Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

 Peixoto, José Luís (2012). Nenhum Olhar. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 224
Início da leitura: 14/08/2023
Fim da leitura: 16/08/2023

**SINOPSE**
"Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade. «... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»"
Nenhum olhar é um romance complexo, nostalgicamente belo, que ganhou o Prémio Literário José Saramago em 2001.
Numa prosa poética que chega até nós pelas palavras de vários narradores, situamo-nos num espaço real, o Alentejo. O meio onde ocorrem as várias sequências narrativas é extremamente pobre e, quanto maior a pobreza, maior a crença no sobrenatural, no demónio, no gigante, numa cadela de "passos solenes", na voz presa dentro de uma arca, no homem com mais de 150 anos... Real e fantástico conjugam-se numa história que nos fala de amor, de sofrimento, de morte, num ambiente onde domina a noite e o silêncio, envolvendo as personagens e o próprio leitor numa grande nostalgia. Afinal, "... o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.”
A personagens são, também elas, fruto do meio em que vivem. De entre elas, destaco os gémeos siameses, Moisés e Elias, cujo único elemento distintivo era o facto de Elias não falar se não ao ouvido de Moisés, que reproduzia oralmente as palavras do irmão. De realçar a morte da mãe dos gémeos no parto (algo que, antigamente, acontecia com alguma frequência). E todos, tudo converge para um fim, em que nada somos, a solidão apodera-se das pessoas e só ela avança. Pelo caminho, tudo morre: morrem as crianças, morrem as mães, morrem as promessas, morre o engano, esse "engano de uma manhã que nasceu nos teus olhos", esse sonho cego, dominado pela morte, em que todos se tornam terra.
Recomendo!

Santos, Inês Fonseca (2016). José Saramago Homem-Rio. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Nº de páginas: 48

Início da leitura: 12/08/2023

Fim da leitura: 14/08/2023

**SINOPSE**

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, nasceu no Ribatejo a 16 de novembro de 1922 e morreu em Lanzarote a 18 de junho de 2010. Foi serralheiro mecânico, funcionário da saúde e da prevenção social, desenhador, escritor, editor, crítico, tradutor e jornalista. Foi Saramago-menino, Saramago-adolescente, Saramago-adulto e Homem-Rio. Foi múltiplo como só um escritor o sabe ser.

«Ao contrário de um rio, um escritor tem muitas margens. de um rio, sabemos onde nasce e onde desagua; a um rio, conhecemos a margem direita e a margem esquerda. Já um escritor tem tantas margens quantas as palavras que existem — as que ele mesmo escreve e as que, antes dele, outros escreveram.»
Um livro que não pretende ser uma biografia de José Saramago, mas sim um estímulo à leitura da sua obra. Muito metafórico, mas com uma linguagem acessível, poderá servir de motivação para dar a conhecer este "Homem-Rio" aos mais jovens (e não só). Fala-nos também sobre a preocupação de Saramago com os direitos e deveres, a igualdade, o respeito, entre todos os homens e mulheres, a casa que se abre ao mundo, as duas bibliotecas de sua casa: "uma composta pelos livros que Saramago lia, outra pelos livros que Saramago escrevia" e que dialogavam uns com os outros. Para além desta, havia "uma biblioteca invisível e infinita que existia dentro do homem que existia dentro da casa - dentro de Saramago."
"Um escritor tem muitas margens"
"Já um escritor tem tantas margens quantas as palavras que existem".
Não deixem de ler!

Faulkner, Katherine (2023). As Outras Mães. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Pedro Póvoa
Nº de páginas: 384
Início da leitura: 12/18/2023
Fim da leitura: 14/08/2023

**SINOPSE**

"Um thriller original e habilidoso sobre assassínio, classes sociais e maternidade, ambientado numa das zonas mais elegantes de Londres.

Depois de ter deixado o seu emprego como jornalista por não o conseguir conjugar com a maternidade, Tash está agora determinada a regressar ao jornalismo como freelancer. Quando Sophie, uma jovem ama, é encontrada morta, em circunstâncias suspeitas, Tash percebe que esta pode ser a história de que precisa para relançar a carreira. Gerir a investigação e cuidar do filho, todavia, está a deixá-la esgotada, pelo que precisa de encontrar alguém em quem se apoiar.

Depois de conhecer uma das outras mães junto à creche onde deixa o filho, dá subitamente por si no sedutor mundo dos bairros abastados de Londres, repletos de casas deslumbrantes, brunches caros e festas infantis luxuosas. É então que outra jovem é encontrada morta. E quanto mais Tash investiga, mais lhe parece que as respostas a levam sempre para aquele grupo de mães.

Serão elas realmente suas amigas? Ou haverá outra razão pela qual Tash foi tão bem recebida naquele mundo exclusivo? É ela quem as tem observado? Ou será o contrário?"

