Histórias Soltas Presas Dentro de Mim
Cabral, Afonso Reis (2018). Pão de Açúcar. Alfragide: Publicações Dom Quixote.


Pão de Açúcar é um livro escrito por Afonso Reis Cabral, que venceu o prémio Leya 2014 com o romance O Meu Irmão. É um livro que junta factos verídicos com ficção, por forma a tornar o enredo numa narrativa verosímil. A ideia de escrever um livro a partir do caso de Gisberto ou Gisberta, uma transexual brasileira que apareceu, em 2006 morta no fundo de um poço, num edifício abandonado, resultante de um projeto falhado para um Pão de Açúcar.
É uma história contada na 1ª pessoa, um rapaz, o Rafa, que vai desfiando o fio à narrativa.
Intercala o calão, que surge contextualizado e adequado, com alguma poeticidade, numa escrita fluente e intensa, que resulta também da riqueza e complexidade interior que as personagens revelam.
 A história é sobre o dia-a-dia de três rapazes adolescentes, que viviam num internato: Rafa, com uma vida difícil, pouca escolaridade e interessado em mecânica; Nelson, um jovem muito bruto e conflituoso e Samuel, com uma grande sensibilidade, mas antissocial. Rafa começa a interessar-se por Gis, uma toxicodependente, com sida e transexual, que vive no edifício abandonado e que vai definhando, com fome, à espera que a morte a leve. Rafa deixa a sua bicicleta ou projeto de bicicleta no edifício mencionado e vai lá arranjá-la e vigiá-la todos os dias. É assim que conhece Gis. Sente uma atração/repulsa que o leva a fazer-lhe e levar-lhe comida. Acaba por revelar este seu segredo aos amigos, levando-os com ele para a conhecerem. A partir do momento em que o segredo de Gis é desvendado, passa a ser insultada, tratada como “traveca” ou “paneleiro com mamas”, chegando a ser espancada, numa sociedade que não aceita a diferença e não sabe conviver com ela, que passa por ela alheia, sem se deter, sem questionar, sem intervir. Gis era um dos tantos esquecidos de que vários escritores falam. Manuel da Fonseca falava no seu conto “O Largo” dos marginalizados pela sociedade, a quem ninguém dava credibilidade; Luísa Ducla Soares, no seu conto “O Mundo é dos Jovens” fala mesmo dos esquecidos, aqueles de quem ninguém fala e que é mais fácil ignorar.
Este é um livro que nos faz, sobretudo, refletir sobre a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos, perante estas situações para nos fazer questionar os padrões da educação e as questões culturais.


Célia Gil

Wells, Benedict (2019). O Fim da Solidão. Alfragide: Edições ASA.




O Fim da Solidão é um livro de Benedict Wells, traduzido por Paulo Rêgo, com muito de autobiográfico e muito bem escrito. É o quarto romance do escritor, que nasceu em Munique em 1984, e venceu o Prémio de Literatura da União Europeia. 
Apesar de ser um livro com uma temática triste, os sentimentos demonstrados e a própria forma como as personagens encaram e tentam superar a dor tem algo de belo, que conforta e na qual se revê quem já passou ou acompanhou situações semelhantes. 

Jules, o narrador do livro, tem apenas 11 anos quando ele e os dois irmãos mais velhos perdem os pais num acidente de viação. Acabam por ir para o mesmo internato, mas o afastamento entre eles é inevitável, até porque têm personalidades e temperamentos muito diferentes e a dimensão da tragédia que lhes aconteceu é vivida de forma diferente por cada um deles.
 Jules é um miúdo reservado, sendo alvo de gozo por parte dos colegas. O seu tempo é passado entre memórias, à procura de si mesmo e de um sentido para a sua existência através do sonho. Marty é um jovem muito dedicado aos estudos, sempre mergulhado nos livros e um pouco cético e Liz é uma jovem que quer viver e experimentar tudo, sem limites, sem prisões ou compromissos. Mais tarde Liz culpabiliza-se por não ter, como irmã mais velha, tomado conta dos irmãos, quando tanto precisavam de alguém. O certo é que nenhum deles conseguiu ultrapassar totalmente o trauma da perda repentina dos pais e as mudanças que esta perda traria inevitavelmente para as suas vidas.
No internato, Jules sente apenas apoio por parte de uma outra criança da sua idade, Alva, também ela muito reservada e também ela com um passado sofrido. Entre eles nasce uma amizade que se fortalecerá com o tempo. Mas nem todos os caminhos que se seguem ao lado de outra pessoa são caminhos de encontro. Alva acaba por partir e só muito mais tarde, Jules a volta a reencontrar. Também os irmãos se afastam. Mas a vida dá muitas voltas e, passados 15 anos, Jules vê a possibilidade de voltar a ser feliz. Trabalhava, entretanto, numa empresa discográfica, embora sonhasse em dedicar-se à escrita e à fotografia.
Conseguirá Jules libertar-se do passado e procurar o que o faz realmente feliz?
Um livro feito de perdas e reencontros, de dúvidas e desilusões, numa procura incessante da felicidade. E será que esta felicidade existe e, se existe, pode ser total? 
                                                                                            Célia Gil


