Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Sohn, Won-Pyung (2024). Amêndoas. Lisboa: Editorial Presença.
Tradução: Yang Hui Qia Pan

Nº de páginas: 216

Início da leitura: 18/01/2025

Fim da leitura: 19/01/2025


**SINOPSE**

E se não conseguíssemos identificar ou expressar o que sentimos?

O romance coreano que tocou o coração de milhões de leitores.

São seis as sílabas da palavra que determinou a vida de Yunjae: alexitimia, a incapacidade de identificar e expressar sentimentos. Nascido com esta condição neurológica, Yunjae não sabe o que é medo, tristeza, raiva ou desejo. Yunjae não tem amigos. Foram duas estruturas em forma de amêndoa, localizadas no seu cérebro, que o condicionaram brutalmente, mas a mãe e a avó são o seu porto seguro. No pequeno apartamento onde vivem, por cima da livraria de títulos em segunda mão da mãe, há papéis coloridos, espalhados pelas divisões, lembrando Yunjae de quando sorrir, agradecer ou se preocupar.

Porém, no dia em que faz 16 anos, na véspera de Natal, um ato de violência atroz destrói tudo o que Yunjae conhece, rouba-lhe o chão, deixa-o completamente sozinho. Enquanto luta para ultrapassar a perda, o adolescente isola-se cada vez mais no silêncio - até à chegada de Gon, o novo e problemático aluno da escola com quem vai criar um surpreendente laço de amizade.

Devagar, Yunjae aproxima-se dos outros - incluindo de uma rapariga -, e algo começa a mudar dentro de si. Há muitas coisas que não compreende, mas quando a vida de Gon corre perigo, Yunjae vê diante de si a oportunidade de se tornar a pessoa que nunca, jamais, imaginaria poder ser.

Esta história é, em resumo, sobre um monstro que encontra outro monstro.

Um dos monstros sou eu."

Como falar deste livro? Quando um livro nos arrebata, ficamos sem palavras. Pelo menos, assim acontece comigo.
A par da história do protagonista, uma criança que sofre de um problema neurológico de alexitimia (incapacidade de identificar e expressar emoções), muitos temas são abordados com tal intensidade, que damos connosco a sofrer pelo jovem de 16 anos, desde o momento em que perde a avó e quase perde a mãe, ao momento em que trava amizade com um colega problemático (às mãos do qual sofre bullying). O protagonista, através do qual nos chega a história, quer compreender o que leva um jovem a determinados atos de violência, como os que a avó e a mãe sofreram e que ele presenciou sem conseguir demonstrar qualquer emoção ou reação. Ao mesmo tempo, a delicadeza, a dedicação deste jovem, deixaram-me completamente rendida. Um livro que recomendo sem reservas!

Miyakoshi, Akiko (2019). Regresso a Casa. Lisboa: Orfeu Negro.

Tradução: Nuno Quintas
Início e fim da leitura: 18/01/2025

**SINOPSE**
"Ao fim do dia, o regresso a casa é feito ao colo da mãe. Tudo está quieto, não há ninguém na rua. Os vizinhos já recolheram e o restaurante e a livraria também querem descansar. Mas, por entre o silêncio, escuta-se uma festa e sente-se o cheiro de uma tarte acabada de fazer...

Regresso a Casa é um álbum iluminado pela ternura do fim do dia, da rotina conhecida e da companhia dos pais, a caminhar por ruas familiares, até casa.

As janelas dos vizinhos, iluminadas, deixam entrever vidas e pequenos prazeres. Aos olhos de uma criança (ou aos de um adulto) estas janelas são a entrada para um mundo imaginário sem limites!"
Através de um coelhinho, que regressa a casa ao colo da mãe, damos conta de todos os regressos a casa de que a criança se vai apercebendo, preenchendo esses regressos com a imaginação de conversas, de situações que sucedem a cada regresso a casa, ao fim de um dia. Um dia como tantos outros. Um livro infantil doce e que nos prende num anoitecer de imagens!

Palmer, Alicia (2024). Uma Mulher, Um Voto. Lisboa: Levoir.

Livro
Tradução: João Miguel Lameiras
Nº de páginas: 192
Início da leitura: 10/01/2025
Fim da leitura: 17/01/2025

**SINOPSE**
"Mari Luz, uma jovem da província, chega a Madrid para trabalhar como cigarreira na Real Fábrica de Tabacos. Aí conhece Justi e outras cigarreiras que lhe abrem os olhos e a introduzem na luta pelos seus direitos, incluindo o direito de voto das mulheres.

Uma Mulher, Um Voto descreve o complexo processo político através do qual as mulheres conquistaram este direito em Espanha, em 1931, bem como a personalidade e o papel desempenhado por Clara Campoamor na consciencialização política e a história pessoal de Mari Luz.