Sem ser um livro excecional, é um bom livro para férias, que apresenta uma boa premissa e uma dose de "suspense" capaz de nos prender à história e de servir de boa companhia numa ida à praia, ao rio ou à piscina..
Tash é jornalista e deixa o emprego para cuidar do filho, ainda bebé. Porém, deseja continuar a fazer o que gosta - jornalismo e, ao saber de uma ama, Sophie, em que os factos apontam para um homicídio, que ficou por resolver, decide investigar. Também ela se torna ama em casa dos mesmos patrões de Sophie.
Aqui a narrativa vai intercalando entre a época em que Sophie começou a trabalhar em casa de uma família abastada de Londres, e a época em que temos Tash a exercer o mesmo cargo, na mesma casa. Esta técnica permite-nos perceber alguns padrões dos patrões das duas amas: as depressões, o excesso de zelo do "pai" das crianças, mesmo em relação às amas; as amizades com outras recém mães, as relações, as depressões, as festas, os segredos, os silêncios que muito escondem. 
Porém, descobrir quem assassinou Sophie torna-se numa obsessão para Tash. Até que ponto as descobertas dela são manipuladas? Até que ponto, enquanto julga observar, não está ela a ser observada?
No final, creio que há uma série de reviravoltas um pouco rocambolescas demais para o meu gosto, e não me surpreendeu, pois eu já tinha percebido, muito antes, quem era o/a verdadeiro/a assassino/a.

Saramago, José (2011). Viagem a Portugal. Alfragide: Editorial Caminho.

Nº de páginas: 640
Início da leitura: 09/08/2023
Fim da leitura: 12/08/2023

**SINOPSE**

"O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."

Acompanhar o viajante nesta "Viagem a Portugal" é simplesmente maravilhoso! Para além das referências a locais que já conheço e gostei de revisitar, descobri que ainda não conheço todas as coisas maravilhosas que o nosso pequeno país nos oferece. O viajante, narrador desta obra, fá-lo de forma fenomenal, como quem viaja. Para além de pensamentos "banais", que passam pela cabeça de qualquer viajante, este é alguém que o faz com deleite, sentido crítico e que, ainda por cima, revela uma cultura geral invejável e é maravilhoso o que aprendi com este livro. De norte a sul de Portugal, por estradas, por cidades, vilas e aldeias, por igrejas, capelas, monumentos, casas de escritores, rios, costumes, pessoas, vamos contactando com histórias, histórias de histórias, lendas, mitos, sonhos, curiosidades por detrás de cada sítio, vamos assistindo ao deslumbre e à desilusão, ao elogio e à crítica. Tive a sensação de fazer esta viagem com o viajante, a pé, não haveria com certeza um guia melhor para acompanhar o leitor. Depois, há o que se vê sem estar à vista.
Imperdível!
Deixo algumas (poucas) das muitas frases que sublinhei:
"Viajar deveria ser outro concerto, estar mais e andar menos, talvez até se devesse instituir a profissão de viajante, só para gente de muita vocação,"
"...cá fora, sentado nos degraus que dão acesso ao adro, o viajante ouve contar uma história da história da construção do templo."
"O viajante transporta-se dentro de um borrão de tinta, nem as estrelas ajudam, que o céu é todo uma pegada nuvem."
"Este caminho é uma festa que o céu acompanha enviando tudo quanto tem para mostrar."
"O viajante entristece. Estas histórias de milagres, de mudos que passam a falar, de círios do tamanho de um homem, cobriram por instantes a memória da tarde."
"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa."

Ferrante, Elena (2020). A Vida Mentirosa dos Adultos. Lisboa: Relógio D'Água.

Tradução: Margarida Periquito

Nº de páginas: 304

Início da leitura:08/08/2023

Fim da leitura: 09/08/2023


**SINOPSE**

"«Dois anos antes de sair de casa, o meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia» é a frase inicial deste romance. A revelação é feita por Giovanna, que ao olhar paterno se transformara de criança encantadora em adolescente imprevisível, que parecia tornar-se cada dia mais parecida com a desprezada tia Vittoria.

A frase ouvida sem que os pais o soubessem vai levar Giovanna a procurar conhecer a tia, cujas fotografias foram apagadas dos álbuns de família e é evitada em todas as conversas.

Para saber se estará realmente a tornar-se semelhante à tia, vai visitar a zona empobrecida de Nápoles, a conhecer uma versão diferente dos seus pais, provocando sem o saber a desagregação da sua família intelectual, compreensiva e perfeita na aparência.