Peretti, Paola (2018). A Distância entre Mim e a Cerejeira. Lisboa: Nuvem de Tinta.


     Quando iniciei a leitura de A Distância entre Mim e a Cerejeira, primeiro romance da italiana Paola Peretti, traduzido para português por Simonetta Neto, pensei que seria um livro tristíssimo, uma vez que inspirado na vida da autora que teve, em criança, uma doença macular degenerativa que a levaria a uma cegueira irreversível. Porém, logo nas primeiras páginas, pude mudar de opinião, uma vez que a sensibilidade e até infantilidade com que uma narradora de nove anos aborda a temática, é tão comovente e suave, que chegamos a sorrir e o sentimento que nos domina não é o de pena, mas sim de admiração e orgulho.
     Mafalda tem nove anos, sabe que em pouco tempo ficará cega. Para que se torne todo este processo mais fácil, faz uma lista com as coisas que poderá fazer, mesmo sem ver… Estella, uma auxiliar da escola onde estuda, é, para ela, uma referência, compreende os seus medos, as suas necessidades, parece mesmo, por vezes, entrar dentro da sua cabeça e desvendar os seus pensamentos.
     Os pais, com o intuito de facilitarem a vida à filha, pensam em mudar de casa e ir para uma mais perto da escola. No entanto, Mafalda não quer deixar a sua casa, a casa que viu, que ficará gravada na sua memória. Decide fugir de casa quando a mudança se tornar iminente. Para essa fuga, que vai projetando, recolhe uma série de objetos que pensa que serão imprescindíveis para empreender o que tem em mente: ir viver para a cerejeira da escola. O dia em que, ao abrir os olhos, não sente necessidade de pôr os óculos, pois o cinzento apoderou-se de tudo em seu redor, é o dia da prova de fogo, pois terá de fugir e terá de, na escuridão que a rodeia, concretizar tudo o que havia planeado. Mas terá Mafalda, na sua escuridão, conseguido atingir o que julgava ser o último objetivo da sua lista – viver na cerejeira? Será que os passos que contou até à cerejeira a conduzirão ao local certo?
     Passo a citar algumas frases que demonstram bem a poeticidade e simplicidade deste livro:
“Quando era pequena imaginava ter seis filhos, cinco raparigas e um rapaz, mas depois chegou a neblina nos olhos e deixei de pensar nisso. Iria perdê-los na neblina, ou penteá-los mal, e até podiam morrer à fome porque não posso guiar o carro para ir às compras. Talvez pudesse encomendar pizza para o jantar. Mas então iriam ficar gordos. Não, nada de filhos para mim.” (pp. 117-118).
“O ar é uma senhora sorridente que passa o seu cachecol de seda azul pelo meu rosto e pelo cabelo”. (pág. 156)
“Ali onde devia estar a janela com a Lua dentro e a estrela polar, e de dia o Sol, não vejo nada. O meu quarto é cinzento. A minha mão é cinzenta quando a movo à minha frente. O escuro é cinzento-escuro. Que, para mim, é muito mais feio do que o preto.” (pág. 165).



Acabadinho de ler!

Veletzos, Roxanne (2018). Abandonada por Amor. Lisboa: Edições ASA.


