Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Ganho, Tânia (2020). Apneia. Lisboa: Casa das Letras.

Nº de páginas: 696
Início da leitura: 05/06/2024
Fim da leitura: 08/06/2024

**SINOPSE**
"Quando Adriana ganha finalmente coragem para sair de casa com o filho de cinco anos, pondo fim ao casamento com Alessandro, mal pode imaginar que o marido, incapaz de aceitar o divórcio, tudo fará para a destruir - nem que para isso tenha de destruir o próprio filho.

Apneia é uma viagem ao mundo sórdido da violência conjugal e parental, através de um labirinto negro em que os limites da resistência psicológica são postos à prova, ameaçando desabar a qualquer instante, e dos meandros tortuosos de uma Justiça por vezes incompreensível, desumana e desfasada da realidade.

Escrito com uma sobriedade e frieza inquietantes, Apneia é um romance intenso, absorvente e perturbador, que ilustra com uma autenticidade desarmante o estado de guerra em que vivem milhares de famílias estilhaçadas, e com o qual, inevitavelmente, muitos leitores se vão identificar, encontrando nestas páginas ecos da sua própria experiência."
Este é um livro que, sendo ficção, é a reprodução ficccional de uma infeliz realidade: a ação da justiça (morosa, fria, calculista, injusta) em casos de violência doméstica (ainda mais difícil de provar quando esta é psicológica), de alienação parental, de abuso de menores. É um livro duro de ler, duro de aceitar, duro por ser tão real! Quantas famílias continuam a debater-se pela guarda dos filhos...Será fácil analisar a inépcia de um pai/mãe? E deverá ser feito apenas em função de terem rendimentos, um emprego estável, uma casa grande? De que forma tudo isso prova a estabilidade emocional do pai/mãe? Mais difícil se torna, quando um deles é maquiavélico ao ponto de não deixar pontas soltas, de apenas avançar até onde sabe que a justiça não terá por onde pegar. Até que ponto tudo isto determinará o futuro da criança? A sua sanidade mental? Os seus medos?
Nem tudo o que parece, é. A frieza, o calculismo, a violência psicológica estão, muitas vezes, presentes em muitas famílias, pela frieza de muitos psicopatas. Psicopatas estes que têm o dom de enganar todos os que o rodeiam, criando sobre si a imagem da pessoa perfeita.
Um livro que deveria ser lido por todos, não apenas os que passam por isto, mas por todos os pais, para que situações assim não continuem a acontecer, como acontecem na realidade. 
Recomendo!

Dicker, Joël (2024). Um Animal Selvagem. Lisboa: Alfaguara Portugal.

                                          
Tradução: José Mário Silva
Nº de páginas: 528
Início da leitura:02/06/2024
Fim da leitura: 04/06/2024

**SINOPSE**
"No dia 2 de julho de 2022, um par de delinquentes prepara-se para assaltar uma grande joalharia na cidade de Genebra. O engenhoso plano em nada se parece com um roubo comum.

Vinte dias antes, nas margens do Lago Léman, Sophie Braun está pronta para comemorar o seu quadragésimo aniversário. Tem uma vida de sonho: mora com a família numa mansão cercada pela floresta, num mundo idílico e aparentemente intocável. Contudo, os alicerces desta ilusão estão prestes a estremecer.

O marido de Sophie oculta inexplicáveis segredos. O vizinho mais próximo, um agente da polícia de reputação impecável, torna-se obcecado por Sophie e espia todos os seus movimentos, até os mais íntimos. E um homem misterioso oferece-lhe um presente que colocará a vida de Sophie em perigo. Serão necessárias muitas viagens ao passado, longe de Genebra, para traçar as origens desta intriga diabólica, da qual ninguém escapará ileso. Nem sequer o leitor.

Um thriller de tirar o fôlego, assinado pelo autor que, desde A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, se tornou um fenómeno editorial sem par, capaz de agarrar e ludibriar até o mais cético ou engenhoso leitor."
Sou um pouco suspeita. Gosto da forma como Dicker escreve quase 600 páginas, que lemos sem dar por isso, irremediavelmente presos à história. Vai alternando passado e presente, conseguindo manter o suspense do início ao fim. Uma história que não conseguimos largar enquanto não terminamos. Um thriller viciante e envolvente. Aconselho vivamente!

Pinto, Jorge; Renan, Evandro; Nozomi, Talita (2024). Tempo, em busca da felicidade perdida. Lisboa: Iguana.

Nº de páginas: 104
Início da leitura: 03/05/2024
Fim da leitura: 04/05/2024

**SINOPSE**
"Esta é uma história sobre o tempo, o tempo que não para, sobre aqueles que só conseguem ser felizes no passado e que, além de lembrar, precisam de desesquecer. Uma história sobre um homem que todos os dias atualiza um calendário feito de pequenos arbustos, um homem que se castiga e cumpre uma penitência auto imposta, esquecido pelo seus, por um crime acidental.