Confirmando a sua mestria narrativa e o profundo conhecimento do que se passa na cabeça das adolescentes, Ferrante constrói um enredo surpreendente, ligando uma história de iniciação aos episódios de uma pulseira que passa de mão em mão. Giovanna move-se entre duas famílias e duas zonas da cidade em busca dela própria, na passagem da adolescência para a idade adulta."
Elena Ferrante escreve muito bem. Gosto da fluência da linguagem e do emaranhado de histórias. Apesar de os dois primeiros livros da tetralogia de "A Amiga Genial", me ter surpreendido mais, gostei também bastante deste.  Neste livro, a protagonista e narradora, uma jovem de 15 anos, Giovanna, muito amada pelos pais, ouve, certo dia, o pai dizer à mãe que a filha estava cada vez mais parecida com a irmã do pai, Vittoria, com quem o pai nunca se dera e que dizia, com frequência, ser feia e má.
A partir desse momento, nasce em Giovanna, a par de uma frustração (já que o pai lhe abrira os olhos para o facto de ser como a tia odiada), um desejo de saber como era a tia, se era mesmo parecida com ela. Em casa, encontra apenas fotos antigas, onde apenas se vê o pai e as outras figuras surgem pintadas num retângulo negro. Decide, então, dizer aos pais que deseja conhecer a tia, que vive num bairro pobre de Nápoles. Apesar de alguma relutância inicial, os pais deixam-na ver a tia, pensando que lhe bastaria um encontro para se mentalizar das suas diferenças. Mas nada corre como o suposto.
A par desta descoberta da família do pai que nunca conhecera, Giovanna começa a ver os pais de uma forma mais distante: seriam eles os pais perfeitos que ela sempre acreditara serem? Teria a tia razão e o pai não prestava?
A partir daqui, assistimos ao amadurecimento de Giovanna que, entretanto, faz 16 anos - a crise da adolescência, o afastamento dos estudos, as primeiras experiências sexuais, o primeiro amor, a desilusão, a procura de conhecimento...
Recomendo a leitura!

 Coe, Jonathan (2020). O Sr. Wilder & Eu. Lisboa: Porto Editora.

Tradução: Rui Pires Cabral

Nº de páginas: 232

Início da leitura: 06/08/2023

Fim da leitura: 08/08/2023

**SINOPSE**

Aos 57 anos, a vida de Calista Frangopoulos parece ter chegado a um impasse pessoal e profissional. À partida de uma das filhas para um país longínquo e ao complexo dilema com que a outra se debate, soma-se o pouco trabalho que tem tido enquanto compositora de bandas sonoras. É no meio deste caos que recorda a sua própria juventude e os tempos passados com o grande realizador de cinema Billy Wilder.
Em 1976, por mero acaso, Calista dá por si em Los Angeles, num requintado jantar com grandes figuras do cinema, entre elas Wilder, que acaba por contratá-la como intérprete durante a rodagem do filme O Segredo de Fedora, numa belíssima ilha grega.
E assim, ao lado de um dos maiores nomes da sétima arte, numa ímpar jornada de aprendizagem e crescimento, Calista conhece os últimos momentos de uma forma de fazer cinema que então chegava ao fim. Ao mesmo tempo, começa a traçar o seu próprio caminho, descobrindo não apenas o amor, mas também os traumas privados e coletivos que o Holocausto deixou.

Num romance que evoca a passagem da juventude à idade adulta e faz o retrato íntimo de uma das mais intrigantes figuras do cinema, Jonathan Coe lança o olhar sobre a natureza do tempo e da fama, da família e da atração traiçoeira que a nostalgia consegue exercer sobre cada um de nós.

Gostei muito de ler este livro, que, em grande parte das passagens, me transmitiu a melancolia da passagem do tempo, da efemeridade de tudo, da decadência dos tempos áureos do cinema de Billy Wilder (1906-2002).
Na narrativa, alternam dois tempos: o passado, os tempos áureos do cinema, o sonho e a descoberta e o presente, em que os filmes se tornaram um negócio, em que se passa mais tempo a negociar os custos do filme do que o próprio argumento. Esta é a fase da deceção, da nostalgia, em que se sente a necessidade de reinvenção, de adaptação aos novos tempos.
A história é narrada por uma das protagonistas, secretária, em tempos, do sr. Wilder, a Calista Frangopoulos, anglo-grega, que recorda os tempos em que conheceu o Sr. Wilder, numa noite desastrosa, em Los Angeles, que, mais tarde, a contrata como intérprete, aquando das gravações de O Segredo de Fedora.
É um livro bem escrito, com uma linguagem despojada mas elegante. Em alguns momentos, torna-se um pouco descritivo e penso que a história de Calista remete-se um pouco à função de narradora...
A parte inicial deste romance foi escrita em Cascais, numa residência literária, durante cerca de dois meses, como o autor refere no final.
Recomendo a leitura!

Mãe, Valter Hugo (2020). Serei Sempre o Teu Abrigo. Porto: Porto Editora.


 Nº de páginas: 48

Início da leitura: 06/08/2023

Fim da leitura: 06/08/2023

**SINOPSE**

"«O avô, resumido nos sentimentos, sem talento nas aflições, mais maniento e cheio de medo, só dizia: sossega, menina, sossega. Mesmo velhinhos, ele tratava-a como da primeira vez. Era uma menina.»

Um conto delicado sobre a fragilidade dos avós vista pelos olhos atentos do neto.
Na sensibilidade que só as palavras de Valter Hugo Mãe conseguem atingir, acompanhamos a força do amor dos avós um pelo outro e dos dois pelo neto. O poder dos laços da família e do afeto."
Sem dúvida, estes livros de Valter Hugo Mãe são simplesmente maravilhosos. Este, ilustrado pelo próprio autor, não é exceção. mais um livro de afetos no seio familiar. Desta vez, conhecemos a relação entre os avós através dos olhos de um narrador quando era ainda uma criança. Tudo se passa quando a avó é operada e lhe trocam "o coração por um eletrodoméstico". O narrador tem a oportunidade de concluir que, ainda que em vez de coração, a avó tem agora uma "maquineta esperta" não deixou de ter afetos e de continuar a amar. A avó demonstrava afetos de uma forma diferente do avô. Este ocupava, sobretudo, a cozinha e "de tanto matutar, inventara receitas inigualáveis. A avó julgava que a comida era a poesia do avô, aquilo que encontrara para traduzir delicadeza e carinho por todos nós". Já a avó "era puro amor".
Se tiverem oportunidade, não deixem de ler este livro maravilhoso!