     Não se escolhem os livros pela capa, mas este, Abandonada por Amor, romance de estreia de Roxanne Veletzos, uma escritora nascida na Roménia, é um livro que convida a entrar, pela suavidade das cores, a emotividade do título e das relações humanas. Tem, sem dúvida, daquelas capas que cativam desde logo. Se bem que, se a analisarmos, vai contando duas histórias, porque, a suavidade do cinza, não deixa de ser cinza, impedindo o sol de resplandecer e esta mãe e filha que olham para o horizonte, sabem, e está presente na imagem, ainda que de forma discreta, a prisão representada pela dureza de um arame farpado, como o dos campos de concentração.
     Tudo começa com uma família feliz que, quando, em 1941, a Roménia se alia aos Nazis e se dá início a perseguições aos judeus, se vê obrigada a fugir, para um futuro incerto, sendo que o mais certo é que esta seja uma fuga para a própria morte. São estas circunstâncias que os levam a abandonar, à porta de um prédio em Bucareste, a filha de quatro anos.
     A criança é recolhida num orfanato, onde permanece até ser adotada por um casal, que não conseguia ter filhos e que lhe poderia proporcionar uma vida melhor, uma vida poder-se-á mesmo dizer, de luxos. Assim, começa a ter aulas de piano, é-lhe comprado um piano para casa e tem todos os luxos que, a maior parte das crianças da sua idade não tem, como uns brincos de rubi verdadeiro, que lhe são dados por ocasião do seu 7º aniversário. É neste ambiente que Tália (Natália), vai esquecendo o seu passado, para se encontrar e ser totalmente feliz e amada nesta nova vida.
     Mas outros acontecimentos diretamente relacionados com a guerra por que estão a passar, II Guerra Mundial, levam a uma reviravolta na vida deste casal que adotou Natália. A vida de Anton e Despina vai-se degradando de dia para dia, vendo-se obrigados a vender todos os seus bens que não foram saqueados (inclusive o piano de Tália), até não terem mesmo o que comer e até se consciencializarem de que a origem judaica de Tália poderia ser um fator de risco em relação ao seu futuro.
     O pai de Tália começara, entretanto, a conviver com Victor, um jovem pobre mas com ambições e ideais políticos divergentes dos desta família rica. Tália apaixona-se por Vítor.
     O amor dos pais e de Vítor por Tália é também levado ao limite. Mais uma vez se vê abandonada por amor, quando abdicam dela para a salvar. Viaja para os Estados Unidos. Aqui Tália terá mais uma descoberta surpreendente, a que só terão acesso, se mergulharem neste magnífico livro, baseado nas experiências da mãe da autora, que foi abandonada pelos pais biológicos na II Guerra Mundial. 
                                                                                                                                 Célia Gil


        Sándor Márai, um escritor húngaro, da primeira metade do século XX, surpreende-nos com a sua forma elegante, límpida e fluida de escrever. Os longos diálogos são tão extensos e intensos como se estivéssemos a ouvir contar uma história.

         À medida que a narrativa flui, sente-se a necessidade de ler os próprios gestos, as atitudes, as meias palavras das personagens, que nunca revelam tudo.

         Tal como no romance As Velas Ardem até ao Fim, também neste A Herança de Eszter, há um regresso há muito aguardado, neste caso de vinte anos, momento em que as personagens já se sentem velhas e têm a noção de que tudo é já apenas passado, pouco esperando do futuro.

         Eszter é solteira e o seu único amor partiu com a sua irmã Vilma, com quem se casou. Interesseiro, materialista e sem escrúpulos, Lajos roubou tudo o que possuíam, deixando-lhes apenas a casa onde vivem e o jardim com que subsistem.

         Eszter vive com Nunu, a “omnisciente” Nunu, que constituíra sempre a lanterna na vida de Eszter, que lhe terá guiado os dias de solidão. Endre é amigo e notário da família, conhece Lajos há vinte e cinco anos e nunca acreditou na sua seriedade, nem se deixou enfeitiçar pelas suas palavras falsas mas eloquentes, irresistíveis e afáveis.

         Passados tantos anos, Lajos regressa, viúvo, trazendo a filha, o namorado desta e a mãe do futuro genro. E este regresso vem desencadear sentimentos e recordações que se julgavam esquecidos. Eszter descobre cartas que Lajos lhe escrevera há vinte anos a pedir que fosse ter com ele, mas que a irmã lhe escondera.

