Viagem no Proleterka, Fleur Jaeggy

Jaeggy, Fleur (2024). Viagem no Proleterka. Lisboa: Alfaguara.

Tradução: Ana Cláudia Santos
N.º de páginas: 120
Início da leitura: 29/08/2025
Fim da leitura: 29/08/2025

**SINOPSE**
"«As crianças desinteressam-se dos pais quando são abandonadas. […] Com determinação, sem tristeza. Tornam-se alheias. Por vezes, hostis. Já não são elas os seres abandonados, mas são elas que batem mentalmente em retirada. E vão-se embora. Em direção a um mundo sombrio, fantástico e miserável. E, no entanto, por vezes exibem felicidade.»

Esta é a história de uma viagem que cruza os mares da Grécia, ou pelo menos da recordação dessa viagem, filtrada pelo tempo. Johannes e a filha conhecem-se mal e mantêm uma relação distante. Reencontram-se no Proleterka, e procuram aí remediar um hiato sem remédio, recompor uma história de família, alimentar uma ideia de amor. Sobre eles, paira contudo a sombra de episódios passados, fragmentos espectrais que não chegam a diluir-se. É então que esta travessia se transforma numa outra: somos levados, pela mão da protagonista, à descoberta do prazer e do desejo, sem o filtro do interdito, sem o limite da convenção.

Viagem no Proleterka — tal como Felizes anos de castigo — mergulha no núcleo da inquietação, tome esta a forma de uma mãe gélida, ou de um pai desconhecido, ou de um marinheiro impetuoso. Da escrita fulgurante de Fleur Jaeggy, ninguém sai incólume."
Viagem no Proleterka, de Fleur Jaeggy, é um daqueles livros curtos que, apesar da brevidade, constituem uma boa experiência de leitura. A autora escreve com uma frieza lapidar, quase cirúrgica. Nada sobra, nada é gratuito. O resultado é um texto austero, mas de uma intensidade rara.

A narrativa acompanha a viagem de uma jovem com o pai a bordo do navio Proleterka, e é nesse espaço suspenso que se encenam tanto a descoberta da sexualidade como o afastamento afetivo entre pai e filha. O que poderia ser uma história de iniciação é, nas mãos de Jaeggy, um retrato sombrio, em que a proximidade nunca gera intimidade e o desejo nunca chega a ser reconfortante. Há uma atmosfera de desamparo constante, como se a protagonista se movesse num mundo onde a ternura fosse impossível.

O estilo de Jaeggy é talvez o que mais divide leitores: a sua escrita é seca, distante, quase impessoal, recusando o calor narrativo a que tantos romances nos habituaram. Mas é precisamente nessa contenção que reside a sua força. As imagens surgem rápidas, cortantes, e o silêncio entre as palavras diz tanto quanto o que está escrito.

Não é uma leitura que procure agradar. É, antes, uma experiência estética exigente, que pede atenção ao ritmo e aceitação da dureza. Embarquem nesta viagem!

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