Um livro sobre solidão, amor e o imparável avanço dos ponteiros do relógio."
Esta novela gráfica, muito bem ilustrada, conta-nos uma história sobre um homem que vivencia o tempo de forma dolorosa, penitenciando-se por algo que fez e que leva a filha a ignorá-lo quando passa por ela e pela suposta neta na rua. Mas haverá tempo para a redenção, a desulpabilização, a aceitação? O tempo é tão efémero que, se calhar, não o aproveitamos da melhor forma e há muitas coisas que nos passam ao lado. Aconselho!

Ernstsen, Martin; Hamsun, Knut (2021). Fome - novela gráfica. Amadora: Cavalo de Ferro.

Tradução: Liliete Martins
Nº de páginas: 232
Início da leitura: 29/05/2024
Fim da leitura: 02/05/2024

**SINOPSE**

"Obra inaugural da grande literatura moderna, Fome, do prémio Nobel de Literatura Knut Hamsun, foi publicado há mais de um século.

Numa abordagem tão fiel quanto original ao romance de Hamsun, o artista norueguês Martin Ernstsen adapta para novela gráfica esta história protagonizada por um jovem escritor que deambula faminto e delirante pela cidade de Kristiania, oferecendo ao leitor uma experiência estética e literária singular.

Traduzido diretamente do norueguês por Liliete Martins."
Apesar de considerar esta novela gráfica muito bem conseguida, quer a nível escrito, quer a nível gráfico, considero que o livro Fome de Knut Hamsun é tão descritivamente gráfico que formei uma história visual na minha cabeça. Nestes casos, é difícil desligar a imagem criada na mente e ler a história de outra forma. É como um filme, nem sempre as personagens e ambientes correspondem à imagem que criámos na nossa mente. Acredito que esta adaptação também terá a ver com a faixa etária a quem se destina - alunos de 15 - 17 anos (ensino secundário) e que tenha havido uma tentativa de amenizar os sentimentos fortes que a obra de Knut nos transmite e a forma crua como o faz. Ainda assim, a sequência narrativa segue bastante a obra original e, se tivesse lido numa ordem inversa, provavelmente teria adorado esta novela gráfica.

Reis, Patrícia (2024). A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta. Lisboa: Contraponto.

Nº de páginas: 424
Início da leitura: 28/05/2024
Fim da leitura: 01/06/2024

**SINOPSE**
"A dor e o abandono chegaram cedo à vida de Teresinha, a filha mais velha de um dos mais prestigiados médicos da capital e de uma mulher livre e corajosa, descendente dos marqueses de Alorna, que nas ruas e nos melhores salões de Lisboa rivalizava em encanto com Natália Correia. A menina que haveria de ser poetisa vê a morte de perto quando ainda mal sabe andar, sobrevive às depressões da mãe, chegando mesmo a comer uma carta para a proteger. É dura e injustamente castigada e as cicatrizes hão-de ficar visíveis toda a vida, de tal modo que a infância e a adolescência de Maria Teresa Horta explicam quase todas as opções que tomou. Sobreviver ao difícil divórcio dos pais, duas figuras incomuns, com as quais estabeleceu relações impressionantes de tão complexas, foi apenas uma etapa.

Mas quanto deste sofrimento a leva à descoberta da poesia? E quanto está na origem da voz activista de uma jovem que há-de ser uma d’As Três Marias, as autoras das famosas «Novas Cartas Portuguesas», e protagonistas do último caso de perseguição a escritores em Portugal, que recebeu apoio internacional de mulheres como Simone de Beauvoir e Marguerite Duras? A insubmissa, que se envolve por acaso com o PCP e mantém intensa actividade política no pré e no pós-25 de Abril; a poetisa, a mãe, a mulher que constrói um amor desmedido por Luís de Barros; a grande escritora a quem os prémios e condecorações chegaram já tarde (ainda que, em alguns casos, a tempo de serem recusados), entre outras facetas, é a Maria Teresa Horta que Patrícia Reis, romancista e biógrafa experimentada, soube escrever e dar a conhecer, nesta biografia, com a destreza e a sensibilidade que a distinguem.
Gostei muito desta biografia. Primeiro pela grande mulher e escritora biografada. Segundo, porque muito bem documentada, ao que acresce a amizade entre a Patrícia Reis e Maria Teresa Horta, que permitiu a realização de entrevistas que foram uma mais-valia para a construção de uma narrativa fidedigna. Finalmente, porque gosto da escrita despojada de artificialismos e elegante de Patrícia Reis. 
O facto de Maria Teresa Horta ser uma mulher de convicções fortes, tanto na sua escrita como no jornalismo, valeram-lhe alguns problemas. Portugal não estava (e será que já está?) preparado para a forma de pensar, a necessidade sempre premente de dizer o que pensa, de ter uma voz ativa e de lutar pela liberdade das mulheres, de Maria teresa Horta. Portugal não estava preparado e demorou a perceber o talento desta poetisa. Acredito que quem ler esta biografia terá vontade de ler todas as obras que ainda não leu da autora. Recomendo muito este livro!