         Numa conversa com Eszter, Lajos confessa não ser um homem de paixões, nem de caráter. Ela era o caráter dele, o caráter que lhe faltava. No entanto, esta conversa escondia as verdadeiras intenções de Lajos. Estaria ou quereria Eszter entender essas razões e recuperar uma vida que não vivera ao lado de Lajos?

         Como todo o discurso de Lajos, também o final deste romance pode não ser o que estamos realmente à espera.
                                                                       Célia Gil


Que faço agora com tantos
segredos que nunca revelei?
Que fui esconder em gavetas
de uma caixa de memórias que inventei?
De que me servem?
Que consolo, que riqueza, que bem
me poderão deles advir?
Se o que somos é nada,
de que me hão de eles servir?
Tanto os guardei,
tanto os amontoei,
tanto os estimei...
Com eles apenas morrerei.
                                  Célia Gil

                                                                                   (in https://unsplash.com/photos/_OQ8Jc7kBmA)

Quando foi?
Onde ficou o canto do pássaro
que me alegrava?
Que foi feito da árvore
onde se alojava?

No galho seco vazio
nada ecoa que me alegre o dia.
Só o silêncio, a calma, o frio
me farão companhia.
                            Célia Gil

Pamuk, Orhan. A Cidadela Branca. Ed.4. Lisboa: Editorial Presença, 2006.


     A Cidadela Branca, de Orhan Pamuk, autor que foi prémio Nobel da Literatura em 2006, é um livro enigmático e que confronta o leitor com as suas dúvidas existenciais, tão fortemente vivenciadas pelos protagonistas do livro.

     No séc. XVII, um jovem estudante aristocrata veneziano, numa viagem entre Veneza e Nápoles, é capturado por piratas turcos, tornando-se prisioneiro e escravo em Istambul.
     Entretanto, um cientista inventor, conhecido como o Mestre, toma-o como seu escravo e é assim que se decide a aprender com ele tudo o que tinha a ensinar-lhe sobre o Ocidente. Juntos, vão procurando também dar resposta às solicitações do Sultão. O Mestre vai transmitindo ao Sultão tudo o que vai aprendendo com o escravo, se bem que, no início, o Sultão, ainda demasiado jovem, se mostre mais interessado em profecias e histórias sobre animais.
     Quando a peste invade Istambul, o Sultão exige ao Mestre que lhe apresente uma solução eficaz para a diminuição do número de mortos.
     Entre eles, que possuem uma incrível e simbólica semelhança física, nasce uma cumplicidade que chega a ser doentia, uma relação de amor-ódio, que vai de uma total não aceitação do outro à conclusão de que não poderiam viver um sem o outro.
     No momento em que se veem obrigados a ficar em casa, para evitar contrair a peste, o Mestre e o escravo decidem escrever as suas respetivas autobiografias.
     É neste momento que se cria uma relação de dependência entre os dois em que, apesar das diferenças civilizacionais que os separam, são tremendamente assustadoras as semelhanças que os unem e que os levam, a partir das autobiografias, a um jogo de espelhos no qual se fundem as próprias identidades ao ponto de as questionarem e pensarem até que ponto não poderão viver a vida um do outro.
     O Mestre acaba por retomar a vida do escravo, antes de ter sido feito prisioneiro, tornando-se numa pessoa culta. Já o escravo, vive a vida do Mestre, tornando-se bárbaro, cruel e selvagem.
     Uma metáfora da vida em comum, onde, muitas vezes, as pessoas, na busca da sua identidade dentro de uma relação, sentem que deixaram de ser quem eram para passarem a ser como o outro, anulando-se e transformando-se nele. Afinal, alguém saberá dar a resposta à pergunta “Quem sou?”
     A Cidadela Branca de Orhan Pamuk é esta viagem psicológica e existencial à mente humana que esta semana convido a fazer, eu que sou a Célia Gil.

Maynard, Joyce (2011). Os Aromas do Verão. Porto: Porto Editora.

Os Aromas do Verão é um livro de Joyce Maynard, traduzido por Vasco Gato, que, em 2013, deu origem ao filme Labor Day, título original, protagonizado por  Kate Winslet e Josh Brolin.
O narrador deste livro é um jovem de 13 anos, Henry, que se esforça por cuidar da sua mãe, a solitária Adele, enquanto enfrenta os problemas comuns na adolescência.

