Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Cardoso, Dulce Maria (2021). Autobiografia Não Autorizada. Lisboa: Tinta da China.

 



Nº de páginas: 232

Início da leitura:05/07/2021

Fim da leitura: 28/07/2021

Sinopse do livro:

«Uma autobiografia é uma missão impossível. Deveria escrever um texto rigoroso, só que sou sempre personagem de mim própria, mesmo que narre tudo na primeira pessoa e me apelide Dulce, como se não estivesse a inventar‑me. Escrever é pensar devagar. A lentidão tanto leveda ou germina quanto mirra ou apodrece. E depois existe o outro lado: vós, os que estais aí. Enquanto leitora de ficção procuro inevitavelmente o autor no seu texto. Que verdade esconde o autor na mentira que conta? Uma autobiografia funciona um pouco ao contrário: que mentira esconde o autor na verdade que revela?
Na minha cabeça, a minha vida é um puzzle desmanchado. De tempos a tempos, pego numa peça e detenho‑me a olhá‑la. A pergunta que deveria espicaçar‑me, Onde é que isto se encaixa?, raramente me ocorre. Sempre fui uma má jogadora e sei que há peças perdidas. Também não conheço a imagem que deveria criar com as peças todas. Miro e remiro cada peça a que lanço mão como se estivesse perante o puzzle completo. A determinada altura, coloco‑a sobre a secretária já repleta de outras peças espalhadas.»
— D.M.C

 

Opinião:

Este é daqueles livros que se quer ler devagar, tirar o máximo prazer de cada crónica, de cada palavra, de cada história de vida. A crónica é um género que parte de um acontecimento aparentemente banal do dia-a-dia para o ficcionar, e assim é com Dulce Maria Cardoso, não fosse ela a escrever. A autora, nestas crónicas, ficciona-se a si própria, recorrendo à memória. E o resultado é este: um livro que se quer degustar, completo, bem escrito, intimista, muito bom! Não é, portanto, um diário, um relato autobiográfico puro. É uma obra ficcionada a partir da verdade, não significando isso que seja verdade!

Nestas crónicas temos o espaço da infância, Luanda, onde inicialmente não teve uma plena integração, refugiando-se nos livros; Portugal, desde Cascais, Lisboa à aldeia da infância, em Trás-os-Montes, transpondo-nos, quando a revisita, para as suas memórias de infância, a sua maneira expedita e viva de ser; o Brasil a salvar-lhe a “tristeza salazarenta” e o mundo, onde nos transporta nas viagens que relembra.

Recorda o momento em que voltou para casa da mãe, quando esta começou a sofrer de demência e do quanto esta situação a veio afetar a ela própria.

Fala-nos da situação pandémica vivida e com esta afetou, de alguma forma, a sua vida e da sua família, angústias que são tão nossas, tão reais, na forma como acontecem e como as enfrentamos. As mesmas dúvidas, as mesmas revoltas…

Fala-nos das esperas e perdas da vida, do amor, do fim das relações, dos desconsertos, da felicidade das pequenas coisas, das ínfimas conquistas.

Um livro doce, que abraça, que tanto aconchega como nos deixa desarmados. Adorável!

Ruiz Zafón, Carlos (2020). A Cidade de Vapor. Lisboa: Planeta.

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 25/07/2021

Fim da leitura: 26/07/2021

A Cidade de Vapor, Todos os Contos é o livro póstumo de Carlos Ruiz Zafón, composto por 11 contos inéditos do autor, traduzido por Mário Dias Correia.

Sinopse:

«Sou capaz de evocar rostos de miúdos do Barrio de la Ribera com que por vezes brincava ou lutava na rua, mas nenhum que me quisesse resgatar do país da indiferença. Nenhum, exceto o de Blanca.»

Um rapaz decide tornar-se escritor ao descobrir que as suas invenções despertam um pouco mais de interesse por parte da menina rica que lhe roubou o coração.
Um arquiteto foge de Constantinopla com os planos de uma biblioteca inexpugnável. Um estranho cavaleiro tenta Cervantes a escrever um livro como nunca existiu. E Gaudí, a caminho de um misterioso encontro em Nova Iorque, deleita-se com a luz e o vapor, a matéria de que deveriam ser feitas as cidades.

O eco das grandes personagens e temas dos romances de Cemitério dos Livros Esquecidos ressoa nos contos de Carlos Ruiz Záfon.”

Opinião:

Apesar de não ter lido todos os livros da série Cemitério dos Livros Esquecidos – A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos, de que li apenas o primeiro, A Sombra do Vento, gostei muito deste livro de contos. Sinto, contudo, que poderei voltar a reler depois de ler a tetralogia, apenas para conhecer mais profundamente as personagens que me despertaram já a atenção nos contos e que, pelo que li, completam a série Cemitério dos Livros Esquecidos. Conhecia, no entanto, outros livros do autor, tendo lido O Príncipe da Neblina, O Palácio da Meia-Noite e Marina.

Em todos os seus contos, perpassa a importância dos livros, dos contadores de histórias, situando-as na Barcelona dos heróis e vilões, do crepúsculo e do gótico.

Gostei de todos os contos, se bem que alguns me tenham marcado mais. É o caso de “Blanca e o Adeus”, cujas personagens infantis me captaram desde logo a atenção, a capacidade de o narrador (David Martín) improvisar histórias, que contava a Blanca, a quem ele chama de a sua “primeira leitora”. O próprio facto de o padre compactuar com os encontros entre eles, em troca de uma ajuda na sacristia, todo o enigma que envolve Blanca, tão ao jeito de Zafón, o tornam num conto cativante. O conto “Uma Rapariga de Barcelona”, Laia, vendida pelo pai, uma história macabra e sombria, tipicamente gótica. Em “O Príncipe de Parnaso” reencontrei Daniel Sempere, o livreiro de A Sombra do Vento através do antepassado Antoni Sempere. Neste conto, surge, como diz o próprio narrador, “a história dentro da história”, que é a história de Cervantes, “um poeta nos infernos”. “Homens de Cinzento” é uma história de crime, repleta de ação, na Barcelona que engole as personagens no seu “bosque de fábricas fantasmagóricas e névoas de enxofre”.

