Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Feito, Virginia (2923). Mrs. March. Lisboa: Alfaguara.

Tradução: Alda Rodrigues
Nº de páginas: 336
Início da leitura: 19/07/2023
Fim da leitura: 21/07/2023

**SINOPSE**

"Um romance de estreia engenhosamente perturbador, povoado de mistérios e escrito com assinalável domínio narrativo: Virginia Feito entretece o virtuosismo de Patricia Highsmith com o génio de Virginia Woolf, e afirma-se como uma grande escritora.

George March acaba de publicar um novo romance cujo sucesso é retumbante. Entre todos os que gravitam em torno do escritor, não há ninguém mais orgulhoso do que Mrs. March, esposa solícita, sempre pronta a festejar os êxitos do marido e a usufruir do estilo de vida sofisticado que ele lhe proporciona. Criatura de rotinas e recato, Mrs. March compraz-se na sua vida requintada, num bairro de classe alta em Nova Iorque.

Todas as manhãs no Upper East Side começam de forma igual, com a visita diária à sua confeitaria preferida, para comprar pão de azeitonas. Até que, numa dessas visitas, Mrs. March é confrontada, pela empregada da confeitaria, com uma absoluta indignidade: a suposição de que a protagonista do novo livro de George March - uma patética trabalhadora sexual, que inspira mais escárnio do que desejo - se baseia na própria Mrs. March.

Um único comentário será suficiente para privar Mrs. March do seu pão de azeitonas, mas também da convicção de que sabia tudo sobre o marido, e até sobre si mesma. Começa aqui uma espiral de suspeitas e inquietações cada vez mais paranoicas, que talvez venha a revelar um misterioso assassínio e certos segredos do passado de Mrs. March, há muito enterrados."

Um romance de estreia muito bom, um thriller psicológico, que vale a pena ler, que nos prende à narrativa de forma muito inteligente e que cativa pela forma como as personagens nos são apresentadas, pelo enigma que gira em torno delas e nos deixa expectantes até ao fim e pela narração fluída e linguagem elegante.
Mrs. March, a protagonista desta história, é casada com um escritor nova-iorquino que acaba de publicar o seu bestseller. Mrs March é uma mulher elegante, esposa dedicada e vive uma vida repleta de comodidades, num bairro de classe alta. 
Tudo corre de feição, até ao dia em que, na sua rotina da manhã - ir à padaria comprar pão e azeitonas pretas, - é confrontada pela empregada da padaria sobre o facto de o marido, no último livro, ter uma personagem inspirada nela, "uma prostituta com quem ninguém quer dormir", uma vez que tem alguns "maneirismos" que lhe faziam lembrar Mrs. March. Ora, a partir deste momento, dá-se início a uma profunda obsessão por parte de Mrs. March em relação ao livro e ao marido. A par disto, outros acontecimentos, como o homicídio de uma jovem, contribuem para aguçar as suspeitas e fazer com que Mrs. March tente, a todo o custo, desvendar os mistérios (muitos deles, criados na sua própria cabeça) que começam a assolar os seus dias e a invadir as suas noites. Também Mrs. March esconde alguns segredos e, esse facto, faz com que a curiosidade se aguce e nos prenda ao livro. Aconselho!

Saramago, José (2014). As Intermitências da Morte. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 232
Início da leitura: 16/07/2023
Fim da leitura: 18/07/2023

**SINOPSE**

"«No dia seguinte ninguém morreu.»
Assim começa este romance de José Saramago.

Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Caligrafia da capa por VALTER HUGO MÃE"
Um livro realmente espetacular! Como é que eu ainda não o tinha lido? Adorei! 
Esta obra ficcional começa com a frase " No dia seguinte ninguém morreu." Agora, imaginem um país de 10000 habitantes, em que a morte resolve tirar umas férias e deixa de morrer gente... De uma forma hilariante, não deixando a crítica que vai tecendo através do próprio sentido de humor, Saramago aborda um tema muito interessante e de forma ficcional mas muito pertinente. 
Este facto pode ser um "pau de dois gumes": por um lado, que bom é ninguém morrer e tornar-se eterno! Por outro, "nem tudo o que luz é ouro", e nem imaginam as consequências que esse facto acarretaria! Que fariam as agências funerárias? Como suportariam os lares de idosos receber cada vez mais gente? De que serviria a igreja e os sermões do padre, se já não se morresse para "ressuscitar ao terceiro dia"? E muitas, múltiplas questões se levantariam. Como seria ter pessoas em coma para sempre? Como seria sofrer indefinidamente? Como seria, quando os lares e hospitais deixassem de poder acolher mais pessoas e tivessem de ficar ao cuidado dos filhos?
Saramago escreveu este livro com  mestria, muita criatividade e de forma exímia, revelando uma imensa cultura geral.
Aconselho muito a leitura!

Pamuk, Orhan (2006). A Vida Nova. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Filipe Guerra

Nº de páginas: 296

Início da leitura: 12/07/2023

Fim da leitura: 15/07/2023

**SINOPSE**

Após ter conquistado a distinção máxima na área da literatura, ao ter vencido o Prémio Nobel da Literatura, edição 2006, Orhan Pamuk, já publicado em Portugal com "A Cidadela Branca" e "Os Jardins da Memória", lança novo romance. "A Vida Nova" tornou-se num dos livros mais lidos de sempre na Turquia, sendo também aguardado com grande expectativa em Portugal. Nesta parábola sobre o amor, a literatura e a identidade, vamos ao encontro de Osman, um jovem estudante universitário. Obcecado com um livro mágico que trata da natureza perigosa do amor e da personalidade abandona a casa, a família e os estudos. A bela Janan irá tornar-se a sua companheira na busca pelo significado dos segredos mais obscuros do livro. Dá-se assim início a uma odisseia pelo coração da Turquia, onde o perigo se esconde a cada esquina e onde o amor não é um refúgio. Uma obra-prima da literatura universal.

