Um pequeno filme que aprendi a fazer no Studio Stop Motion, ainda muito simples. Mas foi divertido!
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Dulce estava consciente de que a vida galgava a um ritmo alucinante. Entre milhares de tarefas diárias, sentia se, no entanto, só. Na sua luta diária, tantas vezes incompreendida, onde criara o hábito de corresponder ao que queriam dela - ia às compras, preparava as refeições, arrumava, limpava, tratava da roupa, dos horários e... esperava. Aprendeu a esperar calada, porque tudo o que espontaneamente dizia, era erroneamente interpretado. E ai dela se ousasse queixar-se! Não fazia nada de mais, tomara muita gente! Tinha uma vida de rainha! E todos os dias as tarefas de todos os dias se repetiam ao som dos ponteiros de um relógio inimigo e imparável.
Dulce aprendeu a calar-se, a consentir, a assentir. Porém, aos poucos, foi deixando de ser, até se esvaziar qual autómato que se limita a responder a vozes de comando, uma boneca de trapos cada vez mais velha e inútil.
Os olhos foram apagando o brilho. As lágrimas secaram, deixando um olhar baço de desamor. Os seus olhos ainda seguiam o rasto do afastamento dos que amava. Afastavam-se sob falsos pretextos, vivendo vidas paralelas, onde ela deixara de pertencer, onde fora remetida ao mesmo valor dos objetos da casa.
Deixara de ser, de se pertencer. Apagara-se-lhe a sede de viver, de sorrir com as pequenas coisas, de chorar com outras tantas. A porta fechava-se-lhe irremediavelmente por fora e por dentro e o lugar que habitava na alma fora escurecendo até deixar de o ver, de o sentir, de o temer nas suas penumbras, onde a ausência de tudo são paredes vazias de encontro às quais a alma embate.
E se o coração ainda lhe bate, é porque tenta ignorar e não se consciencializa da ausência de vida que arrasta.
Dulce, numa vida tão amarga quanto a demência. Mais amarga que a demência, porque lhe resta uma lucidez que a faz continuar a ter consciência da sua degradação, do seu não eu.
Célia Gil
Um romance duro, que nos faz questionar a vida, as escolhas, os caminhos que seguimos e as motivações que lhe são inerentes.
Kafka, Franz. A Metamorfose. Barcarena: Editorial
Presença, 1996.
Gregor,
um caixeiro viajante que trabalhava muito, passando diariamente por imensas
provações (“martírio das viagens impostas”, “preocupação de apanhar as ligações
do comboio”, as refeições más e irregulares”, “um relacionamento humano
instável” e muitas outras situações que nos levam a alguém desgastado por uma
vida entregue ao trabalho), acorda como um inseto.
Tenta levantar-se para
cumprir a sua rotina diária, mas não consegue. Pensa apenas em como dizer ao
patrão que não conseguirá, pela primeira vez, cumprir com as suas obrigações.
Um trabalho que mantém devido ao seu sentido de responsabilidade para com a
família, que vive às suas custas. Mesmo na situação em que se encontra, tenta e
pensa em como poderá levantar-se da cama e ir trabalhar. Perante o gerente, que
vai lá a casa ver o que se passa e o porquê daquele atraso que nunca ocorrera
antes, Gregor insiste que levará mais tempo, mas levantar-se-á, não admitindo a
sua perfeita incapacidade para o fazer.
Desiste, quando vê que
não consegue dar a volta à situação. Entristece-se quando ouve a família
conversar sobre o orçamento familiar e o que terão de realizar para fazer face
às dificuldades inerentes ao problema de Gregor. Sente-se completamente inútil.
Apesar desta metamorfose
física exterior, esta animalidade que lhe impõe limites, permanece humano
consciente, o que lhe permite conhecer melhor os pais e irmã. Tornado parasita,
desmascara o parasitismo em que vivia a sua família, às suas custas. Através
deste aprisionamento num animal – metáfora do inútil – liberta-se da vida que
levava e, não sabendo lidar com ela, caminha para a fatalidade.
Esta é a minha sugestão
de leitura, “A Metamorfose” de Franz Kafka, em que sou a Célia Gil
Welch,
Wendy (2012). A Minha Pequena Livraria.