Este é um livro que aconselho a ler, após a leitura da tetralogia, um livro que, com certeza, revisitarei.

Leyson, Leon; Harran, Marilyn J.; Leyson, Elisabeth (2014). O Rapaz do Caixote de Madeira. Barcarena: Editorial Presença.

Nº de páginas: 188

Início da leitura: 24/07/2021

Fim da leitura: 25/07/2021

O Rapaz do Caixote de Madeira é um livro de Leon Leyson com Marilyn J. Harran e Elisabeth B. Leyson, traduzido por Fátima Andrade. Quando o estado de saúde de Leon se começou a revelar mais frágil, Tom Zoellner, da Universidade de Chapman, enviou a proposta de publicação do livro de Leyson à Agência Peter Steinberg, que prontamente reconheceu o valor da história e contactou a diretora editorial da Atheneum Books na Simon & Schuster Publishers.

Sinopse: “Leon Leyson tinha apenas dez anos quando os nazis invadiram a Polónia em 1939 e a sua família foi forçada a viver no gueto de Cracóvia. Neste seu livro de memórias, Leon começa por nos descrever uma infância feliz, na sua aldeia natal e felizmente para a família, o seu caminho cruzar-se-ia com o de Oskar Schindler que os incluiu na célebre lista dos trabalhadores da sua fábrica. Na altura com apenas 13 anos, Leon era tão pequeno que tinha de subir para cima de um caixote de madeira para chegar aos comandos das máquinas. Ao longo desta história, que reproduz com autenticidade o ponto de vista de uma criança, Leon Leyson deixa-nos entrever, no meio do horror que todos os dias enfrentavam, a coragem, a astúcia e o amor que foram necessários para poderem sobreviver.”

Opinião: Este livro é emocionante e é impossível ficar-se indiferente à história de vida de Leon Leyson. É uma história real, passada durante a Segunda Guerra Mundial. O que me prendeu desde logo a este livro, para além do interesse que tenho na temática, foi o facto de ser relatada pela voz de uma criança. É a voz ingénua de uma criança, que não imagina que determinadas atrocidades possam ser ou vir a ser reais. É uma criança que vive nos guetos com a família e que nos conta o valor dessa instituição, que é a família, na comunidade judaica. Foi sempre seu desejo manter a família unida, mesmo nos momentos mais difíceis. Padeceu muitas atrocidades, como a fome extrema, os espancamentos, o trabalho desumano. Conta-nos tudo o que ainda continuaram a passar, mesmo após a libertação, em 1945, voltando como refugiados, estrangeiros, retornados…, sem saberem ser livres. Ainda assim, tem a noção de que não passou nem por metade do que passaram os enviados para Auschwitz e Birkenau. E agradece-o a Schindler. Ele e a família fizeram parte da Lista de Schindler, considerando-se como um dos “filhos” de Schindler. Este valeu-se da sua condição de nazi para traçar uma estratégia que lhe permitisse salvar, como sucedeu, os cerca de mil e duzentos judeus “de uma morte quase certa”. As fotos mostram-nos os locais onde viveram, a família de Leon, as suas conquistas, os amigos, documentando vários momentos da história e deixando-nos irremediavelmente ligados a esta família.

E mais não conto. Apenas sugiro a leitura deste pequeno grande livro.

J. Múñez, Fernando (2020). A Cozinheira de Castamar. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 616

Início da leitura: 20/07/2021

Fim da leitura: 24/07/2021

A Cozinheira de Castamar é um romance de Fernando J Múñez e traduzido por Carla Ribeiro.

Sinopse:

“Clara Belmonte é uma jovem de uma família abastada que, após a morte do patriarca, um dos mais prestigiados médicos de Madrid, se vê cair na mais completa pobreza.

Apesar da educação primorosa que recebeu, Clara precisa de uma forma de sustento e acaba por se candidatar a um trabalho nas cozinhas do palácio ducal de Castamar, que conquista graças ao talento para a culinária que herdou da mãe.

Clara não é bem recebida nos primeiros tempos. A sua eloquência, bem como o rigor na limpeza das cozinhas e a ousadia no requinte dos pratos, depressa a elevam na atenção dos habitantes da casa e no ciúme dos colegas de trabalho.

Mas é Dom Diego, o duque de Castamar, quem Clara mais impressiona. Arrancando-o à apatia absurda em que vive desde o estranho falecimento da mulher, a jovem cozinheira fá-lo derrubar todas as barreiras, despertando-lhe o palato, o intelecto e, por fim, o coração.”

Opinião:

Como aspetos mais positivos, saliento o ritmo, que é rápido, talvez pelo facto de a ideia de escrever este livro ter surgido ao autor, durante a rodagem do filme Rodolfo Sancho. Um dos conceituados atores, desafiou-o escrever uma série de época e, assim, escreveu a obra ao mesmo tempo que foi preparando o argumento para a televisão. E escreveu a obra, porque não se satisfez apenas com os guiões, afirmando que, e passo a citar, “Os guiões não deixam de ser obras que esperam converter-se em algo mais, como crisálidas que esperam transformar-se em borboletas.”

O facto de haver uma contextualização histórica, que nos permite perceber maneiras de agir e de pensar, também é um aspeto a favor. A história contextualiza-se na Espanha do séc. XVIII, no período da guerra e do pós-guerra, numa sociedade altamente machista, intransigente e esclavagista.

É interessante conhecer melhor a sociedade espanhola da época, as suas tradições (como o facto de não ser um hábito tomarem banho, porque se pensava que o banho trazia doenças), a violência de que eram capazes “por dá cá aquela palha”, o poder das pessoas de linhagem, que tinham imensos criados ao seu serviço, a forma como a mulher era vista, desde deusa a quem veneravam à rameira menor da plebe, um ser inferior, muitas vezes vítima de violência doméstica, por homens que bebiam excessivamente. E algumas atitudes hoje consideradas normais, eram vistas como atitudes de desonra, sendo fácil a mulher cair “em desgraça”. Por sua vez, alguns homens abusavam delas, usando-as a seu bel-prazer.