Tudo começa com o dia em que Osman, o protagonista, um estudante universitário, vê um livro de uma colega (Janan) e resolve comprar um exemplar. Acontece que este é um livro que se revela absorvente, ao ponto de absorver a própria vida de Osman e o leva a desejar a "Vida Nova". Quando o namorado da sua colega, Mehmet, desaparece, decidem embarcar em viagens em busca de Mehmet, através do seu pai, o Dr. Fine. Certo é que, após a leitura deste livro, nunca mais ninguém será como era. O que estaria escrito neste livro? Por que razão não deveria ser lido?

Uma premissa muito interessante, uma imaginação incrível. Porém, considerei, em determinado momento, algo aborrecido, porque essa procura por Mehmet é uma viagem tão atribulada e surreal, que, a meio, deixei de sentir o sentido dessa viagem ou de ver nela um sentido. No final, felizmente, recuperei o entusiasmo pela leitura.

Certo é que os livros mudam vidas, mostram caminhos (com um fim ou não), abrem perspetivas e novos horizontes, fazem crescer, acentuam o amor, permitem descobrir o mundo e a si mesmo, ou, simplesmente, mostrar o "esplendor da morte". Até que ponto existe esse mundo que se pode crer perfeito? Até que ponto precisamos de uma vida nova? Ou, até que ponto temos de partir de nós para nos encontrarmos? Para encontrarmos a causa original das coisas?

A magia dos livros está em o encararmos como tendo sido escrito para nós, como o reflexo da nossa história. Só assim têm o poder de mudar as vidas de quem os lê e fica neles irremediavelmente preso.

 Mascarell, Lola (2022). Nessa Altura Já Cá Não Estamos. Alfragide: Publicações Dom Quixote.
Tradução: Rui Elias
Nº de páginas: 224
Início da leitura: 13/07/2023
Fim da leitura: 14/07/2023

**SINOPSE**
"Quando sabe que os pais puseram à venda a moradia onde passou férias durante a infância e a adolescência, a protagonista deste romance sente que lhe arrancam metade da vida. E as coisas pioram quando aparece um comprador. Recusando-se a perder a casa para um estranho, ela consegue adiar a venda e pede um empréstimo ao banco. E, enquanto aguarda o veredicto, instala-se na moradia, tentando aproveitar ao máximo aqueles que podem ser os seus últimos dias dentro dela. São recordações felizes as que lhe chegam sempre que abre uma gaveta ou desarruma um caixote: o seu grupinho de amigas, as tardes na piscina, as anedotas que o pai contava à mesa, as quedas de bicicleta, o primeiro namorado, as primeiras mentiras… Mas há também um inesperado segredo de família que se encontra estranhamente ligado ao destino que a casa terá em breve.

Este é um romance maravilhoso sobre as alegrias e as dores da juventude, narrado alternadamente por uma voz luminosa e fresca e outra adulta e desesperada. Como disse o grande escritor espanhol Luis Landero, poucas vezes foi tão bem evocado num livro o mundo da infância, com as suas incertezas, os seus terrores e as suas manias. Só por isso, já valeria a pena ler este romance. Mas, claro, há muito mais."
A narradora deste livro é a protagonista que se vai debater com a necessidade de os pais venderem a casa de campo em que passava, com a família, as férias de verão, uma casa que ela quer muito conservar, a casa das memórias da sua infância, com todos os pormenores, os objetos, os cheiros, os acontecimentos que estão nela. E a "memória é um animal caprichoso e cada um recorda aquilo que quer, conta como lhe apetece contar e deixa que essa versão se vá modificando com o tempo, à vontade do freguês." Ao longo da narrativa, vão-se desfiando memórias, rastos que foram sendo deixados pela casa, ao longo dos anos. E não é fácil cortar irremediavelmente os laços com "A Casa", a que é cúmplice da própria vida.
A forma escrita é extremamente poética, doce e de leitura muito agradável.
E nada nos prepara para o final surpreendente!
Aconselho a leitura!

 Magalhães, Helena (2023). A Devastação. Lisboa: Suma das Letras.

Nº de páginas: 344
Início da leitura: 11/07/2023
Fim da leitura: 13/07/2023

**SINOPSE**
"No final do verão de 1990, Mar, com apenas seis anos, é enviada para o Romeirão, um internato Católico no Alentejo onde fica até aos 15 anos. Cresce no meio de regras e privações, castigos e fome, mas rodeada e protegida pela irmandade das outras raparigas, principalmente Anita e Amália, mas também de Eduardo, um dos rapazes da vila, com quem vai criar uma relação inesperada e viver as primeiras descobertas de amor.

