Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Hayder, Mo (2000). Os Pássaros da Morte. Navarra: Círculo de Leitores.

Nº de páginas: 354

Início da Leitura: 21/08/2021

Fim da leitura: 22/08/2021

Os Pássaros da Morte é um thriller da romancista britânica Mo Hayder (recentemente falecida, a 27 de junho deste ano), traduzido por João Brito.

Sinopse do livro:

“Greenwish. Sudeste de Londres.

A melhor equipa de homicídios da Polícia Metropolitana, o Grupo de Investigação Principal, é chamado para um cenário macabro pelos detetives do Departamento de Investigação Criminal.

Cinco cadáveres de mulheres jovens, todos assassinados e sepultados num terreno próximo da Cúpula do Milénio. Quando a autópsia revela um elemento singular e horrendo que liga as vítimas, os agentes percebem que estão na pista de um criminoso perigoso: um assassino em série que mata por sexo.

O jovem destemido inspetor-detetive Jack Caffery vê-se a braços com a hostilidade de alguns colegas e com os ecos do passado no seu primeiro caso como membro do Grupo de Investigação Criminal. Vive atormentado por uma morte que podia ter evitado há muito. Agora, servindo-se de todas as armas que a ciência forense põe ao seu dispor, sabe que tem pouco tempo para agir até o sádico assassino voltar a atacar.”

Opinião:

Ao iniciar a leitura deste thriller, nunca imaginei que fosse tão duro, tão sádico, tão masoquista. Porém, desde o início, está criado o suspense necessário para se querer saber sempre mais e partir com Caffery no encalço do criminoso.

Uma história bem urdida, criativa, tecnicamente com base em muita pesquisa, é um livro que nos faz arrepiar, que nos deixa indispostos, que nos deixa revoltados com algumas personagens, que nos provoca um frio na coluna, de tão intensas e realistas as descrições.

É um livro que recomendo apenas para apreciadores de thrillers bem violentos, mas empolgantes em igual dose.

Tenório, Jeferson (2021). O Avesso da Pele. Lisboa: Companhia das Letras.


 

Nº de páginas: 200

Início da leitura: 20/08/2021

Fim da leitura: 20/08/2021

O Avesso da Pele é um romance escrito por Jeferson Tenório, nascido no Rio de Janeiro e residente em Porto Alegre.

Sinopse:

“Agora que o pai morreu, inesperada e precocemente, Pedro tem pouco mais a que se agarrar senão aos ensinamentos e às memórias deixadas pelo pai, professor de Literatura na rede de ensino público. E homem negro, num país que julga os homens e as mulheres pela cor da pele. Esvaziado pela ausência, Pedro retraça os passos de Henrique nas ruas, procura vestígios seus nos pertences deixados no apartamento. Reduzido por vontade da mãe a uma relação intermitente com o pai, resta a Pedro a possibilidade de reconstruir ou imaginar o passado de Henrique enquanto homem, enquanto pai para, pelo caminho, procurar o entendimento de si próprio. Nesta rota íntima de Pedro, Jeferson Tenório faz uma delicada investigação das relações entre pais e filhos, ao mesmo tempo que esboça um retrato poderoso de um país sulcado pela segregação e pela pobreza, em que muitos não podem mostrar por vezes, nem sentir o seu avesso, esse espaço onde "entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único".

Opinião:

Mais do que um romance escrito para abordar a temática do racismo, este romance, de forma mais ampla, aborda várias questões familiares, encontros, desencontros, paixões, submissões, inconformismos, desistência, abandono, relações inter-raciais, o genocídio da população brasileira…

Pedro é o narrador da história do pai e da mãe, Martha e Henrique, ambos negros. Depois do assassinato do pai, Pedro procura conhecer o passado da família, para se entender a si próprio.

A narrativa é dura, direta e choca pela crueldade e violência vivida logo a partir da infância. Bem escrito, bem estruturado e, com toda a certeza, um marco na literatura brasileira contemporânea.

Destaco uma passagem, em que Henrique fala com o filho, que me marcou particularmente e que explica o título da obra:

“É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que a sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias, existe um lugar só seu, isolado e único. É nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos.”

Prescott, Lara (2020). Isto Nunca Aconteceu. Porto Salvo: Edições Saída de Emergência.

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 19/08/2021

Fim da leitura: 20/08/2021

Isto Nunca Aconteceu é um romance histórico escrito por Lara Prescott e traduzido por Maria João Trindade.

Sinopse:

1956. Boris Pasternak está a escrever Doutor Jivago, um livro controverso capaz de provocar dissensão na União Soviética. Com medo do seu poder subversivo, os soviéticos censuram-no e proíbem a sua publicação. Mas isso não impede que no resto do mundo a obra se transforme num bestseller… e numa possível sentença de morte para o autor. A CIA está atenta aos acontecimentos e planeia utilizar o livro para influenciar a Guerra Fria a seu favor. Contudo, os agentes destinados a esta missão não são os espiões tradicionais. Duas secretárias - a charmosa e experiente Sally e a talentosa e novata Irina - são encarregadas da missão das suas vidas: devolver clandestinamente Doutor Jivago à URSS e utilizá-lo como arma de propaganda.

No entanto, esta não será uma missão fácil. Há pessoas dispostas a morrer por este livro - e agentes prontos a matar por ele. De Moscovo a Washington, de Paris a Milão, Isto Nunca Aconteceu retrata um momento único na história da literatura - contado com emoção e detalhes históricos cativantes. E no coração deste romance inesquecível está a poderosa convicção de que o poder da palavra escrita pode transformar o mundo.

Opinião:

Este é um livro onde a ficção se mescla com a realidade e que nos cativa, porque queremos, desde logo, saber os segredos destas dactilógrafas, as “andorinhas”, durante a Guerra Fria.

