Sou um Anjo Perdido, Jordi Lafebre

Lafebre, Jordi (2025). Sou um Anjo Perdido. Estoril: Arte de Autor.

Tradução: Helena Romão
N.º de páginas: 128
Início da leitura: 05/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026

**SINOPSE**

"Óculos escuros, cigarro nos lábios, pele sobre uma mini saia, a psiquiatra excêntrica Eva Rojas está de volta! Dezoito meses após os episódios relatados em Je suis leur silence, ela observa de cima de um guindaste duas pernas que sobressaem de uma laje de betão, o que não augura nada de bom. A inspetora Merkel e o seu adjunto Garcia terão de interrogá-la como única testemunha ocular. Mas nada é simples com Eva: ela aceita responder, mas apenas na presença do seu... psiquiatra! E então conta em detalhe à polícia, mas também ao Dr. Llull, os sete dias que antecederam o incidente. Um dos seus pacientes, João, 19 anos, estrela em ascensão do futebol, desapareceu.

O clube responsabiliza-a e exige que ela o encontre em seis dias. Para o bem e para o mal, Eva pode contar com as «vozes» que a acompanham, as de suas antepassadas, falecidas há muito tempo, mas ainda muito presentes! E ainda mais presentes quando Eva visita sua mãe no hospital psiquiátrico ou quando se aproxima um pouco demais dos neonazistas..."

Sou um Anjo Perdido confirma Jordi Lafebre como um autor capaz de dar continuidade a um universo narrativo sem lhe retirar frescura ou ousadia. Enquanto sequela de Sou o Teu Silêncio, retoma a figura inesquecível de Eva, a psiquiatra excêntrica que já então se destacara pela sua irreverência, lucidez caótica e frontal desafio a todas as convenções. Tal como no livro anterior, a leitura não desilude: reencontramos uma protagonista excessiva e fascinante, politicamente incorreta, corajosa e sensual, cuja loucura aparente é, afinal, uma forma singular de liberdade.

Eva continua a mover-se num território instável, onde a razão e o delírio se entrecruzam, acompanhada pelas vozes femininas que habitam a sua mente, presenças do passado que funcionam simultaneamente como consciência crítica e refúgio emocional. São elas que lhe dão profundidade e humanidade, apoiando-a ou confrontando-a, mas permanecendo sempre como o seu porto de abrigo num mundo que raramente a compreende.

A narrativa estrutura-se a partir de um episódio perturbador: um homem encontrado morto, enterrado em cimento de cabeça para baixo. As tatuagens denunciam-no como neonazi, e este detalhe aparentemente isolado revela-se o ponto de partida para uma intriga que liga futebol, violência e memória. Eva surge como única testemunha ocular, e o seu depoimento, prestado à inspetora Merkel e ao seu adjunto Garcia, na presença do seu próprio psiquiatra, conduz-nos numa viagem retrospetiva pelos sete dias que antecederam o desfecho trágico. O desaparecimento de João, um dos seus pacientes e jovem promessa do futebol em ascensão, desencadeia uma investigação pessoal que expõe Eva a perigos reais, ainda que ela pareça não temer nada, ou não ter plena consciência da dimensão do risco que corre.

Combinando suspense policial e humor mordaz, Lafebre constrói uma história envolvente, ambientada mais uma vez em Barcelona, onde o ritmo narrativo se equilibra entre tensão e ironia. O absurdo e o trágico convivem de forma natural, refletindo a própria personalidade da protagonista.

As ilustrações merecem destaque especial: expressivas e dinâmicas, não se limitam a acompanhar o texto, mas ampliam-no, transportando o leitor para o centro da ação. Contribuem decisivamente para a imersão numa trama tão bizarra quanto emocionalmente intensa, reforçando o caráter singular desta obra.

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