Lisboa: Clube do Autor
Hoje
convido a entrar numa mansão eduardiana, um lugar mágico, que é uma pequena
livraria de livros em segunda mão, que constituiu o sonho de Jack Beck e Wendy
Welch, um sonho concretizado pelo casal, mais cedo do que previam. Vai, com
toda a certeza, deixar-se surpreender pelo ambiente familiar, acompanhado de um
chá, sob o olhar atento de dois gatos belíssimos. Aqui conhece uma história e,
em troca, tem a possibilidade de dar a conhecer a sua.
Poderia,
com efeito, ter sido, logo à partida, um sonho concretizado com sucesso, não
fosse o local escolhido uma pequena cidade mineira na Virgínia, no interior dos
Estados Unidos, na qual estes novos habitantes eram olhados com desconfiança e
vistos como responsáveis por um projeto falhado.
Numa
altura de recessão, onde se compra tudo pelo ebay, onde se começa a substituir o livro de papel por ipads, e-books e kindles, só
quem fosse realmente louco pensaria em abrir uma livraria de livros usados. A
acrescer a estes entraves, estava ainda o facto de não serem dali e, como tal,
serem vistos como intrusos.
Afinal,
os sonhos dão muito trabalho – havia uma série de batalhas a serem travadas por
este casal: onde arranjar os livros, se tinham gasto tanto dinheiro na casa?
Como cativar potenciais clientes, num local onde eram vistos como forasteiros?
Como deixar de ser invisível e adquirir projeção enquanto negócio? Como passar
a pertencer àquela cidade e não apenas integrá-la?
Termino
este convite com a leitura de uma das muitas passagens de que gostei:
“Os
livreiros, pelo menos até conseguirem ser replicados online, são o motivo por
que as pequenas livrarias ainda existirão mesmo depois do último leviatão
desaparecer, arpoado por um e-reader.
As livrarias físicas são pontos de convergência para os espíritos e intelectos
humanos. Os e-readers e as livrarias on-line não nos permitem contar a
história por trás da compra de um determinado livro… Quando nos escutamos
validamo-nos uns aos outros.”
Esta
sugestão de leitura foi feita por mim, que sou a Célia Gil e que também tive o
privilégio de ter tido, numa determinada fase da minha vida, uma pequena
livraria. Não deixem de ler A Minha
Pequena Livraria, de Wendy Welch.
Brontë, Emily. O
Monte dos Vendavais. Lisboa: Editorial Presença, 2009.
Tudo começa em 1801, com
a chegada de Lockwood, um novo inquilino, à Herdade dos Tordos, para passar uma
temporada nos ares do campo. Este dirige-se então à propriedade do Monte dos
Vendavais, com o intuito de conhecer e falar com o Sr. Heathcliff sobre o
aluguer da casa.
Acaba por se ver
confrontado com pessoas que de hospitaleiras têm muito pouco, num ambiente
hostil, onde reinam ódios antigos e mistérios. Devido a um temporal, é obrigado
a passar a noite no Monte dos Vendavais, uma noite que não esquecerá, pois o
quarto onde ficou a dormir está estranhamente repleto de livros assinados por
Catherine Earnshaw. Acaba por sonhar com esta, um sonho tão real, que chega a
ponderar ter visto o fantasma dela a bater-lhe na janela para entrar no quarto.
Deste sonho e perante a reação de Heatcliff ao contar-lho, tira a ilação
da existência de um passado misterioso que o enche de curiosidade.
Ao regressar à Herdade
dos Tordos, Lockwood solicita à governanta, Nelly, que lhe conte a história de
Heathcliff. É com Nelly por narradora, que nós, leitores, somos conduzidos à
estranha história passada de Heathcliff e Catherine e que estará na origem da
hostilidade que se vive no Monte dos Vendavais.
Nelly conta-lhe que
Heathcliff foi adoptado pelo Sr. Earnshaw (pai de Catherine e Hindley) e logo
se tornou inseparável de Catherine e odiado por Hindley. Apesar de apaixonada
por Heathcliff, Catherine acaba por casar com Linton e este facto leva ao
desaparecimento de Heathcliff.
Este, volta, mais tarde,
para se vingar.
Terá Heatcliff
conseguido o que queria? Até onde poderia ir a sua vingança?
Não deixe de ler este
livro, um clássico da literatura, envolvente, de um realismo perturbador. Se
espera um romance com pessoas perfeitas, heróis típicos, desengane-se. São os
seus defeitos e as suas atitudes, que tornam estas personagens tão
surpreendentes.
Sento-me ao lado da solidão..
Tenho o peito a querer sair pela boca.