Uma Mulher, Um Voto é uma homenagem a todas as mulheres que lutaram pelo sufrágio feminino no início do século XX."
Mais uma vez manifesto o meu desagrado com os erros ortográficos que a Levoir deixa passar nos seus livros, carecendo de uma boa revisão da tradução feita. E é pena, pois este é um livro que vale a pena ler e que, apesar de ser em banda desenhada, está muito completo. Aborda temas históricos e sociais, destacando a luta das mulheres pelo direito ao voto, focando-se especialmente na importância do voto feminino como um marco na conquista da autonomia e participação política das mulheres. Gostei particularmente da história de Mari Luz, uma jovem que vai para Madrid, para trabalhar na Real Fábrica de Tabacos. Rapidamente se interessa por questões relacionadas com os direitos da mulher. A par das questões históricas, temos a vida amorosa de Mari Luz que, após engravidar, decide que não quer casar e assumir a criança sozinha. Recomendo!

Sineiro, Rita; Domènech, Laia (2022). Filas de Sonhos. Barcelona: Akiara Books.

Nº de páginas: 40
Início da leitura: 08/01/2025
Fim da leitura: 08/01/2025

**SINOPSE**
"«O campo para onde nos trouxeram é como uma grande cidade de tendas.
Tudo fica longe, há sempre muita gente pelo meio e nada se faz sem esperar numa longa fila.
O pai não sabe, mas o que eu sonho mesmo, mesmo, é com uma fila que nos leve de volta para casa.»

Um conto sobre a crise dos refugiados vista pelos olhos de um menino fechado num campo de acolhimento.
Inspirado no pequeno Alan, que apareceu afogado numa praia da Turquia.

As ilustrações, em tons pastel, destacam-se pela sua grande beleza e pela contenção cromática e formal.

Um álbum emotivo, profundo e terno, com toques de humor e com um final comovente que nos ajuda a ver a crise dos refugiados a partir de dentro, com empatia."
Este livro infantil é, sem dúvida, uma pequena grande pérola. Com belas ilustrações que engrandecem o texto, conta-nos a história de um pai e de uma criança que foram vítimas, como tantas outras pessoas, dos "senhores da guerra". É um livro que nos fala também de amor, o amor de um pai que, para proteger e salvar o filho, o carrega dentro de uma mala. Conta-nos sobre as dificuldades passadas na longa viagem, como as condições climatéricas adversas, a fome e a sede, que nos indignam, mas também nos enternece ao mencionar as histórias que pai e filho partilham para que a viagem se torne menos dura. A forma como este pai explica ao filho que não os deixam entrar num país e têm de se tornar marinheiros (porque tentarão chegar, por mar, a um porto de abrigo) é de uma ternura inigualável. Conta-nos sobre os campos de refugiados, as suas más condições, o facto de as crianças não poderem frequentar normalmente a escola, sempre acompanhado de uma nova perspetiva com que o pai vai aconchegando os medos do filho para minimizar a dor. Lindo!

Para os apreciadores de livros que nos falam de livros ou cujas aventuras giram em torno dos livros, deixo a sugestão destes livros infantis, que vão, com certeza, fazer as delícias de miúdos e graúdos!


O primeiro, A Menina dos Livros, foi escrito por Oliver Jeffers e é ilustrado por Sam Winston e, de uma forma muito original, celebra a literatura clássica infantil de forma moderna, uma vez que, num mar, num caminho, numa montanha, num túnel, em florestas, castelos assombrados, nuvens e mundo de histórias, como As Viagens de Gulliver, O Conde de Monte Cristo, A Ilha do Tesouro, As Aventuras do Pinóquio, entre muitas outras, há uma menina que flutua no mundo da imaginação que estas histórias lhe despertam, "porque a imaginação é livre".
No segundo livro, o do meio, escrito por Inês Fonseca Santos e ilustrado por André Letria, aprendemos Como Criar uma Biblioteca, desde o primeiro livro que nos encontra até ao vício de colecionar livros, que se pega e fica nas gerações vindouras. 
No último livro, O Secador de Livros, escrito por Carla Maia de Almeida e ilustrado por Sebastião Peixoto, ficamos a conhecer a família Bronca, que partilhava um amor inigualável pelos livros. Cada livro era tantas vezes lido e relido, levado para todo o lado, que acabava por sofrer "muitos acidentes". Precisavam urgentemente de construir um "lavador de livros" e um "secador de livros". Terá resultado?

Pearse, Sarah (2022). O Sanatório. Porto: Porto Editora.