O próprio facto de ser um livro onde se fala de muitos livros, torna-o interessante. Ainda não li Doutor Jivago de Boris Pasternak, mas fiquei extremamente curiosa em relação a este livro, um clássico enigmático, proibido, considerado como “arma literária de destruição em massa” e que foi o mote para a escrita deste livro. Um livro bem conseguido. Desconhecia o que estava por detrás da obra em causa e fiquei rendida a tudo o que envolveu este livro que transformou a História. É sempre tão bom quando aprendemos algo com um livro!

Gostei particularmente das espiãs Sally e Irina, diferentes, mas cativantes e complementares. Duas personagens que acompanhamos com interesse e expetativa pelo suspense vivido constantemente, não fossem elas espiãs.

A autora utilizou também citações, descrições diretas, excertos de conversas, autobiografias, memórias, e outras obras com o intuito de nos fazer imaginar como teria sido viver durante muitos dos acontecimentos descritos no romance.

Aconselho a leitura.

Sinha, Umi (2016). Lila e o Jogo de Deus. Alfragide: Edições ASA.

Nº de páginas: 384

Início da leitura: 18/08/2021

Fim da leitura: 19/08/2021

Lila e o Jogo de Deus é um romance escrito por Umi Sinha, filha de mãe inglesa e pai indiano, e traduzido por Ana Saldanha.

Sinopse do livro:

“Lila Langdon tem apenas doze quando testemunha uma tragédia. O dia era de festa, o pai celebrava cinquenta anos. A mãe preparara um presente de aniversário especial: uma toalha de mesa delicadamente bordada.

A surpresa, revelada durante um elegante jantar, tem um efeito demolidor. Horrorizados, os convidados partem rapidamente em estado de choque. O pai retira-se para o seu escritório e dá um tiro na cabeça. Lila, que observa às escondidas, não percebe o que se passa mas sabe de imediato que a sua infância acabou de chegar ao fim.
Arrancada aos aromas e cores da Índia que a viu nascer, é levada para a cinzenta Inglaterra. Será em casa da tia-avó Wilhelmina que Lila descobre, através de cartas e diários, os segredos, frustrações e confissões dos seus antepassados, desde os tempos da avó na Índia, à estranha infância do pai e o seu turbulento casamento com a enigmática Rebecca.

Muitos anos passaram, mas estará Lila realmente preparada para desvendar o mistério daquela noite fatídica?”

Opinião:

Que livro maravilhoso, empolgante, comovente, duro e dolorosamente belo!

Logo no início do livro, é-nos apresentada uma árvore genealógica das personagens que, em algum momento da história, têm um papel preponderante. Dei comigo a consultá-la durante a leitura da obra, uma vez que nos é apresentada a história de várias gerações para que, mais facilmente, possamos compreender a de Lila.

Este livro parte de dados históricos reais, incidentes, partes de diálogos, descrições, espaços e momentos que existiram, de facto, onde se movem personagens que poderiam muito bem ter existido, mas que, como a própria autora nos revela, são pura ficção. Porém, conferem maior verosimilhança à história narrada. De entre as fontes utilizadas pela autora, temos algumas que se referem ao Amotinamento Indiano, aos acontecimentos em Cawnpore, ao movimento sufragista feminino, à I Guerra Mundial relativamente ao Exército Indiano, ao Hospital Indiano em Brighton, entre outros.

A narração destes episódios é bastante crua e dura. Por mais que tenhamos lido sobre a temática, nunca imaginamos a guerra como ela realmente foi e este relato de acontecimentos extremamente violentos neste livro ainda tem o poder de nos arrepiar e surpreender.

A história desta família surge de forma alternada, o que nos permite compreender o presente, com recurso aos acontecimentos passados narrados.

Como é percetível na leitura da sinopse, Lila é confrontada com o suicídio do pai, num dia de festa, depois de ter visto a toalha que a mulher bordara para lhe oferecer. Mas o que teria esta toalha que causou horror entre todos os presentes, que se esgueiraram da festa o mais rápido que puderam? É o que, mais tarde, será revelado a NLila e, aí, somos nós que ficamos horrorizados! Como sempre, não posso revelar.

Para descobrir este e muitos outros segredos que esta família oculta ao longo dos anos, terá de ler o livro e garanto que não se arrependerá!

Audrain, Ashley (2021). Instinto. Lisboa: Suma das Letras.

Nº de páginas: 344

Início da leitura: 16/08/2021

Fim da leitura: 17/08/2021

Instinto é um thriller de Ashley Audrain, traduzido por Gonçalo Neves.

Sinopse:

“Blythe Connor está determinada a ser a mãe afetuosa e solidária que nunca teve. No entanto, no auge dos esgotantes primeiros dias de maternidade, Blythe convence-se de que alguma coisa não está bem com Violet.

Com o passar do tempo, a sensação agrava-se: a filha é distante, rejeita o afeto e revela-se cada vez mais perturbadora. Ou estará tudo apenas na cabeça de Blythe?

O marido diz que ela está a imaginar coisas. Quanto mais Fox ignora os seus receios, mais ela se questiona sobre a sua própria sanidade mental.

Quando nasce o filho mais novo, tudo parece melhorar: Blythe sente com Sam a ligação que sempre imaginou; Violet acalma e parece adorar o irmão mais novo.

Mas, de repente, tudo muda e Blythe não poderá mais ignorar a verdade sobre o seu passado e sobre a sua filha. Onde está a verdade quando tudo tem duas caras?”

Opinião:

Este é um livro que se lê num ápice e com o coração nas mãos. Pode não ser excecional, mas tem um ritmo fluído e intenso, conseguido até pelos capítulos breves, as ações alternadas (momento atual e o passado da protagonista), e é criado suspense no fim de cada capítulo.