"Não te quero desiludir,
minha solidão,
Sigamos juntas, em silêncio,
para não dizermos o que não queremos,
para não nos magoarmos...
Um dia, já velhinhas,
talvez me deite no teu regaço
e te aceite,
de coração tranquilo,
sem te questionar.
Talvez eu até aprenda a amar-te.
Agora, minha solidão
ainda és um murro no estômago,
ainda te sinto estrangeira de mim.
Ainda me dói a tua presença
embora lamente tantas vezes
a tua ausência".
Célia Gil
Gilbert,
Elizabeth (2006). Comer, Orar, Amar.
Lisboa: Bertrand Editora.
Ao
fazer 30 anos, Liz Gilbert, apesar de ter tudo o que uma mulher americana
moderna deveria querer: um marido, uma casa de campo e uma carreira de sucesso,
não se sentia feliz, passando horas a chorar.
Este
livro é sobre a vida da própria autora, que acabou por pedir o divórcio para se
reencontrar. Apreciadora de boa comida, descrente e infeliz no campo amoroso, Elizabeth
resolve fazer o que quer: deixar tudo, vender à sua Editora um livro que iria
escrever, para empreender uma viagem de um ano a Itália, onde procurou o prazer
de comer; depois à Índia, onde indagou a sua fé e finalizaria na Indonésia, em
Bali, onde esperava encontrar o seu equilíbrio, o seu eu, através do amor.
O
livro é, então, dividido em três partes, uma dedicada a cada país que Liz determinou
visitar.
Começou
por Itália, onde se dedicou à aprendizagem da língua italiana, que já antes
começara a aprender e que constituía uma paixão e ao prazer de comer, prazer
hoje tantas vezes negado (para não engordar). Em Itália redescobre o prazer de
estar viva e sai da depressão em que se encontrava.
Na
segunda parte, passada na Índia, Liz passa por um momento mais introspetivo,
num país que, apesar de
precário, possui uma fé inabalável, procurando, na fé, respostas às suas
questões pessoais.
Na
Indonésia, terceira e última parte, procura o seu próprio equilíbrio. Aí
encontra Felipe, um homem brasileiro, pelo qual se apaixona. Encontrará Liz em
Felipe o seu equilíbrio?
Não
deixe de empreender esta viagem que, de algum modo, nos leva a questionar se
não seremos nós responsáveis pelas escolhas e decisões que vamos fazendo ao
longo da vida, pela nossa própria vida e felicidade? Porquê esperar que a dor
passe sem mexer uma palha? Não conseguiremos nós resolver os nossos conflitos
interiores e ultrapassar as mágoas?
Esta
é a minha sugestão de leitura.
Célia
Gil
Maria
sabe que o pai tivera razão. Como todos os pais. Como quase todos os pais.
Como tão sabiamente o seu sabia ter.
Olhando
para trás, vê levitar, fora do tempo e do espaço, um tempo que se esfuma na
memória e, pela névoa do seu olhar, consegue ainda vislumbrar, muito para lá de
qualquer tempo, os seus próprios olhos cor de terra molhada, muito abertos, muito
despertos, curiosos de vida. Olhos de criança, no tempo em que os sonhos ainda
são pássaros a pousar no ombro e onde não mora a solidão e a ausência.
Não
sabe bem quando uma névoa toldara o brilho dos seus olhos grandes. Provavelmente,
o mundo era demasiado grande e seria tão fácil perder-se nele…
Tem
muito presente a voz do pai a sonhar-lhe futuros risonhos, a afagar-lhe o rosto
com uma mão de amor, a aspereza e rigor do que dizia a traçar-lhe hipóteses de
percursos de vida, a intransigência e a exigência a erguer-lhe a face ante as
maiores dificuldades, para que as pudesse ver bem de frente e deixar de as
temer.
Fora
uma criança teimosa e arredia. E fora essa marca da sua personalidade que, na adolescência,
a levara a decidir que não queria mais continuar a estudar. Os pais não tinham
estudado e tinham conseguido singrar na vida, exercer a sua profissão, sem
nunca terem passado por grandes dificuldades.
Apesar
de a sua decisão ter sido uma mão fria e certeira numa bofetada no coração dos
pais, a reação não foi a que esperava. Não houvera gritos, ameaças, nada…E
isso, de certa forma, tinha-a deixado apreensiva. Afinal o que esperariam eles
dela? Estariam já à espera do seu fracasso? Seria mesmo incapaz de prosseguir e
a sua decisão não constituía mais um capricho?