Tradução: Elsa T. S. Vieira
Nº de páginas: 416
Início da leitura:06/01/2025
Fim da leitura: 08/01/2025

**SINOPSE**
"Meio escondido na floresta e rodeado pelos picos ameaçadores das montanhas, Le Sommet sempre foi um lugar sinistro. Desde há muito objeto de rumores preocupantes, o antigo sanatório abandonado é alvo de uma intensa renovação e transformado num hotel de luxo com características singulares, recordações funestas da sua história...
Um hotel sumptuoso e isolado nos Alpes é o último lugar onde a detetive Elin Warner, ainda a recuperar de uma intensa investigação policial, deseja estar. Mas quando recebe um convite inesperado para comemorar o noivado de Isaac, o irmão de quem há muito se afastou, Elin não tem sequer a desculpa do trabalho para não aceitar. Chegou por fim o momento de ajustar contas com o passado e enfrentar memórias dolorosas.
A chegada a Le Sommet coincide com o início de uma tempestade ameaçadora, e Elin sente-se tensa – há algo no hotel que a deixa com os nervos em franja. Quando acorda na manhã seguinte e descobre que Laure, a noiva de Isaac, desapareceu sem deixar rasto, a sua inquietação aumenta ainda mais. Mas não é a única: com a tempestade a impedir todos os acessos ao hotel, os restantes hóspedes começam aos poucos a entrar em pânico.
No entanto, ainda ninguém deu conta de que houve mais desaparecimentos..."
Confesso que este livro ficou aquém das minhas expetativas, até porque o espaço onde a ação decorre, um resort que era um antigo sanatório nos Alpes Suíços, daria "pano para mangas" e considero que não se dá o devido relevo a este espaço. Ainda assim, gostei da história: um ambiente isolado, sobretudo a partir do momento em que, devido a derrocadas provocadas por fortes nevões, não pode ir ninguém ao sanatório, nem sair de lá. Torna-se, assim, um espeço fechado que, combinado com uma inspetora que está de licença por problemas num antigo caso, que se desolocou ao Sanatório para "ajudar o irmão" nos preparativos do seu casamento com Laura e a real razão que a levou até lá: confrontar o irmão com uma tragédia do passado de ambos... tudo se conjuga para mas boas horas de tensão e entretenimento, suspense e tensão. Só pecou mesmo, no meu entender, pelo que referi inicialmente. É enigmático até ao fim e nada do que se revela se deixa entrever ao longo da narrativa.

Kelly, John (2022). Posso Juntar-me ao Clube?. Estoril: Minutos de Leitura.

Tradução: Pedro Costa
Nº de páginas: 32
Início e fim da leitura: 03/01/2025

**SINOPSE**
"O Pato quer juntar-se a um clube, para fazer novos amigos. Mas cada clube em que ele tenta entrar faz muitas exigências e ele não consegue rugir como um leão ou ter a memória de um elefante… resultado? «Candidatura recusada» é o que ele ouve a cada tentativa… O que poderá o pobre pato fazer?"

Quantas vezes as crianças se sentem excluídas de alguns grupos de amigos, que gostariam de integrar? Este é um um livro que, de forma educativa e divertida ao mesmo tempo, passa uma mensagem importante de igualdade, de tolerância, de aceitação. É importante pensar que, se não se é aceite num determinado grupo/clube, é porque esse grupo/clube não nos merece. Uma boa lição para todos. As ilustrações são divertidíssimas, bem como o texto. Recomendo!

Granja, Carlos Nuno (2024). Tralhas e Coisas do Sr. Loisas. Lisboa: Zero a Oito.

Nº de páginas: 32
Início e fim da leitura: 03/01/2025

**SINOPSE**
"Esta é uma história comovente e divertida, contada em lengalenga, sobre o dono de uma loja que vendia de tudo.
Um dia, triste por não ser valorizado, o Sr. Loisas foge e toda a população tenta encontrá-lo.
Um livro ternurento sobre o valor das coisas simples como forma de encontrar a felicidade."

O Sr. Loisas, que vendia de tudo, não se sentia valorizado e, num determinado dia, a sua loja, que tinha de tudo um pouco, não abre. Quando não se tem as coisas, é que se lhes dá valor. A missão empreendida de tentar encontrar o Sr. Loisas não se revela fácil. Terão conseguido encontrá-lo? Um livro que vale a pena ler, divertido e educativo.

Frey, Julien e Dawid (2024). Senhor Apothéoz. Alfragide: Edições ASA.



Tradução: Helena Guimarães
Nº de páginas: 128
Início da leitura: 04/01/2025
Fim da Leitura: 05/01/2025

**SINOPSE**
"Na família Apothéoz, a ambição conduz sempre a uma morte excecional. Convencido de que o seu nome traz má sorte, Théo decide nunca tentar coisa nenhuma. Aos 30 anos, vive de pequenos trabalhos e mora em casa do pai. Ama Camille desde a infância, mas ela não sabe.