É um livro que envolve medos, mentiras, traições, angústias. De forma crua, abordam-se questões reais sobre a maternidade. Não consigo compreender o desprendimento desta mãe pela filha, quando ela nasceu. Porém, tendo em conta o seu passado, poderia haver uma disfunção que a levasse a agir assim. Será que os problemas comportamentais dos adultos, acabam por se reproduzir nas gerações seguintes? Ser mãe implica necessariamente um amor à primeira vista, o tal “sentimento maternal” quando o bebé nasce? É a mãe que condiciona esses sentimentos ou poderá haver bebés pelos quais é difícil nutrir esse amor maternal? Não poderá uma mãe, ao quebrar-se a ideia de uma maternidade perfeita, ao constatar o quão difícil é ser mãe, desistir de o ser na sua plenitude? Tem direito a isso?

Poderá uma criança nascer má? Ou, pura e simplesmente, os seus comportamentos são influenciados pela falta de afeto ou por não ser amada pela mãe?

Não é fácil explicar sem julgar. Mas, também não quero julgar.

Apesar de considerar que se poderia ter tornado a história ainda mais densa e obscura, posso dizer que gostei.

Aconselho a leitura deste thriller.

Towles, Amor (2017). Um Gentleman em Moscovo. Alfragide: Dom Quixote.

Nº de páginas: 544

Início da Leitura: 15/08/2021

Fim da Leitura: 16/08/2021

Um Gentleman em Moscovo é uma obra de ficção escrita por Amor Towles e traduzida por Tânia Ganho.

Sinopse:

Por causa de um poema, um tribunal bolchevique condena o conde Aleksandr Rostov a prisão domiciliária. Ficará retido, por tempo indeterminado, no sumptuoso Hotel Metropol. A prisão pode ser dourada. Mas é uma prisão.

Estamos em Junho de 1922. Despejado da sua luxuosa suíte, o conde é confinado a um quarto no sótão, iluminado por uma janela do tamanho de um tabuleiro de xadrez. É a partir dali que observa a dramática transformação da Rússia. Vê com tristeza os magníficos salões do hotel, antes animados por bailes de gala, serem agora esmagados pelas pesadas botas dos camaradas proletários. E vê-se obrigado a negociar a sua sobrevivência, num ambiente subitamente hostil.

Aos poucos, porém, o aristocrata descobre aliados no hotel, com quem partilha o seu amor pelo belo - e a defesa de valores morais que nenhuma ideologia poderá vergar. Faz-se amigo do chef, dos porteiros, do barbeiro, do encarregado da garrafeira, e com eles conspira para devolver ao Metropol a sua antiga e majestosa glória. Ao mesmo tempo, toma sob a sua proteção uma menina desamparada, a quem provará que a vida não se resume à luta de classes.

Amor Towles oferece-nos um dos mais requintados (e melancólicos) romances dos últimos anos.

Uma obra épica, habitada por uma galeria de personagens inesquecíveis e servida por uma escrita de uma elegância cada vez mais rara nas letras contemporâneas.”

Opinião:

Um livro maravilhoso, numa belíssima edição cartonada, em preto e dourado, de que não me esquecerei, pela história tão bem narrada, tão rica, pelas personagens tão completas e ricas.

O Conde Aleksandr Ilitch Rostov é um verdadeiro gentleman, um homem de gostos requintados, no que concerne às refeições (que o torna capaz de distinguir os temperos mais nobres de outros), ao vinho que as acompanha, à forma como se relaciona com os outros, como fala e tenta resolver as situações que se lhe deparam. É um homem culto, com sentido de humor, de hábitos (como o pequeno almoço, as 15 flexões e agachamentos, que faz todos os dias de manhã). Parece sempre muito ponderado, se bem que aprecie os pequenos prazeres da vida, vive a vida calmamente, vai semanalmente ao barbeiro, vive despreocupadamente.

Gostei imenso de Nina e de Sofia. Esta última cativa de tal forma o conde, que passa a fazer parte integrante da sua vida, como sua filha.

Não posso contar mais sobre esta história fantástica, surpreendente até ao fim e que aconselho vivamente à leitura.

Colgan, Jenny (2021). A Livraria dos Finais Felizes. Porto Salvo: Chá das Cinco.

Nº de páginas: 320

Início da leitura: 13/08/2021

Fim da leitura: 14/08/2021

A Livraria dos Finais Felizes é um romance escrito pela escocesa Jenny Colgan e traduzido por Sónia Maia. A edição, capa, primeiras e últimas páginas são bastante apelativas, chamando desde logo a atenção.

Sinopse do livro:

“Nina Redmond é literalmente uma casamenteira. Encontrar o livro perfeito para cada leitor é a sua paixão... e também o seu trabalho. Ou pelo menos era, até a biblioteca pública onde trabalhava fechar as portas.

Determinada a encontrar um novo rumo, Nina muda-se para uma pacata vila na Escócia, onde compra uma carrinha e a transforma numa livraria itinerante, viajando pelas Terras Altas e transformando as vidas daqueles com quem se cruza com o poder da literatura.

 É então que descobre um mundo de aventura, magia e romance num lugar que aos poucos se vai tornando no seu lar… um lugar onde ela poderá escrever o seu final feliz para sempre.”

Opinião:

Este é um bom livro para se ler entre grandes dramas ou thrillers fortes, clássicos desarmantes, numa fase em que precisamos relaxar, desanuviar a cabeça. É um livro leve.

A autora poderia, contudo, aproveitar melhor a premissa da livraria e ter focalizado mais a história nesse sonho da protagonista Nina, nas dificuldades encontradas e sucessos alcançados. Não é que não pudesse ter um romance pelo meio, nada disso. Também tenho em atenção o facto de a ação se passar na Escócia rural. Porém, a determinada altura, só me fazia lembrar o “Quem quer casar com um agricultor?” Não sei se é assim que se chama o reality show, porque não vejo, mas, com efeito, dadas as histórias que ia ouvindo entre outros programas, soou-me um pouco ao mesmo. A pequena Nina, acaba por se hospedar em casa de um agricultor escocês e, a partir daqui, não penso que careça de dizer mais nada.