Mãe, Valter Hugo (2019). As Mais Belas Coisas do Mundo. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas:48
Início da leitura: 06/08/2023
Fim da leitura: 06/08/2023

**SINOPSE**
"O meu avô perguntou quais seriam as mais belas coisas do mundo... Ele sorriu e quis saber se não haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade e a generosidade, o ser-se fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa.

A história de um menino que, dentro do abraço do avô, procura encontrar respostas para os mistérios da vida. O avô, que tem ar de caçador de tesouros, revela-lhe o maior de todos para curar a tristeza e a despedida: o encanto. Um conto profundamente comovente sobre a força dos afetos e da memória dos avós."

Mais uma doçura de livro! Um livro de afetos, de memórias e de aprendizagem, numa fase da infância, em que é tão importante desenvolver não apenas o conhecimento do mundo, mas o conhecimento das emoções, dos sentimentos por si e pelos outros, de ideias e de coisas imaginárias. O narrador aprendeu-o com o avô, cujo abraço "se tornava uma casa inteira e acolhia"; o avô, que lhe pedia que nunca se desiludisse, porque "Quem se desilude morre por dentro" e "é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para a inevitável tristeza."; com o avô aprendeu que "A força do pensamento haverá de criar coisas incríveis, científicas, intuitivas, maravilhosas, deslumbrantes ou amigas. Pensar é como fazer. Quem só faz e não pensa só faz uma parte."
Um livro delicioso que aconselho vivamente!

Mãe, Valter Hugo (2022). A Minha Mãe É a Minha Filha. Porto: Porto Editora.



Nº de Páginas: 48
Início da Leitura: 05/08/2023
Fim da leitura: 05/08/2023

**SINOPSE**
Um conto de uma ternura ímpar dedicado a todos aqueles que cuidam.
«A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar e piorar do fígado, vai ficar eléctrica e sem conseguir dormir, vai começar a doer-lhe a perna esquerda, os joelhos, os ossos todos. E depois dirá: ui, filho, dói-me aqui e dói-me ali.»
Esta obra, como o autor refere nas notas finais, resultou de uma crónica que publicou num jornal e que decidiu levantá-la a um livro. E que bela ideia teve! Com ilustrações belíssimas de Evelina Oliveira, este é um livro que pode ser lido por qualquer faixa etária. É um livro de afetos. A forma doce e tão humana como cuida da sua mãe, é enternecedora. Mas, em vez de ser eu a falar dela, deixo algumas frases do livro que o fazem bem melhor do que eu:
"Cuido dos seus mimos."
"...presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de coisa de água que lhe refresca a idade."
"Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais sinaleiros..."
"Tenho de estar sempre a inventar festa. Ponho-a a dançar e a cantar para haver sempre alegria."
"Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões."
"Eu não consigo esquecer que alguém sempre lutou para me salvar. Por isso, quero salvações para retribuir."
"A minha mãe, que é a minha única filha, é muitíssimo bem-comportada."
Recomendo muito a leitura deste livro!

 Ventura, Fábio (2023). Corações de Papel. Coimbra: Minotauro.

Nº de páginas: 400
Início da leitura: 04/08/2023
Fim da leitura: 05/08/2023

"Fábio Miguel Ventura nasceu em 1986 em Portimão, terra onde cresceu. Licenciou-se em 2008 em Ciências da Comunicação pela Universidade do Algarve. O gosto pelo fantástico e pela escrita levaram-no a enveredar por esta área. Orbias é a sua obra de estreia.

"Com influências de Stephen King e das séries You e Squid Game da Netflix, chega um novo thriller psicológico repleto de ação, suspense e muitas reviravoltas sobre seis escritores isolados numa residência para criativos que prova ser muito mais do que um retiro para escrever o seu próximo Best-seller.

Num futuro próximo, algures no período pós-pandemia e pós-guerra, as áreas relacionadas com a criatividade e o entretenimento estão estagnadas. Nesse contexto, o mundo da literatura é tomado de assalto com o empregado de Ash Falls, um misterioso programa residencial para escritores que se torna viral e cujo objetivo é isolar seis autores internacionais num local remoto e desconhecido, sem comunicação, distrações ou contato com o mundo exterior.

Através de um rigoroso processo de seleção, seis escritores são escolhidos para embarcar nesta experiência fascinante: Gaspar Jonas, autor de literatura young adult, Cecília Celes, a mestre da auto-ajuda e espiritualidade, Lucas Blackburn, o bad boy do terror, Baltazar Levi , o ghostwriter mais requisitado do momento, Ophelia Amin, a rainha do erotismo, e Benjamin Lee, escritor aclamado e premiado. Os seis criadores ganharam imediatamente uma ligação especial entre si, cercados por uma floresta selvagem e inspiradora algures no mundo. No entanto, o que a princípio parecia ser uma aventura para se concentrarem apenas na produção dos seus livros acaba por se tornar num verdadeiro pesadelo quando são atirados para uma série de jogos bizarros de inteligência, estratégia e sobrevivência."