Quando Théo conhece Antoine Pépin, um escritor em crise criativa, é o princípio de uma espantosa amizade. Este último não acredita na maldição dos Apothéoz e insiste em ajudá-lo a conquistar Camille...

Julien Frey e Dawid oferecem-nos uma comédia peculiar e divertida, que nos leva a refletir sobre o sucesso, sobre os nossos maiores fracassos e sobre os nossos sonhos de juventude."
Esta novela gráfica, que me foi oferecida pelo meu filho mais novo, no meu aniversário, tem ilustrações muito bem conseguidas, quer na tonalidade, quer nos traços. Em relação à história, a premissa é muito boa: o jovem Apothéoz acredita ser um falhado, a todos os níveis, profissionais e pessoais, acreditando que não poderá conquistar o amor da sua vida, pelo facto de o nome da sua família estar amaldiçoado. O pai, por sua vez, vende a sua casa e, em troca, fica a viver nela pagando uma renda vitalícia até falecer. Acontece que o pai morre inesperadamente, o que deixa o filho denaminado e em vias de ficar sem um teto. Aconselhado por um escritor, toma a decisão de o guardar numa arca frigorífica. 
Gostei muito desta parte, da história com o escritor. Porém, a partir de determinado momento, a narrativa pareceu-me muito rebuscada, macabra e pouco convincente.
Ainda assim, gostei, especialmente da primeira parte!

Cali, Davide (2019). Os Adultos? Nunca!. Lisboa: Orfeu Negro.

Tradução: Rui Lopes

Nº de páginas: 40

Início e fim da leitura: 03/01/2025

**SINOPSE**

"Os adultos são sempre bons. Nunca se atrasam. Nunca fazem ou dizem asneiras. São calmos, arrumados e reciclam sempre. Enfim, verdadeiros exemplos de bom comportamento.

Ou será que não?

A dupla imbatível Davide Cali e Benjamin Chaud volta a surpreender-nos e a virar o mundo às avessas para nos desvendar a mais pura realidade: os adultos são tal e qual as crianças! Um livro insólito e muito divertido para miúdos e graúdos."

Gosto de livros infantis, especialmente se tiverem uma bela mensagem e, ao mesmo tempo, sentido de humor. Este é um deles. De forma divertida e com um grande sentido de humor, autor e ilustrador mostram que não são apenas as crianças que se portam mal e que estas são, na maior parte das vezes, o reflexo do mau comportamento dos adultos. A brincar se transmitem ensinamentos. Um livro excelente para ler em família e refletir.

Deixo a foto de uma página:

 Cali, Davide (2021). O Vendedor de Felicidade. Lisboa: Nuvem de Letras.

Tradução: Maria de Fátima Carmo
Nº de páginas: 32
Início e fim da leitura: 03/01/2025

**SINOPSE**
"A felicidade é o mais importante na vida, por isso, quando o senhor Pombo decide vendê-la em frascos pequenos, grandes e de tamanho familiar, surgem imediatamente compradores interessados.
Uma pena que, quando o vendedor de felicidade vai embora, deixe cair um pequeno jarro. É então que a verdade é revelada…"
Este livro infantil é simplesmente belo! Cada ilustração é um mundo mágico de cor, luz, relevo, pormenor, que exigem que nos detenhamos nelas. O texto não fica atrás. O que se poderia vender neste mundo tão fascinante? A felicidade! É possível vender a felicidade em pequenos ou grandes frascos, à medida do poder de compra e objetivo de cada um? Para descobrir, terá de ler este livro deliciosamente belo! E não seria tão bom poder vender felicidade a quem dela necessita?
Deixo algumas fotos das ilustrações que, ainda assim, não fazem jus à sua beleza e arte, bem melhores ao vivo:


Davis, Viola (2024). Encontrar-me. Lisboa: Cultura Editora.

Tradução: Elga Fontes
Nº de páginas: 256
Início da leitura: 02/01/2025
Fim da leitura: 05/01/2025

**SINOPSE**
"Esta é a minha história, começando num apartamento em ruínas em Central Falls, Rhode Island, até chegar aos palcos de Nova Iorque e mais além. Este é o caminho que percorri para encontrar o meu objetivo, mas também a minha voz num mundo que nem sempre me via.

Enquanto escrevia Encontrar-me, os meus olhos abriram-se para a verdade de como as nossas histórias não costumam ser examinadas de perto. Somos obrigadas a reinventá-las para nos adaptarmos a um mundo louco, competitivo e crítico. Por isso, escrevi este livro para todos os que correm pela vida sem amarras, desesperados por abrir caminho por entre memórias obscuras, tentando alcançar alguma forma de amor próprio. Para quem precisa de ser recordado de que uma vida que vale a pena ser vivida só pode nascer de um ato de honestidade radical e da coragem de nos livrarmos das fachadas e sermos... nós próprios.