Porém,
quando menos esperava, quando já nem esperava, o pai, que tão sabiamente sabia
ter razão, teve uma conversa com ela.
-
Maria, estás a tomar uma decisão que condicionará todo o teu futuro. Por isso,
terás de pensar muito bem e não decidir nada de ânimo leve. Entre nós, desde o
momento em que fomos pais, houve um pacto. Um pacto de amor, o de zelarmos por
ti, pelo teu futuro, pela tua felicidade. E, para fazer face a esse futuro, é
preciso adquirir conhecimento. Se aceitarmos a tua decisão sem nada ponderar,
estamos a aceitar e a compactuar com a tua desilusão futura, com o ser frágil e
inábil em que te tornarás. Por outro lado, se nos opusermos de forma radical,
como provavelmente estarias à espera, acabarás por fazer o mesmo: nada. Nada
por ti. Acabarás por reprovar, na tua decisão contrariada. Se continuarmos o
braço de ferro, voltarás a reprovar até provares que a decisão de abandonar os
estudos é a mais sensata.
Não queremos que desistas de ti, não queremos que quebres o pacto que fizemos desde
que nasceste: lutar pelo que é sempre o melhor para ti. Não seremos nós a quebrá-lo.
Gostaríamos que também não o fizesses. Preocupamo-nos contigo. Estaremos aqui
para te ajudar a levantar quando algum obstáculo te derrubar. Mas, queremos,
sobretudo, que aprendas a levantar-te sozinha. Só tu poderás escolher entre
ficar na escuridão do charco em que caíres ou te reergueres para renasceres
para a vida. E há tanta gente que vive toda a vida nesse charco…Não foi esse o
nosso pacto.
Entendia,
agora, muito bem o que o pai lhe tentara dizer. Afinal, eles só queriam que nos
seus olhos cor de terra molhada continuasse a morar o brilho da curiosidade e a
sede do saber. As palavras do pai foram decisivas nas suas escolhas, no seu
percurso de vida. Reconhecia que o pai, que tão sabiamente o sabia ser,
ter-lhe-ia facultado a chave da vida.
Pensativa,
Maria olhava o horizonte, um horizonte com percalços. Quem os não tem? Mas era, com efeito, um
horizonte com história, com futuro, com o presente que sonhara para si. Soubera cumprir o pacto de amor.
Célia Gil
Gonzaga, Manuela (2009). Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e
Não!. Lisboa: Bertrand Editora.
De um grande
rigor histórico, documentado de forma precisa, este romance aborda a
história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador
do Diário de Notícias. Casada com o
administrador deste jornal, Alfredo da Cunha, ela e o marido ocupavam um lugar
de prestígio na sociedade da época, organizando grandes festas, onde Maria
Adelaide, uma mulher de uma elegância exemplar, representava e declamava textos
do marido. Nestas festas recebiam nomes notáveis da cultura do seu tempo, de
entre os quais Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Teófilo Braga
e Antero de Quental.
Viajavam juntos, com
alguma frequência, para o estrangeiro e, mesmo, por Portugal, onde conheceu um
pouco de todo o país, como Tomar, Coimbra, Penacova, Abrantes, Lousã, Pedras Salgadas,
Oliveira de Azeméis, Entre-os-Rios, Viseu e Fundão.
Apesar desta vida
de azáfama e boémia, Maria Adelaide não era feliz e ressentia-se com as
atitudes pouco delicadas do marido, homem seco e arrogante.
Maria Adelaide
acaba por se apaixonar pelo seu motorista, Manuel Cardoso Claro, que a admirava
pela sua bondade, sempre cuidadosa e vigilante com o bem-estar dos seus
serviçais, acabando, em 1919, por prescindir de toda a sua riqueza, palácio
lisboeta, fortuna e vida social para fugir com ele para Santa Comba Dão, passando
a ter uma vida modesta e simples, muito diferente da que tivera até então.
Porém, o seu
romance idílico não durou muito, pois Alfredo da Cunha cedo descobriu onde ela
se encontrava e a mandou ir buscar, com o filho e um agente da polícia de
investigação.
Onze dias depois
da fuga, Maria Adelaide era internada pelo marido no Hospital Conde de Ferreira, no Porto. Era mais fácil dá-la como louca para justificar as suas
atitudes perante a sociedade, do que aceitar as suas decisões, que constituíam um
escândalo para a época.