Gostei particularmente dos episódios relacionados com a livraria, do gosto e conhecimento demonstrados por Nina, da perseverança nos seus sonhos e da sagacidade com que pôs a ler pessoas que nunca haviam lido ou que nunca mais haviam lido desde que a biblioteca local encerrara, pelo que penso que esta questão poderia ter sido mais aprofundada.


Fortin, Sue (2018). Irmãs. Barcelona: HarperCollins.

Nº de páginas: 368

Início da leitura:12/08/2021

Fim da leitura:13/08/2021

Irmãs é um livro que eu classificaria entre o suspense, thriller, policial e drama, escrito pela autora Sue Fortin, nascida na Grã-Bretanha e traduzido por Ana Filipe Velosa.  

Sinopse do livro:

Uma perdeu-se.

A outra mentiu.

Alice: bonita, simpática, manipuladora, mentirosa.

Clare: inteligente, leal, paranoica, ciumenta.

Clare acha que Alice é uma mentirosa manipuladora que tenta roubar a sua vida.

Alice acha que Clare tem ciúmes do seu regresso, após um desaparecimento prolongado, e da sua nova situação familiar.

Uma das duas está a dizer a verdade. A outra é uma maníaca.

Duas irmãs, uma só verdade.”

Opinião:

Excelente thriller psicológico, que nos mexe com os nervos, que se lê num ápice, pois a história é narrada de forma muito rápida, sempre com pistas novas, deixando-nos angustiados e ansiosos por saber a verdade. O suspense criado é de tal ordem, que é muito difícil largar o livro até o terminar!

Confesso que, em vários momentos, me apeteceu abanar e até dar um valente sermão a algumas personagens, que me irritaram sobremaneira!

Clare vive com a mãe, o marido e as duas filhas. Vive com a mãe, porque esta terá ficado muito perturbada e a precisar do seu apoio, desde que o pai fugiu, na infância de Clare, com a sua irmã mais nova, para o que, inicialmente, seriam, apenas umas férias, e nunca mais reviram Alice, nem o pai.

Depois de infrutíferas buscas incessantes, acabaram por desistir. São felizes. Dão-se todos bem. Mas uma sombra de tristeza paira nas suas vidas, a falta de Alice, a quem a mãe compra presentes de aniversário e Natal e guarda, na esperança do seu regresso.

Passados mais de 30 anos, ficam espantadas, quando recebem uma carta de Alice. Esta acaba por decidir visitá-las. É a partir deste momento que a vida desta família começa a sofrer alterações. Alice vem disposta a roubar a vida da irmã? Porquê? Não posso responder.

Deixo o convite à leitura, que fará as delícias dos apreciadores de um bom thriller psicológico que, sem ser muito pesado, se revela viciante.

Ishiguro, Kazuo (2021). Klara e o Sol. Lisboa: Gradiva.


Nº de páginas: 360

Início da leitura: 10/08/2021

Fim da leitura: 12/08/2021

Klara e o Sol é o último livro do Nobel da Literatura Kazuo Ishiguro, traduzido por Maria de Fátima Carmo.

Sinopse:

Do local onde está exposta, Klara, uma Amiga Artificial com notável capacidade de observação, vê com atenção o comportamento dos que entram na loja para apreciar os artigos e dos que passam na rua e se detêm a olhar as montras.

Acalenta a esperança de que entre um cliente que a escolha, mas, quando surge a possibilidade de as suas circunstâncias se alterarem para sempre, Klara é aconselhada a não se fiar muito nas promessas dos seres humanos.

Através do olhar de uma narradora inesquecível, Kazuo Ishiguro contempla em Klara e o Sol o mundo moderno em rápida mudança para compreender uma questão fundamental: o que significa amar?”

Opinião:

Esta obra ficcional, em grande parte de ficção científica, não pretendia, penso eu, ser um depósito de chavões deste género literário, como também não se pretendia nenhum estudo científico. Antes pelo contrário. Apesar de se abordarem questões mais genéricas, como o domínio do mundo pelas máquinas, que o homem teme virem a substituí-lo em muitos domínios, não foi esse o aspeto preponderante que captei na história criada por Ishiguro. Nem penso que tivesse pretensões a sê-lo. A história é narrada na 1ª pessoa, tendo o autor escolhido para narradora Klara, uma Amiga Virtual. Esta escolha faz-nos perceber a perspetiva de Klara, que, naturalmente nos interessava mais, a quem pretende fruir da leitura, mas que poderia deixar insatisfeito quem esperava desta obra uma profunda abordagem da temática da inteligência artificial.

A história começa com Klara, numa montra de uma loja que vende AA (Amigas Artificiais), normalmente para acompanharem crianças e ajudarem a colmatar toda a solidão em que a sociedade atual as encerra, uma sociedade cada vez mais deteriorada, mais só, mais conflituosa, onde, como em várias distopias que li, se chega a um ponto em que se impõe uma necessária seleção. Muitas crianças acabam por morrer, se não houver, por parte dos pais, a decisão de os alterar, de alguma forma, em termos genéticos.

Klara é escolhida por Josie, uma criança que se encontra gravemente doente, supostamente por decisões dos pais (mais da mãe), que não nos são completamente clarificadas. E, apesar de haver modelos mais recentes, é Klara que capta a atenção da criança. Klara acaba por se revelar uma exímia cuidadora de Josie, preocupando-se com a sua saúde e bem-estar, mais do que a própria mãe, dividida entre a preocupação com a filha, o emprego e as sombras do passado que continuam a fazê-la sofrer e temer pelo futuro de Josie.

Não posso revelar mais. Apenas posso adiantar que muitos acontecimentos se desenrolam durante a estadia de Klara em casa de Josie. E, claro, com a preciosa ajuda do Sol, de que Klara vai sempre depender.

Gostei tanto da Klara, tão sensata, tão mais humana que alguns humanos, tão mais amiga, tão atenta a tudo o que a rodeia, tão curiosa e com vontade de aprender sempre mais com a observação dos humanos…

Um livro excelente para uma leitura de verão, em que o sol nos permitirá recarregarmos as nossas baterias para o próximo ano de trabalho, porque também precisamos de livros que nos deem sol!