Mas, ainda a salientar, os senhores de Castamar que, contrariamente a grande parte dos senhores da época, devido à educação que lhes fora dada pelo pai, tinham uma atitude diferente. Tinham adotado um negro, que o protagonista assumia como irmão, seu igual, o que era visto com muito maus olhos pelos restantes. É abordada uma relação homossexual, o que também não é comum, quando se retratam estas épocas. A protagonista revela já, em determinados momentos, uma atitude diferente de algumas mulheres subordinadas, quando impõe a sua forma de pensar, de agir e até de falar, seja com alguém da sua suposta classe, seja de classe superior. A forma como cozinha mostra o requinte a que não estavam habituados na época e é através dos seus cozinhados que vai impondo a sua presença e conquistando o respeito e admiração de grande parte dos que a rodeiam.

A história principal parte de uma premissa, no meu entender, um pouco pobre, a cozinheira que conquista o seu conde, através da atenção posta nos cozinhados.

Tirando algumas questões amorosas demasiado previsíveis e, quanto a mim, algo “melosas”, não deixa de ser um bom livro, bem escrito e apelativo.

Poemas é uma pequena antologia de poemas da Leya, publicado em 2009 e que reúne poemas de 28 poetas de expressão portuguesa e passo a citar: “Dizia Carl Sandburg que a Poesia é um eco que convida uma sombra para dançar. Se esta antologia convocar as sombras, e a dança com o leitor acontecer, estará plenamente justificada a sua publicação” (Grupo Leya).



E, realmente, esta antologia só peca mesmo por ser pequena, porque os poemas foram bem escolhidos e abordam vastas temáticas e poetas. Entre os temas abordados, destaco o “eu errante e mareante”, de Manuel Alegre; a ingenuidade dos nossos contemporâneos, de Fernando Pinto do Amaral; o materialismo em detrimento do sagrado, de João Aparício; o naufrágio da alma humana, de mia Couto; a despedida e solidão por Gastão Cruz; reinvenção da infância, de Manuel Gusmão; o abandono de si mesmo, de Guita Jr; ilusões, de Nuno Júdice; saudade, de Conceição Lima; entre outros.

Termino com dois poemas que apreciei particularmente:

Poema

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

 

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

 

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

 

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

 

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

 

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

 

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

 

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

 

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

 

                       [Maria Teresa Horta, pp. 27-28]

 

Rondó da Escrita

No que escrevi me traduzi

e traduzi outros também

e traduzindo me escrevi

e a escrever-me fui eu quem

 

das várias coisas que senti

fez sofrimento de ninguém,

depois risquei, depois reli

e publiquei: assim porém

 

havia sempre mais alguém

para o chamar então a si.

também vivendo o que menti,

mas como seu, mas como sem

 

ter sido meu o que escrevi

fosse por mal, fosse por bem,

é a sua vez, e que mal tem?

no que escrevi sobrevivi.

 

                   [Vasco Graça Moura, pág. 43]

User 297783017 · Poema de Maria Teresa Horta e Rondó da Escrita de Vasco Graça Moura

Whitehead, Colson (2020). Os Rapazes de Nickel. Lisboa: Alfaguara.

Nº de páginas: 248

Início da leitura: 18/07/2021

Fim da leitura: 19/07/2021

Os Rapazes de Nickel é um romance de Colson Whitehead, escritor nova iorquino, traduzido por Hugo Gonçalves. Foi prémio Pulitzer de ficção, prémio kirkus e finalista do National Book Critics Circle Award e do Orwell Prize for Political Fiction.

SINOPSE

“Colson Whitehead regressa com a história de dois amigos que lutam pela sobrevivência num reformatório para jovens, num país e num tempo em que a cor da pele determina demasiado.

O seu destino acaba no reformatório Nickel, uma instituição que se vangloria de fazer dos seus rapazes homens honrados e honestos. Mas por trás da fachada de rigor esconde-se uma câmara de horrores.

Do aclamado autor de A Estrada Subterrânea chega-nos esta história baseada em factos reais, de dois amigos que lutam pela sobrevivência num reformatório para jovens onde, por trás da fachada, se esconde uma câmara de horrores.

À medida que o cerco aperta no reformatório, parece haver apenas dois caminhos possíveis: fugir ou aceitar o cruel destino dos que ousam rebelar-se. Turner, o novo amigo de Elwood, está convicto de que a solução passa por repetir a crueldade dos opressores. Já Elwood acredita que é possível seguir o pacifismo que Luther King advogava. O cepticismo de um e o idealismo do outro levá-los-á a desembocar numa decisão com repercussões inescapáveis. Baseada no caso real de um reformatório da Flórida que destruiu a vida de milhares de jovens, Os rapazes de Nickel é um romance de brutal impacto emocional. Uma obra literária que exibe a pujança de um escritor em plena forma, que explora a ferida aberta da segregação racial nos Estados Unidos e levanta uma poderosa voz contra a injustiça.”

Opinião:

Este incrível relato na primeira pessoa, apesar de ficcional, baseia-se em factos reais, ocorridos num reformatório na Flórida, Arthur Dozier Scholl for Boys, nos anos 1950/60, que acabou por ser investigado, quando encontraram campas com corpos não identificados. Os rapazes, especialmente de raça negra, enviados para esta casa de correção, acabavam por ser vítimas de uma crueldade ímpar, agredidos de forma extrema.

A forma direta e dura como esta história cruel nos é contada, choca e faz-nos sofrer com as personagens. Queremos forçosamente acreditar numa mudança, até pela forma como o protagonista, Elwood, pensava, pelo seu interesse pelos estudos, pelos livros. Porque acreditava que poderia almejar um futuro melhor, ao decidir seguir os estudos universitários. Mas, nem sempre o destino é justo e Elwood vê-se apanhado no emaranhado que o destino teceu. Este livro faz-nos sentir as constantes atrocidades a perpassarem-nos a alma, deixando-nos impotentes e com uma grande sensação de revolta, porque “Aqui e lá fora é tudo igual, só que aqui ninguém tem de fugir” (citação do livro). Um livro que aconselho vivamente à leitura!

Esquível, Laura (2020). O Diário de Tita. Alfragide: Edições ASA.







Nº de páginas: 304

Início da leitura: 16/07/2021

Fim da leitura: 17/07/2021

 

O Diário de Tita é um romance de Laura Esquível, traduzido por Tânia Sarmento e que nos dá conta dos segredos que estiveram por detrás da família De la Garza do célebre Como Água para Chocolate.

