Campaniço, Carlos (2025). A Cinco Palmos dos Olhos. Lisboa: Casa das Letras.
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 08/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026
Início da leitura: 08/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026
**SINOPSE**
"Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha - o lugar onde decorre a acção deste romance - a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução.
Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e veem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento.
Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia - na qual o bulício das vidas individuais funciona como uma espécie de música de fundo - é curiosamente o carteiro - aquele que passa em todas as ruas e portas - o elo de ligação entre o padre, o merceeiro, o médico, a amante, o corno, o ricaço, o presidente da Junta e muitos outros, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa.
Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos mais uma obra profundamente original."
A Cinco Palmos dos Olhos, de Carlos Campaniço, é um livro que se constrói na delicada fronteira entre a intimidade das personagens e a memória coletiva de um país em transformação. Situado na pequena Aldeia Velha, espaço simbólico e concreto nos confins de um Portugal rural do pós-25 de Abril, o romance revela-se menos interessado nos grandes gestos históricos do que nos seus ecos silenciosos, aqueles que se infiltram na vida quotidiana de quem ficou à margem da mudança.
Campaniço demonstra uma notável capacidade de observação humana. Cada personagem surge desenhada com rigor e empatia, carregando consigo segredos, traumas antigos, marcas de pobreza material e afectiva, mas também uma obstinada vontade de sobreviver. Não há aqui figuras idealizadas: há homens e mulheres imperfeitos, frágeis, por vezes duros, que aprendem a viver com aquilo que lhes foi dado ou retirado. É precisamente nessa imperfeição que o romance encontra a sua força, permitindo ao leitor reconhecer-se nos silêncios, nas culpas e nos afectos contidos.
A Aldeia Velha funciona como microcosmo de um país que acorda lentamente para a liberdade, mas que continua preso a estruturas sociais, económicas e emocionais profundamente enraizadas. O Portugal que emerge destas páginas é um território de contrastes: entre a esperança e o desencanto, entre o desejo de mudança e o peso da tradição, entre a proximidade física das pessoas e a distância emocional que tantas vezes as separa, esses “cinco palmos” que dão título ao livro e que sugerem tanto intimidade como incomunicabilidade.
A escrita de Carlos Campaniço é contida, mas carregada de densidade emocional. Não cede ao sentimentalismo fácil nem à nostalgia excessiva; antes opta por uma linguagem precisa, que confia no não dito e no ritmo lento da narrativa. O tempo do romance é o tempo da aldeia e da memória: pausado, circular, atento aos pequenos gestos que revelam mais do que longos discursos.


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