Honeyman, Gail (2017). A Educação de Eleanor. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 328

Início da leitura: 08/08/2021

Fim da leitura: 10/08/2021

A Educação de Eleanor é um romance escrito por Gail Honeyman e traduzido Elsa T. S. Vieira.

Sinopse:

“Costa Award para Primeiro Romance

Livro do Ano British Book Awards

Livro do Ano da Livraria W H Smith

Nomeado para Livro do Ano pela Goodreads

Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá, por fim, abrir o coração.”

 

Opinião:

Devo dizer que, inicialmente, não gostei da protagonista do livro. Eleanor Oliphant apresenta-se-nos como uma jovem de pouco mais de trinta anos, antissocial, demasiado crítica, tecendo juízos de valor sobre tudo e todos, com uma paixoneta de uma típica adolescente por um cantor, acreditando que poderá vir a ter um relacionamento sério com alguém que desconhece, preocupada (de repente) com o que poderia mudar em termos de imagem para impressionar o seu ídolo de sapatos engraxados.

Aos poucos, à medida que Eleanor se dá a conhecer, vamos desconstruindo todas estas ideias iniciais. Há fortes motivos para Eleanor ser como é. É antissocial, porque rejeitada, porque se sentiu sempre inadaptada, porque não deixara de ser a menina de 10 anos que passou por uma terrível provação, porque a educação que lhe foi dada pela mãe a deixou repleta de ideias pré-concebidas, porque a mãe sempre a humilhou e sempre “gozou” com toda a gente. Talvez, por isso, Eleanor se tenha tornado demasiado crítica. Por outro lado, gosta de rotinas, que lhe conferem uma segurança que não sente. Vive na sua solidão, conversando com uma planta, a única forma de vida que tem há muito tempo. Refugia-se no seu espaço de sonho, que criou na sua imaginação. Penso que o cantor seria o prolongamento exterior desse lugar de sonho. Eleanor bebia, ao fim de semana, para a ajudar a esquecer os fantasmas e passar mais depressa o tempo em que estava sozinha, em casa.

À medida que a história avança, ficamos completamente rendidos a Eleanor. Confesso que me apeteceu abraçá-la para a reconfortar.

Da história em si, não vou falar, porque não quero adiantar muito, nem tirar o prazer da leitura a futuros leitores.

Só para terem uma noção do quanto gostei deste livro, apesar de ter terminado a sua leitura a altas horas da noite, só agora consegui falar sobre ele e, garantidamente, afeiçoei-me a esta forte jovem, que ficará comigo, no cantinho especial que tenho reservado, na minha mente, às personagens que me marcaram mais nos livros que leio.

 

 

Craven, M.W. (2021). Verão Negro. Amadora: Topseller.

Nº de páginas: 400

Início da Leitura: 06/08/2021

Fim da Leitura: 08/08/2021

Verão Negro é um thriller de M.W. Craven, traduzido por Pedro Póvoa.

Sinopse:

“Jared Keaton é o chef das estrelas. Encantador. Carismático. Psicopata… E está a cumprir pena de prisão perpétua pelo homicídio brutal da sua filha, Elizabeth. O corpo nunca foi encontrado, e Keaton foi condenado sobretudo com base no testemunho do inspetor Washington Poe.

Quando, seis anos depois, uma jovem entra a cambalear numa esquadra de polícia com provas irrefutáveis de que é Elizabeth Keaton, Poe dá por si no lado contrário de uma investigação que poderá custar-lhe muito mais do que a carreira.

Ajudado pela única pessoa em quem confia, a brilhante, mas socialmente desajeitada, Tilly Bradshaw, Poe esforça-se por responder à única pergunta que importa: como pode alguém estar vivo se morreu há seis anos?

E então Elizabeth torna a desaparecer… e todos os caminhos da investigação parecem levar novamente a Poe.”

Opinião:

Mais um thriller fascinante e com requintes macabros. Depois de ler Teatro de Fantoches, fico novamente surpreendida com a capacidade deste autor na escrita de thrillers. Uma história surpreendente, bem elaborada e articulada, de forma a manter o suspense ao longo de todo o livro, que nos deixa em alerta constante até ao final.

Esta dupla Poe e Tilly é cativante, acabando por, mais uma vez, se complementarem nas suas próprias discrepâncias. Imbatíveis! Considero que, neste livro em concreto, Poe acaba por ter um papel mais relevante, se bem que o trabalho de pesquisa que Tilly realiza na perfeição, se revele, com efeito, imprescindível.

Não posso adiantar muito mais do que o que está mencionado na sinopse. Apenas posso afiançar que é daqueles livros que facilmente nos mantém em vigília e, sem nos darmos conta, a noite passa e nem nos apercebemos.

Craven, M.W. (2020). Teatro de Fantoches. Amadora: 20/20 Topseller.

Nº de páginas: 352

Início da Leitura:04/08/2021

Fim da Leitura: 05/08/2021

Teatro de Fantoches é um thriller de M.W. Craven, traduzido por Pedro Póvoa.

Sinopse:

“Haverá algo pior do que ser queimado vivo?

Um assassino em série anda à solta. Ele raptou, mutilou e queimou homens nos círculos de pedra pré-históricos do condado de Cúmbria. Não deixou pistas, e a polícia está desorientada. Quando o nome do inspetor Washington Poe é encontrado gravado nos restos carbonizados da terceira vítima, ele é chamado a participar na investigação.

Poe não se quer envolver, mas o cruel assassino tem um plano e, por alguma razão, o inspetor faz parte dele. Acaba, então, por formar equipa com a brilhante, mas socialmente desajustada, analista de dados Tilly Bradshaw, e juntos irão identificar pistas que só Poe consegue seguir.