 

Sinopse:

“Todas nós, cozinheiras, sabemos que dentro das panelas acontecem coisas maravilhosas. Há amor. Há união. Há fogo. Há paixão. Tudo se dissolve. Tudo se mistura. Tudo se transforma. E é isso que eu ofereço a Pedro todas as manhãs. O meu amor transformado em cheiro, em sabor, em calor. Quem diz que isso não é fazer amor?
Tita de la Garza cumpre a tradição do seu país e dedica a sua vida a cuidar da mãe. No seu rosto, sempre um sorriso. No coração, uma mágoa profunda que apenas o seu diário conhece…

Nas páginas gastas deste caderno, Tita revela a sua alma. De receitas a recordações, desenhos a fotografias, amores torturados a infidelidades, é neste local sagrado que Tita partilha os segredos do seu coração.

Um livro íntimo que acompanha todos os passos da família De la Garza - e em que Laura Esquivel nos mostra os mágicos e secretos fios com que se teceu a trama de Como Água para Chocolate, a maravilhosa história que encantou o mundo.”

 

Opinião:

Um livro completamente diferente, em termos gráficos, com a configuração de um diário, não só pelo tipo de letra desenhada, mas pelas imagens de colagens, desenhos, cartas e fotos e pela sugestão de páginas queimadas, de um diário que resistiu às chamas para nos revelar segredos e nos deliciar com a história e as receitas de Tita.

Além do aspeto gráfico, é, Como Água para Chocolate, um livro muito bem escrito. Uma escrita simples, mas íntima, poética, mágica e, realmente, deliciosa. Dramas familiares que se cruzam com tradições mexicanas, muito bem retratadas. Um livro que aconselho vivamente!

Apesar de ser o segundo livro de uma trilogia, é possível ler-se sem se ter lido o primeiro, se bem que o primeiro seja realmente muito bom.

Coelho, João Pinto (2015). Perguntem a Sarah Gross. Alfragide: Publicações Dom Quixote.



Nº de páginas: 448

Início da Leitura: 13/07/2021

Fim da Leitura: 16/07/2021

Sinopse:

“Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.”

Opinião:

É sempre com imenso prazer que leio um livro de João Pinto Coelho, um escritor completo, que concilia boas histórias, criatividade, boa escrita, ritmo cinematográfico, o que nos deixa sempre irremediavelmente presos às histórias. A narração é alternada entre a época de 1923 e a de 2013, de forma bem concebida.

Entendo perfeitamente a razão de o autor ter sido finalista do Prémio Leya em 2014 com este livro. E creio que seria um justo vencedor, não menosprezando o Pão-de-Açúcar de Afonso Reis Cabral.

Gosto da forma como Pinto Coelho escreve sobre o Holocausto, como desenvolve as questões políticas que estiveram por detrás da História e não apenas o falar por falar de muitos livros que apostam logo, nos seus títulos, em Auschwitz e Birkenau, para se tornarem mais vendáveis. As personagens são credíveis, fortes, muito bem trabalhadas. Sentimos com elas, ouvimos histórias com elas, queremos, como elas, saber mais e perceber tudo o que se passou e, finalmente, surpreendemo-nos com elas e como elas!

É uma história sem heróis, mas com seres humanos, com tudo o que têm de bom e de mau. Ninguém, afinal, é perfeito, não é? E o comportamento destas personagens desperta-nos sentimentos de impotência, de resistência, de arrogância, de repulsa, de indignação, mas também de admiração, de comunhão, de alívio, de perda e de luto. E, ainda que seja um tema pesado, não deixa de nos suscitar ternura e despertar alguns sorrisos. É um livro duro, que nos abana e que toda a gente devia ler! É um livro completo.

Isaac, Maria (2017). Onde Cantam os Grilos. Lisboa: Cultura Editora.


Nº de páginas: 296

Início da leitura: 11/07/2021

Fim da leitura: 12/07/2021

Onde Cantam os Grilos é um romance de Maria Isaac, nascida no norte de Portugal e residente em Lisboa, finalista do Prémio Fundação Eça de Queiroz 2019 e a voz do podcast literário “Palavra”.

SINOPSE:

“Ainda bebé, Formiga foi deixado num cesto nos degraus da casa da Herdade do Lago.

O mistério da sua chegada é apenas mais um na longa história da herdade e das várias gerações dos Vaz, que a assombra de lendas e maldições: uma fonte inesgotável de mistérios fascinantes para a imaginação do rapazinho cabeça de vento.

Deslumbrado pela vida da família que venera de forma atrapalhada, Formiga corre e trepa a árvores, encolhe-se, faz-se invisível, inventa um pouco de tudo para conseguir acompanhar conversas, descobrir mais um segredo.

Mas o último segredo que ele descobre revela-se demasiado grande para a curiosidade bem-intencionada de uma criança, e um erro seu acaba por destruir o único mundo que conhece e pôr fim à sua infância.

Mais de vinte anos depois, Formiga regressa à Herdade do Lago e escreve para um leitor invisível, relembrando tudo o que foi e que não deveria ter sido.

Uma história doce contada pela voz de um adulto que fala pela criança que foi um dia."

OPINIÃO:

Com a simplicidade de um narrador de 10 anos, que se vai apaixonando por poesia, a história chega-nos através de Formiga, a criança que fora deixada num cesto na Quinta do Lago e que foi acolhida e educada pela estranha família Vaz.

Gostei da forma como está escrito, pois a linguagem retrata as personagens que a utilizam, permitindo-nos imaginá-las a tecer algumas considerações entre elas.

É um drama familiar, a que Formiga assiste, vivendo todos os anseios e problemas da família que o acolheu. Em toda a narrativa, vamos tendo regionalismos, menção a tradições, iguarias e superstições do norte do país, o que o torna mais verosímil.

Formiga é uma criança aplicada nas tarefas que lhe são distribuídas. Adora a natureza, calcorrear a quinta, subir às árvores, entre outras. Gosta de saber tudo o que se passa com todos os membros da família. Uma família repleta de segredos, de paixões moralmente não aceites.