Delaney, J.P. (2017). A Rapariga de Antes. Lisboa: Suma das Letras.

Tradução: Ester Cortegano
Nº de páginas: 400
Início da leitura: 27/05/2024
Fim da leitura: 29/05/2024

**SINOPSE**
"«Por favor, faça uma lista de todos os bens que considera essenciais na sua vida.»

O pedido parece estranho, até intrusivo. É a primeira pergunta de um questionário de candidatura a uma casa perfeita, a casa dos sonhos de qualquer um, acessível a muito poucos. Para as duas mulheres que respondem ao questionário, as consequências são devastadoras.

EMMA: A tentar recuperar do final traumático de um relacionamento, Emma procura um novo lugar para viver. Mas nenhum dos apartamentos que vê é acessível ou suficientemente seguro. Até que conhece a casa que fica no n.º 1 de Folgate Street. É uma obra-prima da arquitectura: desenho minimalista, pedra clara, muita luz e tectos altos. Mas existem regras. O arquitecto que projectou a casa mantém o controlo total sobre os inquilinos: não são permitidos livros, almofadas, fotografias ou objectos pessoais de qualquer tipo. O espaço está destinado a transformar o seu ocupante, e é precisamente o que faz…

JANE:Depois de uma tragédia pessoal, Jane precisa de um novo começo. Quando encontra o n.º 1 de Folgate Street, é instantaneamente atraída para o espaço e para o seu sedutor, mas distante e enigmático, criador. É uma casa espectacular. Elegante, minimalista. Tudo nela é bom gosto e serenidade. Exactamente o lugar que Jane procurava para começar do zero e ser feliz.
Depois de se mudar, Jane sabe da morte inesperada do inquilino anterior, uma mulher semelhante a Jane em idade e aparência. Enquanto tenta descobrir o que realmente aconteceu, Jane repete involuntariamente os mesmos padrões, faz as mesmas escolhas e experimenta o mesmo terror que A Rapariga de Antes."
Este é um thriller psicológico que, contrariamente às minhas expetativas, não me deixou totalmente rendida ou surpreendida. Apesar de se ler bem, de forma rápida e até compulsiva, serve apenas para entretenimento e nada mais do que isso. Não conto a história, pois a sinopse já refere o suficiente. Duas raparigas, uma casa estranhamente minimalista e repleta de regras. Irão as duas a jogo? Aprenderá a segunda com o trágico fim da primeira? Se quiserem ver resolvidas estas e outras questões que vos possam surgir, aconselho a leitura.

Melo, Filipe e Cavia, Juan (2023). As Aventuras Completas de Dog Mendonça e Pizzaboy. Lisboa: Companhia das Letras.
Nº de páginas: 456
Início da leitura: 22/05/2024
Fim da leitura: 27/05/2024

**SINOPSE**
"O volume completo da colecção de aventuras que lançou e consagrou a grande dupla de BD em Portugal.

Corria o longínquo ano de 2010 quando Filipe Melo e Juan Cavia se fizeram à estrada desta improvável aventura, protagonizada pelo mais improvável quarteto: um lobisomem, um distribuidor de pizzas, um demónio com seis mil anos e a cabeça de uma gárgula. Assim foram nascendo, em sucessivos volumes, as incríveis, as extraordinárias, as fantásticas aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, rematadas pelos singulares contos inéditos. A cada volume, a mais célebre dupla da BD em Portugal conquistou novos leitores e expandiu fronteiras, sedimentando um trabalho cada vez mais inventivo, depurado e magistral.

Esta edição exclusiva reúne pela primeira vez num único livro todas as histórias, há muito esgotadas. Aqui se estreia ainda a magnética Madame Chen: uma personagem sublime e arrebatadora, que vem mudar as regras do jogo, num novo conto ilustrado que confirma a mestria de Filipe Melo e Juan Cavia, e a alquimia absoluta que continua a germinar entre ambos os criadores."
Um livro de peso em todos os sentidos! O mais prazeroso levantamento de peso diário (desde que não seja para agredir alguém 😁)!
Agora a sério e sem ser a sério, este livro é repleto de sentido de humor, muito fora da caixa, com protagonistas caricatos e que dificilmente esqueceremos. Se por acaso se depararem com balões de fala invertidos, o propósito é mesmo esse. Muito à frente e muito bom! Leio todos os livros desta dupla maravilhosa e nunca me desiludo! Fico à espera de mais e mais! Uma aventura moderna mas "à antiga" em que acompanhamos, no submundo de Lisboa,  Dog Mendonça, um detetive que se transforma em lobisomem; um entregador de pizzas, o Pizzaboy, a cabeça de uma gárgula e um demónio encarnado numa criança que fuma avidamente e desenha demónios e caveiras com o fumo dos cigarros. 
A obra termina com um conto ilustrado "As Fabulosas Aventuras de Madame Chen", uma experiência de leitura que, quanto a mim, destoa neste livro e merecia uma edição à parte. Este o único senão que aponto. Gostei também muito deste conto, profundo e eloquente, onde, mais uma vez, Filipe Melo surpreende com o dom da escrita. As ilustrações acompanham muito bem a história narrada, remetendo para a pintura tradicional chinesa.
Aconselho, aconselho, aconselho!!!!!