Um escritor que promete! Este livro, ideal para descontrair num dia de férias, lê-se num ápice. Um enredo bem construído e criativo, sobre o qual não vou tecer mais considerações, uma vez que a sinopse nos diz tudo. É um thriller psicológico bem escrito, viciante, surpreendente até ao fim da narrativa. As personagens não são fáceis de conhecer, também penso que assim o quis o escritor, tornando-as enigmáticas o suficiente para nos prender a elas, aos seus segredos e a tudo o que escondem que esperamos ver desvendado. O Fábio está de parabéns pela narrativa tão atual e tão bem conseguida!

Fitzgerald, F. Scott; Fordham, Fred (2922). O Grande Gatsby - O Romance Gráfico. Lisboa: Relógio D'Água.

Tradução: Ana Luísa Faria
Nº de páginas: 216
Início da leitura: 01/08/2023
Fim da leitura: 04/08/2023


**SINOPSE**

«Captar O Grande Gatsby num meio visual sempre foi difícil; em alguns aspetos, a própria linguagem é a personagem principal do romance, e as outras personagens são secundárias em relação à bela prosa de F. Scott Fitzgerald. Mas, sob a forma de romance gráfico, o texto tem um papel ativo na narrativa sem ser necessário que uma esmerada voz-off ou outros expedientes acompanhem a imagem. Por este motivo, há muito que esperávamos um romance gráfico de Gatsby; é emocionante poder apresentá-lo agora.»

                                                                                                                     [Blake Hazard]

O Grande Gatsby (The Great Gatsby) é um romance escrito pelo americano F. Scott Fitzgerald e publicado, pela primeira vez, em 1925. A história, que critica o “Sonho Americano”, passa-se em Nova Iorque e Long Island no verão de 1922.
A adaptação do clássico a romance gráfico esteve a cargo de Fred Fordham (texto) e Ava Morton (ilustração). É uma adaptação bem conseguida, uma vez que permite conhecer o essencial da obra de Fitzgerald (não substituindo a leitura do original), sem que exija a sua leitura. No fundo, é uma forma de aguçar a curiosidade em relação à obra original. Penso que este trabalho é muito motivador, por exemplo, para jovens que se arredaram da leitura, que não conhecem os clássicos nem tencionam conhecê-los. 
Este romance gráfico transmite, de forma bem conseguida, a mensagem original: a história passa-se nos anos 20, em Long Island. O narrador, Nick Carraway, passa a viver na casa ao lado da de Gatsby, um homem extremamente rico e excêntrico. Fica fascinado e curioso em relação a ele e torna-se seu amigo. Quando surge Daisy, uma antiga paixão de Gatsby (e prima em terceiro grau de Nick), casada com Tom Buchanan (que, entretanto, tem, ele próprio, uma relação extraconjugal com uma mulher casada), paixões antigas voltam a aflorar e desencadeiam uma série de acontecimentos e sentimentos (como ciúme), que poderão trazer consequências inevitavelmente trágicas.
Dinheiro, traição, falsidade, snobismo, festas excêntricas, este é o retrato de uma sociedade que serviu de mote à obra de Fitzgerald. 
No que concerne às ilustrações, penso que deixam um pouco a desejar. Apesar de retratarem o ambiente glamoroso da época, penso que faltou passar sentimentos através das personagens. Estas surgem retratadas de forma tão semelhante que, a certa altura, tinha de me concentrar nas roupas e falas para as distinguir. O padrão dos rostos é sempre o mesmo.
Apesar disso, gostei, especialmente do trabalho de Fred Fordham, que captou o essencial da obra de Fitzgerald, mostrando-se fiel ao enredo original.
Este foi um livro que me foi oferecido por uma amiga "livrólica" muito especial a quem agradeço a oportunidade de ler este romance gráfico! 

Ward, Jessica (2023). O Colégio Feminino de St. Ambrose. Alfragide: Casa das Letras.

Tradução: Inês Vaz Pinto

Nº de páginas: 448

Início da leitura: 31/07/2023

Fim da leitura: 02/08/2023

**SINOPSE**

"Quando Sarah Taylor chega ao exclusivo Colégio de St. Ambrose, transporta muito mais bagagem do que aquela que cabe na sua mala. Sabe que não é como as outras raparigas - se a sua roupa, toda preta e sem marca não o revela, o frasco de comprimidos que esconde na gaveta da sua secretária demonstrá-lo-á.

A abelha-mestra de St. Ambrose, Greta Stanhope, escolhe Sarah como alvo desde o primeiro dia. É a rapariga mais popular, poderosa e terrível da escola, e será implacável a garantir que Sarah saiba qual é a ordem da hierarquia.