Um dia, após comprarem material escolar, Henry e a mãe encontram Frank Chambers, um homem intimidante, ferido e claramente a precisar de ajuda, que os convence a dar-lhe abrigo. Mais tarde, pelas notícias, num jornal, vêm a saber que é um criminoso foragido. Os eventos do longo fim de semana do Dia do Trabalhador serão cruciais e determinarão o curso das suas vidas para sempre.
Henry é um jovem solitário, pouco sociável, que passa os seus dias a ver televisão e a ler, tendo por únicas companhias a mãe e o seu hamster. Sai aos fins de semana com o pai e a sua nova companheira e filhos, mas encara estas saídas como um castigo, desejando sempre voltar para casa.

A mãe é uma mulher emocionalmente frágil, que se refugiou dentro de si mesma, deixando de ter amigas. A sua apatia é extrema, não se importando com nada, vivendo de um emprego instável de vendas através de casa, que compra comida enlatada e nada a faz feliz.

Quando Frank entra nas suas vidas e lhes faz as refeições, lhes mostra que a vida, apesar de todas as agruras, foi feita para ser plenamente vivida, Adele e Henry deixam-se cativar. Mesmo depois de saberem que fugiu da prisão, acreditam que é um homem bom e que entrou nas suas vidas para fazer Adele feliz.

No momento em que Adele comunica ao filho que foi pedida em casamento e que fugirão para o Canadá para viverem felizes para sempre, Henry sente-se dividido. Por um lado, este estranho veio fazer a mãe feliz. Mas, por outro, poderá querer levá-la com ele e deixá-lo para trás. Deverá ele contactar as autoridades?

Conseguirão Adele e Frank fugir? Levarão Henry?

Estas são questões que convido a solucionar com a leitura do livro, Os Aromas do Verão de Joyce Maynard.
                                                                                Célia Gil



Eu sou um Lápis é um livro de Sam Swope, traduzido por Lucília Filipe, que ganhou os prémios Book for a Better Life Award (2004), Christopher Award (2005) e foi nomeado para melhor livro de 2004 pela revista Publishers Weekly.
Sam escrevia livros para crianças, quando foi convidado para dirigir uma oficina de escrita com uma turma do 3º ano, em Queens. Esta turma de 28 alunos, filhos, em grande parte de imigrantes, veio conferir um novo sentido à sua vida, ao ponto de escrever este livro sobre esta fantástica experiência.
Mr. Swope, como era tratado pelas crianças, conseguiu despertar-lhes o gosto pela escrita, de uma forma gradual, ensinando-os a pensar, a observar tudo à sua volta, a ver para lá do que está à sua volta, a escolher as palavras, a extravasar os sentimentos e emoções.
Nem sempre esta tarefa se revelou fácil, esbarrou contra muitas paredes. Cada um tinha a sua vida, a sua família, os seus problemas, os seus medos e os seus anseios. Mas, Mr. Swope nunca desistiu, ouvia-os, compreendia-os ou não, ensinava-os e repreendia-os quando assim era necessário. Muitas vezes, sentiu o desapontamento e o desânimo tomarem conta de si. Mas persistiu. Estas crianças, cada uma à sua maneira e com as suas características muito peculiares, despertaram nele a atenção, a esperança e os afetos.
Ao longo de três anos, através dos imensos diálogos que manobrava de forma exímia de modo a espicaçá-los para a escrita ou, simplesmente, orientá-los, preparou-os para um mundo de perigos e de desafios, sem que perdessem toda a sua riqueza genuína interior, a força e a criatividade.
Foi ao lado dos pais que aguardou a entrada nas escolas que mais lhes conviriam, com que tinha contactado e às quais tinha levado as crianças e os pais.
É com orgulho que recorda os sucessos que obtiveram e para os quais contribuiu.
Eu sou um Lápis põe lado a lado as agruras da vida e a magia que cada um tem dentro de si, as inseguranças que tentam sujeitar o ser humano a fechar-se e a viver dentro das suas ideias e a audácia de as passar para o papel.
                                                                                          Célia Gil



Uma fresca aragem
arrepia-me o pensamento
e sinto que ainda sinto,
que neste processo de esvaziamento
há um trajeto no labirinto.
E os brancos do tempo
que vieram acentuar a brancura
da memória do que fomos um dia,
junta-se a um cansaço sem fundamento,
uma ansiedade vadia
que não se explica, mas perdura...
E só esta aragem me certifica
de que ainda vive em mim
a pele que se arrepia.
Nos olhos que vagueiam sem fim
ainda fica o verde que inebria,
a flor que sensibiliza.
De tudo, tudo o que passa,
ainda há algo que fica...fica!