Anos depois, ainda a lidar com o trauma do passado, com as drogas, a depressão e a solidão, é ao lado de Isabel, Alice e Luísa que aprende a viver uma nova vida sóbria e em paz. Quando reencontra Eduardo, nenhum consegue resistir à ligação magnética, mas com ele voltam feridas antigas que a assombram desde a noite em fugiu do Romeirão. A pequena Mar que se transformou na Marisa das Argolas, a vilã de Raparigas Como Nós, regressa nesta ousada crítica ao patriarcado português. Escrita com sagacidade e emoção, a devastação explora o poder das amizades femininas e captura as complexidades humanas e familiares, a eletricidade do primeiro amor e os segredos que nos enjaulam em locais amaldiçoados dentro de nós."
Este é um livro cuja premissa inicial nos prende imediatamente: uma criança, Mar, é deixada pelos pais ao cuidado da avó que, entretanto, morre, o que a leva a ir para um orfanato. Aí aprende, desde muito nova, como sobreviver num mundo onde não lhe resta ninguém, a aprender o bem e o mal, a aprender demasiado cedo o que uma criança não tem nem deve aprender...
A partir de um determinado momento, penso que se exagera um pouco no que concerne às suas desventuras, a sua devassidão (quero acreditar que nem sempre tem de ser assim, mesmo após a maior crueldade), mas a vida é dura e é assim que é aqui retratada neste livro ficcional, de forma nua e crua, sem lisonjas, numa verdadeira "devastação". Perder os mortos não é fácil, mas acredito que não será mais fácil perder os vivos, que morrem para nós, os que não ficaram para nos proteger... De realçar a forma como é abordado o poder da amizade, as complexas teias familiares e todos os acontecimentos que tecem memórias que enjaulam e precisam de ser libertadas nem que seja por um pequeno pontinho de esperança. 
Foi o primeiro livro que li da autora e gostei da forma como escreve. Aconselho! 

Redondo, Dolores (2029). A Face Norte do Coração. Lisboa: Planeta de Livros.

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Nº de páginas: 616
Início da leitura: 07/07/2023
Fim da leitura: 10/07/2022

**SINOPSE**
"«Quando Amaia Salazar tinha doze anos esteve perdida no bosque durante dezasseis horas. Era de madrugada quando a encontraram, trinta quilómetros a norte do lugar onde se havia desviado do trilho. Desmaiada debaixo da chuva intensa, a roupa enegrecida e chamuscada como a de uma bruxa medieval resgatada de uma fogueira e, em contraste, a pele branca, limpa e gelada como se acabasse de surgir do gelo.»
Em agosto de 2005, muito antes dos crimes que chocaram o vale do Baztán, Amaia Salazar uma jovem de vinte cinco anos, subinspetora da Policia Foral de Navarra, participa num curso de intercâmbio para polícias da Europol na Academia do FBI, nos Estados Unidos, dado por Aloisius Dupree, o chefe da unidade de investigação. Uma das provas consiste em estudar um caso real de um assassino em série a quem chamam O Compositor , que age sempre durante grandes catástrofes naturais, atacando famílias inteiras e seguindo uma encenação quase litúrgica. Amaia integrará inesperadamente a equipa de investigação que os levará até Nova Orleães, em vésperas do pior furacão da história da cidade, para tentar antecipar-se ao assassino… Contudo, um telefonema da sua tia Engrasi de Elizondo despertará em Amaia fantasmas da sua infância, obrigando-a a enfrentar de novo o medo e as recordações que podem mudar tudo, expondo-a de novo à face norte do coração."
Este é o primeiro livro que leio da autora. Sei que há um anterior, desta trilogia, mas também me informei de que poderiam ser lidos separadamente. 
A história decorre em Nova Orleães, durante a passagem do furacão Katrina, que acaba por surgir como um pretexto favorável para uma série de homicídios. Amaia Salazar é uma jovem formanda do FBI e traz com ela traumas de infância que se vão entrecruzando com os casos que segue. 
A autora parte de uma história real para a ficcionar: a de John List, um veterano da Segunda Guerra Mundial que, em 1971, matou a família, o que lhe valeu uma perseguição de 18 anos pelo FBI. Aqui surge apenas como o Compositor, que, em todos os seus crimes, deixa um violino.
Apesar de bem escrito, de emocionante, no meu entender, poderia ter menos páginas, já que, a certa altura, senti que a história não se desenrolava, girando em torno do mesmo, o que era evitável. Porém, para quem gosta de bons policiais, é um livro a ler.

 Harris, Joanne (2023). Luz Oculta. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: Ana Saldanha
Nº de páginas: 448
Início da leitura: 06/07/2023
Fim da leitura: 07/07/2023

**SINOPSE**
"Bernie Moon era especial. Aos dezanove anos, acumulava sonhos, alegria e ambição. Mas os anos passaram e o seu brilho foi desvanecendo aos poucos. É agora uma mulher cansada e infeliz. Dedicada ao marido e ao filho, não tem tempo para si própria, não tem amigos e sente-se cada vez mais invisível.