Maria Adelaide
consegue, ainda, numa determinada ocasião, fugir do manicómio e recolher-se numa
aldeia do concelho de Castro Daire, com Manuel Claro, onde foi muito bem tratada pela família deste. Mas também aí o marido a descobriu.
Foi, então, no
regresso ao Conde de Ferreira, que se viu encarcerada num quarto minúsculo, sem
poder fazer rigorosamente nada e onde desejou, muitas vezes, a morte, que seria
menos cruel do que a vida que arrastava naquele quarto, onde ficaria presa
durante muito tempo. Quanto a Manuel Claro, foi preso por rapto.
Alfredo da Cunha,
o marido, facultou toda a documentação necessária para constar de um livro sem autoria, Infelizmente Louca, que contou com
atestados dos médicos Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, bem como com vários
depoimentos (alguns deles falsos) que instigariam no público uma onda de
solidariedade para com o marido abandonado.
Mas Maria Adelaide
é uma mulher forte, que de doida tem muito pouco. São as suas convicções que
não a deixam desistir.
Terá ela
conseguido libertar-se do cárcere a que foi sujeita pelo seu “crime de amor”?
Até que ponto, na época, os manicómios não serviam para “calar” todos os que
ousassem seguir padrões de comportamento considerados reprováveis nas famílias
influentes da época?
Uma história com
história, fascinante e envolvente, que documenta a desigualdade de género, a
coragem de uma mulher que segue as suas paixões e convicções, um exemplo de
coragem, que não aceita o destino que lhe foi traçado pelo marido e que ergue
a sua voz para dizer Não, "Doida Não e Não!”.
Célia Gil
Manuela Gonzaga tem uma marca muito forte no campo das biografias – de
que esta é uma referência exemplar. A autora, presença igualmente reconhecida
na literatura juvenil, no romance, nos contos e até no ensaio, é natural do
Porto. Tem diversas obras publicadas que vão desde o romance histórico (Jardins
Secretos de Lisboa) à primeira e única biografia de António Variações,
referenciada em Estudos Portugueses em várias universidades. A sua obra está
traduzida e editada em francês pela Poisson
Volant. Historiadora com o grau de mestre em História pela Universidade
Nova de Lisboa, Manuela Gonzaga tem quatro filhos e três netos. Paralelamente,
tem erguido a sua voz pela causa animal e pela causa ambiental, dedicando-se
igualmente a atividades no campo dos direitos humanos.
Dia gelado. À volta apenas se vislumbram serras cobertas de uma neve branco algodão. Talvez, o dia perfeito. Perfeito para quê? Perfeito para quem?
O dia perfeito para amar, para sonhar, para viver!
Perfeito para quem vive nas nuvens, quem ainda tem sonhos de tonalidade azul, quem continua apaixonado pela vida, quem concebe objetivos ao virar da página de cada novo dia. Um dia perfeito para quem ainda se espanta com o branco algodão da neve, apesar de ser o mesmo de todos os anos.
Perfeito porque deslumbra todos os corações que ainda sentem, que continuam a palpitar com os pequenos acontecimentos do dia a dia, que têm ilusões a latejar de vida nas pulsações, que gritam, que riem, que estão vivos!
Mas até nos dias perfeitos, há alguém que chora baixinho, que se encosta às paredes do ontem, recusando aceitar que a vida é uma dádiva e que a cada um compete vivê-la o melhor possível.
E nestes dias perfeitos, há quem sofra, numa solidão que abraça, domina e esvazia, numa solidão que não se acalma com o branco algodão da neve. Cujo coração tirita de frio, de saudade e de dor.
Nestes dias perfeitos, há não vidas que continuam uma não luta à espera de um não fim. Luta de quem desespera pela espera, da qual já nada espera.
Contudo, não deixa de ser um dia perfeito. Mais um dia perfeito!
Célia Gil
Célia Gil
(https://unsplash.com/search/photos/snow)
Na minha alma nem sempre
o sol irrompe em raios de sedução,
quando a esperança se desfaz na mente
e ficam as cinzas da desilusão.
Na minha alma nem sempre
a primavera me coroa de flores.
Murcha em mim a pequena semente
do amor e restam resignados rancores.
Na minha alma nem sempre
sopra a brisa da madrugada.
Desfolham-se as flores de quem sente,
com os ventos que sopram em rajada.