                                 Célia Gil

Com cuidado e com jeitinho
fui, no meu pensamento,
dando nós de laço apertadinho
com que julguei prender o sentimento.

Mas os nós estavam cansados
de tão tão apertados
e desataram-se em grande desatino.
Nós que cuidava enlaçados,
seguem agora cada um o seu destino.

                                                  Célia Gil

Toni Morrison foi a primeira escritora negra a ser distinguida, em 1993, com o Prémio Nobel da Literatura. Foi esse facto que me levou a ler A Dádiva.



Um livro pequeno, mas que deve ser lido com calma, com a devida atenção, para saborear as palavras da escritora, que cativam logo desde as primeiras linhas e também porque a história nos é contada em momentos diferentes e temos de nos situar, de perceber quando surgem as analepses para podermos desfrutar ao máximo da obra.
É um romance extraordinário que se passa na América do Norte de finais do século XVII, uma época marcada pela escravatura, grandes divisões sociais e religiosas, tirania, preconceito e ódio racial.

É neste contexto que Jacob Vaark, um comerciante anglo-holandês, que, apesar de inicialmente se manter distante do negócio dos escravos, acaba por aceitar, como pagamento de uma dívida de um fazendeiro de Maryland, uma menina negra, Florens. É numa conjuntura de submissão que Florens conhece a paixão, mas é também nesse contexto que descobre o quanto a ausência de liberdade pode ser prejudicial para a alma. 
                                                                                     Célia Gil
                                                                                
Zimler, Richard (2014). A Sétima Porta. Porto: Porto Editora.


     Em A Sétima Porta, Zimler conduz-nos com uma extraordinária erudição, a uma história que nos desperta vários sentimentos distintos – desde a repulsa por determinadas atitudes ousadas, invulgares numa jovem, que, no início, tem apenas catorze anos e que enfrenta os pais e a sociedade, erguendo sempre o seu grito por aquilo em que acredita; e até um carinho pela compaixão que ela consegue nutrir pelos abandonados, os marginalizados, portadores de malformações, expostos à violência dos nazis; os sonhos que persegue e aos quais se entrega de uma forma até aparentemente desarrazoada.
     Sophie, ariana e católica, que vive em Berlim com a sua mãe russa, o seu pai comunista e um irmão autista, é a narradora desta história intensa, que decorre na década de trinta e, quer pela curiosidade natural da idade, quer pela forma como perceciona o mundo e pelos seus ideais, acaba por se relacionar, às escondidas dos pais e do namorado, com judeus e portadores de malformações.
     O pai de Sophie, decide, como tantos outros comunistas da época, apoiar Hitler para proteger a sua família. Atitude que não mantém quando não hesita, em compactuar com o internamento do filho Hansi, quando este levará a injeção letal.
    Sophie, envolve-se com Isaac, um velho descendente de Zarco, judeu antissemítico detentor de uns manuscritos que tenta descodificar para salvar a humanidade, de quem acaba por ter um filho.
     Terá Isaac conseguido o que pretendia? Terá atingido a sétima porta e encontrado em Deus as respostas?
     O convite para embarcar nesta viagem alucinante, explosiva e profética fica feito, basta que leiam “A Sétima Porta”, de Richard Zimler. 