Felizmente, Sarah tem como companheira de quarto Ellen Strots Strotsberry, uma atleta fumadora que não se deixa enganar pelo diabo. Também ao fundo do corredor está Nick Hollis, o orientador da Residência devastadoramente bonito, e o objeto das fantasias de mais uma estudante do St. Ambrose. Entre Strots e Nick, Sarah espera conseguir passar o semestre, lidando não só com os seus estudos e um diagnóstico bipolar recente, mas também com as partidas cada vez mais maliciosas de Greta.

Sarah está determinada a não dar a Greta a satisfação de a conseguir quebrar. Mas, quando o escândalo se agudiza, e alguém acaba morto, o seu mundo ameaça desabar de formas que ela nunca poderia ter imaginado. O Colégio Feminino de St. Ambrose é um romance perigoso, delicioso e sinuoso, que ficará consigo muito depois de virar a última página.
Inicialmente, confesso que não foi fácil entrar nesta sinuosa história. Porém, a partir de cerca das primeiras 80 páginas, começou a revelar um maior suspense. As personagens envolvem-nos, de tal forma, que nos vemos a entrar na cabeça da protagonista, Sarah Taylor, uma jovem bipolar de 15 anos, que vai narrando a história "real" a par de várias histórias que se vão desenrolando apenas na sua cabeça. No meio de tudo isto, temos os lapsos temporais dos momentos em que ela se esquece de acontecimentos vividos (como ter tomado banho, ter-se deitado...). E há acontecimentos avassaladores, que nos angustiam, nos alvoroçam, nos desnorteiam e que não são, de todo, previsíveis.
Para além de abordar a questão da doença bipolar, retrata, de forma dura e até sombria, o Bullying que, infelizmente, ainda se verifica em muitos colégios, especialmente femininos, a fraca recetividade à diferença, os grupos de raparigas arrogantes e irritantes, capazes de atos de malvadez extremamente cruéis e desumanos. Muitas destas ações são responsáveis, junto com doenças do foro psicológico, por pensamentos suicidas. A ação decorre em 1991, num colégio de Massachusetts.
Penso que alguns momentos narrados no início da história eram desnecessários e poderão levar quem não persista a desistir da leitura, bem como encerra passagens demasiado descritivas e repetitivas; mas, ainda assim, para mim é um livro que se lê muito bem. Gostei do final imprevisível e gostei do amadurecimento da protagonista no que concerne à sua visão e compreensão da mãe. Apesar de não estar classificado como tal, para mim é um YA e com certeza que os jovens que apreciem romances góticos e sombrios não deixarão de apreciar este também.

 Heptworth, Sally (2023). A Boa Irmã. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Teresa Mendonça
Nº de páginas: 296
Início da leitura: 29/07/2023
Fim da leitura: 31/07/2023

**SINOPSE**
"Duas irmãs gémeas. Uma gravidez muito desejada.

Todos temos um lado negro. E há um dia em que ele aparece.

Fern Castle trabalha numa biblioteca e, três vezes por semana, janta com Rose, a sua irmã gémea, que é casada. Fern foge das multidões e de lugares barulhentos, tentando manter o seu dia a dia o mais tranquilo e estruturado possível. A verdade é que quebrar a rotina pode ser muito perigoso para ela…

Quando Rose descobre que não pode engravidar, Fern vê a oportunidade ideal para retribuir à irmã tudo o que tem feito por ela. Sim, Fern pode dar um bebé a Rose. Só precisa de encontrar um pai. Simples.

Porém, a missão de Fern vai abalar os pilares de uma vida que construiu com muito cuidado e esforço. E mais: há segredos obscuros que voltarão a ver a luz do dia, por mais que ela os julgasse enterrados para sempre.

Adorado por milhares de leitores em todo o mundo, A Boa Irmã é um dos thrillers psicológicos mais lidos de Sally Hepworth e não deixará ninguém indiferente."
Que thriller fantástico! De leitura viciante, repleto de pormenores importantes, que nos poderão ajudar a melhor compreender o final, que é realmente bom!
Duas irmãs gémeas muito diferentes: Fern, que trabalha numa biblioteca e sofre do síndrome de Asperger. Rose, que é casada, e não consegue engravidar e que terá sido abusada sexualmente por um namorado da mãe. Fern está disposta a engravidar para dar um filho à irmã. Mas nem tudo decorre como o esperado. Há segredos, há a mãe que aconselha Fern a não entregar o seu filho à irmã. Mas, porquê? Embale na leitura para perceber e se deliciar com um final absolutamente emocionante!

Ogava, Ito (2023). O Pequeno Restaurante da Felicidade. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria Manso
Nº de páginas: 208
Início da leitura: 28/07/2023
Fim da leitura: 29/07/2023

**SINOPSE**

"A felicidade está nas pequenas coisas? Está, e há um restaurante numa aldeia japonesa que a serve, todos os dias, aos poucos que têm o privilégio de o encontrar.

Rinko, uma rapariga de 24 anos, perde a voz ao rodar a chave na porta e encontrar a sua casa vazia. Tudo, absolutamente tudo, desapareceu, incluindo o almofariz e o pilão que herdara da avó. Também desaparecido sem deixar rasto está o namorado, o maître do restaurante que fica mesmo ao lado daquele em que ela trabalha. Para Rinko, não resta alternativa: tem de deixar Tóquio e regressar à sua aldeia, de onde partiu há mais de dez anos.