Encontrar-me é uma reflexão profunda, uma promessa e uma espécie de carta de amor ao nosso eu. A minha esperança é que a minha história o inspire a iluminar a sua própria vida com expressão criativa e a redescobrir quem era antes de o mundo o rotular."
Mais um livro de caráter autobiográfico, o primeiro livro do meu ano de 2025, oferecido pelo meu filho mais velho, no Natal.
Este é um livro de memórias, de segredos guardados e, acima de tudo, uma tentativa de se reconciliar com o passado, de forma a enfrentar o futuro livre de medos e segredos. O passado dura, caracterizado por violência doméstica, abusos sexuais, rejeição, insegurança, bullying, vergonha e mágoa. Este livro é uma forma de ultrapassar todo este passado tão duro e um grito de esperança, uma mensagem de esperança para todos os que passam pelo mesmo. Aconselho sem reservas e deixo algumas das muitas passagens que me prenderam à história de Viola Davis:

"A minha maior descoberta foi que podemos, sem a menor dúvida, reescrever a nossa vida. Podemos redefini-la. Não temos de viver no passado. Descobri que não tinha apenas o ímpeto da luta em mim, mas que também tinha amor." (pág.1)
"Não há páginas suficientes para mencionar as discussões, o ser contantemente acordada a meio da noite ou o chegar a casa depois da escola com os ataques de fúria do meu pai e rezar para que ele não perdesse o controlo a ponto de matar a minha mãe." (pág. 79)
"A invisibilidade da dupla condição de negro e pobre é brutal. Se a isso juntarmos a fome constante, a porcaria da situação torna-se inflamável." (pág. 88)

Jaouad, Suleika (2021). Entre Dois Reinos. Alfragide: Lua de Papel.

Tradução: J.C. Silva
Nº de páginas: 416
Início da leitura: 22/12/2024
Fim da leitura: 26/12/2024

**SINOPSE**
"Naquele ano, o mundo parecia sorrir a Suleika. Tinha acabado o curso e ia começar uma nova vida em Paris, ao lado de Will, por quem se tinha apaixonado perdidamente. Podia ser um conto de fadas, não fosse aquela comichão que crescia de dia para dia, o cansaço, a falta de força. No meio do sonho em construção, e aos 23 anos, chegou o diagnóstico: leucemia.

Suleika regressou aos EUA sem emprego, casa ou liberdade. E começou a sua longa caminhada contra um monstro invisível: passaria os anos seguintes no hospital, fechada entre quatro paredes, e começou a relatar o seu dia a dia num diário publicado pelo New York Times. A coluna, que lhe valeu um Emmy, tornou-se viral. Recebeu cartas e e-mails de milhares de pessoas que se reviam nela ou admiravam a sua infinita resiliência.

Quando a deram como curada, Suleika tentou voltar ao reino que abandonara, mas descobriu que era agora outra pessoa. À procura de si e de uma casa que fosse sua, fez-se à estrada, acompanhada pelo seu rafeiro, chamado Oscar. Percorreu os EUA, conheceu as pessoas com quem se correspondera: desde uma adolescente com cancro a um prisioneiro no corredor da morte.

Entre Dois Reinos é essa viagem real e metafórica pela memória de uma mulher que se reconcilia com o seu novo corpo, a sua nova alma, a sua nova vida. E nessa paisagem íntima, revelada em páginas tão belas que julgaríamos pertencer a um romance, Suleika mostra-nos o que é procurar (e encontrar) o caminho para casa."
Qualquer livro que aborde a temática do cancro e dos que padecem por causa dele, é um livro que incomoda, que magoa, que nos transporta a todos os que perdemos para essa maldita doença. Este não é exceção. O cancro é algo que interrompe a vida do doente. Suleika tinha apenas 23 anos e uma vida pela frente, cheia de projetos, como qualquer jovem da sua idade, quando uma leucemia lhe veio alterar os planos. A forma como nos descreve tudo o que se passa cá fora, enquanto ela está enclausurada num quarto de hospital, é duro, é desumano. É o blogue que cria para falar de si e da sua doença, que se torna viral e cativa muitos seguidores, ansiosos por ler as suas publicações e é, sem dúvida, uma forma de se sentir menos só.
A autora, neste seu romance autobiográfico, vai tentando encontrar razões para viver, de acordo com as suas novas limitações. Vê-se forçada a adaptar-se às mudanças que o cancro trouxe ao seu organismo, e, ainda assim, celebrando o prazer de estar viva. 
Após a leucemia, percorre os EUA na sua "pão de forma amarela", acompanhada pelo seu fiel companheiro, tendo sido, nesse momento, que escreveu este livro, baseado, em grande parte, nos diários que foi escrevendo e que a acompanharm em todos os momentos da sua vida. Durante a viagem, muitas foram as pessoas que conheceu, que lhe escreveram, que a marcaram e que ficarão para sempre na sua mente. Recomendo mas alerto para os mais suscetíveis de sofrer com histórias reais, como é o meu caso.