O Presságio da Sereia, Katy Gardner, traduzido por Luísa Feijó, é um livro com uma história cativante do início ao fim. Lê-se compulsivamente, pela sua intensidade, mistério e suspense… Com um final completamente inesperado.
Cass é uma professora de História que vive em Londres com o seu companheiro de há quase dez anos, Matt, e que decide aceitar uma proposta para assistente universitária em Brighton. É quando muda para Brighton, que todos os seus problemas começam.
As memórias dolorosas de um segredo que acabou de destruir o que restava da sua já problemática infância e mudou a sua vida para sempre começam então a assombrá-la. E a crescente sensação de que está a ser observada, numa altura em que violentos ataques a estudantes estão a ocorrer em pleno campus universitário, transforma o seu receio num imenso pânico que ameaça sugá-la. Será ela a próxima vítima? Ou haverá uma razão mais sinistra para que tenha sido precisamente Cass a ser transformada em alvo? Além disso, Brighton não é uma escolha natural para uma mulher com um já antigo medo do mar. Cass pode ter tentado encerrar um capítulo da sua vida ao deixar Londres, mas cedo vai descobrir que alguns elementos da sua nova existência são igualmente perturbadores. Segredos que tinha conseguido esquecer durante toda a sua vida são agora descobertos e revividos pela protagonista deste livro. No percurso de Cass, existem dois alunos que vão ter um papel muito importante na revelação deste segredo. Ao sentir-se pressionada, a professora vê-se obrigada a contar que teve de abandonar um filho, fruto de uma violação, quando tinha apenas 15 anos. Este é um livro capaz de nos transmitir as mais variadas emoções. E, como nos é dito na capa do livro, “Os segredos mais profundos arrastam consigo correntes sombrias”.
Esta obra fez-me realmente pensar nos segredos que todos escondem e não querem que sejam descobertos. No entanto, isso nem sempre acontece! Por mais voltas que a vida dê, se existir alguma coisa do passado que intimide, mais tarde ou mais cedo, vem ao de cima. Neste livro, pode observar-se a reação de pânico que o ser humano tem quando pensa que vai ser “descoberto”. É algo que a todos ultrapassa, algo que nunca se consegue nem se vai conseguir controlar. Porém, por outro lado, a revelação pode constituir o primeiro passo para a libertação, uma autêntica catarse.


Stilwell, Isabel (2001). Como Dei com o Meu Psiquiatra em Louco. Lisboa: Editorial Notícias

Este livro reúne dez contos, que são histórias com as quais nós, leitores, em algum momento das nossas vidas, nos identificamos. No fundo, são metáforas, através das quais a autora nos apresenta, de forma caricatural e um tanto absurda, mas muito divertida, os segredos da psicologia humana.  Como nos diz a própria sinopse do livro, e passo a citar “desde homicídios com queijo, duelos de faca e garfo, juízes que colocam os móveis em guarda conjunta, meias que fogem para a Terra das Meias, meninas cujo cérebro se alojou no cotovelo e mulheres que dão alvíssaras a quem lhes encontrar a alma perdida. Respire fundo e mergulhe sem medo. Vai ver que estas histórias falam de si.”
Por exemplo, no conto “A Cristaleira em Guarda Conjunta”, um juiz, questionado, um dia, sobre se os móveis, como o nome indica, são feitos para permanecerem no mesmo lugar ou para serem realmente “móveis”, decide colocar os móveis de um casal sem filhos em guarda conjunta, devendo estes passar a estar quinze dias em casa de um e quinze dias em casa do outro. Um assunto sério, no que se refere à guarda partilhada dos filhos, transposta, de forma muito engraçada para os móveis. Não podemos deixar de sorrir quando um elemento do casal refere que os seus móveis são maltratados em casa do antigo cônjuge, porque nem um paninho do pó a “outra lambisgóia” passa por eles. Finge que gosta deles, mas ignora-os, mal ele vira costas.




Toda a história da obra Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de Sandro William Junqueira, decorre no lote 19, onde vivem muitas pessoas, cada uma com as suas especificidades: a Mulher Gorda, quer comprar jacintos e a filha, a Rapariga Magra, que aceita tudo menos ficar igual à mãe. O Velho, que sabe que não pode deixar que a morte o apanhe a dormir, enquanto o Homem Desempregado não sabe como saciar a fome a não ser com a memória de refeições passadas. E, entre estes e outros, a vida passa: para uns, traz vinganças e ligações de amor e ódio; para outros, a apatia do que se deixou de sentir. Ao lado, o lote 17, é um buraco à espera de construção - buraco como o das vidas que o observam ao passar.
A história nasce de uma multiplicidade de fragmentos, de pequenos momentos das vidas das várias personagens, como que vistos pelo olhar de alguma entidade distante.
Todos estes momentos estão escritos com a brevidade sintética de quem se cinge ao estritamente essencial. Narram-se os factos, expressam-se os pensamentos e os sentimentos como eles são, sem grandes elaborações nem divagações extensas.
Ao acompanhar tantas personagens num livro tão breve, o autor realça precisamente aquilo que as torna únicas - e, ao mesmo tempo, o que nelas mais desperta interesse, empatia e solidariedade. No fundo, todas estas personagens têm algo de estranho - mas do tipo de estranheza que existe nos recantos mais cruéis da realidade. E, sendo certo que a vida não acaba no fim de uma história, também a história destas personagens não acaba: ficam coisas por dizer, futuros possíveis, bons ou maus. E este ponto de equilíbrio onde tudo termina - pondo fim a algumas coisas, mas deixando tantas outras por dizer - faz um estranho sentido nesta história em que todas as vidas são, por natureza, incompletas.