Quando uma jovem mãe é assassinada num jardim perto de sua casa, Bernie redescobre um talento antigo, algo que há muito decidira esconder. Ela prometera não o voltar a usar. Em tempos, quase a destruíra. Bernie Moon está finalmente preparada para recuperar a magia que perdeu. Ela sabe o que está em jogo, e está disposta a arriscar…

Um romance poderoso sobre relações entre homens e mulheres, crescimento e envelhecimento, poder e amizade."
Este é um livro que concentra em si vários aspetos: uma escrita muito fluída simples, mas elegante, sempre com novos acontecimentos, que nos levam a querer saber o que se passou a seguir. Aborda temas que, por mais que se vejam abordados, parece que nunca mudam: a sociedade machista em que ainda vivemos. A mulher acaba por se subjugar, porque é assim, porque toda a gente diz que é assim. É assim desde o berço, é assim que as próprias mães educam as filhas. Depois, é a própria sociedade que diz ser assim. 
Neste romance, a protagonista é Bernie Moon, chega à meia idade a pensar que está tudo errado, presa às tarefas domésticas e vida profissional, o que executa sem vivacidade, porque os sonhos, esses, ficaram algures na infância. Agora, resta-lhe uma menopausa com a qual não sabe lidar, o peso que não consegue perder e até tem de deixar de correr, porque se tornou perigoso, pois mataram uma mulher perto do local onde costumava correr sozinha. Kate trabalha numa livraria e vive, de certa forma, muito só, ainda que sempre rodeada de pessoas. Resta-lhe continuar a ser cada vez mais invisível, para todos e, em especial para o marido. E "As pessoas são como as casas. Todos temos espaços públicos. Fachadas bem iluminadas(...) No entanto, na maior parte do tempo, estamos dentro de casa e o que acontece lá é privado."

Conseguirá Bernie superar esta fase da sua vida e até aprender a libertar-se das amarras em que a sociedade espartilha a mulher?

 Zhadan, Serhij (2023). Internato. Lisboa: Elsinore.

Tradução: Ana Prokopyshyn

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 02/07/2023

Fim da leitura: 05/07/2023

**SINOPSE**

"Uma viagem de sobrevivência numa cidade do leste da Ucrânia transformada em palco de guerra.

Um jovem professor procura trazer para casa o seu sobrinho de treze anos que se encontra num internato. Terá para isso de cruzar a cidade. Uma aventura perigosa de ida e volta, que durará um dia inteiro. A cidade está transformada num cenário de guerra e a escola um dos seus epicentros.

Com uma arte narrativa, descrita pela crítica como Jazz verbal, que transforma palavras em poderosas imagens, Zhadan descreve com rigor e inesperada poesia como a guerra transforma uma paisagem outrora familiar numa realidade apocalíptica, onde a destruição e o medo imperam."
Este é um livro que nos faz perder o fôlego. Intenso, duro. 
Pasha é professor e ensina a língua ucraniana. Quando a Ucrânia se torna palco de guerra, a pedido do "velho", resolve ir buscar o sobrinho ao internato onde a sua irmã (gémea) o terá deixado. Mas esta viagem até ao internato é inimaginável. A descrição dos acontecimentos, dos medos, da angústia, da fome, do desespero, do cansaço, é tão real, que nos sentimos lá, a vivenciar tudo com Pasha. Uma viagem que, para além de ser uma luta constante pela sobrevivência, é uma forma de questionamento da própria vida, da profissão enquanto docente. No regresso, Pasha fica, com efeito a conhecer o sobrinho e apercebe-se de que está mais próximo dele do que nunca. Apercebe-se de quão pouco o conhecia, ou queria saber dele... Também para o sobrinho, de 13 anos, esta viagem é um longo caminho para casa, uma viagem de amadurecimento. 
Uma viagem de 3 dias, de ida e volta, pela guerra, pela podridão, pelo Inferno, por tudo o que de maquiavélico pode haver no ser humano. E, ao mesmo tempo, é uma metáfora da luta por um regresso a casa, uma casa que "cheira a lençóis limpos". Magnífico!

Amaral, João (2014, reimpressão 2022). A Viagem do Elefante. BD Baseado no romance de José Saramago. 3ª ed. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 128
Início da leitura: 02/07/2023
Fim da leitura: 03/07/2023

**SINOPSE**
Este álbum de João Amaral adapta para BD o romance homónimo de José Saramago. Como diz Pilar del Rio, no prefácio que para ele escreveu, o caminho até Viena é tortuoso: João Amaral sabe-o bem porque o esteve a desenhar durante mais de dois anos passo a passo. Estava em sua casa e também ouviu os barritos do elefante, pelo que se pôs a delimitar a zona para que nenhum leitor se perdesse na aventura de ler. João Amaral estudou muito bem aquilo que José Saramago havia escrito e logo que o soube com todas as letras pintou-o para que nada na sua banda desenhada fosse falso.
Apesar de ainda não ter lido o original A Viagem do Elefante, de José Saramago, gostei muito de ler esta BD e fiquei com interesse em ler a obra escrita pelo nosso Nobel. 
A ação decorre em vários espaços, que nos são logo mencionados na rota desenhada por João Amaral - de Lisboa, passando por vários outros espaços, dos quais destaco Castelo Rodrigo, Valladolid e Viena.
Dom João, o Terceiro e Dona Catarina decidem oferecer ao primo, que se encontra à época em Valladolid, um presente "que desse nas vistas" e chegam à conclusão que o ideal é oferecer um elefante, Salomão, que têm há 2 anos. Após o primo concordar com o presente, é preciso levá-lo até Valladolid, a pé. Empreendem, então, uma longa viagem, sendo que o cornaca Subhro zelará pelo bem estar de Salomão. E mais não conto. Terá Salomão sobrevivido à dura viagem que teve pela frente? E que mensagem podemos tirar desta viagem?
Gostei do pormenor de uma das personagens ser o próprio José Saramago, que nos vai elucidando sobre alguns acontecimentos, nos vai lançando questões e dando o seu parecer. Gostei também das ilustrações, que são belíssimas.
Um livro muito interessante, que aconselho para todas as idades, em especial para o 3º ciclo e ensino secundário.