Vai desenvolvendo um gosto especial por poesia, que regista num caderno que lhe foi oferecido por Fernando e que passa a ser o seu grande tesouro.

Numa linguagem fluída, damos por nós a dar colo a esta criança, que depressa se torna o nosso Formiguinha e que queremos acompanhar até ao fim. Não sei se esse fim foi o melhor. Senti que faltava algo. Outro aspeto que considerei um pouco forçado, foi a inspiração no “Amor de Perdição”, porque a perdição de amor poderia ser mais consistente e trabalhada.

Em todo o caso, no computo global, gostei.

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 10/07/2021

Fim da leitura: 11/07/2021

1984, A Novela Gráfica é uma adaptação do clássico de George Orwell por Fido Nesti, publicada em 2020 pela Penguin Random House.

Sinopse:

“No ano 1984, Londres é uma cidade lúgubre, em que a Polícia do Pensamento vigia de forma asfixiante a vida dos cidadãos. O mais grave dos crimes é ter uma mente livre.

Winston Smith é um peão nesta engrenagem perversa e a sua função é reescrever a História para a adaptar ao que o Partido considera a versão oficial dos feitos. É o que faz, até decidir questionar a verdade do sistema repressor. Na ânsia de liberdade e verdade, arrisca a vida ao apaixonar-se por uma colega, a bela Julia, e rebelar-se contra o poder vigente.

Publicada originalmente em 1949, a obra mais poderosa de George Orwell é, pela primeira vez, adaptada a novela gráfica, no traço do artista brasileiro Fido Nesti, que capta magistralmente os rostos, corpos e cenários de um mundo que, cada dia, é menos difícil de imaginar.”

Opinião:

Esta distopia, com uma realidade prevista quando a obra foi escrita, em 1949, faz-nos pensar que Orwell era um visionário. Não estaremos todos, hoje em dia, sob a mira do “grande irmão”?

Mas quando essa mira é posta ao serviço de um governo totalitarista, lembrados a toda a hora, por cartazes que indicam que “O Grande Irmão está a ver-te”, obrigados a viver “graças a um hábito transformado em instinto”, vigiados de forma constante e meticulosa pelos telecrãs, não podendo manifestar jamais qualquer sentimento (nem sequer de espanto), celebrando “A Semana do Ódio”, constatamos que não é fácil viver sem que se sentir atemorizado, receoso de cometer alguma imprudência. A ação decorre em Londres, designada como Pista Um e Winston Smith vive sob essa pressão, temendo até lembra-se do passado, da mãe e da irmã. Receia manifestar o que realmente pensa (“eu odeio o Grande Irmão”), pois a Polícia do Pensamento está sempre atenta. Então, a verdade tem, necessariamente, de passar a ser a do Partido. Ninguém é livre de viver nem de pensar. Até a língua, sujeita ao novo e reduzido Dicionário de Novilíngua, é uma forma de repressão, porque a tacanhez de espírito é muito conveniente a um Partido repressivo como o vigente.

Gostei muito deste livro, penso que não desvaloriza a obra original e confere-lhe, se possível, mais vivacidade, através do poder evocativo da imagem. As ilustrações são impressionantes, duras, captando de forma tão intensa os pensamentos, emoções, medos e vidas das personagens, que, em alguns momentos, nos arrepiam e nos levam a sofrer com elas.

Melo, Filipe e Cavia, Juan (2021). Balada para Sophie. Lisboa: Penguin Random House Grupo Editorial.

Nº de páginas: 320

Início da Leitura:10/07/2021

Fim da Leitura: 10/07/2021

Balada para Sophie é uma novela gráfica, escrita por Filipe Melo e ilustrada por Juan Cavia, que acabou de vencer os Prémios Bandas Desenhadas 2020 em três categorias: publicação, argumento e ilustração nacionais. Foi também Prémio Livro do Ano Bertrand na categoria de melhor livro de ficção lusófona, a par de O Mapeador de Ausências de Mia Couto. Bem merecidos estes prémios.

Esta novela gráfica é, de facto, extraordinária. Além de ilustrações maravilhosas, o argumento é, realmente, uma delícia.

Sinopse:

“Cressy-la-Valoise, 1933

Dois jovens pianistas, nascidos numa pequena vila francesa, cruzam-se num concurso local. Julien Dubois, o herdeiro privilegiado de uma família rica, e François Samson, o invisível filho do responsável pela limpeza do teatro. Nessa noite, um deles venceu.

Cressy-la-Valoise, 1997

Uma enorme mansão é abalada pela inesperada visita de uma jornalista. Numa nuvem de cigarros e memórias, algures entre a realidade e a fantasia, Julien vai compondo, como numa partitura, uma história sobre o preço do sucesso, rivalidade, redenção e pianos voadores. Afinal, algum deles alguma vez terá vencido? E haverá ainda alguma música por tocar?”

OPINIÃO

Devo dizer que não consegui largar este livro enquanto não o terminei. É uma verdadeira delícia. Uma história profunda que não nos deixa indiferentes. Daquelas que não esqueceremos tão facilmente.

Começamos com a visita de Adelina, que se apresenta em casa de um antigo pianista famoso, Julien Dubois (que ficou conhecido sob o nome artístico de Eric Boujour), como uma jornalista do Le Monde, para fazer uma entrevista. Depois de recusar e de ela ficar a dormir ao relento à porta de sua casa,  Julien acaba por aceder a dar-lhe a entrevista. É aí que passamos a conhecer o verdadeiro Julien Dubois, como se tornou pianista, quais as verdadeiras motivações, as rivalidades, o mundo da fama e o pedantismo, o que o tornou, aos seus olhos, um vilão.

E mais não conto, porque aconselho vivamente a deliciar-se com esta excelente obra. Bem escrita, com um argumento incrivelmente bom! Este protagonista é um anti-herói, que nos revolta e, ao mesmo tempo, nos comove. Duro, verosímil e enternecedor, é uma leitura a não perder!

“É incrível a força que se ganha…Quando alguém acredita em nós mais do que nós próprios.” (pág. 103).

NG, Celeste (2014). Tudo o Que Ficou Por Dizer. Alfragide: Edições ASA.