 Crippa, Luca e Onnis, Maurizio (2024). A Menina no Vento.Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Marta Pinho
Nº de páginas: 280
Início da leitura: 24/05/2024
Fim da leitura: 27/05/2024

**SINOPSE** 

"A extraordinária e comovente história verídica da sobrevivente do holocausto Hedy Epstein, A Menina no Vento. Numa pequena e tranquila cidade alemã, há uma menina como muitas outras. O seu nome é Hedy e vive no seio de uma família cheia de amor. Mas, um dia, na escola, o professor aponta-lhe uma arma à cabeça e diz-lhe para sair e nunca mais voltar. Hedy é judia, e estamos no dia depois da Noite de Cristal, 10 de novembro de 1938. Por sorte, os pais conseguem pô-la num comboio com destino a Inglaterra. Eles ficam para trás.

Oito anos passam, começam os julgamentos dos criminosos nazis, e há uma menina que chega a Berlim. Hedy está de regresso ao país e quer ajudar a condenar os médicos nazis que conduziram experiências desumanas nos campos de concentração. Há vinte e três acusados e ela não vai poupar esforços. Porém, Hedy tem também outra missão, tão ou mais difícil e dolorosa: perceber o que aconteceu aos pais, cujo rasto se perdeu nos portões de Auschwitz.

No vento, aquela menina parece escutar os lamentos e a tristeza dos que mais ama, e ela é, também, filha dele. Hedy não vai descansar até aquele vento serenar e a dor poder, por fim, não ser esquecida, mas começar a curar."
Muito se tem escrito e muito tenho lido sobre o Holocausto, tendo-me já cruzado, em algumas obras, com médicos aqui referidos e julgados. 
Mais do que retratar os horrores da II Grande Guerra, este livro fala-nos de uma criança, como muitas outras, que foi enviada pelos pais para Inglaterra, de forma a não ser, como eles, capturada. É assim que Hedy cresce, sem nunca esquecer os pais nem perder a vontade e esperança de os reencontrar ou de, pelo menos, saber o que foi feito deles. Oferece-se para auxiliar nos julgamentos de Nuremberg, em Berlim, para obter alguma informação sobre o destino dos pais.
É-lhe atribuída a missão de encontrar documentos que comprovem os crimes dos médicos dos campos de concentração que cometeram todo o tipo de atrocidades e cujas experiências deixaram de ser feitas em ratos para passarem a ser feitas em seres humanos.Começa a investigação dos documentos, o que se revela ingrato, pois é como "encontrar uma agulha num palheiro" e a data dos julgamentos aproxima-se. Terá Hedy encontrado algum documento incriminatório ou, mais uma vez, os criminosos ficaram impunes?
Um livro a ler para quem gosta da temática.

Peixoto, José Luís (2012). Dentro do Segredo. Lisboa: Quetzal.

Nº de páginas: 240
Início da leitura: 22/05/2024
Fim da leitura: 27/05/2024

**SINOPSE**

"Desde o interior da ditadura mais repressiva do mundo, desde um país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo. Em abril de 2012, José Luís Peixoto foi um espectador privilegiado nas exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte.

Também nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de sessenta anos.

A surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens leva-nos através de um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo. Repleto de episódios memoráveis, num tom pessoal que chega a transcender o próprio género, Dentro do Segredo é um relato sobre o outro que, ao mesmo tempo, inevitavelmente, revela muito sobre nós próprios."
Ler este livro foi viajar com o narrador e sentir medo, repulsa, espanto por uma realidade tão dura e crua como é, sem dúvida, a Coreia do Norte, em abril de 2012, aquando da viagem de José Luís Peixoto. Tudo nos parece uma aberração, desde o facto de confiscarem as fotografias, vendo a própria máquina fotográfica de cada viajante estrangeiro, a ficarem com os telemóveis até a viagem acabar, a proibição de transporte de livros e discos, entre múltiplas outras proibições. E, se não podemos desfrutar de fotos, podemos, pelo menos, ter acesso a esta obra magnífica que nos permite entrar dentro deste segredo. Deixo o convite a esta viagem através do olhar perscrutador de JLP.

Hesse, María (2021). Frida Kahlo, uma Biografia. Lisboa: Suma das Letras.

Tradução: Lucília Filipe

Nº de páginas: 160

Início da leitura: 20/05/2024

Fim da leitura: 22/05/2024


**SINOPSE**

"A vida de Kahlo, desde a sua infância, passando pelo acidente traumático que mudaria sua vida e sua arte, seu amor complicado por Diego Rivera e a feroz determinação que a levou a se tornar uma grande artista.

Inspirado pelas experiências da icônica pintora mexicana, este livro oferece um belo passeio ilustrado pela vida e obra de Frida Kahlo.

