Jardim de Inverno, Renaud Dillies e Grazia La Padula

 Dillies, Renaud e Padula, Grazia La (2017). Jardim de Inverno. Lisboa: Kingpin Books.

Tradução: Mário Miguel Freitas
N.º de páginas: 64
Início da leitura: 12/01/2026
Fim da leitura: 13/01/2026

**SINOPSE**
"A gota de água. O transbordar do copo. Ou como o gotejar periódico e crescente vindo do andar de cima levará Sam, um jovem barman de um clube de jazz, a conhecer um velho afável, mas aparentemente senil. Poderá ser ele, porém, o providencial jardineiro das coisas simples e belas que Sam negligenciou durante tanto tempo?

Um relato invernoso feito de cruéis abandonos, adiados reencontros e chuvosos recontros, e de uma rotina aparente capaz de encerrar, afinal, inusitadas revelações. Inusitadas e belas como um jardim."


Jardim de Inverno, de Renaud Dillies, com ilustrações de Grazia La Padula, apresenta-se como uma obra de leitura silenciosa e contemplativa, em que a aparente simplicidade da narrativa esconde uma reflexão profunda sobre a vida contemporânea e a erosão dos laços humanos. O livro constrói um retrato de existências repetitivas, marcadas por dias iguais entre si, onde a rotina mecanizada vai esvaziando o verdadeiro sentido de família, de amizade e de relação. As personagens surgem como figuras quase autómatos, semelhantes a bonecos de corda, presas a movimentos previsíveis e a emoções amortecidas, num mundo onde o hábito substitui o afeto e a presença do outro se torna cada vez mais distante.
É neste cenário de imobilidade emocional que Jardim de Inverno introduz a ideia de libertação. A obra fala da reaprendizagem dos sentimentos, do lento regresso à empatia e ao cuidado pelas pessoas de quem gostamos, num processo que não é súbito nem fácil, mas profundamente humano. O jardim assume aqui um valor simbólico central: espaço de pausa, de reconexão e de esperança, capaz de abrir pequenas fendas de luz mesmo nos dias mais cinzentos e chuvosos do inverno. Trata-se de um convite à redescoberta do que nos liga aos outros e ao mundo.
As ilustrações de Grazia La Padula são particularmente eficazes na tradução visual destas ideias. Com uma linguagem gráfica expressiva e sensível, acompanham e aprofundam o discurso do texto, reforçando a sensação de clausura inicial e, progressivamente, a abertura emocional que a narrativa propõe. Texto e imagem dialogam de forma harmoniosa, transmitindo com clareza a intenção do autor e conferindo ao livro uma coerência estética e temática notável. Jardim de Inverno afirma-se, assim, como uma obra delicada e reflexiva, que interpela o leitor sobre a forma como vive, sente e se relaciona, deixando no final uma impressão de esperança discreta, mas persistente.

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