Às vezes, a vida tem caminhos misteriosos. É naquela aldeia, da qual, ainda adolescente, fugiu num dia de primavera, que Rinko tem uma ideia que muda o rumo da sua vida e tocará, de forma profunda, a vida de outras pessoas: abrirá um pequeno restaurante, muito especial, no qual só há uma mesa e onde, todos os dias, cozinhará pratos diferentes, em função dos gostos e desejos dos seus clientes.

É então que a verdadeira transformação começa. Cada uma das pessoas que degustam as receitas de Rinko vai encontrar a felicidade - uma rapariga consegue conquistar o coração do rapaz que ama, uma mulher reencontra a vontade de viver...

Bem-vindos ao Pequeno Restaurante da Felicidade, o bestseller japonês que junta os melhores ingredientes para lhe dar uma leitura doce, suave e inesquecível."
Com efeito, esta é uma obra doce...até certo ponto! Quando Rinko, que partiu há uns anos para Tóquio para se dedicar à culinária, se depara com adversidades, como o roubo de todos os seus instrumentos de cozinha, fragilizada que está com o desaparecimento do namorado, bem como outras "pequenas" contrariedades, decide voltar à sua terra Natal, onde deixou uma mãe que não compreende e que considera viver uma vida pouco própria, Rinko tem de ser muito forte para aceitar esta derrota de evasão pessoal e voltar a contar com o apoio da mãe (que não queria e a quem desprezava). 
Mas a possibilidade de montar o seu restaurante de raiz, fazem com que a sua vida ganhe novo sentido. E quando o seu restaurante ganha a fama de tornar coisas aparentemente impossíveis em reais...
É aqui que contacta com a verdadeira comida natural, sem ser processada e sem químicos, que lhe poderão dar a possibilidade de realizar receitas que se apoderem dos sentidos e se tornem irresistíveis.
Porém, não é apenas isso que a espera e as revelações da mãe vão surpreendê-la.
Salvaguardo a parte final, que pode ferir pessoas mais sensíveis em relação aos seus animais domésticos, sobretudo quando já fazem parte da família. Há tradições, há pedidos, há superstições que levam a atos que nós, europeus, ainda não conseguimos entender e nos revolta e enoja. Mas é sempre bom conhecer outras culturas. Ainda que não se chegue a uma antropofagia, o nosso subconsciente leva-nos a encará-lo como tal, quando se trata de um animal que "faz parte da família". Porém, aqui é-nos apresentada uma forma diferente de ver as coisas e eu gosto de saber o que pensam os vários povos sobre estas situações. Entendem que o animal morto se perpetua em si para sempre, ao degustarem-no. Depois, há animais que se crê serem a representações dos "seus" mortos. Como encarar a sua degustação?
Não digo que animais são. Terão oportunidade de o saberem ao lerem.

 Serôdio, Cristina Almeida (2017). A Casa das Tias. Alfragide: Teorema.

Nº de páginas: 200

Início da leitura: 24/07/2023

Fim da leitura: 28/07/2023

**SINOPSE**

"Uma acidentada herança dá a M. a casa das tias solteiras, irmãs do avô, que visitava nos Setembros da sua infância. A visita à casa fechada há muitos anos e a passagem pelos seus lugares privados faz-se na companhia de uma velha amiga de escola, que a pedido de M., a partir do que ouve e vê, inventa e compõe uma história de família.

Como pequenas partes de um espelho estilhaçado que reflecte uma realidade multifacetada, assim se constrói este livro, com pequenos retratos, breves descrições, episódios passados entre figuras da casa, o tempo e os dias na aldeia e na cidade."

Um livro de memórias, com descrições que reconheço, dado grande parte da ação decorrer no distrito de Castelo Branco. Relembra-nos modos, tradições, paisagens, amores, desamores, traições, sabores e saberes do passado, através de um grande núcleo familiar, no qual são destacadas as tias solteiras. Gostei da doçura com que é relembrado este passado, a memória de pessoas reais, com virtudes e defeitos.
O único aspeto que realço como menos positivo é a falta que senti de ver na contracapa uma árvore genealógica, porque são mais que muitas as personagens e temos de fazer um esforço para não perdermos o fio à narrativa.
Recomendo a leitura!

Messina, Laura Imai (2023). A Ilha Onde Batem os Corações. Lisboa: Suma da Letras.

Tradução: Inês Guerreiro
Nº de páginas: 280
Início da leitura: 25/07/2023
Fim da leitura: 27/07/2023

**SINOPSE**
"No Sudoeste do Japão, situa-se a pequena ilha de Teshima, um local remoto onde se encontra um edifício no qual estão catalogados os batimentos do coração de dezenas de milhares de pessoas.

Shuichi, um conhecido ilustrador de quarenta anos, com uma cicatriz marcada no peito, acaba de regressar à sua casa de infância numa cidade banhada pelo mar e rodeada de montanhas. Quando pensava estar sozinho com as suas memórias, Shuichi apercebe-se de uma misteriosa criança a rondar a casa. Kenta, um menino de oito anos que vive aventuras prodigiosas em absoluta solidão.

