de ramos cansados.
Cheira a humidade, a caruncho, a terra...
É a natureza, aos poucos,  a apodrecer,
a reagir ao frio estonteante que a aterra.
E a nossa alma também hiberna,
também precisa morrer para renascer,
também ela apodrece, se prostra na caserna
à espera de um novo amanhecer.
Faltam ideias, vontade, iniciativa,
sobeja a preguiça, a ronha, a rotina,
é a mente cansada que já não se sente viva
que precisa de mudar a sua sina.
É preciso acordar a vida que adormece
nesta cama de folhas outonais,
tornar em novo dia a noite que escurece
recuperar todas as forças vitais.
                                                    Célia Gil




Hoje venho apenas apresenta-vos um fenómeno interessante que foi captado por cima da minha casa.
(imagem de cá)

Uma nuvem estranha pairava no céu. 
Por um lado, parece um coração, provavelmente porque em minha casa reina o amor. 
Por outro, parece estarmos a ser invadidos ou alvo de estudo por extraterrestres que se deslocaram aqui através desta nave espacial. 
O céu é um enigma e é incrível a forma como as nuvens se apresentam!
                                                                                                                      Célia Gil

(imagem do google)

No fulgor dos dias citadinos
agitam-se passos apressados
e os dias correm
sem destino, desesperados.
Multiplicam-se imagens passageiras
que são logo substituídas por outras,
todas efémeras, derradeiras
imagens sem vida, ocas.
Vagueiam sentimentos nulos de sentido,
sentimentos sem coração.
Cada ser é um ego perdido
na imensidão de uma vida sem razão.
Soltam-se notas e acordes musicais
que perdem rumo nas ondas auditivas,
ecos de quem não ouve mais
e se desvia, em manifestações fingidas.
Cidade nua de memórias,
onde se perde a identidade,
onde não se cultivam histórias...
Onde está a minha verdadeira cidade?
Quero andar sem pressa,
sentir cada cheiro,
analisar cada gesto
e sentir-me em casa.
Quero dizer bom dia, olá, até amanhã,
respirar a minha cidade,
sentir-me em paz
viver sem ansiedade,
ter a minha interioridade.
                                   Célia Gil
Hoje venho apresentar-vos o nosso mais recente membro da família, o Becas. Tem quatro meses e que sobreviveu porque foi criado à mão, alimentado com uma seringa.
É muito meigo, já diz olá e deixa fazer miminhos a toda a gente. Tem umas asas espetaculares.
Adora beijinhos e o meu marido não perde a ocasião.

O Dragão, nosso cão mais velho, não estranhou o Becas, pois já tínhamos tido outro papagaio.
É um shitsu, meia-leca, que se considera o maior e gosta de se atirar aos cães maiores.

Já de outra forma reagiu o nosso cão mais novo, o Hulk, de onze meses, que tem imensa curiosidade em relação ao Becas. Passa o tempo a olhar para ele e a seguir os seus movimentos.

                                                                                                      Célia Gil









(imagem do google)

Nas mãos temos a paz e a guerra.
Com elas damos, entregamos, compartilhamos.
Com elas tiramos, acusamos, recusamos.
Nas mãos temos a fé e a derrota.
Com elas acreditamos, fazemos justiça, lutamos.
Com elas esmorecemos, desistimos, enlouquecemos.
Nas mãos temos o amor e o ódio.
Com elas acarinhamos, amamos e nos damos.
Com elas nos vingamos, invejamos, ultrajamos.
Nas mãos temos de tudo um pouco,
E de tudo o que temos não temos nada.
São de Deus quando as estendemos na bondade,
São do demónio quando as fechamos à humanidade.
                                                                        Célia Gil



(imagem do google)

Não questiones o destino,
ele só acontece
porque tem de acontecer.
Não o invadas na privacidade
dos seus domínios sagrados.
Não queiras desvendar os segredos
que lhe moram na alma.
Deixa-o acontecer.
Mesmo que o mundo inverta a sua rotação,
os rios não fluam em direção ao mar,
as horas parem em noite de preguiça,
a manhã não chegue a espreitar o horizonte,
a tua vida seja vendaval de emoções,
os sonhos te abandonem em desalento,
o amor seja uma miragem no infinito,
o carinho, um gato arisco e irado…
Ainda que a fé pareça ilusão num pedestal,
as pessoas tenham esquecido o que é humanidade,
o chão pareça fugir-te dos pés…
Não questiones o destino.
Esse é o percurso que nos permite
amadurecer, aprender, viver.
É a trajetória natural da vida,
com que o destino nos prepara,
nos sacode a inércia,
nos grita que somos capazes,
nos permite continuar a sonhar,
continuar a viver e a acreditar.
                                          Célia Gil