Reis, Patrícia (2007). Morder-te o Coração. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 156
Início da leitura: 21/12/2024
Fim da leitura: 21/12/2024

**SINOPSE**

"Um livro sobre a vida. A das personagens e a nossa.

Encontros e desencontros por causa do amor: um homem e uma mulher no Pico; a fuga dela, a busca dele, a vida em Estocolmo, a infância, as memórias africanas da amante dos dois, o desespero dele e a tentativa de suicídio dela."

Este pequeno romance fala-nos de amor e de tudo o que este implica, da separação que, em vez de conduzir a um esquecimento, por vezes, tem o efeito inverso, tornando-se numa obsessão. 
O mais curioso deste livro é a narrativa intercalada entre dois narradores, ele e ela, que nos vão contando a história, segundo o seu ponto de vista, mas, isso acontece de tal maneira, que nos parecem fundidos numa só voz, fazendo-nos retroceder para ver em que momento mudamos de narrador. 
Realmente, cada um tem as suas vivências e essas vivências condicionam os meandros do próprio coração. Mas, quando se "morde o coração", fica uma marca para sempre, e, ainda que se possa atenuar, não cicatriza. Aconselho!

Vidal, Víctor (2024). Não Há Pássaros Aqui. Lisboa: Leya. 


Nº de páginas: 248

Início da leitura: 18/12/2024

Fim da leitura: 21/12/2024


**SINOPSE**

"Ana recebe um telefonema de uma vizinha da mãe informando que Andrea desapareceu na sequência de uma série de escândalos no bairro, entre os quais o suposto sequestro de uma criança. Apesar de ter jurado a si mesma que não voltaria à casa da mulher que lhe infligiu todo o tipo de violência, Ana não consegue ficar indiferente à situação; e o que encontra no apartamento é bastante intrigante: lixo por toda a parte, pegadas de lama, móveis destruídos, garrafas vazias amontoadas no caixote.

Enquanto se interroga sobre o que terá sido a vida de Andrea desde o dramático acontecimento que marcou as duas para sempre, Ana empreende uma dolorosa viagem às memórias da infância, que incluem não só uma mãe desequilibrada e alcoólica que tem um relacionamento conturbado com um homem perigoso, mas também um rapaz frágil que a faz cúmplice dos seus traumas e, por via das afinidades, se torna o seu único amigo. E, apesar de não se verem há muitos anos e de Ana o ter desiludido, é justamente a este amigo que resolve agora pedir ajuda.

Com personagens inesquecíveis e desconcertantes, Não Há Pássaros Aqui é uma reflexão madura sobre o modo como aquilo que vivemos na infância determina a nossa vida adulta e como tendemos a reproduzir comportamentos a que assistimos, mesmo quando friamente os condenamos.

Num tempo em que a saúde mental é um problema à escala global, este é um romance de estreia profundamente atual que venceu o Prémio LeYa em 2023."
Prémio Leya 2023, Vítor Vidal, escritos brasileiro, escreve, sem dúvida muito bem. Neste livro, vai intercalando momentos presentes e momentos passados, de forma a prender o leitor à narrativa.
A história tem como protagonista uma mulher de 30 anos que começa por receber um telefonema a informar sobre o desaparecimento da sua mãe, que não via há vários anos. Regressa, então, à casa de infância para tentar descobrir o que acontecera à mãe. Mas, ao entrar em casa, um mar de memórias envolve-a e, inevitavelmente, temos analepses que nos permitem entender como foi esta relação com a mãe e o que levou ao seu afastamento. Por outro lado, no presente, queremos perceber como desapareceu a mãe, se houve crime ou suicídio. Convido-vos pois a mergulharem neste livro, que apreciei bastante.

Martínez, Layla (2024). Caruncho. Lisboa: Antígona, 2.ªedição.

Tradução: Guilherme Pires
Nº de páginas: 128
Início da leitura: 12/12/2024
Fim da leitura: 19/12/2024

**SINOPSE**
"Caruncho (2021) narra o regresso de uma neta, acusada de um crime, à casa rural da família e mergulha o leitor no coração de uma Espanha vazia, marcada por resquícios do franquismo, uma terra tão agreste e estéril como o destino a que condena as mulheres que nela vivem.