Nº de Páginas: 248

Início da leitura: 06/07/2021

Fim da leitura: 09/07/2021

Tudo o que Ficou por Dizer é um romance escrito pela norte americana Celeste Ng, traduzido por Cristina Correia.

Sinopse

«"Lydia morreu. Mas eles ainda não sabem."

Começa assim o avassalador romance de Celeste Ng. É de manhã, a família desperta para o pequeno-almoço. O pai, a mãe, o filho mais velho e a filha mais nova. Há, porém, um lugar vago à mesa e um silêncio que pesa. A filha do meio, a favorita dos pais, está ausente.

Como morreu, ou porque morreu, é para já um enigma. Há um inquérito, dúvidas, suspeitas e acusações. E uma teia delicada de dramas antigos, de segredos, que se vão desvendando pela voz (e pelo olhar) de cada um dos elementos da família. Apaixonamo-nos por eles, tão expostos (e tão frágeis) nesse momento de perda. Conhecemos a mãe, loura e de olhos azuis, que abandonou o sonho de uma vida pela filha - a quem depois virá a exigir o impossível. O pai, de ascendência chinesa, que projeta na única filha de traços ocidentais a sua própria integração na América. E conhecemos os irmãos de Lydia, a quem foram dadas apenas as sobras do amor - mas que nem por isso deixaram de a amar.

Tudo o que Ficou por Dizer é um romance pungente, narrado numa voz terna, por vezes poética, sempre precisa. É uma obra sobre os não-ditos, os abismos que se abrem nas famílias, os esquecimentos do amor. E sobre esse enorme mistério chamado Lydia, que na hora da sua morte ofereceu à família, por fim, uma hipótese de redenção.»

Opinião: Inicialmente, pensei que se tratava de um thriller. Porém, à medida que fui lendo, apercebi-me que é um drama familiar. Mas não é um drama familiar lamechas, antes pelo contrário. Este livro é forte, duro e faz-nos refletir. Esta família sui generis, que começou com um casamento que nunca foi aceite pela avó materna de Lydia (que nunca chegou sequer a saber da existência dos netos), tem uma vida que, provavelmente, muitos têm, com as dúvidas, o questionamento do papel de cada um no seio familiar, a transposição dos sonhos dos pais para os filhos (ignorando ou fazendo por ignorar que isso os poderá tornar muito infelizes), a distinção entre os filhos, as dúvidas existenciais, as dúvidas no casamento, as relações extraconjugais, as relações e opções sexuais… A história começa precisamente pelo fim: a Lydia, uma das filhas do casal, morreu. A partir daí, alternando tempos da narrativa, vamos tentando perceber se houve um crime e o que poderá ter provocado a morte de Lydia. Num ritmo por vezes lento, outras vezes rápido, integramos esta família para a acompanharmos nos seus dramas. É fácil tentar percebê-las, de tão verosímeis que são as personagens. Numa escrita agradável, surge um drama bem articulado e que, muitas vezes, nos choca e nos faz pensar como os pormenores podem ser fundamentais no seio familiar. Muitas vezes, pensamos que conhecemos bem as pessoas, que cuidamos delas, que as vemos. Mas será assim?

Aconselho a leitura deste livro, que não me deixou indiferente.


Dewitt, Jasper (2021). O Paciente. Amadora: TopSeller.

Nº de páginas: 208

Início da leitura: 05/07/2021

Fim da leitura: 05/07/2021

O Paciente é um thriller escrito por Jasper Dewitt e traduzido por Marta Mendonça.

Confesso que parti para esta leitura já algo apreensiva, pelas críticas negativas que tinha lido. Porém, não consigo apreciar um livro se não o li. Porém, a referência a uma semelhança com A Paciente Silenciosa de Alex Michaelides, que adorei, também constituía uma motivação.

Sinopse:

“Os nossos receios mais profundos e as nossas recordações mais dolorosas são o que o alimenta.

Numa série de publicações online, Parker H., um jovem e ambicioso psiquiatra, relata o seu terrível trabalho num hospital psiquiátrico e o seu esforço para curar um paciente desconcertante e muito perigoso: um homem de 40 anos que está internado desde os 6. Trata-se do caso mais difícil da instituição, pois o paciente não tem diagnóstico conhecido, e os seus sintomas parecem evoluir com o tempo. Cada pessoa que tentou tratá-lo foi levada à loucura ou ao suicídio.

Desesperados e temerosos, os diretores do hospital mantêm-no rigidamente confinado e permitem apenas o contacto indispensável com a equipa para a segurança de todos, convencidos de que libertá-lo representaria uma séria ameaça para a sociedade.

Parker assume a responsabilidade de descobrir o que aflige esse paciente misterioso, com o objetivo de o curar. Mas as coisas fogem ao seu controlo desde o primeiro encontro. E, diante de uma possibilidade inimaginável, Parker é forçado a questionar tudo aquilo em que julgava acreditar.”

Opinião: Primeiramente, este livro nada tem a ver com A Paciente Silenciosa. Este é um livro muito fraco, que, para além de não ter grande substância, tem uma escrita que não me atrai. Inclusive a apresentação da história como publicações num fórum de psiquiatras. Também achei o enredo pouco credível, em vários aspetos: o processo o paciente, as tentativas de cura, a família, o facto de estar internado há tantos anos… Então, a partir do momento em que, de repente, surge uma explicação sobrenatural vinda do nada, foi o descalabro total. Não há comparação possível entre este e A Paciente Silenciosa, esse sim estimulante, bem escrito e com um enredo que nos prende do início ao fim.

Só não deixei a leitura a meio, porque raramente o faço.


Haig, Matt (2021). A Biblioteca da Meia-Noite. Amadora: TopSeller.

Nº de páginas: 336

Início da Leitura: 03/07/2021

Fim da Leitura: 04/07/2021

A Biblioteca da Meia-Noite é um romance escrito por Matt Haig e traduzido por Ana Mendes Lopes.

“Sinopse do livro:

Se pudesses escolher a melhor vida para viver, o que farias?

