Mãe, Valter Hugo (2026). O Século dos Imbecis. Porto: Porto Editora.
N.º de páginas: 340
Início da leitura: 25/08/2026
Início da leitura: 25/08/2026
Fim da leitura: 29/08/2026
**SINOPSE WOOK**
"A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez.
Atravessamos o século da informação, mas parecemos resistir ao conhecimento. Como se o lúdico e o torpe definissem afinal o propósito dos colectivos que perdem a vergonha perante a folia de não saberem nada.
Agilulfo, um marquês em tempo de República, abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando desce. Por sinal, a tentação de o descer é maior do que a de o subir. A pequena vila vive em torno do estranho homem que, sem fazer mais do que cuidar de sua grande casa, está no centro dos interesses de toda a gente.
Entre o riso e o espanto, o absurdo e a mais nítida representação da esperança e da falha humana, a vida passa inteira por aqui."
Atravessamos o século da informação, mas parecemos resistir ao conhecimento. Como se o lúdico e o torpe definissem afinal o propósito dos colectivos que perdem a vergonha perante a folia de não saberem nada.
Agilulfo, um marquês em tempo de República, abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando desce. Por sinal, a tentação de o descer é maior do que a de o subir. A pequena vila vive em torno do estranho homem que, sem fazer mais do que cuidar de sua grande casa, está no centro dos interesses de toda a gente.
Entre o riso e o espanto, o absurdo e a mais nítida representação da esperança e da falha humana, a vida passa inteira por aqui."
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O Século dos Imbecis é uma obra de forte dimensão alegórica, construída a partir de uma crítica mordaz à superficialidade, à ignorância e à facilidade com que tantas vezes nos pronunciamos sobre tudo sem verdadeiramente conhecermos aquilo de que falamos. Valter Hugo Mãe recorre ao humor e ao absurdo para nos colocar perante uma realidade que, apesar de situada num tempo indefinido, tem uma desconcertante atualidade.
A história de Agilulfo decorre num Portugal também ela difícil de situar com precisão, algures por volta de 1910, durante a I República, numa aldeia que poderia ser qualquer aldeia portuguesa. É aí que encontramos a Malandrinha, a casa onde grande parte da ação se concentra e que acaba por adquirir uma importância muito para além da de simples cenário. A casa é quase uma personagem, com uma presença própria, e funciona como um pequeno espaço de uma sociedade que, apesar de parecer distante no tempo, reflete comportamentos que reconhecemos facilmente no presente.
É precisamente nessa indefinição temporal que reside uma das ideias mais interessantes do romance. O passado não é apresentado apenas como memória, mas como uma espécie de antecipação do futuro. Aquilo que encontramos naquele espaço rural, como a cobiça, a procura de estatuto, a ambição, o desejo de poder e a preocupação com as aparências, não pertence exclusivamente à sociedade retratada. Pelo contrário, projeta-se sobre o mundo contemporâneo e parece igualmente capaz de sobreviver no futuro.
O humor tem aqui um papel fundamental. Os neologismos e os jogos com a linguagem conferem à narrativa uma dimensão quase caricatural e fazem-nos sorrir, mas esse sorriso vem muitas vezes acompanhado da perceção de que estamos perante uma ironia bastante séria. A linguagem torna-se, assim, uma das principais ferramentas da crítica: brinca, desconcerta e exagera para nos obrigar a olhar com maior atenção para aquilo que, por ser tão familiar, já quase deixámos de questionar.
E é impossível não relacionar esta reflexão com uma das passagens mais fortes do livro, na página 234, quando o autor distingue claramente informação de conhecimento. Vivemos, efetivamente, no século da informação, mas isso não significa que sejamos necessariamente uma sociedade do conhecimento. Temos acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação, mas isso não implica que a compreendamos, que saibamos distingui-la ou, sobretudo, que permitamos que ela transforme a nossa forma de pensar e de agir.
É uma ideia com a qual concordo inteiramente. Talvez nunca tenhamos tido tanta informação ao nosso alcance e, simultaneamente, tanta dificuldade em transformá-la em conhecimento, discernimento ou sabedoria. Opina-se sobre tudo, comenta-se tudo, reage-se imediatamente a tudo, muitas vezes sem tempo ou vontade para compreender. A necessidade de participar e de ter uma opinião parece, por vezes, sobrepor-se à necessidade de saber. E, nesse sentido, a crítica de Valter Hugo Mãe torna-se particularmente incómoda porque reconhecemos no romance comportamentos muito presentes na sociedade atual.
A frase antiga de que “o silêncio é de ouro” ganha, por isso, uma nova atualidade. Saber calar pode ser uma forma de inteligência; reconhecer que não sabemos pode ser uma forma de conhecimento. No universo criado pelo autor, porém, parece existir uma tendência contrária: mais importante do que saber é parecer que se sabe, mais importante do que compreender é opinar e, muitas vezes, mais importante do que pensar é entreter-se.
Também a cobiça e a procura incessante de poder e de estatuto são alvo dessa crítica. As personagens movimentam-se num mundo em que possuir, aparentar e subir na hierarquia social parecem constituir objetivos fundamentais. O dinheiro e a posição social tornam-se instrumentos de afirmação e, por vezes, substitutos de valores que deveriam ser muito mais importantes. Mais uma vez, aquilo que poderia ser lido como uma sátira de uma determinada época acaba por funcionar como um espelho do nosso próprio tempo.
Um dos aspetos que mais me chamou a atenção foi ainda o peso das personagens femininas. Existe uma força nelas que contrasta de forma evidente com muitas das figuras masculinas, frequentemente dominadas pela ambição, pela vaidade ou pela necessidade de afirmação. Essa diferença não parece meramente circunstancial e abre espaço para uma questão que o próprio romance deixa pairar: poderá estar nas mulheres uma possibilidade diferente de futuro? Poderá o sonho de construir uma sociedade mais digna depender precisamente daqueles que conseguem olhar para o mundo para além da obsessão pelo poder e pelo estatuto?