Contada a duas vozes, pela jovem e pela avó, esta história de rancor e vingança é indissociável da memória do lar assombrado, de espectros que clamam justiça, entre quatro paredes sobre as quais pesam traumas herdados e décadas de violência e opressão.

Um aclamado romance de estreia, com ecos de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e de alguns contos de Silvina Ocampo, em que se entrelaçam terror, injustiça social e uma pesada herança familiar que, como o caruncho, corrói as protagonistas."
Este é um livro bastante invulgar e fora da caixa. Apesar de muito breve, requer bastante concentração na leitura, para não se perder o fio à meada. A casa é o cerne da narrativa, o eixo em torno da qual se desenrola a história e as personagens adquirem destaque. É uma casa que absorve, na qual ficam gravadas, para sempre, as personagens e as suas vivências. É uma casa que guarda os seus espectros nos armários e que, aos poucos, nos vai abrindo a porta para que entremos e fiquemos também nós, leitores, a fazer parte da sua história. Somos literalmente sugados para a casa, o seu misticismo, os seus fantasmas, que estão bem vivos e presentes ao longo de toda a narrativa e que nos deixam sem ar. Tudo parte da relação de uma avó e uma neta, que transcende a própria morte e a história vai sendo narrada, alternadamente, pelas duas. E, nesta casa assombrada e assombrosa, que faz despertar memórias, narra-se a história destas protagonistas femininas, uma história de ressentimento e vingança, que não podem deixar de ler. Primeiro estranha, depois entranha.

Sousa, Mário Lúcio (2024). O Livro Que Me Escreveu. Alfragide: Publicações Dom Quixote. 

Nº de páginas: 184
Início da leitura: 14/12/2024
Fim da leitura: 15/12/2024

**SINOPSE**
"Diagnosticado com uma doença cardíaca grave, um jovem decide escrever o Livro da sua vida - e escrevê-lo literalmente com o coração. Sempre ao lado da mulher, leva trinta anos para completar a empreitada, passando fome e privações e vivendo a crédito, esperando pagar as dívidas quando o Livro for publicado.

Assim que o termina, manda as folhas dactilografadas ao seu editor, mas este nunca as recebe. O desespero leva o casal e os amigos e vizinhos a uma busca desesperada em todas as estações de Correios do mundo, até que o editor dá a entender que finalmente recebeu o livro. Só que não era o Livro… Então, começam a chover livros assinados com o nome do escritor, e o povo começa a ler desenfreadamente, tornando a leitura um fenómeno à escala global.

O Livro que Me Escreveu é uma novela genial, um elogio maravilhoso à solidariedade e à leitura, essenciais na formação do ser humano. «O Livro tem magia e vida dentro, é um passeio pelo melhor que somos, um derrame de imaginação e de amor pela leitura, os leitores, os escritores, teu povo e toda nossa gente. Tem momentos de grande beleza poética, e mais, tem uma poética sustentada que não se perde nem quando acelera, às vezes com força demasiada. Gosto das imagens, tantas, por exemplo, que o mundo é uma biblioteca, que os livros podem ser deixados junto a jarras de água nas janelas das casas, e que o som da palavra cria caramelos na boca. É uma novela estupenda, para ser repartida pelo mundo.»
Fragmentos de uma carta de Pilar del Río ao autor."
Esta é uma novela fantástica de homenagem aos livros e aos leitores, que todos deveriam ler. 
O protagonista leva 30 anos a escrever um livro, que lhe permitiria pagar as dívidas acumuladas. Quando finalmente dá o Livro por concluído, que ele compara ao nascimento de um filho, envia-o a uma editora. Acontece que a resposta tarda em chegar e, quando chega, fica a saber que o Livro nunca chegou. Dá-se, então, uma procura em todos os postos de correios do Mundo, pelo Livro desaparecido. Mas, certo dia, o editor contacta-o com a feliz notícia: finalmente, chegara o tão aguardado livro a esta terra de gente que não lia. Mas seria este o livro escrito pelo protagonista?
Aconselho muito a sua leitura!

"E sobreveio-lhes a mágica de quando se lê: toda a gente se juntou no recato, as pessoas, as ruas, as aldeias, os caminhos, os mares e as terras, todos pararam de quietude naquele lugar perdido, e tão elevada se tornou a vida que o barulho e o incómodo foram decretados violações ao Código de Posturas Municipais...E assim, na tranquilidade de espírito do lar e do ler, o povo, ora contando, ora ouvindo, devorou com avidez de faminto o seu exemplar e passou-o acto seguinte ao vizinho que não conseguiu adquirir o livro." 

Jesus, Miguel (2020). Lugar para Dois. Alfragide: Casa das Letras.

