Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

(imagem de cá)

Na minha alma impera o outono,
há sentimentos contraditórios
que se difundem no meu peito,
sentimentos puros, simplesmente ilusórios
aos quais me submeto, me sujeito.
Impregna-me o perfume da instabilidade,
a beleza dos campos de cogumelos semeados,
medronhos vermelhos dão cor ao castanho
das folhas secas caídas de ramos cansados.
Cheira a humidade, a caruncho, a terra...
É a natureza, aos poucos,  a apodrecer,
a reagir ao frio estonteante que a aterra.
E a nossa alma também hiberna,
também precisa morrer para renascer,
também ela apodrece, se prostra na caserna
à espera de um novo amanhecer.
Faltam ideias, vontade, iniciativa,
sobeja a preguiça, a ronha, a rotina,
é a mente cansada que já não se sente viva
que precisa de mudar a sua sina.
É preciso acordar a vida que adormece
nesta cama de folhas outonais,
tornar em novo dia a noite que escurece
recuperar todas as forças vitais.
                                                    Célia Gil




Hoje venho apenas apresenta-vos um fenómeno interessante que foi captado por cima da minha casa.
(imagem de cá)

Uma nuvem estranha pairava no céu. 
Por um lado, parece um coração, provavelmente porque em minha casa reina o amor. 
Por outro, parece estarmos a ser invadidos ou alvo de estudo por extraterrestres que se deslocaram aqui através desta nave espacial. 
O céu é um enigma e é incrível a forma como as nuvens se apresentam!
                                                                                                                      Célia Gil

(imagem do google)

No fulgor dos dias citadinos
agitam-se passos apressados
e os dias correm
sem destino, desesperados.
Multiplicam-se imagens passageiras
que são logo substituídas por outras,
todas efémeras, derradeiras
imagens sem vida, ocas.
Vagueiam sentimentos nulos de sentido,
sentimentos sem coração.
Cada ser é um ego perdido
na imensidão de uma vida sem razão.
Soltam-se notas e acordes musicais
que perdem rumo nas ondas auditivas,
ecos de quem não ouve mais
e se desvia, em manifestações fingidas.
Cidade nua de memórias,
onde se perde a identidade,
onde não se cultivam histórias...
Onde está a minha verdadeira cidade?
Quero andar sem pressa,
sentir cada cheiro,
analisar cada gesto
e sentir-me em casa.
Quero dizer bom dia, olá, até amanhã,
respirar a minha cidade,
sentir-me em paz
viver sem ansiedade,
ter a minha interioridade.
                                   Célia Gil
Hoje venho apresentar-vos o nosso mais recente membro da família, o Becas. Tem quatro meses e que sobreviveu porque foi criado à mão, alimentado com uma seringa.
É muito meigo, já diz olá e deixa fazer miminhos a toda a gente. Tem umas asas espetaculares.
Adora beijinhos e o meu marido não perde a ocasião.

O Dragão, nosso cão mais velho, não estranhou o Becas, pois já tínhamos tido outro papagaio.
É um shitsu, meia-leca, que se considera o maior e gosta de se atirar aos cães maiores.

Já de outra forma reagiu o nosso cão mais novo, o Hulk, de onze meses, que tem imensa curiosidade em relação ao Becas. Passa o tempo a olhar para ele e a seguir os seus movimentos.

                                                                                                      Célia Gil









(imagem do google)

Nas mãos temos a paz e a guerra.
Com elas damos, entregamos, compartilhamos.
Com elas tiramos, acusamos, recusamos.
Nas mãos temos a fé e a derrota.
Com elas acreditamos, fazemos justiça, lutamos.
Com elas esmorecemos, desistimos, enlouquecemos.
Nas mãos temos o amor e o ódio.
Com elas acarinhamos, amamos e nos damos.
Com elas nos vingamos, invejamos, ultrajamos.
Nas mãos temos de tudo um pouco,
E de tudo o que temos não temos nada.
São de Deus quando as estendemos na bondade,
São do demónio quando as fechamos à humanidade.
                                                                        Célia Gil



(imagem do google)

Não questiones o destino,
ele só acontece
porque tem de acontecer.
Não o invadas na privacidade
dos seus domínios sagrados.
Não queiras desvendar os segredos
que lhe moram na alma.
Deixa-o acontecer.
Mesmo que o mundo inverta a sua rotação,
os rios não fluam em direção ao mar,
as horas parem em noite de preguiça,
a manhã não chegue a espreitar o horizonte,
a tua vida seja vendaval de emoções,
os sonhos te abandonem em desalento,
o amor seja uma miragem no infinito,
o carinho, um gato arisco e irado…
Ainda que a fé pareça ilusão num pedestal,
as pessoas tenham esquecido o que é humanidade,
o chão pareça fugir-te dos pés…
Não questiones o destino.
Esse é o percurso que nos permite
amadurecer, aprender, viver.
É a trajetória natural da vida,
com que o destino nos prepara,
nos sacode a inércia,
nos grita que somos capazes,
nos permite continuar a sonhar,
continuar a viver e a acreditar.
                                          Célia Gil

(imagem do google)