Uma obra de arte dentro de uma obra de arte."

Apesar de já ter lido vários livros sobre Frida Kahlo, esta obra ainda me surpreendeu. É de forma cativante que a biografia de Frida nos é apresentada e acompanhada de ilustrações muito bem conseguidas. É um livro juvenil que se lê muito bem, pois a linguagem não está infantilizada. Tem uma alternância entre narradores: a própria Frida, retomando algumas das frases dos seus diários e um narrador de 3ª pessoa, que vai explicando, contextualizando e aprofundando a biografia. As ilustrações retratam bem toda a angústia sentida pela pintora, ainda que tentasse esconder a sua dor com o seu caráter irreverente.
Recomendo muito!

 Tokarczuk, Olga (2020). A Alma Perdida. Amadora: Fábula.


Tradução: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Ilustração: Joanna Concejo
Nº de páginas: 54
Início e fim da leitura: 21/05/2024

**SINOPSE**
"Era uma vez um homem que vivia tão apressado que, sem dar por isso, perdeu a alma. Continuava a andar, a dormir, a comer, a trabalhar e até jogava ténis. Mas, às vezes, tinha uma sensação estranha. Um dia sentiu dificuldade em respirar e deixou de saber quem era. Depois de uma consulta médica, tomou uma decisão que lhe mudou a vida.

A Alma Perdida é uma obra-prima de duas importantes autoras polacas premiadas: Olga Tokarczuk, vencedora do Prémio Nobel de Literatura e do Booker Prize (2018), e Joanna Concejo, vencedora do Livro do Ano pelo IBBY (2013) e Menção Especial do Bologna Ragazzi Award (2018).

Reflexão profunda e comovente sobre a capacidade de cada um de viver em paz consigo e permanecer paciente e atento ao mundo.

Com ilustrações de alto valor artístico, com pistas subtis que o leitor pode pesquisar de uma página para outra."
Esta é uma pequena história simples, mas maravilhosa. As ilustrações ajudam a contar a história e são lindíssimas.
Tudo começa de forma muito esbatida e cinzenta. Assim é quando o protagonista deste pequeno conto perde a sua alma. A passagem do tempo e o envelhecimento da personagem estão muito bem ilustrados e fazem-nos pensar na nossa própria vida e no quão cinzenta e monótona se pode tornar. Estará o ser humano a perder a sua alma? Terá a capacidade de a reencontrar e conseguir a felicidade almejada? 
Recomendo a leitura e a observação atenta das ilustrações.

Partilho a frase que abre a história e que é a essência da mesma:
"Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm, atrasadas, as suas almas perdidas..." (pág. 4)
Quem nunca se sentiu assim?

Lafebre, Jordi (2023). Sou o Seu Silêncio. Lisboa: Arte de Autor.


Tradução: Helena Romão

Nº de páginas: 112

Início da leitura: 15/05/2024

Fim da leitura: 19/05/2024


**SINOPSE**

"Eva Rojas, uma jovem psiquiatra brilhante, está relutante em responder às perguntas do Dr. Llull. No entanto, não tem outra hipótese senão colaborar, se quiser recuperar a sua licença e voltar a exercer a sua profissão.

Há alguns dias, uma das suas pacientes, Penelope, pediu a Eva que actuasse como pessoa de apoio e a acompanhasse durante a leitura do testamento da sua avó. Embora a sua avó ainda esteja viva, a reunião familiar não será menos difícil.

À sua chegada a Can Monturós,.."

Pensei que, depois do livro Apesar de Tudo, Lafebre já não conseguiria surpreeder mais, pois é uma das novelas gráficas da minha vida, mas devo admitir que, também esta, ficará registada pela protagonista, pela história em si e pelas excelentes ilustrações, que conseguem desnudar as personagens até chegarmos ao âmago da sua personalidade.
Eva Rojas é uma psiquiatra que, apanhada no meio de um crime familiar, se envolve na investigação do mesmo. É na terapia que faz com o seu médico Dr. Llull que ficamos a saber como tudo se passou. Eva esconde, numa máscara de altivez, as suas próprias fragilidades e fantasmas. Irreverente e sensual, é uma mulher cativante e que acompanhamos com gosto nesta novela gráfica policial. Aconselho!

Wohlleben, Peter (2016). A Vida Secreta das Árvores. Lisboa: Pergaminho.

