Dias Perfeitos, Raphael Montes

Montes, Rafael (2014). Dias Perfeitos. Lisboa: Companhia das Letras.

N.º de páginas: 280
Início da leitura: 13/01/2026
Fim da leitura: 14/01/2026

**SINOPSE**

"Téo é um solitário estudante de Medicina que divide o seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e investigar cadáveres nas aulas. Durante uma festa, conhece Clarice. Obcecado por ela, começa então uma aproximação doentia, que o leva a tomar uma atitude extrema que estabelece entre o casal uma rotina repleta de tortura psicológica e sordidez.
Dias Perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão."
Dias Perfeitos, de Raphael Montes, é um romance que confirma o autor como uma das vozes mais eficazes da literatura brasileira contemporânea no domínio do suspense psicológico. Montes não escreve com intenções pedagógicas nem morais; o seu propósito é claramente o entretenimento, e cumpre-o de uma forma muto bem conseguida. A narrativa é conduzida por uma escrita ágil, envolvente e calculada, que transforma o romance num verdadeiro page-turner, mantendo o leitor num estado constante de inquietação e expectativa.
Neste livro, Raphael Montes constrói uma história onde o terror psicológico se cruza com a obsessão, o amor distorcido e o desespero. Acompanhamos Téo, um estudante de medicina reservado, metódico e socialmente isolado, cuja vida se resume às exigências académicas e aos cuidados prestados à mãe, Patrícia, uma mulher dependente de uma cadeira de rodas e totalmente subordinada ao filho nas tarefas mais íntimas do quotidiano. Este contexto inicial, marcado por uma rotina opressiva e por uma relação ambígua de dependência, prepara o terreno para a progressiva perturbação emocional do protagonista.
O encontro com Clarice, forçado por uma situação banal, um churrasco ao qual Téo é obrigado a comparecer, funciona como o elemento catalisador da narrativa. Clarice não corresponde a um ideal convencional de beleza, mas a sua inteligência, espontaneidade e diferença face ao universo fechado de Téo despertam nele uma obsessão avassaladora. A partir desse momento, o romance mergulha numa espiral de comportamentos extremos, em que o leitor assiste, com desconforto crescente, à transformação psicológica do protagonista e à normalização do absurdo e da violência no seu discurso interior.
Um dos grandes méritos de Dias Perfeitos reside precisamente na construção da voz narrativa. Raphael Montes consegue colocar o leitor dentro da mente de Téo, obrigando-o a acompanhar o seu raciocínio frio e aparentemente lógico, mesmo quando as suas ações se tornam moralmente inaceitáveis. Esta proximidade cria um efeito perturbador: não há julgamentos explícitos, apenas a exposição crua de uma mente obsessiva que confunde amor com posse e cuidado com controlo.
O autor constrói uma narrativa tensa, claustrofóbica e eficaz, onde o desconforto psicológico é mais relevante do que o choque explícito. Dias Perfeitos não pretende oferecer respostas nem lições; o seu impacto reside na capacidade de envolver, inquietar e prender o leitor até à última página. 

0 Comentarios