Nuvens irregulares
dormem aninhadas
umas nas outras
perante a Lua vigilante.
São avantajadas,
branquinhas e suaves
qual algodão doce
em dias de festa.
Da minha janela
ouço-as ressonar,
recarregando forças
para, no dia seguinte,
revigorarem campos sequiosos
com a sua água abençoada.
Sinto dentro de mim
o cheiro da terra molhada
e invade-me a paz do momento.
Pudera eu repousar assim
de tudo o que me perturba,
aninhar-me numa nuvem
pensando que amanhã
cumpriria a minha missão.
Os meus sonhos seriam dominados
pelo branco da paz
pela suavidade de um futuro risonho.
Depois da minha missão,
desfazer-me-ia e perpetuar-me-ia
na Natureza, berço das nuvens.
O ciclo continuaria,
Novas missões, novos sonhos de paz.
E tu, Deus meu,
serias a minha Lua vigilante.

Mas a minha vida
é um vendaval de emoções,
uma torrente de recordações,
uma enxurrada de desilusões.
A minha missão cai por terra
sem abençoar ninguém
com o seu gesto,
destruindo os sonhos,
devastando ilusões.
A fé esmorece,
perde a força,
destruída pelo tufão da vida.
Fecho a janela
e acordo para a realidade.
                                        Célia Gil



O que há em mim hoje
é a solidão existencial
que me deixa à deriva.
Procuro-me no vazio
e encontro o nada.

Há momentos na vida
em que somos soldados da paz,
espalhamos amor,
vivemos amizades,
partilhamos respeito,
proclamamos fé,
seguros de nós,
auto-confiantes.

As dúvidas derrubam-nos
as certezas que se tornam questionáveis.
Demoramos anos a acreditar
em coisas que, num minuto,
perdem a credibilidade.

Vem a ansiedade
semear na alma o desespero.
Vem a angústia
questionar a fé
e pô-la à prova.
Vem a desilusão,
qual vendaval,
levar o amor
soprando-o até ao abandono.
Vem a falsidade
qual sismo
abrir fundas fendas
no sentido
da própria vida.
Vem a insegurança
roubar a autoconfiança,
deixar o ser na solidão.
O ser antes confiante
é hoje alguém que jaz,
só, triste e errante.

E o soldado da paz
deposita as armas no chão,
cansado de lutar sozinho
por uma causa que cria nobre,
mas que não passa de causa vã.

(Assim andamos, portugueses desanimados e fartos de lutar pelo país, sem que nada mude!)
                                                                        Célia Gil
(imagem do google)
Hoje vou voar
por campos verdejantes
atapetados de flores.
Vou pousar devagarinho,
absorver o néctar divino.
E nos meus olhos,
espelho do arco-íris,
brilhará o encanto
desses botões de rosa multicolores.
Qual beija-flor bebericando
as gotas do orvalho,
voando com asas de borboleta
ao som do cântico
que embala ilusões.
E as minhas asas coloridas
confundir-se-ão com as flores.
Pudesse eu para sempre
fundir-me com a natureza,
fazer parte dessa paisagem
que contemplas embevecido,
que cheiras e absorves,
levando-a no teu coração.

Numa altura muito trabalhosa de início de um novo ano letivo, fica aqui um poema que suaviza um pouco este dia a dia stressado.
                                                      Célia Gil


(imagem do google)

Conheço de olhos fechados
as margens dos teus olhos.
Sei quando correm rios
de desespero que te sulcam o rosto.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.

Conheço de olhos fechados
as nuvens que turvam
o sol que te brilha nos olhos
quando uma preocupação
se forma em neblina cerrada
e contrai as formas do teu rosto.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.

Conheço de olhos fechados
a suavidade de seda
das asas de borboleta
que moram na tua face
quando a felicidade cresce
em canteiros de alegria
semeados à porta da tua vida.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.

Conheço de olhos fechados
a fruta madura e sumarenta
que te abre os lábios
quando me beijas
em dias que sabem a algodão doce.
Conheço-te de olhos fechados,
para mim não tens segredos guardados.
                                       Célia Gil



(imagem do google)

Atiras palavras ao vento
que caem em precipícios de emoções,
palavras de dor, de lamento
ou que apaziguam corações.
Sei de cor cada som,
reconheço cada tom
das palavras que me sussurras
ao ouvido, em noites escuras.
Reconheço as palavras passageiras,
esquecidas, adormecidas...
As palavras mensageiras
que vagueiam, assim, perdidas...
E quando o teu silêncio me abraça,
me aquece o desassossego,
esqueço tudo, tudo passa
e mergulho no aconchego
das palavras que me sussurras
ao ouvido, em noites escuras...
                                              Célia Gil


(imagem do google)

Sou pessimista. Sou. Porque não?
É mais fácil cair-me uma lágrima
do que conseguir que o coração sorria.
A tragédia acontece antes de ter acontecido,
sofro sempre por antecipação.
Antes de me esquecerem, sou ser esquecido,
tudo é areia que se esvai da mão.
O cair da noite é breu cerrado,
as certezas, mera ilusão,
Sinto o certo muitas vezes como errado,
sonhos são folhas caídas pelo chão.
Penso, pondero sempre em demasia,
desisto, não insisto no que me diz o coração,
Olho para os golpes da sorte como quem desconfia.
Sou assim. Pessimista. Porque não?
                                               Célia Gil

Este ano não tive propriamente férias. Passei uns dias no Porto, passando por Aveiro e, para a semana, irei passar mais uns dias a Lisboa. Mas aqui ficam algumas das fotos destes passeios:
A ria de Aveiro proporciona uns passeios agradáveis.