 Saramago, José (2000). Todos os Nomes. Lisboa: Planeta DeAgostini.

Nº de páginas: 280
Início da leitura: 01/07/2023
Fim da leitura: 02/07/2023

**SINOPSE**
O protagonista é um homem de meia-idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de colecionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas coleções, de informações exatas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respetivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que está copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro.
Um livro de índole filosófica, perpassado de nostalgia e pessimismo, de descrença na humanidade.
A ação decorre essencialmente numa Conservatória Geral do Registo Civil, onde mortes e vivos se confundem. E, apesar de decorrer uma busca judicial, não é um romance policial, mas antes uma espécie de ensaio sobre a existência, não da própria, mas de outrem.
O protagonista, o Sr. José, é auxiliar de escrita nessa Conservatória Geral. Vive numa casa contígua à Conservatória, estando, no entanto, proibido de usar a passagem direta, que se mantém trancada. Esta personagem tem um passatempo, o de colecionar recortes de pessoas famosas. Completava as informações dos famosos com informações dos verbetes do Conservatório. Porém, confronta-se com uma situação em relação a uma jovem, sobre a qual faltam informações. Resolve, então, usar do privilégio da porta de acesso à Conservatória, durante a noite, infringindo a lei. Traz o verbete de uma desconhecida, mas que lhe desperta curiosidade e começa uma busca sobre esta mulher, sobre o que a terá levado a suicidar-se, o que está entre a vida e a morte. 
Mas há perguntas que nem sempre têm resposta, porque "Há dentro de nós uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." Por mais que uma busca ontológica seja minuciosa e esmiúce várias questões, haverá uma resposta? 

Velho, Susana Amaro (2022). Inquieta. Coimbra: Aurora Editora.
Nº de páginas: 332
Início da leitura: 29/06/2023
Fim da leitura: 30/06/2023

**SINOPSE**
Poderá um amor de juventude inquietar uma vida inteira?

Julieta parece ter a vida perfeita. Aos trinta e sete anos tem um marido adorável que cozinha os melhores bolos. O emprego com que sempre sonhou e que a preenche. Uma casa cheia de luz e livros, onde a mesa está enfeitada com camélias. Então, por que motivo está agora sobre o varadim escorregadio de uma ponte, descalça e suja de sangue, prestes a saltar?

Afinal, nem tudo o que parece é. Quando um amor antigo regressa do passado, traumas são ressuscitados e uma proposta impensável desperta em Julieta um fantasma adormecido. Mas que proposta é essa que vem tornar a verdade perturbadora? E o que é a verdade quando a própria realidade a confunde?

Inquieta é um relato cru e intenso dos anseios e traumas de uma mulher. É a história de alguém incapaz de fugir do abismo da própria memória e de se sentir livre.

Gostei muito deste livro. Primeiro, porque está bem escrito, com sequências narrativas perfeitamente ligadas, através de um processo de alternância entre tempos e momentos da história. 
Em segundo, porque há um constante "suspense", que dá vontade de continuar a ler e nem sequer pousar o livro. 
Em terceiro, porque as temáticas abordadas, no decurso desta história avassaladora, são cruciais para percebermos as personagens, as suas relações e ralações: os maus-tratos na infância, quer físicos, quer psicológicos, a frequente falta de atitude de alguns progenitores, quando eles e os filhos são vítimas de violência, porque "deixam andar", "talvez mude", "não tenho já forças", "é normal"...Nada há de normal nisto, que é necessário combater! Os comportamentos promíscuos em frente aos filhos, a negligência, o abandono e a saúde mental.
Um livro que aconselho sem reservas. Ainda para mais, escrito por uma autora portuguesa! Há que valorizar os nossos escritores e temos, realmente, bons escritores! A única coisa de que não gosto é da capa. Mas o livro vai muito para além disso!

 Natsukawa, Sosuke (2022). O Gato que Salvava Livros. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Teresa Mendonça
Nº de páginas: 160
Início da leitura: 28/06/2023
Fim da leitura: 29/06/2023

**SINOPSE**
"Envolto numa aura de aconchego,
ternura e felicidade,
este é um romance que celebra os livros,
os gatos e as pessoas que os adoram.

Na periferia da cidade, há uma livraria alfarrabista. Lá dentro, as pilhas de livros são como arranha-céus a tocar o teto. Estamos na Livros Natsuki, fundada pelo avô de Rintaro, que ali cresceu, numa espécie de refúgio extraordinário em que a leitura comandava os dias e os mundos amparados pelas lombadas não tinham fim.

Depois da morte do avô, Rintaro está inconsolável e sozinho, e a vida da Livros Natsuki parece ter acabado. Mas é então que surge Tigre, um gato malhado… falante. Tigre pede ajuda a Rintaro: precisa que um verdadeiro amante de livros se junte a ele numa missão muito importante. Não há tempo a perder: é preciso salvar vários livros das mãos das pessoas que os trataram mal, os prenderam e os traíram. Juntos, partem em três viagens mágicas, e no final… Rintaro tem de enfrentar o derradeiro desafio sozinho.