Nº de páginas: 240
Início da leitura: 09/12/2024
Fim da leitura: 09/12/2024

**SINOPSE**
"Depois do sucesso da inauguração do Metropolitano de Lisboa, Daniel Stoffel, responsável financeiro do projeto, parece poder escolher o futuro que quiser. Porém, a morte da filha num acidente estúpido enche-o de uma culpa que de não se consegue libertar.

Desfeito o casamento, começa a afundar-se na bebida, até que um amigo lhe sugere que deixe Portugal, onde tudo aconteceu, e tente recomeçar a vida noutro lugar. Instala-se, então, num lugar recôndito de Moçambique, onde uma velha negra o ajuda nas tarefas domésticas e lhe leva jornais que o põem a par dos movimentos independentistas das Colónias e das mudanças por que a Metrópole vai passando.

Apesar da vontade de ficar sozinho, o frondoso embondeiro que o protege da curiosidade alheia tem uma frase riscada no tronco que parece traçar-lhe um destino diferente, insistindo na paternidade que lhe estava destinada. E, por mais que Daniel a renegue, é nesse caminho que poderá encontrar o próprio perdão.

Belo, duro, mágico e ternurento - com uma banda sonora exclusiva e um toque africano no colorido das palavras e das paisagens -, Lugar para Dois é um romance excecional sobre a culpa, o amor e aquilo que ainda tem para dar quem julga que, afinal, já perdeu tudo."
Que livro! Ainda não o tinha lido, pensando que pudesse ser um pouco "lamechas". Não! Neste livro, temos o poder da palavra escrita e ouvida, porque o acompanham canções originais do escritor, que também canta, e que resultam, a cada momento narrativo, de uma forma ímpar. A história, que começa em Lisboa com o protagonista Daniel a ter de fugir de Portugal, optando por se refugiar num local remoto de Moçambique - o "Lugar para Dois" -  é muito mais do que uma história de amor. É uma fuga aos sentimentos, é uma história de quem se dá e cria afetos sem os demonstrar, sem se pronunciar. É uma história de superação, de busca da paz interior, que todos almejamos. 
Esta história é-nos contada, a partir do aparecimento de um gato, que veio a chamar-se 31 de fevereiro e é-nos contada pelo próprio gato. A linguagem flui e traz-nos Moçambique aos olhos (muito ao jeito de Mia Couto) Impossível largar depois de começar. É viciante. Recomendo muito!

"Daniel fitou-a, com lágrimas nos olhos, as primeiras que lhe vi.
- Tinhas de vir para eu poder ir... - Nora escondeu o rosto nas mãos cansadas do velho, ouvindo-lhe as palavras soluçadas." (pág. 204)
"Há restos de uma história, pores do sol feitos de paz/ sabor de sal nos sonhos que um dia eu deixei para trás" (pág. 235)
"Escolhi um mundo sem ninho/corda bamba por caminho/Nunca tive um lugar para dois" (pág. 238)

Perrin, Valérie (2024). Querida Tia. Queluz de Baixo: Editorial Presença.

Tradução: Maria Ferro e Maria de Fátima Carmo
N.º de páginas: 512
Início da leitura: 01/12/2024
Fim da leitura: 08/12/2024

**SINOPSE**
"Colette era uma mulher sem história, mas não há pessoas sem história… Agnès recebe um telefonema e julga que se enganaram: a polícia diz-lhe que Colette, a sua querida tia, acaba de morrer. Mas como é possível, se o funeral aconteceu há três anos? Será um engano, certamente, mas ela terá de regressar a Borgonha, lugar que há tanto tempo deixou para trás, para perceber o que realmente aconteceu.

Aquela mulher, que Agnès não sabe se é ou não a sua tia, deixou um conjunto de coisas ao seu cuidado: notas com os últimos desejos e um conjunto de cassetes áudio. A sobrinha de Colette sempre vira a tia como uma mulher sem história, alguém que passara pela vida sem deixar marcas, mas, agora, prepara-se para compreender o que nunca devemos esquecer: na verdade, não há pessoas sem história, e a de Colette tem tanto, tanto para contar.

Podem as palavras, escritas ou ditas, ter o poder de mudar o nosso presente e, mais, dar-nos outro passado?
Juntando o destino e as vidas de várias mulheres, de forma tocante e surpreendente, Valérie Perrin regressa com um romance que reflete o mais humano e profundo de todos nós."
É um encanto a forma como Perrin escreve, o sentimento que transmite, a elegância linguística, o corpo que dá à narrativa e às personagens, as reviravoltas inesperadas da história. Apesar de ter gostado mais de A Breve Vida das Flores, este também não desilude. Não digo muito mais sobre ele, uma vez que a sinopse é bastante completa. Apenas refiro que adorei e que a força destas histórias acompanhar-me-ão por muito tempo. 

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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