Tradução: João Henriques
Nº de páginas: 256
Início da leitura: 16/05/2024
Fim da leitura: 19/05/2024

**SINOPSE**
"Acontecem coisas espantosas na floresta: árvores que comunicam entre si (enviando sinais elétricos através de uma rede subterrânea de fungos). Árvores que cuidam não só dos seus rebentos como também dos seus «vizinhos» doentes e velhos ou órfãos.
Árvores que têm sensibilidade, sentimentos e memórias. Incrível? Mas é verdade! O silvicultor Peter Wohlleben conta histórias fascinantes sobre as espantosas e pouco conhecidas caraterísticas das árvores. Com base não só nas descobertas científicas mais recentes, como também na sua própria experiência de vida na floresta, partilha com o leitor todo um mundo até agora desconhecido. Uma fascinante viagem pela vida secreta das florestas que é ao mesmo tempo uma verdadeira inspiração ecológica e nos leva a repensar a relação do homem com a natureza."
A leitura deste livro resultou de um desafio de ler um livro fora da minha zona de conforto. E não é que gostei? Aprendi muitas coisas interessantes sobre as árvores. Nunca imaginei que as árvores escondessem tantos segredos. Sempre as admirei, mas acredito que, a partir de agora, as olharei com outros olhos. Acredito também na teoria de que as árvores pensam, de que as suas raízes são uma espécie de cérebro, que permitem que a árvore estenda as suas raízes numa determinada direção ou evite zonas de perigo. Por isso, sentem (dor, emoções), comunicam, criam laços e cuidam-se entre si. Percebo ainda que o Homem é o maior inimigo de si próprio ao dizimar florestas em prol de construções que resultam dos seus sonhos megalómanos de exploração financeira. As árvores podem viver durante séculos, com a ajuda de outros organismos, e conseguem defender-se de ameaças, bem como comunicar através das suas raízes, em parceria com os fungos, a que o autor chama de "Internet da floresta".
Quando as árvores são plantadas apenas para embelezar passeios ou em zonas florestais para lenha, as árvores não comunicam pelas raízes, pois ou estão muito isoladas, ou não chegam a ter tempo de estender as suas raízes para se comunicarem e desenvolverem. As árvores precisam, tal como os seres humanos, de viver em comunidade. Por exemplo, as mais velhas que vão ficando mais frágeis e menos capazes de se nutrir, precisam de ajuda das árvores mais jovens.
Pelo que aprendi, só posso mesmo aconselhar esta leitura. 

Blake, Matthew (2024). Anna O. Porto: Singular.

Tradução: Alberto Gomes
Nº de páginas: 448
Início da leitura: 12/05/2024
Fim da leitura: 16/05/2024

**SINOPSE**
"Tenho medo da pessoa em que me torno à noite e medo do que possa vir a fazer.
O fenómeno internacional.
Há quatro anos que Anna O não abre os olhos.
Não desde a noite em que a encontraram mergulhada num sono profundo junto aos corpos esfaqueados dos seus dois melhores amigos, tornando-se suspeita de um arrepiante duplo homicídio.
Para o Dr. Benedict Prince, um psicólogo forense e especialista na área de homicídios relacionados com o sono, conseguir acordar Anna O pode ser um ponto de viragem na sua carreira. Como especialista em transtornos do sono, sabe tudo sobre os recessos mais escuros da mente e os segredos que estão enterrados no subconsciente.
Ao iniciar o tratamento de Anna O – estudando os sonhos, vasculhando-lhe as memórias, visitando o local onde os horrores aconteceram –, vai puxando paulatinamente o fio de um mistério muito mais profundo e sombrio.
O despertar de Anna O não é o fim da história, mas apenas o começo."
Este thriller psicológico, apesar de ter um ritmo lento, prende-nos à história e rapidamente nos vemos a acompanhar o psicólogo forense, Benedict Prince, chamado a acordar Anna O para que não saia ilibada do crime de dois jovens da sua idade (cerca de 20 anos). Na leitura destes livros, temos tendência a especular sobre os "supostos" culpados. Pois devo dizer que me fui sempre enganando e o fim é, sem dúvida, surpreendente.
Há cerca de quatro anos que Anna não acorda (estará em coma), mas, se não acordar, será ilibada do crime de dois amigos, que terá matado de forma extremamente cruel e, supostamente, durante o sono. 
O livro capta imediatamente a nossa atenção na primeira linha "- O ser humano passa em média trinta e três anos da sua vida a dormir."
Para quem gosta do género, aconselho.

Ochoa, Raquel (2024). Coração-Castelo. Alfragide: Oficina do Livro.

Nº de páginas: 304
Início da leitura: 14/05/2024
Fim da leitura: 16/05/2024

**SINOPSE**
"Japão, 1637. Com a proibição de professar o cristianismo e a imposição de avultados tributos à população, cerca de 35 000 camponeses liderados por um general-menino com reputação de fazer milagres invadiram várias fortalezas governamentais e acabaram por se refugiar na ruína do castelo de Hara. Reconstroem-no em conjunto para resistir, ao longo de vários meses, à resposta do xogum - um cerco implacável levado a cabo pelas suas tropas.

Entre os que lutam contra a tirania, encontram-se Jana e o seu filho pequeno, bem como o ronin Haru - samurai renegado e agora ao serviço do seu povo. Apesar do ódio mútuo inicialmente sentido, Haru não consegue ficar indiferente a essa mulher que carrega um mistério e sabe pegar em armas, nem ao ciúme provocado pela relação dela com o missionário Clarimundo, um dos poucos portugueses que ainda não deixaram o Japão.