Uma história comovente sobre esperança, altruísmo e o enorme poder dos livros, para todos os que veem neles muito mais do que apenas um conjunto de palavras impressas em papel."
Como nos é dito na sinopse, este é um livro doce, que nos fala de coisas que me são aprazíveis: livrarias antigas alfarrabistas e livros. Em jeito de fábula, temos uma história que começa com a morte do avô do jovem Rintaro Natsuki, um estudante comum do ensino secundário, que não tinha muitos amigos, apreciando antes perder-se entre os livros clássicos da livraria do avô. Uma vez que Rintano se prepara para viajar para casa de uma tia, que nunca vira antes, vê-se, assim, obrigado a fazer uma liquidação total dos livros. Porém, não são muitos os compradores...
As aventuras começam quando lhe surge um gato, que fala com ele e que, ainda por cima, lhe propõe que o acompanhe a vários labirintos, com o intuito de salvar livros das mãos cruéis de homens que não sabem o seu real valor. Desde o encarcerador de livros, que lê muitos livros, os deixa imaculados e presos em estantes, sem que nunca mais volte a pegar neles. Segundo Rintaro, este homem não gosta verdadeiramente de livros, mas de se vangloriar da quantidade de livros que lê. Gostar gostar, gostava o avô, que os lia e relia até estarem quase desfeitos, sempre com o mesmo encantamento. O segundo labirinto é o do mutilador de livros que, para que se consiga ler mais livros do que a vida permite, decide, cortar e deixar só uma sinopse de cada livro. Também aqui Rintaro tenta explicar-lhe que estava a roubar a vida aos livros, porque "os livros são mais do que apenas palavras". No terceiro labirinto está o vendedor de livros, ao qual apenas interessa o lucro... E mais não conto. Apenas refiro uma outra personagem que acaba por viver estas aventuras com Rintaro - a delegada de turma, que, devido às faltas deste às aulas, lhe levava os apontamentos das (Sayo).
E, para terminar, deixo uma de entre várias passagens que sublinharia:
"- Os livros estão cheios de pensamentos e sentimentos humanos. Pessoas que sofrem, pessoas que estão tristes ou felizes, que riem de alegria. Ao ler as palavras e as histórias dos livros, ao vivê-las em conjunto, aprendemos sobre os corações e as mentes de outras pessoas, além de nós próprios...Empatia: esse é o poder dos livros".
Um livro para todas as idades, que se lê num instante e cuja leitura é muito agradável.

Jorge, Lídia (1985; edição de 2023). O Cais das Merendas. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 328

Início da leitura: 25/06/2023
Fim da leitura: 28/06/2023

**SINOPSE**
"O Cais das Merendas desenvolve-se em torno dos temas da identidade e da aculturação. Estamos perante uma narrativa poética, teatralizada, em que as personagens rurais, confrontadas com o mundo exterior, dão testemunho da sua intimidade, medos e desejos mais profundos.

A ação desenrola-se à beira-mar, numa praia do Sul de Portugal, girando as figuras em torno de um polo central: o Hotel Alguergue. Ocupado durante a época alta por turistas de várias nacionalidades, o hotel fica completamente despovoado durante os meses de Inverno. É então que os naturais da zona, esquecidos dos seus hábitos, precisam de se embriagar para voltarem a usar a sua língua materna e recitarem em voz alta as histórias tradicionais do seu país.

Figuras como Rosarinho, Pai Patroços, Miss Laura ou Sebastião Guerreiro, que vemos desfilar durante esses parties interpretam a hesitação de uma comunidade dividida entre o desejo de se modernizar e o de manter o que de si mesma entende por próprio e genuíno.

«No momento em que Portugal abandonava as últimas ilusões épicas e o mundo nos descobria como paraíso turístico, Lídia Jorge, cronista minuciosa e irónica da metamorfose do nosso secular cais das merendas, em vitrina cosmopolita, inventou-nos uma singular epopeia» segundo Eduardo Lourenço."
Neste livro, que se debruça sobre um grupo de trabalhadores hoteleiros no Algarve, examinam-se os meandros de uma crise de identidade nacional, nessa região, que foi palco de mudanças socioeconómicas mais flagrantes do que o resto do país.

A narrativa começa depois da morte da jovem Rosaria e, durante todo o romance, os factos que podiam explicar a sua decisão de pôr término à vida são quase impossíveis de descobrir, uma vez que ninguém consegue contar a história do sucedido. Ao longo deste romance, ouvimos apenas as muitas vozes e os pensamentos confusos das personagens, nos seus monólogos interiores, dando voz a um retrato metafórico do país, na pós revolução do 25 de abril.

Assistimos, neste livro, à fragilidade da identidade portuguesa, tão dependente de novas culturas oriundas do estrangeiro. Nesse sentido, a par da linguagem popular regional, surgem expressões inglesas e francesas, transmitindo a ideia incutida de que o que vem do estrangeiro é que é bom.

Um cais repleto de gentes que se divertem em torno de um "barbecue", entre copos e folia, e se questionam...

Não é um livro fácil, mas é um bom livro. Aconselho!

Oliveira, Elisabete Martins de (2023). Um Muro e Uma Cerca. Lisboa: Cultura Editora.


Nº de páginas: 264

Início da leitura: 23/06/2023

Fim da leitura: 24/06/2023


**SINOPSE**

"Pequenos gestos podem mudar o rumo de uma vida.
Elias vive sozinho numa casa demasiado grande, já sem os três filhos, que emigraram, e sem a mulher, que morreu. Quando uma família se muda para a moradia ao lado — entre as muitas que de repente chegaram à Margem Sul do Tejo, desafiando-lhe o sossego —, desenvolve antipatia e desconfiança para com os vizinhos.