E chove, chove tanto no meu rosto...
Uma chuva miudinha que entranha
e vai deixando frio o meu desgosto,
até de mim me sentir estranha.
Célia Gil
George, Nina (2013). O Livreiro de Paris. Lisboa: Editorial Presença.
Desde a primeira página que nos sentimos
cativados por esta personagem principal, o Jean Perdu. Como seria bom encontrar
na realidade esta personagem, este livreiro que tinha um barco livraria
ancorado no rio Sena, em Paris. Como era bom frequentar esta farmácia
literária, onde alguém sensível e atento como Perdu nos pudesse diagnosticar os
problemas e propusesse um livro para a sua resolução!
Assim é Perdu, que tem uma série de
pacientes-clientes, muito peculiares, com doenças muito específicas, mas que
ele consegue, através do tom de voz, do olhar, de tudo o que emanam de si,
conhecer como ninguém. Só assim vai ao encontro da prescrição do livro adequado
aos vários sintomas, em “doses fáceis de digerir (entre 5 e 50 páginas). Se
possível, com os pés quentes e/ou um gato ao colo”.
A título de exemplo, receita Dom Quixote de La Mancha, de Miguel Cervantes para tomar “em caso
de conflitos entre a realidade e o ideal”. Se o problema consistir no vício do Facebook e dependência do The Matrix, o antídoto eficaz contra
esta tecnocracia da Internet, poderá ser o The
Machine Stops, de Eduard Foster. “Contra a tristeza e pela coragem de
continuar”, nada melhor do que Os Degraus,
de Hermann Hesse. Até José Saramago pode ser prescrito, porque o seu Ensaio sobre a Cegueira é eficaz “contra
o excesso de trabalho e para descobrir o que é verdadeiramente importante.
Contra a cegueira para o sentido da própria vida”.
Mas este romance não se limita a esta farmácia,
vai muito para além disso, precisamente porque Perdu tem a cura para todos os
males, menos para o seu, um desgosto de amor de há vinte anos atrás, uma pessoa
que se foi embora, Manon, com quem tivera um romance intenso, deixando-o frio,
fechado para o amor, numa tristeza sem par.
É quando aparece uma nova mulher na sua vida,
passado este tempo todo, que vem despertá-lo para a realidade em que ele se
deixara adormecer sem viver. Catherine encontra uma carta deixada por Manon há
vinte anos e consegue convencer Perdu a lê-la. Esta carta, onde Manon confessa
que se vai embora, vai casar com alguém capaz de lhe proporcionar a
estabilidade emocional que ela precisa num momento em que está doente e
condenada à morte, vai mudar a vida de Perdu, que parte com o seu barco
livraria em busca de respostas, à procura de si mesmo, com a sensação de ter
agido incorretamente, não ter ido atrás de Manon, não ter lido a carta, não ter
conseguido vê-la pela última vez.
Nesta viagem, onde o acompanha um jovem escritor
a quem a inspiração tinha atraiçoado, terá Perdu encontrado a sua razão de
viver? Poderia Catherine ser um paliativo para a dor que sentia? Ou seria até mais
do que isso e ele nunca se dera a oportunidade de voltar a viver?
Nada como ler este livro para rir, chorar,
descontrair, se emocionar, se surpreender, encontrar novas personagens que
ficarão para sempre na nossa memória literária.
Célia Gil
Zimler,
Richard (2008).Confundir a Cidade com o
Mar. Alfragide: Oceanos.
Este é um livro de 16 contos, que nos fazem viajar no tempo e no espaço, nos levam da Argentina ao Brasil, da Europa aos Estados Unidos, com uma passagem especial por Portugal.
São
contos que deixam muito espaço à imaginação do leitor. Zimler fala de temas
polémicos e de difícil abordagem como o racismo, a homossexualidade, a
emigração, a homofobia, a morte, os traumas, o suicídio, sempre tendo em atenção
que os contos terminam normalmente de forma menos feliz e com uma linguagem tão direta como só ele faz, uma linguagem dura, crua, áspera e, muitas
vezes, perturbante.
Ainda
que se abordem temas tão chocantes, o autor não deixa de se focalizar nas
relações entre pessoas e nas emoções e esse é o fio condutor entre todos os
contos deste livro.