Mas são forçados a lutar em conjunto e, no caos que só a guerra poderia causar, os sentimentos entre estas três personagens vão exacerbar-se. Tal como no final do cerco, não existirá redenção, só a grande busca da liberdade. e a certeza de que há vida enquanto houver amor.

Este é um extraordinário romance sobre um episódio real, que foi finalista do Prémio LeYa em 2023."
Que livro maravilhoso! Adoro a forma como Raquel Ochoa escreve e este livro é simplesmente fabuloso! Numa escrita límpida e envolvente da primeira à última linha, somos conduzidos ao Japão de 1637. 
É impossível ficarmos indiferentes às personagens (especialmente Jana e Tago, respetivamente mãe e filho), uma vez que as acompanhamos, torcemos por elas e desejamos que tudo termine bem e também porque é uma história real. Jana é uma "mulher de armas", que não hesita em vestir a armadura e lutar pelos seus no campo de batalha, ainda que essa atitude possa pôr em risco a sua vida. Apenas quer salvaguardar o futuro do seu pequeno filho. 
Mais não posso contar, mas aconselho vivamente a leitura deste grande romance, justamente nomeado como finalista do Prémio Leya.

Gendry-Kim, Keum (2023). A Espera. Lisboa: Iguana.

Tradução: Yun Jung Im

Nº de páginas: 248

Início da leitura:12/05/2024

Fim da leitura: 14/05/2024


**SINOPSE**

"Gwijá tem noventa e dois anos e vive na Coreia do Sul. Após sete décadas de espera, ainda mantém o desejo de reencontrar o filho mais velho, de quem se separou quando seguia numa coluna de refugiados que fugiam do norte da Coreia. Gwijá teve de parar para amamentar a filha bebé e perdeu o marido e o filho no meio da multidão. Agora, num encontro organizado pela Cruz Vermelha, a sua amiga Jeong-Sun reencontra a irmã mais nova, após sessenta e oito anos de separação. Gwijá só deseja ter a mesma sorte e voltar a encontrar o filho.

Em 1950, a Guerra da Coreia separou famílias inteiras, que ficaram de lados opostos de uma fronteira intransponível. A partir das entrevistas que Keum Suk Gendry-Kim conduziu e dos vários testemunhos que reuniu (entre eles, o da própria mãe), o livro A Espera reconstrói o trauma familiar causado pela divisão da Coreia e pela guerra, e as suas dolorosas consequências."

Esta novela gráfica aborda uma experiência trágica aquando da Guerra entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, em que muitos refugiados coreanos passaram por experiências trágicas que deixaram marcas para toda a vida. A nível gráfico, há uma adequação ao conteúdo: as imagens esbatidas, a dor que contrai os rostos, a fome, o desespero, os reencontros e a velhice.
Esta é daquelas histórias que nos comove, nos esvazia o coração dos problemas comezinhos face aos acontecimentos desconcertantes abordados.
Recomendo vivamente!



 Ruy, José; de Moraes, Wenceslaw. Lendas Japonesas. Lisboa:Edições Polvo, 2023.

Nº de páginas: 64
Início da leitura: 08/05/2024
Fim da leitura: 11/05/2024

**SINOPSE**
"José Ruy é um dos mais reconhecidos e importantes autores da banda desenhada portuguesa, com vastíssima obra produzida.

Estas suas Lendas Japonesas baseiam-se em diversas lendas dispersas pela obra de Wenceslau de Moraes, autor de vários livros sobre assuntos ligados ao Oriente, em especial o Japão, onde viveu por 33 anos. A elas José Ruy dedicou especial carinho e atenção desde a sua criação, em 1949, para as páginas d’O Papagaio.

Tal como Moraes, José Ruy é um excelente narrador. Os seus dotes naturais contam com vivacidade, ternura, poesia e também um certo dramatismo, onze deliciosas lendas tradicionais nipónicas, realçando temas como a alma japonesa, o budismo, o amor, a arquitectura religiosa, alguns coloridos exotismos ou a fantástica paisagem do país.

Em cada lenda deste livro há sempre uma chamada de atenção, uma perspicácia ou um erro humano posto a descoberto, mas há também aquelas emoções vulgares de que a vida normalmente se alimenta."
Esta banda desenhada é um livro póstumo de José Ruy e recupera 11 lendas japonesas, baseando-se em contos de Wenceslau de Moraes, um estudioso do Japão (1854-1929), nas quais explora tradições populares japonesas. Foram histórias desenhadas há cerca de setenta anos, que sairam na Revista O Papagaio de Adolfo Simões Müler, compiladas pelas Edições Polvo, pelo que as imagens (muito boas, no meu entender) não são muito atuais. Porém, são excelentes para o fim que servem: contar-nos lendas tradicionais do Japão baseadas no imaginário fantástico, tendo por fundo as mágicas paisagens deste país, a doçura das feições, entre outros aspetos que não menciono para não falar demasiado. Leiam! 