Não é uma leitura que procure oferecer respostas simples. O que mudou realmente na sociedade ao longo de um século? Teremos evoluído assim tanto na forma como pensamos, se continuamos a ser conduzidos pela cobiça, pelas aparências e pela necessidade de opinar? E de que serve termos acesso a tanta informação se não estivermos dispostos a aprender?
O Século dos Imbecis é, nesse sentido, uma sátira que ultrapassa largamente o tempo em que a sua história parece decorrer. O passado transforma-se numa lente através da qual observamos o presente e, simultaneamente, num aviso sobre aquilo que poderemos transportar para o futuro se não formos capazes de mudar comportamentos.
Aconselho vivamente!
A história de Agilulfo decorre num Portugal também ela difícil de situar com precisão, algures por volta de 1910, durante a I República, numa aldeia que poderia ser qualquer aldeia portuguesa. É aí que encontramos a Malandrinha, a casa onde grande parte da ação se concentra e que acaba por adquirir uma importância muito para além da de simples cenário. A casa é quase uma personagem, com uma presença própria, e funciona como um pequeno espaço de uma sociedade que, apesar de parecer distante no tempo, reflete comportamentos que reconhecemos facilmente no presente.
É precisamente nessa indefinição temporal que reside uma das ideias mais interessantes do romance. O passado não é apresentado apenas como memória, mas como uma espécie de antecipação do futuro. Aquilo que encontramos naquele espaço rural, como a cobiça, a procura de estatuto, a ambição, o desejo de poder e a preocupação com as aparências, não pertence exclusivamente à sociedade retratada. Pelo contrário, projeta-se sobre o mundo contemporâneo e parece igualmente capaz de sobreviver no futuro.
O humor tem aqui um papel fundamental. Os neologismos e os jogos com a linguagem conferem à narrativa uma dimensão quase caricatural e fazem-nos sorrir, mas esse sorriso vem muitas vezes acompanhado da perceção de que estamos perante uma ironia bastante séria. A linguagem torna-se, assim, uma das principais ferramentas da crítica: brinca, desconcerta e exagera para nos obrigar a olhar com maior atenção para aquilo que, por ser tão familiar, já quase deixámos de questionar.
E é impossível não relacionar esta reflexão com uma das passagens mais fortes do livro, na página 234, quando o autor distingue claramente informação de conhecimento. Vivemos, efetivamente, no século da informação, mas isso não significa que sejamos necessariamente uma sociedade do conhecimento. Temos acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação, mas isso não implica que a compreendamos, que saibamos distingui-la ou, sobretudo, que permitamos que ela transforme a nossa forma de pensar e de agir.
É uma ideia com a qual concordo inteiramente. Talvez nunca tenhamos tido tanta informação ao nosso alcance e, simultaneamente, tanta dificuldade em transformá-la em conhecimento, discernimento ou sabedoria. Opina-se sobre tudo, comenta-se tudo, reage-se imediatamente a tudo, muitas vezes sem tempo ou vontade para compreender. A necessidade de participar e de ter uma opinião parece, por vezes, sobrepor-se à necessidade de saber. E, nesse sentido, a crítica de Valter Hugo Mãe torna-se particularmente incómoda porque reconhecemos no romance comportamentos muito presentes na sociedade atual.
A frase antiga de que “o silêncio é de ouro” ganha, por isso, uma nova atualidade. Saber calar pode ser uma forma de inteligência; reconhecer que não sabemos pode ser uma forma de conhecimento. No universo criado pelo autor, porém, parece existir uma tendência contrária: mais importante do que saber é parecer que se sabe, mais importante do que compreender é opinar e, muitas vezes, mais importante do que pensar é entreter-se.
Também a cobiça e a procura incessante de poder e de estatuto são alvo dessa crítica. As personagens movimentam-se num mundo em que possuir, aparentar e subir na hierarquia social parecem constituir objetivos fundamentais. O dinheiro e a posição social tornam-se instrumentos de afirmação e, por vezes, substitutos de valores que deveriam ser muito mais importantes. Mais uma vez, aquilo que poderia ser lido como uma sátira de uma determinada época acaba por funcionar como um espelho do nosso próprio tempo.
Um dos aspetos que mais me chamou a atenção foi ainda o peso das personagens femininas. Existe uma força nelas que contrasta de forma evidente com muitas das figuras masculinas, frequentemente dominadas pela ambição, pela vaidade ou pela necessidade de afirmação. Essa diferença não parece meramente circunstancial e abre espaço para uma questão que o próprio romance deixa pairar: poderá estar nas mulheres uma possibilidade diferente de futuro? Poderá o sonho de construir uma sociedade mais digna depender precisamente daqueles que conseguem olhar para o mundo para além da obsessão pelo poder e pelo estatuto?
Não é uma leitura que procure oferecer respostas simples. O que mudou realmente na sociedade ao longo de um século? Teremos evoluído assim tanto na forma como pensamos, se continuamos a ser conduzidos pela cobiça, pelas aparências e pela necessidade de opinar? E de que serve termos acesso a tanta informação se não estivermos dispostos a aprender?
O Século dos Imbecis é, nesse sentido, uma sátira que ultrapassa largamente o tempo em que a sua história parece decorrer. O passado transforma-se numa lente através da qual observamos o presente e, simultaneamente, num aviso sobre aquilo que poderemos transportar para o futuro se não formos capazes de mudar comportamentos.
Aconselho vivamente!


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