No limiar entre a vida e a morte, depois de uma vida cheia de desgostos e carregada de remorsos, Nora Seed dá por si numa biblioteca onde o relógio marca sempre a meia-noite e as estantes estão repletas de livros que se estendem até perder de vista. Cada um desses livros oferece-lhe a hipótese de experimentar uma outra vida, de fazer novas escolhas, de corrigir erros, de perceber o que teria acontecido se tivesse escolhido um caminho diferente. As possibilidades são infinitas e vários horizontes se abrem à sua frente.

Mas será que algum desses caminhos lhe proporciona uma vida mais perfeita do que aquela que conheceu? Na altura da escolha final, Nora terá de olhar para dentro de si mesma e decidir o que de facto lhe preenche a vida e o que faz com que valha a pena vivê-la.

A Biblioteca da Meia-Noite transformou-se num bestseller a nível internacional, com um milhão de livros vendidos em todo o mundo.”

Opinião: Escrito numa linguagem simples, fluída e, ao mesmo tempo, intensa, este livro veio no momento certo. De cariz filosófico, a história é a resposta à pergunta que se coloca na sinopse: “Se pudesses escolher a melhor vida para viver, o que farias?”

É quando Nora decide morrer, num momento em que tudo lhe corre mal, desde a morte do gato à perda do emprego, à desistência do seu casamento…que encontra um vasto número de possibilidades nesta Biblioteca da Meia-Noite. Esta confere-lhe a oportunidade de experimentar as vidas que poderia ter escolhido, as milhares de hipóteses que foi descartando ao longo da vida e que constam do “Livro dos arrependimentos”. Mas, acontece que, após cada deceção experienciada, regressa sempre a esta biblioteca, a qual só desaparecerá, se ela encontrar a vida que quer realmente viver ou que, de algum modo, faça sentido viver. Esta busca ontológica, surge, assim, em forma de fábula, “entre vidas” ou numa “vida paralela”, totalmente irreal, mas cativante.

É inevitável não nos identificarmos com alguns dos arrependimentos. Todos nós, de uma maneira geral, nos questionamos se vivemos a vida que sonhámos, como escolhemos viver esta vida, o que determinou essas escolhas.

De certa forma, apesar de considerar a premissa maravilhosa, esperava mais substância, menos previsibilidade, menos otimismo, uma vez que toca em temas sobejamente importantes, como o suicídio, a depressão, os receios, os arrependimentos, as indecisões, as tomadas de decisão, que nem sempre são as melhores, nem as que desejamos. Uma boa leitura de verão, quando precisamos repor energias e encarar com otimismo o que a vida nos possa reservar.

Tyce, Harriet (2021). As Tuas Mentiras. Amadora: TopSeller.

Nº de páginas: 384

Início da leitura: 01-07-2021

Fim da leitura: 03-07-2021

As Tuas Mentiras é um thriller escrito por Harriet Tyce e traduzido por Marta Mendonça.

Apesar de, em alguns momentos, a história se revelar um pouco lenta, gostei bastante deste livro. É um thriller psicológico que envolve temáticas bastante atuais e pertinentes. Não haverá, em todas as escolas, uma comunidade de mães/pais que exercem uma enorme pressão sobre os filhos para que sejam os melhores, tenham as melhores notas, entrem nas melhores Universidades? E quantas vezes estes pais procuram médicos que receitam estimulantes para a memória dos filhos, alegando que andam cansados por causa dos testes e que precisam de uma ajudinha? E a pressão exercida sobre os miúdos, a competitividade que lhes é passada?

Outro assunto atual: a pedofilia e a forma como, algumas pessoas, ainda que formadas e informadas, desvalorizam e atribuem as culpas à forma como as crianças se vestem, se pintam, se comportam, como se isso fosse a desculpa para o “ataque” de um pedófilo sem escrúpulos!?

Não menos importante, o tema da corrupção. Quantas pessoas se veem envolvidas em empresas fraudulentas, acabando por, sem querer, pôr em risco a própria família?

Sadie Roper regressa a Londres com a filha, Robin, à casa da sua infância, da sua falecida mãe, apesar de não ter as melhores memórias desses tempos. Sadie deixa para trás o marido, que a terá traído e tenciona retomar a sua atividade profissional, como advogada criminal. Consegue inscrever a filha na escola que frequentou na infância, apesar de ser muito difícil obter vaga. Pensa que esta exceção se terá devido ao facto de também ela ter sido uma antiga aluna dessa escola.

É nesta escola que Sadie encontra a tal comunidade de mães que estimulam uma competitividade entre as filhas, que não é, de maneira nenhuma, saudável. Se nem tudo corre bem nesta adaptação de Robin à nova escola, também profissionalmente não corre tudo às mil maravilhas. Sadie vê-se perante um caso, aparentemente de fácil resolução, mas que a intriga e incomoda. Também o regresso às memórias dos tempos em que viveu naquela casa com a sua mãe, não são as melhores. Apesar de, aos poucos, começarem a integrar-se melhor a comunidade local, nem tudo corre bem.

Aconselho a leitura deste livro para quem gosta de thrillers psicológicos, uma vez que nos envolve, está bem escrito e aborda temáticas bastante pertinentes.

Mensagens mais recentes Mensagens antigas Página inicial

Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

POSTS POPULARES

  • Yesteryear, Caro Claire Burke
  • Mistérios, Knut Hamsun
  • Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas
  • Adeus Peúgas, Benjamin Chaud
  • Quem É Amado Nunca Morre, Victoria Hislop