À medida que o número de corpos carbonizados aumenta, Poe percebe que há muito mais em jogo do que poderia imaginar. E, num final chocante que destrói tudo aquilo em que acreditava sobre si mesmo, o inspetor descobre que há coisas ainda piores do que ser queimado vivo…”

Opinião:

Gostei muito deste thriller. Começa com um ritmo mais lento, que nos permite conhecer melhor as personagens e compreender todo o enredo. Bem estruturado e bem escrito. As personagens têm carisma, foram muito bem pensadas e facilmente as recriamos na nossa mente, a partir das descrições. Quer pelo enredo, quer pela relação entre as personagens, certo é que me vi presa à história, de capítulos breves e a que são adicionadas constantemente novas pistas, e sem vontade de pousar o livro antes de o terminar.

A dupla Washington Poe e Tilly Bradshaw, além de ter feitios completamente opostos, acabam por se complementar, mostrando-se ambos imprescindíveis nos mistérios a deslindar.

Poe, afastado da polícia, acaba por ser integrado na equipa de investigação de cruéis crimes levado a cabo em Cúmbria, pela inspetora Flynn, a partir do momento em que o seu nome aparece gravado no peito da terceira vítima do “Imolador”. Apesar de todas as fragilidades demonstradas relativamente a traumas de infância, tornou-se num homem inflexível, perspicaz e impulsivo. Ficamos intrigados com a ligação entre o criminoso e Poe e queremos perceber a ligação entre os dois.

Tilly é uma personagem cativante, completamente diferente, antissocial, mas espontânea e retratada com um sentido de humor refinado. Acaba por dar uma nova dinâmica à investigação. Não são perfeitos, são reais e é isso que os torna mais especiais.

Gostei tanto, que vou partir já para a leitura do Verão Negro, para, assim, poder continuar a acompanhar esta dupla incrível!

Aconselho a leitura!


Esquível, Laura (2020). O Meu Negro Passado. Alfragide: Edições ASA.



Nº de páginas: 216

Início da leitura: 03/08/2021

Fim da leitura: 04/08/2021

O Meu Negro Passado é o terceiro livro da trilogia, depois de Como Água para Chocolate e O Diário de Tita. Foi escrito por Laura Esquível e traduzido por Tânia Sarmento.

Sinopse:

“O inesquecível romance Como Água Para Chocolate emocionou milhões de leitores em todo o mundo. Laura Esquivel regressa agora a esse mundo mágico com uma poderosa história sobre a força e a liberdade das mulheres. María fica destroçada ao ver o seu casamento desmoronar-se abruptamente. O seu único refúgio é o diário de Tita, que lhe é dado pela sua avó Lucía. E é quando mergulha na vida íntima de Tita que descobre não apenas velhos segredos de família, mas também a capacidade de o espírito humano se elevar, graças à alquimia que transforma os ingredientes naturais em alimento.

A voz de María, da mesma estirpe guerreira que sempre caracterizou as mulheres De la Garza, continua a tecer a saga da família... a jovem terá de percorrer um longo caminho enquanto vai recuperando a sua força interior. Sem que se aperceba, começa a criar fortes laços com todos os seus antepassados. A pouco e pouco, María renasce. Mas o verdadeiro dilema surge quando volta a experimentar o mais profundo dos sentimentos: o amor.

O Meu Negro Passado é uma defesa do espírito feminino - é a melhor receita contra os males dos nossos tempos: o desenraizamento, a alienação e a frivolidade. Na senda de Como Água Para Chocolate, é uma obra que não deixará ninguém indiferente - um épico retrato de várias gerações de mulheres livres e apaixonadas que nos ensinam a ultrapassar as adversidades da vida.”

Opinião:

Gosto da forma elegante e cativante como Laura Esquível escreve. Tal como nos livros anteriores, Esquível consegue ser muito criativa. Neste caso, intercala a história, com músicas que se vão relacionando com a história e que nos são deixadas através de códigos QR.

María, bisneta de Tita, dá à luz um filho negro. Os pais ficam muito surpreendidos e, sendo os dois brancos e não conhecendo no passado familiar ninguém de pele negra, torna-se um escândalo e o marido abandona-a. É através da avó Lúcia e do Diário de Tita, que María procura respostas no passado. Sobretudo, nos silêncios em que neta e avó tricotam. Entender esse passado pode constituir uma reconexão com as pessoas que dele fizeram parte. Porém, a reconexão com a culinária, já não acontece neste livro. María, como a maior parte das pessoas na atualidade, come compulsivamente.

Aconselho a leitura da trilogia.

Gómez-Jurado, Juan (2020). Rainha Vermelha. Lisboa: Planeta Manuscrito.

Nº de páginas:464

Início da leitura:01/08/2021

Fim da leitura: 03/08/2021

Rainha Vermelha é um thriller escrito pelo autor e jornalista madrileno Juan Gómez-Jurado e traduzido por António Carlos Carvalho.

Sinopse:

“Antonia Scott não é polícia, nem criminologista. É uma mulher com uma inteligência fora do comum que trabalha na sombra e que já resolveu crimes difíceis. Mas, após um acidente com o marido do qual se sente responsável, decide que não o tornará a fazer.

Jon Gutiérrez é um polícia que cometeu um erro que ameaça acabar com a sua carreira. Tem como missão, convencer Antonia a sair da reclusão para resolver um crime misterioso.

Um fenómeno literário, com mais de 450 mil exemplares vendidos em Espanha, traduzido em 40 países.”

Opinião:

Iniciei a leitura deste livro sem grandes expetativas. Comecei por achar o ritmo demasiado lento, algumas tiradas das personagens demasiado previsíveis e fiquei ainda mais de pé atrás. Na página 15, ponderei desistir da leitura, mas isso é muito raro acontecer comigo, acabo por dar uma oportunidade até ao fim. Penso que só posso opinar, negativamente ou positivamente, se terminar o livro e foi isso que fiz. A partir da página 200, comecei a embrenhar-me na história e, apesar de não considerar um livro extraordinário, acabei por gostar.