Prende-nos às personagens, faz-nos sofrer com elas,
odiá-las, admirá-las. Alguns contos são, porém, muito breves, ficando no leitor
um vazio por preencher. Queria mais, mais de cada conto. Mas este é o estilo
enigmático de Zimler, que não revela tudo, que lança a problemática para nos
deixar a pensar nela.
Estava uma noite aziaga, a ansiedade galopava no peito, abrindo grandes olhos de expetativa. Mas a noite, essa, não estava convidativa. Era uma noite sem luar, sem estrelas, sem nuvens, sem lua. Uma negra noite, vazia, oca. Um logro. Foi nessa noite que tudo mudou. O olhar encovou-se numa ímpar tristeza e a ansiedade morreu no peito, dando lugar a uma prostração doente. O brilho dos olhos secou em lágrimas brotadas de par em par. Como essa noite vazia, assim é, às vezes, a vida. E tudo passa a ter um véu que enevoa a clarividência e o negativismo é o monstro que nos faz caretas para além do véu.
Célia Gil
Célia Gil
Sebold, Alice (2002). Visto do Céu. Casa das Letras/Editorial
de Notícias
Sobre o Livro
«Susie, a
narradora, é uma adolescente, que está morta quando o romance começa. E lá do
céu resolve contar-nos como ali foi parar, vítima da brutalidade de um pacato
vizinho, que a violou, a matou, a cortou em pedaços, que depois distribuiu por
vários locais. Susie começa a observar, lá do céu, a vida na terra, e tenta
modificar o destino daqueles que ama.» ( Webboom)
Visto do Céu, de
Alice Sebold, aborda temáticas que nos fazem refletir: a vida, a morte, o
perdão, a vingança, a memória e o esquecimento. A violação e morte (por um
vizinho aparentemente inofensivo) de uma jovem de catorze anos é revoltante e
provoca, nas personagens que ficam, os seus familiares, um sentimento de dor e
frustração por não saberem o que aconteceu, como aconteceu, dado que nunca
encontram o corpo, mas fragmentos… Por outro lado, confronta-nos com a ideia do
pós-morte, levando-nos a questionar sobre o que haverá depois da morte, que
poder têm os que morrem e que influência exercem sobre os que ficam.
Susie Salmon tem
o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida:
os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está
tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta
placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se
muito com o recreio da escola, com os tradicionais baloiços que o caracterizam.
Aos poucos, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam
os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá
ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...
A autora compôs personagens distintas e com diferentes características, que comprovam a complexidade do ser humano.
Susie fala sobre as dificuldades que a
sua família passa após a sua morte, nomeadamente o intenso sofrimento do pai, que
tudo faz para tentar descobrir o assassino da filha; a frieza da mãe enquanto
se envolve amorosamente com o detetive a quem entregam o caso do homicídio da
filha; o amor e as saudades que a irmã sente, sendo a única que acredita nas
suspeitas do pai, chegando ao ponto de, corajosamente, invadir a casa do Sr.
Harver (o assassino) e encontrar provas que este era afinal o culpado…
Através da narradora, a vítima, vamos
descobrindo outras vítimas… Como terão sido mortas? Serão estes crimes
descobertos? O Sr. Harvey será devidamente condenado? São questões a que este
livro nos vais dando resposta. Por isso, há que entrar e mergulhar a fundo nas
investigações que se fazem ao longo das páginas deste livro.
Sobre a autora
O primeiro livro que Alice Sebold
publicou chama-se Sorte e é um
doloroso relato na primeira pessoa: uma memória da sua própria violação, por um
colega da Universidade de Syracuse, obra que brevemente será editado em
Portugal pela Casa das Letras. O Village Voice distinguiu-a, então, com
um prémio de revelação. Posteriormente, começou a trabalhar no New York Times e no Chicago Tribune. Visto do Céu,
no original The Lovely Bones, o seu
primeiro romance, tem sido celebrado como um potencial clássico. Com mais de um
milhão e 300 mil exemplares vendidos em dois meses, nos Estados Unidos, esteve
cinco meses em primeiro lugar na lista dos títulos mais vendidos do New York Times. Já foi traduzido em
dezoito línguas e Peter Jackson, o produtor da trilogia O Senhor dos Anéis,
comprou os direitos cinematográficos. https://www.wook.pt/autor/alice-sebold/19960
Célia Gil
Tamaro,
Susana (2008). Um lugar mágico. Lisboa: Editorial Presença.
Neste romance de literatura juvenil,
somos transportados para um lugar verdadeiramente mágico, criado quando alguém
desejara viver em paz, enquanto uma estrela cadente atravessava o céu.