Do outro lado, contudo, um rapaz negligenciado pelos pais e pela avidez da vida moderna vai-se aproximando, curioso, apesar das barreiras erguidas por Elias. Com Santiago a começar de forma turbulenta o quinto ano na escola nova, o menino procura consolo e atenção junto do vizinho.

A sintonia entre Elias e Santiago cresce, mas uma notícia perturbadora vem ameaçar-lhes a amizade e trazer ao de cima as vidas difíceis que levam, e os segredos que escondem um do outro."
Excelente estreia da escritora! Um livro doce, repleto de suspense, numa linguagem muito agradável e, de tal forma fluída, que o li de uma "penada", mas que aborda acontecimentos muito sérios, como a suposta "falta de tempo dos pais para os filhos", não os chegando a conhecer verdadeiramente, não se preocupando quando se queixam de violência sofrida por pares, na escola. Cada um levando solitariamente a sua vida, vivendo-a a seu bel-prazer, como se o filho fosse um erro de percurso, um fardo a suportar, uma peça da casa. Será que, quando "abrem os olhos", estes pais negligentes, continuarão  pensar e a agir da mesma forma? Às vezes, é preciso que aconteça uma tragédia, para perceberem o quão negligentes foram e se arrependerem de não ter "estado lá" quando o filho mais precisou.
Destaco, também, para além da criança, o Santiago, o seu vizinho Elias, de mais de 70 anos. Entre eles nascerá uma amizade improvável, afetos criados pelas carências e solidão de cada um.
Recomendo muito este livro de uma escritora ainda muito jovem, mas que me parece muito promissora. Gostei muito!

Deixo excertos de uma passagem reveladora da personalidade e atitude destes pais:

"Tiram-me da sanita e não me deixam ir embora. Ajoelham-me à força e agarram-me a cabeça. O Miguel tem mais força, empurra-ma para baixo, enquanto o Cláudio me faz pressão nas costas, para que eu não fuja. Faço força para não mergulhar a cabeça na água, mas eles encostam a minha cara à porcelana da sanita, que cheira a produtos químicos e a chichi, e puxam o autoclismo outra vez. Uma enxurrada de água entra-me pela boca e pelo nariz. (...) Quando chego a casa, tomo um banho (...) Forço um sorriso para mostrar aos meus pais. (...)
- Já tomaste banho? (...)
Contenho a vontade de chorar. (...) Acho que preciso de ajuda.
- Mãe?
- Diz. - Ela continua a olhar para o telemóvel.
- Há uns miúdos na escola que...estão sempre atrás de mim e gozam comigo.
- Isso são brincadeiras de miúdos, Santiago - É o meu pai que responde, a sorrir. - Não ligues.
- Eles molharam-me com água da sanita...
- Tens de lhes dizer para pararem, então - diz a mãe.
- Mas...
- Santiago - diz a mãe, e levanta a mão num aviso para eu me calar - , eu estou cansada. A última coisa de que preciso agora é de queixinhas."

 Bennett, Brit (2016). As Mães. Lisboa: Alfaguara.

Tradução: Eugénia Antunes
Nº de páginas: 328
Início da leitura: 21/06/2023
Fim da leitura: 23/06/2023

**SINOPSE**
"O romance de estreia de Brit Bennett, autora do fenomenal a outra metade e herdeira da tradição literária norte-americana firmada por James Baldwin, Toni Morrison e Chimamanda Ngozi Adichie.

Sobre o pano de fundo de uma comunidade afro-americana marcada pela religião, no Sul da Califórnia, As Mães conta uma história comovente e perspicaz sobre amor e ambição. Tudo começa com um segredo: «Todos os bons segredos têm um determinado sabor antes de os contarmos, e, se tivéssemos demorado mais algum tempo a degustá-lo, teríamos porventura reparado na acidez típica de um segredo ainda por amadurar, colhido cedo demais, rapinado e propagado antes do tempo certo.»

Nadia Turner está no fim do liceu e é uma adolescente rebelde, angustiada, muito bonita. Imersa no luto após o suicídio da mãe, envolve-se com Luke, um rapaz um pouco mais velho, filho do pastor da comunidade. São miúdos, não é nada sério. Mas desse romance resultará um segredo com um impacto duradouro. Pouco depois, Nadia abandona a terra natal, para forjar uma vida só sua.

Os anos passam. Já adultos, Nadia, Luke e Aubrey, a melhor amiga, ainda vivem no rescaldo da escolha que fizeram naquele Verão à beira-mar, enredados num estranho triângulo amoroso e perseguidos pela dúvida: como seria agora, se tivessem, então, feito uma escolha diferente?

Numa prosa encantatória e desafiante, As Mães revela que as escolhas que seguimos deixam marca até ao fim."