Arquivo

  • ▼  2026 (135)
    • ▼  outubro (9)
      • Quando, Carla Madeira
      • Cartas ao Capitão Nemo, Antonio Tabucchi
      • Sou uma multidão Minúscula, Susana Amaro Velho
      • A Vendedora de Flores, José Rodrigues
      • A Verdade Sobre Ruby Cooper, Liz Nugent
      • A Estranha na Cama, Raphael Montes
      • O Cheiro Dele Depois da Chuva, José Luis Munuera
      • Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas
      • Yesteryear, Caro Claire Burke
    • ►  setembro (14)
    • ►  agosto (16)
    • ►  julho (15)
    • ►  junho (16)
    • ►  maio (11)
    • ►  abril (16)
    • ►  março (12)
    • ►  fevereiro (14)
    • ►  janeiro (12)
  • ►  2025 (176)
    • ►  dezembro (14)
    • ►  novembro (11)
    • ►  outubro (13)
    • ►  setembro (13)
    • ►  agosto (19)
    • ►  julho (16)
    • ►  junho (16)
    • ►  maio (15)
    • ►  abril (12)
    • ►  março (19)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (17)
  • ►  2024 (160)
    • ►  dezembro (7)
    • ►  novembro (17)
    • ►  outubro (13)
    • ►  setembro (12)
    • ►  agosto (18)
    • ►  julho (22)
    • ►  junho (20)
    • ►  maio (17)
    • ►  abril (7)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (8)
  • ►  2023 (153)
    • ►  dezembro (18)
    • ►  novembro (13)
    • ►  outubro (12)
    • ►  setembro (7)
    • ►  agosto (20)
    • ►  julho (16)
    • ►  junho (12)
    • ►  maio (13)
    • ►  abril (9)
    • ►  março (10)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (12)
  • ►  2022 (150)
    • ►  dezembro (13)
    • ►  novembro (9)
    • ►  outubro (15)
    • ►  setembro (13)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (13)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (16)
    • ►  abril (14)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (7)
    • ►  janeiro (11)
  • ►  2021 (125)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (4)
    • ►  outubro (8)
    • ►  setembro (15)
    • ►  agosto (20)
    • ►  julho (19)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (10)
    • ►  abril (6)
    • ►  março (6)
    • ►  fevereiro (6)
    • ►  janeiro (9)
  • ►  2020 (67)
    • ►  dezembro (5)
    • ►  novembro (5)
    • ►  outubro (5)
    • ►  setembro (5)
    • ►  agosto (11)
    • ►  julho (6)
    • ►  junho (6)
    • ►  maio (9)
    • ►  abril (3)
    • ►  março (4)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (3)
  • ►  2019 (36)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (2)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (5)
    • ►  julho (3)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (7)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2018 (37)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (2)
    • ►  julho (5)
    • ►  junho (4)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (4)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (4)
  • ►  2017 (55)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  novembro (4)
    • ►  outubro (9)
    • ►  setembro (10)
    • ►  agosto (8)
    • ►  julho (7)
    • ►  junho (5)
    • ►  maio (10)
  • ►  2015 (1)
    • ►  julho (1)
  • ►  2014 (9)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (1)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2013 (34)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  novembro (2)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (4)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (3)
    • ►  abril (6)
    • ►  março (2)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2012 (102)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (3)
    • ►  outubro (7)
    • ►  setembro (6)
    • ►  agosto (7)
    • ►  julho (12)
    • ►  junho (9)
    • ►  maio (10)
    • ►  abril (9)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (16)
  • ►  2011 (279)
    • ►  dezembro (19)
    • ►  novembro (21)
    • ►  outubro (23)
    • ►  setembro (25)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (36)
    • ►  junho (25)
    • ►  maio (29)
    • ►  abril (24)
    • ►  março (22)
    • ►  fevereiro (22)
    • ►  janeiro (16)
  • ►  2010 (25)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (4)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (3)
    • ►  junho (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (4)

Citar textos deste blog

Para citar textos deste blog utilize o seguinte modelo:

Gil, Célia , (*ano*), *título do artigo*, in Histórias Soltas Presas dentro de Mim, *data dia, mês e ano*, *Endereço URL*

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ - Esta licença permite que os reutilizadores copiem e distribuam o material em qualquer meio ou formato apenas de forma não adaptada, apenas para fins não comerciais e apenas enquanto a atribuição for dada ao criador.

O nosso Hulk (saudades)

O nosso Hulk (saudades)

O nosso cãozinho, o Dragão (saudades)

O nosso cãozinho, o Dragão (saudades)

O meu mais que tudo e eu

O meu mais que tudo e eu

O meu filho mais novo

O meu filho mais novo

O meu filho mais velho

O meu filho mais velho

Categorias

25 de Abril de 1974 5 500 anos Camões 1 acróstico 1 Agradecimento 1 banda desenhada 36 biografia 7 biografia romanceada 2 biologia 2 bullying 1 chaves da memória 4 cidadania 4 clássico 7 Conto 20 conto infantil 7 contos 6 Crónica 3 Crónicas 9 Daqui 1 Dedicatória 2 discurso epistolar 1 dissertação de mestrado 1 distopia 6 Divulgação 9 divulgação - leituras 969 divulgação de livros 942 escrita 1 espionagem 2 fábula 2 fantasia 11 ficção científica 1 gótico 1 halooween 1 higiene do sono 1 Hiroxima 1 histórias com vida 1 1 histórias com vida 3 1 Histórias com vida 7 1 Holocausto 16 homenagem 2 ilustração 4 LGBT 3 literatura brasileira 3 literatura de viagens 2 literatura portuguesa 6 livro 48 livro ilustrado 11 livro infantil 19 livro infanto-juvenil 15 magia 3 manga 1 mangá 2 memórias 9 motivação para a leitura 443 não ficção 4 Nobel 14 novela 1 novela gráfica 93 O Enigma mora cá dentro 2 opinião 917 opiniãooutono da vida 3 outono da vida 3 Outros 271 Paleta poética 5 pnl 6 poema declamado 9 poemas 402 Poesia 17 policial 11 pós 25 de Abril de 1974 1 prémio Leya 3 quadras ao gosto popular 1 realismo mágico 1 receitas 10 reedição 17 Reflexão 7 reflexões 26 relações humanas 8 releitura 2 resenha 324 romance 22 romance gráfico 13 romance histórico 15 soneto 29 sugestões de leitur 1 sugestões de leitura 855 terror 3 thriller 96 thriller de espionagem 2 thriller psicológico 20 trilogia 1 viagens 4

TOP POSTS (SEMPRE)

  • Luta inglória
  • Histórias de embalar
  • Viagem ao meu ser
  • Poesia, a redescoberta dos sonhos

Link de Afiliada Wook

Comprar na Wook

Ficção Literária Wook

Pesquisa neste blog

Seguidores

Visualizações

TOP POSTS (30 DIAS)

  • Yesteryear, Caro Claire Burke
  • Mistérios, Knut Hamsun
  • Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas
  • Adeus Peúgas, Benjamin Chaud

Designed by OddThemes | Distributed By Gooyaabi