Nettel, Guadalupe (2024). A Filha Única. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Ana Maria Pereirinha
Nº de páginas: 232
Início da leitura: 10/05/2024
Fim da leitura: 10/05/2024

**SINOPSE**
"Pouco depois de atingir os oito meses de gravidez, anunciam a Alina que a sua filha não irá sobreviver ao parto. Ela e o companheiro embarcam então num processo doloroso, e ao mesmo tempo surpreendente, de aceitação e luto. Esse último mês de gestação transforma-se para eles numa estranha oportunidade de conhecer aquela filha a quem tanto lhes custa renunciar.

Laura, a grande amiga de Alina, fala-nos do conflito deste casal enquanto reflete sobre o amor e a sua lógica por vezes incompreensível, mas também sobre as estratégias que os seres humanos inventam para superar a frustração. Simultaneamente, Laura vai-nos contando a história da sua vizinha Doris, mãe solteira de um menino encantador com problemas de comportamento.

Escrito com uma simplicidade apenas aparente, A Filha Única é um romance profundo e cheio de sabedoria que nos fala de maternidade, da sua negação ou aceitação, das dúvidas, incertezas e até dos sentimentos de culpa que a rodeiam, das alegrias e angústias que a acompanham. É também um romance sobre três mulheres - Laura, Alina, Doris - e os laços - de amizade e amor - que estabelecem entre elas."
Este livro vem rebater muitas teorias, nomeadamente de que a mulher nasceu para ser mãe, para casar, para cuidar do lar e dos filhos. A narradora, Laura, é uma mulher independente, que adora viajar e que, a certa altura da sua vida, com cerca de trinta anos, e ante a expetativa do namorado de ser pai, resolve fazer uma laqueação e deixar o namorado. Ao seu lado mora uma vizinha, Doris, que tem um filho pequeno e que não consegue lidar com a sua agressividade. A melhor amiga de Laura, Alina, é casada e quer muito um filho, mas depara-se com a dificuldade em engravidar e, quando consegue, nem tudo corre como ela e o marido desejariam. O tema central é a maternidade e a forma como estas três mulheres lidam com a mesma.
Gostei muito deste livro, da forma como está escrito, de modo que não o larguei enquanto não terminei. Saliento apenas que gostaria que não tivesse terminado da forma como terminou, pois queria saber um pouco mais...
É o primeiro livro que leio desta autora mexicana, mas fiquei com curiosidade em relação a outras obras.

Gonçalves, Hugo (2023). Revolução. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 480
Início da leitura: 04/05/2024
Fim da leitura: 07/05/2024

**SINOPSE**
"Um disparo perfura a noite na serra de Sintra, durante um jantar da família Storm, e a matriarca sabe que perdeu um dos três filhos.

O epicentro do colapso tem origem muitos anos antes, entre o fim da ditadura e os primeiros tempos da revolução. Maria Luísa, a filha mais velha, opositora clandestina do regime, é perseguida pela PIDE. Frederico, o filho mais novo, está obcecado em perder a virgindade antes de ser mobilizado para a guerra colonial. E Pureza, a filha do meio, vê os seus sonhos de uma perfeita família tradicional despedaçados pelo processo revolucionário em curso.

Revolução acompanha a família Storm, do desmoronar do império ao despertar da democracia, ao longo dos rocambolescos, violentos e excessivos meses do PREC, quando a esperança e o medo dividem os portugueses e muitos acreditam que o país está a um triz da guerra civil.

Um romance tragicómico sobre a liberdade e as relações familiares, num período único de transformação, na História de Portugal, em que o caráter e o radicalismo medem forças, separando os filhos dos pais, colocando irmãos em lados opostos da barricada, criando terroristas fanáticos e heróis improváveis."
Neste livro maravilhoso, Hugo Gonçalves constrói uma ficção a partir de um momento histórico que é um marco na História de Portugal - o 25 de Abril de 1974 e os anos do PREC, o que exigiu ao escritor um grande trabalho de pesquisa. Não tendo vivido este momento, pois nasci em Angola, onde estava na altura da Revolução, reconheço, pelo que fui ouvindo a quem viveu, muitas das situações narradas.
Neste livro, conta-se a história da família Storm, com os seus momentos de incompreensão, de família que se desune, de vontades que chocam, perpassadas por breves momentos de ternura, de reencontro, de proximidade familiar; e também de crescimento (das personagens e do que simbolizam ao nível do país) e mudança. As personagens são ricas e muito verosímeis, humanas, com as suas virtudes e/ou defeitos, sendo o que realmente mais se destaca neste romance. A linguagem vai-se ajustando às personagens: explosão, com Maria Luísa; serenidade, com Frederico e Pureza...
Este livro relembra-nos que "o direito da liberdade implica o dever da memória" e é de extrema importância, para que nunca percamos a liberdade que conquistamos e não haja a repetição do passado. É preciso informação, não mais informação, mas informação de qualidade, que esclareça, não sendo imposta, com liberdade e libertação da "zumbificação" em que as pessoas se encontram atualmente, agarradas aos telemóveis.
Recomendo, claramente!
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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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