Gostei particularmente de Antonia Scott, que, com a sua inteligência, ainda que não seja polícia nem criminologista, se torna na Mentora que auxilia na resolução dos casos mais difíceis, sem que ninguém se aperceba. Porém, Antonia está decidida a nunca mais voltar a envolver-se nestes casos, uma vez que perdeu o marido em circunstâncias que a fizeram sentir culpada. Jon Gutiérrez é um polícia determinado a terminar a sua carreira. Mas, o erro que cometeu, deixa-o com a difícil incumbência de conseguir trazer Antónia para uma nova missão. Será que consegue demover Antonia da autorreclusão em que se enclausurou a sós com os seus remorsos?

Fico a aguardar com ansiedade, a continuação, para poder continuar a acompanhar a Antonia.

 

Coelho, Rute Pinheiro (2014). Gostas do que Vês?. Alfragide: Oficina do Livro.

Nº de páginas: 176

Início da leitura: 31/07/2021

Fim da leitura: 31/07/2021

Sinopse do livro:

“Natália e Cecília não se conhecem. São duas mulheres jovens muito diferentes, uma introvertida e amargurada, a outra confiante e determinada. Mas têm a irmaná-las o excesso de peso - e, apesar de cada uma lidar com ele à sua maneira, fugindo do espelho ou assumindo o corpo, a verdade é que nem sempre é fácil viver numa sociedade com os cânones de beleza instituídos e na qual se convive diariamente com o preconceito.

Natália está convencida de que não merece ser feliz; Cecília, pelo contrário, numa atitude desafiante, defende a beleza das suas curvas e o seu direito à felicidade, independentemente da diferença e da discriminação social.

Num mundo em que se mascara a felicidade com plásticas e dietas loucas, Rute Coelho construiu uma história realista e surpreendente sobre a forma como podemos e devemos assumir o nosso corpo, aprendendo a gostar dele através das mudanças necessárias.”

Opinião:

Sinceramente, pela capa do livro, nunca apostaria na sua leitura. Porém, fiquei interessada, quando li uma crítica positiva da minha querida Manuela Colaço. Como é pequenino, lê-se num ápice.

Porém, a capa só se percebe realmente ao ler o livro. Esta é uma história de mulheres de XXL para cima, com todas as suas dúvidas, frustrações, que gostam realmente de comer, que se refugiaram na comida, que sempre foram “gordinhas”, mas que, como todas as mulheres, têm sonhos. Só que esses sonhos vão, muitas vezes, ficando em segundo plano, porque acreditam que os sonhos são para as magras. Fecham-se nas suas inseguranças, nas suas reservas em relação à capacidade de serem amadas, não só por alguém do sexo oposto, especialmente por elas. Vítimas de olhares condenatórios, de constantes repreensões até por parte dos que lhes são mais próximos, vivem para comer, deixam de viver, no verdadeiro sentido da palavra.

E estas mulheres acabam por ser extremamente duras com elas próprias, julgando-se inferiores, indignas, impedindo-se de viver plenamente.

Afinal, esta é uma história mais real do que possa parecer, a história de quem vai recusando os espelhos que a própria vida lhes vai apontando. Até quando?

As duas protagonistas têm diferentes formas de lidar com a situação. Contudo, a sociedade ainda lida mal com estas situações, ainda se olha de lado, de forma preconceituosa.

Um romance, apesar de tudo, leve, de escrita fluída, uma boa opção para uma tarde de verão.

Redfearn, Suzanne (2021). Num Instante Tudo Muda. Alfragide: Edições ASA.

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 29/07/2021

Fim da leitura: 30/07/2021

Num Instante Tudo Muda é uma obra escrita por Suzanne Redfearn, traduzida por Ana Saldanha.

Sinopse do livro:

“Numa noite fria e escura, um grupo de amigos percorre uma estrada de montanha numa caravana. Rumam a umas férias muito desejadas.

E, num instante, tudo muda.

Um veado. Uma travagem. Uma queda a pique pela encosta.

A jovem Finn Miller não resiste ao acidente. Para os seus companheiros de viagem, começa então uma perigosa jornada. Pois segue-se uma implacável tempestade de neve que os deixa perdidos no meio do nada. Perante a ameaça da morte, são obrigados a tomar decisões irreversíveis. Para os sobreviventes, a vida nunca mais será a mesma.

Jack, o pai de Finn, procura apenas vingança. Mo, a sua melhor amiga, procura somente a verdade. Chloe, a irmã, procura juntar-se a Finn. E a mãe, Ann, vive atormentada com o que aconteceu naquela noite na montanha e com o que descobriu sobre as pessoas que pensava conhecer intimamente.

Num Instante, Tudo Muda coloca-nos perante nós próprios e faz perguntas incómodas: será que nos conhecemos verdadeiramente? Numa situação extrema, o que estaríamos dispostos a fazer?

Um livro sobre o poder do amor, a importância da família... sobre a essência do ser humano (com todas as suas fragilidades) e, acima de tudo, sobre seguir em frente, mesmo quando isso não parece possível.”

 

Opinião:

A narradora, uma jovem de 16 anos, viaja com a sua família e outra família amiga, a sua melhor amiga e o namorado da irmã Chloe, numa caravana, com vista a passarem um aprazível fim de semana. Mas, tal como indicia logo o próprio título “Num Instante Tudo Muda”. Um acidente provocado por um veado, faz com que o carro caia numa ravina.

 

A partir deste momento, é impossível parar a leitura.

 

As descrições são tão intensas e realistas, que nos sentimos a percorrer a neve, em busca de auxílio, com as personagens, a sofrer as suas dores, a fome, a sede, o frio, a ponderar sobre as suas opções e as suas condutas. A luta pela vida pode, com efeito, trazer grandes mudanças nas atitudes das pessoas, ao ponto de não as reconhecermos. Também nos faz questionar se não terão sido sempre assim e estas circunstâncias vivenciadas apenas terão trazido à tona o que já lhes morava no seu âmago.

 

Afinal, conheceremos plenamente os que nos rodeiam? Reconhecer-nos-emos nas nossas próprias atitudes?