Este é o segundo romance que leio da autora, que não desiludiu. Muito bem escrito, com uma linguagem fluída que apetece ler.
Neste livro acompanhamos a história de três jovens: Nadia, Aubrey e Luke. Nadia sofre com a perda da mãe, que se suicidou, numa pequena povoação muito crente, em que o suicídio não era visto com bons olhos. Nadia sente-se sempre culpada, acha que a mãe se suicidou por sua causa. Certo é que sente, ao longo da adolescência a falta de uma mãe. A certa altura, envolve-se com Luke, de quem fica grávida. Quando Nadia conhece Aubrey na Igreja chamada "As Mães", onde passa a trabalhar, fica a saber, pela primeira vez, o que é uma amizade verdadeira. Luke, sendo filho do pastor, é um rapaz demasiado dependente dos pais, dos seus estigmas e preconceitos. Mas a vida dá muitas voltas, ainda mais quando Nadia entra para a Universidade e se vê obrigada a partir. Conseguirá Nadia, num local distante, esquecer que estivera grávida? Esquecer Luke?
Uma história de amadurecimento, de segredos, que decorre numa comunidade afro-americana, com as suas crenças e os seus preconceitos, que nos prende e avassala. Afinal, que tipos de mães existem? As que se sacrificam pelos filhos, as que acarinham os seus e os filhos dos outros, as que abandonam, as que matam antes mesmo de se nascer, as que desejam fervorosamente o filho, as que traem...O que as leva a serem desta ou daquela forma?
Recomendo muito a leitura deste livro!

Silva, Filipa Fonseca (2023). E Se Eu Morrer Amanhã. Lisboa: Suma das Letras.

Nº de páginas: 184
Início da leitura: 19/06/2023
Fim da leitura: 20/06/2023

**SINOPSE**
«O novo romance de Filipa Fonseca Silva é uma caixa de surpresas e uma história que todos deveriam ler.

Helena é uma viúva de 79 anos, aparentemente pacata. Vive com o gato num apartamento, independente dos filhos e netos adultos, gozando de ótima saúde física e mental. Até ao dia em que, por acidente, pega fogo à sala de estar.

Obrigada a mudar-se para casa da filha, que começa a questionar a sua sanidade, acaba por revelar um segredo que deixará toda a família boquiaberta: afinal, tem uma vida sexual ativa. Muito ativa.

A partir desta confidência, Helena conta-nos as suas aventuras amorosas e o lema de vida que adotou desde a morte do marido, com quem partilhou mais de quatro décadas de descontentamento.

E se Eu Morrer Amanhã? é um romance hilariante, que nos leva a refletir sobre os preconceitos em relação às mulheres mais velhas e o enorme tabu em torno da sua sexualidade. É também uma luz de esperança, iluminando a ideia de que nunca é tarde para descobrir o que nos faz feliz.»

Este é um livro que se lê bem, muito leve, com sentido de humor e uma protagonista de quase 80 anos completamente diferente e irreverente do normal das octogenárias. 
Helena é viúva e quer libertar-se de tudo o que a aprisionou no seu casamento. E é aos 79 anos que descobre o prazer físico e se liberta de todas as convenções. Esta é uma excelente premissa de um romance ficcional (apesar de ter partido de uma história que a autora ouviu contar). No meu entender, poderia ser mais desenvolvido, no que concerne às relações familiares, incluindo uma analepse do que tinha sido a vida de Helena durante o seu casamento. E, na relação com a neta (a que achei muita piada), falta algum sentimento, mais vigor na abordagem do crescente afeto entre elas, que não foi muito desenvolvido, em prol da descrição dos múltiplos "casos" de Helena. É um livro que serve para descontrair, entre leituras mais fortes.

Konar, Affinity (2016). A Outra Metade de Mim. Lisboa: Bertrand Editora.

Tradução: Patrícia Xavier

Nº de páginas: 328

Início da leitura: 16/06/2023

Fim da leitura: 18/06/2023


**SINOPSE**

"Pearl tem a seu cargo o triste, o bom, o passado. Stasha fica com o divertido, o future, o mau. Corre o ano de 1944 quando as gémeas chegam a Auschwitz com a mãe e o avô. No seu novo mundo, Pearl e Stasha Zamorski refugiam-se nas suas naturezas idênticas, encontrando conforto na linguagem privada e nas brincadeiras partilhadas da infância. As meninas fazem parte da população de gémeos para experiências conhecida como o Zoo de Mengele e, como tal, conhecem privilégios e horrores desconhecidos dos outros. Começam a mudar, a ver-se extirpadas das personalidades que em tempos partilharam, as suas identidades são alteradas pelo peso da culpa e da dor. Nesse inverno, num concerto orquestrado por Mengele, Pearl desaparece..."

Este livro ficcional, foi, no entanto, escrito a partir de relatos ouvidos e de livros consultados pela autora, o que lhe confere veracidade. Já li outros livros de não ficção que abordavam estas experiências feitas por supostos médicos em campos de concentração. Nesta obra, as vítimas dessas experiências eram crianças gémeas e o "médico" ou "Anjo da Morte" como era conhecido, Josef Mengele, é capaz das maiores atrocidades para tentar alterar as suas naturezas idênticas.
O livro está muito bem escrito e é curioso termos como narradoras as duas meninas gémeas, Stasha e Pearl, de 12 anos, uma vez que temos a perspetiva delas em relação aos acontecimentos. Se para os adultos, esta realidade foi terrível, imaginem o que passaria pela cabeça destas crianças! 
Apesar da temática, que é sempre terrífica, a autora utilizou uma linguagem quase poética, muito subtil, ainda que não esconda todo o terror vivenciado. Fala-nos de afetos que se mantêm fortes, malgrado todos os atos de crueldade por que passaram.  
Um livro que aconselho!
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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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