Neste lugar mágico, vivia um rapaz
chamado Ricky, que fora abandonado dentro de um caixote no lixo e fora recolhido
pela loba Guendy, que o criara como seu filho. Ricky crescera como um lobo,
sentia-se verdadeiramente um lobo. Passava muito tempo com a sua amiga Ursula,
uma macaca que o aconselhava.
Mas a magia dura até ao momento em que
o homem resolve invadir este paraíso terrestre. Nesse momento, não só terminou
a tranquilidade mágica, como a crueldade levou à morte de Guendy e de muitos
outros animais. Ulderico Pançudo, o futuro presidente da Câmara, capturou
Ricky.
No dia em que Ulderico deu uma festa
para celebrar a sua eleição à presidência, Ricky ouviu uma conversa entre
ele e Sua Moleza Imunda Almôndega I, onde expunham o seu plano de modernização,
onde não havia espaço para plantas e animais, onde as crianças passariam a ser
formatadas pela televisão e o planeta passaria a ser um monte de cimento coberto
de Super-Mega-Hiper-Mercados, televisões e antenas parabólicas. Ricky, perante
isto, fugiu e acabou por encontrar a gata Dodó da senhora Cipolloni, a única
senhora que tinha um jardim e uma gata e que, por isso, era mal vista por todos
os habitantes, que concordavam que era um inimigo a eliminar.
Recebido com carinho pela senhora
Cipolloni, esta ajudou-o a esconder-se de Ulderico. Quando viram passar dezenas
e dezenas de crianças, de olhar vazio, com olhos quadrados, onde se refletiam
os ecrãs das televisões, aceitaram a sugestão de Dodó, de infiltrar Ricky no
cortejo de crianças, para descobrir os planos maquiavélicos de Ulderico. Foi
assim que a senhora Cipolloni arquitetou um plano para devolver a paz e a
harmonia à cidade. Terá ela conseguido? Será que Ricky foi descoberto no meio
dos meninos? Terá ficado a saber o que aconteceu à sua amiga Ursula? E qual era
verdadeiramente o plano de Ulderico?
Uma leitura ligeira, mas muito
envolvente, onde estas personagens poderiam muito bem ser transpostas para a
atualidade, na qual a tecnologia e modernização dominam o ser humano, que vai
perdendo os seus pequenos lugares mágicos. Porque, quando se perde a magia, os
olhos ficam vazios, sem sonhos, como os destas crianças.
Susanna
Tamaro nasceu em Trieste, Itália, no ano de 1957. Formou-se em Realização no
Centro Experimental de Cinematografia de Roma. Durante dez anos trabalhou para
a televisão como realizadora de documentários científicos. Atualmente, é uma
das escritoras italianas mais conhecidas e aclamadas em todo o mundo, e o
conjunto da sua obra, que inclui títulos bem conhecidos do público português -
Vai Aonde Te Leva o Coração, Com a Cabeça nas Nuvens, Para Uma Voz Só, Escuta a
Minha Voz ou Regresso a Casa - vendeu vários milhões de exemplares à escala
mundial. (http://www.bulhosa.pt/livro/um-lugar-magico-ou-como-salvar-a-natureza-susanna-tamaro/)
Quando eu deixar de me importar
e tudo me for indiferente,
serei apenas mais um livro a fechar
uma história que se encerra para sempre.
Por agora quero tudo absorver,
todas as emoções de cada fragmento.
Não deixar nenhum capítulo por viver
e ser genuína como o vento.
Nesta grande biblioteca, que é a vida,
quero ser um livro repleto de histórias.
Numa estante grande e bem colorida,
quero fazer brilhar as minhas memórias.
Célia Gil
e tudo me for indiferente,
serei apenas mais um livro a fechar
uma história que se encerra para sempre.
Por agora quero tudo absorver,
todas as emoções de cada fragmento.
Não deixar nenhum capítulo por viver
e ser genuína como o vento.
Nesta grande biblioteca, que é a vida,
quero ser um livro repleto de histórias.
Numa estante grande e bem colorida,
quero fazer brilhar as minhas memórias.
Célia Gil
Sobre mim
Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.
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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ - Esta licença permite que os reutilizadores copiem e distribuam o material em qualquer meio ou formato apenas de forma não adaptada, apenas para fins não comerciais e apenas enquanto a atribuição for dada ao criador.
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