O Rio de Esmeralda, José Rodrigues

Rodrigues, José (2017). O Rio de Esmeralda
N.º de páginas: 250
Início da leitura: 24/08/2026
Fim da leitura: 25/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"«O tempo não apaga tudo, sobretudo quando no tudo está incluído um grande amor.»

Esmeralda e António viveram, em jovens, um amor profundo, bruscamente interrompido quando Esmeralda se vê forçada a abandonar a aldeia onde ambos viviam. Os jovens prosseguiram, entretanto, as suas vidas, felizes com o que o destino lhes proporcionou.

Quando ambos estão já na idade madura, a inauguração de um empreendimento turístico na aldeia é o pretexto ideal para o reencontro há muito desejado. Sentimentos há muito esquecidos voltam à superfície, mais fortes do que nunca, e o que antes era desvio parece ser agora o melhor dos caminhos. Entre a doçura da memória e a realidade do presente, a escolha nem sempre é linear…"

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Em O Rio de Esmeralda, José Rodrigues recupera um tema tão antigo quanto a própria literatura: o amor que não chegou verdadeiramente ao fim. Um amor interrompido pelas circunstâncias, que ficou algures suspenso no tempo e que, apesar de a vida ter seguido outros caminhos, permanece como uma história por encerrar.
É junto ao rio que viu nascer e crescer essa relação que o passado continua a marcar as personagens. Entretanto, ambos refizeram as suas vidas, construíram outros caminhos e aprenderam a viver com as escolhas que fizeram. No entanto, determinadas circunstâncias profissionais acabam por proporcionar o regresso de ambos ao lugar onde tudo começou. E esse regresso ao espaço do passado traz consigo o confronto com aquilo que ficou para trás.
José Rodrigues explora, ao longo do romance, essa ideia de que algumas histórias amorosas podem permanecer dentro de nós mesmo quando julgamos tê-las ultrapassado. O passado ganha uma espécie de força própria e o reencontro funciona como uma oportunidade para revisitar sentimentos, decisões e possibilidades que, em determinado momento, ficaram por concretizar. O rio assume, neste contexto, uma presença simbólica importante: é testemunha de uma história que pertence a outro tempo, mas que continua a projetar-se sobre o presente.
Há uma certa melancolia nesta narrativa, sobretudo na forma como o autor olha para o amor perdido e para as marcas que determinadas relações podem deixar. Não se trata apenas da possibilidade de recuperar uma relação, mas da necessidade de compreender o que ela significou e de encontrar uma conclusão para aquilo que ficou incompleto. É uma reflexão sobre o tempo, sobre as escolhas e sobre a dificuldade que, por vezes, temos em aceitar que algumas histórias simplesmente terminam sem o desfecho que imaginámos.
A premissa é interessante e oferece ao autor espaço para explorar uma dimensão mais introspectiva das personagens. No entanto, foi precisamente neste ponto que a minha leitura se tornou mais distante. Acredito que, quando duas pessoas seguem caminhos diferentes e conseguem reconstruir as suas vidas, o próprio tempo acaba por conferir uma outra perspetiva ao passado. O que em determinada idade poderia parecer uma ferida aberta pode, anos mais tarde, ser encarado com maior serenidade e distanciamento.
É essa a principal reserva que me fica em relação ao romance. Na minha opinião, o capítulo estava, em grande medida, encerrado no momento em que ambos decidiram seguir em frente e construir novas vidas. O reencontro poderia naturalmente despertar memórias, emoções ou alguma nostalgia, mas esperaria das personagens, já numa fase mais madura da existência, uma capacidade maior para olhar para esse passado sem a necessidade de lhe atribuir novamente um lugar central no presente.
Talvez seja precisamente essa diferença de perspectiva que tenha condicionado a minha apreciação do livro. A história procura dar uma resposta àquilo que ficou por dizer, enquanto eu, enquanto leitora, senti por vezes que algumas coisas não precisam necessariamente de ser resolvidas para poderem ficar para trás. Há histórias que permanecem inacabadas não porque aguardem um último capítulo, mas porque a vida simplesmente continuou.
Ainda assim, O Rio de Esmeralda apresenta algumas das características que encontramos na escrita de José Rodrigues: uma forte componente sentimental, personagens marcadas pelas suas escolhas e uma narrativa construída em torno das relações humanas e da passagem do tempo. O rio, além de espaço físico, funciona como uma espécie de memória permanente, ligando o passado ao presente e dando ao romance uma atmosfera particularmente nostálgica.
Não foi, contudo, um dos livros do autor de que mais gostei. Reconheço-lhe a sensibilidade e o interesse da premissa, mas a forma como é trabalhada a necessidade de revisitar esse amor não me convenceu inteiramente. Talvez porque, para mim, existe também uma forma de encerramento na própria passagem do tempo: quando seguimos em frente, construímos uma nova vida e chegamos a uma idade em que somos capazes de olhar para o passado com a distância necessária. 

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