No país que em mim habito
não há lugar para a hipocrisia,
é um imaginário mundo bonito
de amor, cumplicidade e fantasia.

Neste lugar em que a concórdia mora,
habitam sentimentos que são só meus,
e tudo quanto me magoa, lá fora,
não entra neste meu reino dos céus.

Se assim não fosse destilaria maldade,
não seria,de todo, confiável,
lançaria o meu fel a qualquer oportunidade,
deixaria de ser eu, de ser amável.

Esta dualidade que em nós existe
espera uma brecha para se manifestar,
uma crueldade latente que não desiste
e insiste em de nós se apropriar.

Não quero perder de todo a razão,
e fico quieta no meu vagar,
calando em vão o coração,
que teima sempre em se manifestar.

                                                   Célia Gil


                     (imagem pesquisada em https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=246168)




Rebelo, Tiago (2008). O Último Ano em Luanda. Barcarena: Editorial Presença.


Este romance começa quando, em 1961, a UPA – União dos Povos de Angola, enceta a luta armada pela independência.

Nesta obra descreve-se o início de uma guerra de cerca de treze anos contra os três movimentos de libertação de Angola – o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), o FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

Entretanto, em 1974, a revolução em Lisboa apanhou de surpresa centenas de milhares de portugueses que viviam em Angola, provocando a queda do regime em Lisboa, o que levou a que o novo poder desistisse de Angola.

É no meio destes acontecimentos, que nos são apresentadas as personagens deste romance. Nuno e Regina conhecem-se em Lisboa. Regina tem 25 anos, é rebelde e sente uma grande atração pelo perigo. Nuno era um pouco mais velho e tinha fama de marginal. Terá sido este seu lado de enfant terrible que cativou Regina na noite de Lisboa. Para fugir a problemas em que se afundara e decorrentes de negócios escuros, Nuno propõe-lhe a ida para Luanda. E é ali que vivem o seu romance e têm um filho. Quando o ambiente em Angola se torna insustentável, Nuno propõe a Regina que regresse com o filho para Lisboa, por uma questão de segurança. Nuno ficaria e continuaria a utilizar o seu avião para os seus negócios escuros – como o transporte de drogas e o último deles o transporte de armas para a UNITA - que o levariam a pôr a sua vida em risco.

Regina, garantida a tranquilidade do filho em Lisboa, com os pais que, entretanto, já lhe haviam perdoado as suas atitudes levianas, sem notícias de Nuno pelos seus informadores, decide voltar a Luanda determinada a trazer Nuno e é a sua determinação e coragem que conseguem resgatá-lo.

A história é narrada de forma intercalada e situada num momento histórico marcante, quando cerca de trezentos mil portugueses se viram obrigados a deixar tudo em Luanda e a fugir, por via aérea e marítima, para Portugal ou para a África do Sul, deixando tudo para trás – casas, carros, animais, empresas, comércio… Tudo.

É no navio Niassa que Regina e Nuno regressam a Portugal, pouco antes da independência entrar em vigor, em novembro de 1975, com a vitória do MPLA. Entretanto, deixavam para trás um país devastado pela guerra, guerra esta que prosseguiria numa mortífera guerra civil entre o MPLA e a UNITA e que só terminaria em 2002, com a morte de Jonas Savimbi.

Um livro duro, com uma narrativa em que as ações surgem alternadamente, de forma a que se percebam aspetos fulcrais da narrativa no momento em que nos questionamos sobre um qualquer episódio ou personagem. Um livro escrito de forma fluente, mas que exige uma leitura atenta.
                                                                   Célia Gil

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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