(imagem do google)

Nuvens irregulares
dormem aninhadas
umas nas outras
perante a Lua vigilante.
São avantajadas,
branquinhas e suaves
qual algodão doce
em dias de festa.
Da minha janela
ouço-as ressonar,
recarregando forças
para, no dia seguinte,
revigorarem campos sequiosos
com a sua água abençoada.
Sinto dentro de mim
o cheiro da terra molhada
e invade-me a paz do momento.
Pudera eu repousar assim
de tudo o que me perturba,
aninhar-me numa nuvem
pensando que amanhã
cumpriria a minha missão.
Os meus sonhos seriam dominados
pelo branco da paz
pela suavidade de um futuro risonho.
Depois da minha missão,
desfazer-me-ia e perpetuar-me-ia
na Natureza, berço das nuvens.
O ciclo continuaria,
Novas missões, novos sonhos de paz.
E tu, Deus meu,
serias a minha Lua vigilante.

Mas a minha vida
é um vendaval de emoções,
uma torrente de recordações,
uma enxurrada de desilusões.
A minha missão cai por terra
sem abençoar ninguém
com o seu gesto,
destruindo os sonhos,
devastando ilusões.
A fé esmorece,
perde a força,
destruída pelo tufão da vida.
Fecho a janela
e acordo para a realidade.
                                        Célia Gil



O que há em mim hoje
é a solidão existencial
que me deixa à deriva.
Procuro-me no vazio
e encontro o nada.

Há momentos na vida
em que somos soldados da paz,
espalhamos amor,
vivemos amizades,
partilhamos respeito,
proclamamos fé,
seguros de nós,
auto-confiantes.

As dúvidas derrubam-nos
as certezas que se tornam questionáveis.
Demoramos anos a acreditar
em coisas que, num minuto,
perdem a credibilidade.

Vem a ansiedade
semear na alma o desespero.
Vem a angústia
questionar a fé
e pô-la à prova.
Vem a desilusão,
qual vendaval,
levar o amor
soprando-o até ao abandono.
Vem a falsidade
qual sismo
abrir fundas fendas
no sentido
da própria vida.
Vem a insegurança
roubar a autoconfiança,
deixar o ser na solidão.
O ser antes confiante
é hoje alguém que jaz,
só, triste e errante.

E o soldado da paz
deposita as armas no chão,
cansado de lutar sozinho
por uma causa que cria nobre,
mas que não passa de causa vã.

(Assim andamos, portugueses desanimados e fartos de lutar pelo país, sem que nada mude!)
                                                                        Célia Gil
(imagem do google)
Hoje vou voar
por campos verdejantes
atapetados de flores.
Vou pousar devagarinho,
absorver o néctar divino.
E nos meus olhos,
espelho do arco-íris,
brilhará o encanto
desses botões de rosa multicolores.
Qual beija-flor bebericando
as gotas do orvalho,
voando com asas de borboleta
ao som do cântico
que embala ilusões.
E as minhas asas coloridas
confundir-se-ão com as flores.
Pudesse eu para sempre
fundir-me com a natureza,
fazer parte dessa paisagem
que contemplas embevecido,
que cheiras e absorves,
levando-a no teu coração.

Numa altura muito trabalhosa de início de um novo ano letivo, fica aqui um poema que suaviza um pouco este dia a dia stressado.
                                                      Célia Gil


(imagem do google)

Conheço de olhos fechados
as margens dos teus olhos.
Sei quando correm rios
de desespero que te sulcam o rosto.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.

Conheço de olhos fechados
as nuvens que turvam
o sol que te brilha nos olhos
quando uma preocupação
se forma em neblina cerrada
e contrai as formas do teu rosto.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.

Conheço de olhos fechados
a suavidade de seda
das asas de borboleta
que moram na tua face
quando a felicidade cresce
em canteiros de alegria
semeados à porta da tua vida.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.

Conheço de olhos fechados
a fruta madura e sumarenta
que te abre os lábios
quando me beijas
em dias que sabem a algodão doce.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.
                                       Célia Gil



(imagem do google)

Atiras palavras ao vento
que caem em precipícios de emoções,
palavras de dor, de lamento
ou que apaziguam corações.
Sei de cor cada som,
reconheço cada tom
das palavras que me sussurras
ao ouvido, em noites escuras.
Reconheço as palavras passageiras,
esquecidas, adormecidas...
As palavras mensageiras
que vagueiam, assim, perdidas...
E quando o teu silêncio me abraça,
me aquece o desassossego,
esqueço tudo, tudo passa
e mergulho no aconchego
das palavras que me sussurras
ao ouvido, em noites escuras...
                                              Célia Gil

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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