Em Miramar, em Gaia, apanhámos bom tempo e ainda fizemos uma manhã e tarde de praia. Até fui duas vezes à água, apesar de fria.

Um passeio pela Foz do Porto é sempre inspiradora, tem paisagens que relembram o cinemascópio.

Eu e o meu mais que tudo passeando pela rua de Cedofeita, no Porto, onde vivi durante os meus 5 anos de curso.

Eu e o meu mais que tudo em Aveiro.

De regresso a casa, o resto das férias foi passado entre a piscina do condomínio em que vivo, a horta e o finalizar das obras.

O resultado do telheiro que fizemos no exterior da casa, agora já fechado com vidraças.

Uma vista panorâmica da horta e do telheiro, que tem do lado direito uma casa de banho e do lado esquerdo um quarto de arrumos.

E quando não nos apetece ir à piscina, sempre nos podemos deitar nas espreguiçadeiras e ir arrefecendo no chuveiro.

Um lindo domingo!







(imagem do google)

Quedo-me no silêncio que jaz
nas horas repetidas,
cansada de jogar às escondidas
com um tempo que não volta atrás.

Apodera-se um desejo de mim,
formigueiro de sonhos impossíveis
de tornar imprevisíveis
o nascimento, a vida, o fim...

Tacteio a escuridão abismal
dos sonhos que não concretizei,
da juventude que não guardei
e que julguei ser intemporal.

O hoje entra então de repente
no palco quimérico da minha vida,
resgatando a esperança perdida,
dizendo-me: o agora é para sempre.
                                            Célia Gil




Em todas as esquinas,
em recantos resguardados e abandonados,
olhos sem vida seguem os nossos passos,
à espera de uma esmola…

Esses olhos esbugalhados
salientes num rosto semeado de ossos,
deixaram há muito de brilhar,
quando se apagou o facho dos sonhos,
se desfizeram as mais ínfimas ilusões.
Fica o vazio de um passado apagado,
o futuro é um beco de incertezas e deceções.

Olhos cansados de viver
suplicam o mínimo para sobreviver.
De tanto sofrer, aprenderam
a andar de mãos dadas com a dor,
aprenderam a lidar com o sofrer.

Os objetivos ficaram presos no passado.
O hoje é a ausência de tudo.
Resta a fome, o frio, a luta diária,
Mas o grito de revolta quedou-se, mudo.
Marginalizados, ocos de sentimentos,
cadáveres adiados, afundados na sua vida precária.

Quem foi, outrora, o ser por detrás dos olhos apagados?
Com certeza não este ser envelhecido,
este ser ignorado, fruto da sociedade umbilical
que o discrimina e o deixa esquecido,
qual resto servido a um animal,
só porque fraquejou perante a vida,
desistiu face às dificuldades,
não teve força para ultrapassar as maldades
de quem despreza a pessoa que se dá por vencida.


Finalmente um merecido descanso numas mini-férias rumo ao Porto! 



Pontuar a vida

Nem sempre pontuamos corretamente
os momentos da nossa vida.
Esta passa, inexorável,
vírgula após vírgula
em momentos que avançam
inexoravelmente ligados
às malhas do passado.

Impõem-se reticências
em atitudes impensadas,
realidades inacabadas,
dúvidas que ficam nas ausências.

Quantas vezes me interrogo numa afirmação,
confrontada com dúvidas assumidas como verdades?
Quantas outras exclamo sem razão
o que sei serem dúvidas nascidas das muitas ansiedades?

Mas, perante a hesitação das reticências,
a convicção das exclamações,
a dúvida das interrogações,
surge um travessão para acabar com as incoerências.

Inicio um diálogo para partilhar,
gritar ao mundo a minha dor,
manifestar, opinar, confidenciar
um pesadelo, uma fúria, um dissabor.

E nos meus momentos a sós comigo,
entro em grandes monólogos,
com as paredes do meu abrigo.

Nos momentos mais recônditos,
é o monólogo interior
que acalenta a mágoa e extravasa a dor.

Mas para quê tanto sofrimento,
se tudo termina com a morte
num irremediável ponto final?


Até ao regresso!





Quando olho no fundo do teu olhar,
Ele suga-me as forças que esmorecem
E todos os músculos me estremecem
Só por te ver, te querer, te desejar.

E quando sacias o meu amor,
Sinto-me plena, repleta de vida,
Recupero a energia perdida,
Encaro os problemas com mais fervor.

Só tu me elevas o ego abalado
Pelas contrariedades do mundo,
O ergues do seu ser desesperado.

Só tu lhe dás a mão para o levantar,
O libertas do triste ser imundo,
Fazendo-o novamente acreditar.


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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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