Com o passar dos dias, entre o ilustrador e o menino forma-se uma inesperada e extraordinária amizade que acabará por mudar as suas vidas para sempre. E que os levará a um lugar que bate ao ritmo do coração, falado em todas as línguas do mundo.

A Ilha Onde Batem os Corações é uma história sobre perda e esperança, dor e alegria, realidade e imaginação, e a promessa de cura e superação, graças às relações que construímos e redescobrimos."

"Laura Imai Messina nasceu em Roma. Aos 23 anos, mudou-se para Tóquio, onde obteve um Doutoramento na Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio. É professora em algumas das universidades mais prestigiadas da capital japonesa. Depois de alguns romances publicados em Itália, O QUE CONTAMOS AO VENTO, baseado na existência real do Telefone do Vento, é a sua estreia internacional. "
Uma história de perdas, de segredos, de culpa, de solidão, de amizade, num tom tão doce, tão ao estilo japonês! Gostei bastante deste livro.
A obra vai intercalando a história de Shuichi, recuperando o passado que o levou a ter uma marca no peito, a perda de um filho e o divórcio; e o presente, em que Shuichi conhece um menino, Kenta, que, depois de lhe roubar algumas coisas de casa (que era a casa da mãe de Shuichi), acaba por lhe despertar a atenção. Entre eles surge uma amizade muito forte que mudará as suas vidas. Uma viagem que farão juntos uma ilha de difícil acesso, no Japão, onde se encontram "catalogados os batimentos do coração de dezenas de milhares de pessoas", acabará por juntá-los ainda mais. Que interesses, que sentimentos, eu acontecimentos poderão juntar numa grande amizade uma criança de oito anos e um adulto de quarenta?
Com uma linguagem cativante, descrições típicas da literatura japonesa, ficamos imediatamente rendidos à história e às suas personagens tão "sui generis".
Aconselho!

Hewitt, Richard (1999). Uma Casa em Portugal. Lisboa: Gradiva.

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Nº de páginas: 220

Início da leitura: 21/07/2023

Fim da leitura: 23/07/2023

**SINOPSE**

"Uma história verdadeira que relata as alegrias e as frustrações de um casal de americanos a viver em Portugal.

Para escapar ao inverno rigoroso da Nova Inglaterra, Richard e Barbara Hewitt decidem comprar uma casa com 300 anos situada numa aldeia minúscula nos arredores de Lisboa. Assim começam as aventuras -- e as desventuras -- do casal. Em breve descobrem que a sua pitoresca casa de sonho é não apenas estruturalmente frágil, como não possui nenhuma das condições básicas de conforto. Por outro lado, o contacto com a população local revela-se frequentemente desconcertante. António, o autoproclamado mestre pedreiro e carpinteiro, mostra-se exímio na arte de arranjar desculpas para faltar ao trabalho, e Alberto, o eletricista, desempenha as suas funções de uma forma extremamente sui generis, isto é, por tentativa e erro.

Servido por um humor irresistível e, afinal, por uma ternura muitas vezes tocante pelas coisas portuguesas, Uma casa em Portugal irá certamente deliciar o leitor. As considerações de Richard Hewitt sobre a «lógica singular» do estilo de vida português surgem impregnadas dessa frescura que é apanágio dos observadores estrangeiros, capazes de se espantarem com um sem número de idiossincrasias e peculiaridades que nos passam despercebidas..."

Este é um bom livro para descontrair, sem pretensões literárias.
Apesar de a ação decorrer nos anos noventa, e de a crítica se reportar a essa época, acho que há muitas coisas que continuam a funcionar desta forma, ou melhor, a não funcionar lá muito bem, no nosso país.
Este casal sonhou com a construção de uma casa em Portugal, um lugar de sol, onde teriam tudo para serem felizes. Mas, desde a chegada a Sintra, num dia nevoento e frio, que nem tudo lhes parecerá tão fácil, como de início. 
Com efeito, nada será fácil: encontrar uma casa antiga para reconstruir, o contrato de compra e venda, a contratação de pessoal para trabalhar, o trabalho efetivo dos contratados, os difíceis acessos (que não permitiam a passagem de camiões), a falta de saneamento e de água canalizada. Para conseguir tudo isto, não imaginavam o que teriam ainda de passar... Um livro hilariante, onde reconhecemos características do nosso país, sobre muitas das quais nem havíamos refletido, vistas por estrangeiros que nem sequer gostavam de bacalhau (um peixe pescado na Noruega, que "ascendera, não se sabia como, ao exaltado panteão das iguarias portuguesas. (...) Havia tanto peixe fresco suculento que não fazia sentido nenhum perder tempo a preparar aquelas placas achatadas e duras como pedra do Plistocénico"). Seriam eles, alguma vez, capazes de se habituarem a esta vida, tão diferente da que tinham,  em Portugal? 
Confesso que, se tivesse levado este livro a sério, o meu orgulho patriótico, poderia sentir-se ferido. Mas não, não foi o que senti, encarei com ligeireza, até porque acabam por se afeiçoar a tudo o que criticavam.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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