 

Este é um livro que se lê de um fôlego e nos deixa inquietos.

Gostei muito e recomendo vivamente a leitura.  

Reis, Patrícia (2019). As Crianças Invisíveis. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 28/07/2021

Fim da leitura: 29/07/2021

Sinopse:

“M. é uma criança habituada a ser usada e devolvida por famílias sucessivas como um produto que não satisfaz o cliente. Cresce numa instituição de acolhimento, onde vai descobrindo o poder da amizade e as armadilhas do desejo e da paixão. Esta é a sua história até chegar à idade adulta, atravessando um processo de invisibilidade, no qual a dor se confunde com a esperança de encontrar uma vida a que possa chamar sua. Ao seu lado existem outras crianças e ainda Conceição, a assistente social que escolhe amar M. incondicionalmente.

As Crianças Invisíveis é um romance que alia um exercício literário ímpar com um profundo trabalho de investigação sobre abandono, maus-tratos e adoção. Construindo toda a narrativa de uma maneira muito original, sem identificar o sexo das crianças, e a partir do olhar delas, a escrita límpida, poderosa e cirúrgica de Patrícia Reis conduz-nos, neste romance avassalador, através dos sonhos, do medo e da intimidade de um conjunto de personagens que percorrem a infância e a adolescência sem pai, nem mãe, nem identidade.”

Opinião:

Este é um livro cuja temática me diz muito, uma vez que trabalhei durante três anos numa Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Infelizmente, é retratada aqui uma dura realidade. As crianças não são objetos, não devendo ser adotadas sem plena consciência de o querer com todas as responsabilidades que implica a adoção. Adotar não é um ato de vaidade, não é um sentimento de pertença, não é uma forma de calar as invasões da sociedade que nos rodeia. Adotar é acolher no coração, é tornar a criança em sangue do nosso sangue. É um ato de entrega, é não pensarmos primeiro em nós, mas sim na criança. Mas, sabemos bem que, muitas vezes, nem os próprios pais agem em conformidade com o dever. M. é uma das muitas crianças institucionalizadas, vítima de vários abandonos, não passando nunca da pré-adoção. Quando não serve os propósitos de quem adota, há que devolver! É revoltante, por ser tão real! E, quando perguntam ao M. de qual das famílias gostou mais, ele prontamente responde que é a que tem na instituição, a que chama de a Casa.

Acompanhamos o crescimento de M., os seus medos, as suas dúvidas, o desenvolvimento da sua sexualidade, a relação com os amigos que fez na instituição, os que partem e os que chegam.

Gosto muito da forma intimista, crua, nua, dura, como o livro está escrito. A forma como é retratado o pensamento da criança face às atitudes dos adultos, faz-nos meditar.

É, sem dúvida, um livro muito bom! É um livro que deve ser lido, não só pela temática, mas pela forma como foi escrito!

Strout, Elizabeth (2018). O Meu Nome é Lucy Barton. Lisboa: Alfaguara.

Nº de páginas: 176

Início da leitura:27/07/2021

Fim da leitura: 28/07/2021

O meu Nome é Lucy Barton é uma obra de Elizabeth Strout (vencedora de um Pulitzer em 2009), traduzida por Rita Canas Mendes.

Sinopse:

“Mais do que uma história de mãe e filha, este é um romance sobre as distâncias por vezes insuperáveis entre pessoas que deveriam estar próximas, sobre o peso dos não-ditos no seio das relações mais íntimas e sobre a solidão que todos sentimos alguma vez na vida. A entrelaçar esta narrativa está a voz da própria Lucy: tão observadora, sábia e profundamente humana como a da escritora que lhe dá forma.”

Opinião: Este é um livro pequeno, mas grandioso no que toca à abordagem dos sentimentos humanos nas relações familiares.

Este não é um livro de ação, mas de reflexão. A protagonista Lucy Barton é internada num hospital em Manhattan, na década de oitenta, devido a complicações decorrentes de uma operação ao apêndice. Como o marido não gosta de hospitais, por ter perdido o pai num, e, atendendo à idade das filhas, demasiado novas para a visitar, Lucy vê-se remetida a uma cama de hospital, imersa na sua solidão.

Entretanto, recebe a visita da mãe, que não vê há muito tempo, que acedeu, instigada pelo genro, a apanhar o avião e a visitar a filha. A partir daqui, decorrem longas conversas entre as duas, onde recuperam memórias ou até a falta delas. Porém, a mãe continua a mulher fria que sempre foi, austera, sem demonstrações de afeto, incapaz de dizer à filha que a ama. Mas não amará ela, à sua maneira? Existe uma maneira de amar? Podem existir várias, o que não pode é haver abuso de autoridade e violência!

 Lucy Barton gosta de ler e de escrever, é profundamente só, pelas circunstâncias da vida, muito vulnerável, carente, mas, ao mesmo tempo, poderosa. Esse poder está nas próprias palavras, na capacidade de abrir o coração, expor o que transporta do seu passado, deixando-nos angustiados, fazendo-nos refletir sobre a condição de vida desta família, a condição das mulheres, a capacidade que cada um tem ou não para superar os traumas de infância e seguir em frente. A escrita de Strout é dura, mas elegante, convidando à reflexão e deixando-nos irremediavelmente presos do início ao fim.

Os diálogos entre as duas são impressionantes e deixo o convite à leitura desta obra tão intensa.

Algumas das frases que me marcaram mais:

“Isso era-nos dito no recreio pelas outras crianças - «A vossa família cheira mal»”.

“a minha mãe… batia-nos de forma impulsiva e com vigor…”

“…quando os nossos seios se desenvolvem, a nossa mãe nos diz que começamos a parecer-nos com uma das vacas do celeiro dos Pedersons?”

“…os livros trouxeram-me coisas…. Fizeram-me sentir menos só.”

“Mas, afinal, queria outra coisa. Queria que a minha mãe me perguntasse pela minha vida”.

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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