Histórias Soltas Presas Dentro de Mim


A solidão envolve-nos nos braços,
mas não aquece a nossa alma.
Os seus dedos frios
traçam percursos de escuridão
numa pele cansada de existir;
estrangulam-nos a garganta
até suplicarmos por uma réstia de ar.
O seu bafo gélido
arrefece o amor,
congelado no tempo.
Impulsiona a saudade
a brilhar em plumas de fulgor,
até estontear o que resta de nós.
                                 Célia Gil
Resultado de imagem para naufrágio barco de papel
(imagem do google)

Não sei se o que sou persistirá
para além dos tempos na memória.
Ou se o meu barco naufragará,
abandonando simplesmente a história.

Não quero ser carvão que se apaga,
não quero ser a cinza que se desvanece,
não quero ser barco que naufraga
ou protagonizar um livro que se esquece.

Quero deixar marcados a tinta permanente
os sentimentos que o meu peito abraça.
Ficar, de alguma forma, para sempre
nos sonhos que a minha escrita traça.
                                              Célia Gil




(imagem do google)

Fantasmas existenciais perpassam-me
pelos olhos cansados de doer.
Fantasmas que vêm, vão, passam,
invadindo o meu anoitecer.

Fecho os olhos e ignoro a realidade.
Mas ela, dura e cruel, não me abandona.
Neste viver de insanidade,
ela é a minha padroeira, a minha dona.

quero adormecer todo o meu cansaço
e acordar numa outra dimensão.
Quero ignorar os fantasmas que abraço
para reaprender a viver na ilusão.
                                             Célia Gil

(imagem do google)

Não sei em que becos te escondes,
que não te encontro quando de ti preciso.
Não te ouço se me respondes
e procuro desesperadamente o teu abrigo.
Ah, pudesse eu repousar no teu ombro amigo!
Mas a minha vida é um verdadeiro vendaval,
fustigada pelos ventos da contrariedade
que desconhecem a minha vontade,
apenas forças enfraquecidas pelo temporal.
Ah, pudesse eu ficar a sós contigo!
Mas nem tudo segue o rumo certo,
nem todos os fins são os idealizados.
A minha história tem um final aberto
onde não se escrevem rumos sonhados.

Procuro-te na penumbra do meu leito,
mas a mente, veloz contra a maré,
vem apenas questionar a minha fé,
retalhando-me o sonho desfeito.

Luto contra os vendavais interiores,
monstros criados pelo meu medo,
sempre a sós, como que em segredo,
sem conseguir vencer os meus temores.

Ah, pudesse eu encontrar-te, Paz,
e em ti repousar o meu cansaço!
                                          Célia Gil





                            
Este ano


Quero um barco no mar
para com ele navegar
ao interior das minhas ilusões
entre sonhos e divagações.

Quero perder-me nesse mar sem fim
para me reencontrar em mim,
acreditar que a salvação
cabe na palma da minha mão.

Quero uma tempestade de amor
com uma pitada de paz interior.
Amor paixão, amor fraternal, amor amizade,
amor compreensão, amor saudade.

Quero semear um campo de boas ações,
nem que seja apenas nas minhas ilusões,
transformar campos de ervas daninhas
em futuros cidadãos
para que cresçam mentalmente sãos.

E o pouco que quero é tanto
que ergo ao céu o meu canto
suplicando que tudo o que o meu eu pretende
seja partilhado por toda a gente.
                                              Célia Gil


(imagem do google)

           Este ano estamos a viver um Natal diferente. Sem subsídio de Natal, olhamos para os presentes que gostaríamos de comprar com alguma angústia, pois não há poder de compra. Sem poder de compra, os comerciantes veem os produtos por vender e por aí adiante. A crise é este ciclo vicioso que tem o poder de tirar o encantamento a este momento que fez sempre parte dos nossos sonhos de infância.
Sinto então necessidade de procurar a chave do Natal em casa das minhas avós, em Silvares. São seis da tarde. Vejo-me ainda menina em casa da minha avó materna, a comer filhoses acabadas de fritar. São quentes e gosto delas quase em massa. Daqui a pouco, começa a preparar-se o jantar. Eu estou feliz. Pedi ao Pai Natal livros de banda desenhada da Disney. Com certeza, trar-me-á dois ou três e isso é fantástico. Após o jantar, ouvimos um som no sótão. Corro à varanda e ainda vejo na minha ingénua imaginação, o Pai Natal sair no seu trenó. Corro às escadas do sótão e lá estão dois livros, do Patinhas e do Pateta. Fico felicíssima e sinto vontade de os começar logo a ler. Mas é hora de ir para casa da minha avó paterna.
Em casa da minha avó, estão os meus tios e primos. A mesa está posta para a ceia com tudo de bom, a minha avó foi sempre uma excelente cozinheira. Brinco com os meus primos até à hora de o Pai Natal chegar aqui, depois de percorrer as restantes casas da aldeia. Os meus tios, pais e avó conversam alegremente e há amor e alegria no ar. Cheira a sonhos de uma família feliz.
Chamam-nos para a mesa. Comemos por lambarice e não já por fome, mas o convívio é bom e os doces convidam-nos o apetite. O tio e o pai contam histórias do seu dia-a-dia e é tão bom sentir esta paz familiar que nos acalenta a alma e nos dá força para mais um ano de trabalho. Estes os momentos que valem a pena.
Colocámos os sapatinhos na salinha de estar e nós, crianças, nem nos apercebemos que as mães saíram da sala onde nos encontramos a cear. Não nos apercebemos também que o meu pai já ali não está. Ouvimos uma gargalhada. O Pai Natal acabara de sair. Ainda o vemos. É então que o meu primo mais novo diz “O Pai Natal tem os sapatos iguais aos do tio Fernando!” Rimo-nos todos ante esta astúcia de 2/3 anos. Mas depressa esquecemos o incidente e corremos para a salinha, onde cada sapatinho tem um ou dois presentes, não mais. E lá estão mais dois livros de banda desenhada. Sinto-me a menina mais sortuda do mundo.
Por isso mesmo, entristece-me ver as crianças reagirem sem qualquer entusiasmo perante uma série de presentes de Natal. A crise domina-nos a todos os níveis. Não apenas a nível económico, parece que até o valor dado às coisas está em crise.
Por isso, Pai Natal da minha memória, traz-nos o entusiasmo, a força de vontade e a alegria que o tempo ousou roubar! Faz-nos recuperar a essência do Natal!
                                                                                                   Célia Gil



                                 (imagem do google)

           

11 de Setembro, de 2000

Há quanto tempo tenho adiado estas conversas inevitáveis e que fazem transbordar da minha alma todo o anseio, a saudade, a deceção?!...


Pai, agora, na solidão que me envolve, tu, meu querido, ouvir-me-ás, onde quer que estejas, para além da tua ausência, onde possivelmente ainda velas por mim.


Não fui certamente a filha ideal, a mulher ideal, porque o ideal, talvez não o saibas ou não o queiras saber, é uma perfeição suprema, fruto de uma imaginação, para a qual se canalizam todas as frustrações pessoais. Não há perfeições supremas. Há virtudes e há erros, tal como há sol e seca, chuva e dilúvio. E, se em mim houve tantas vezes sol, outras tantas houve uma estiagem tão estéril que me deixou inativa e perdida. E, se em mim, tantas vezes, os ideais meus ou teus foram regados e fortalecidos pela chuva da vontade, outras tantas se tornaram temporais avassaladores, capazes de arrasar qualquer sonho.


Hoje, nesta pequena quinta do interior, olho tantas e repetidas vezes esta paisagem que foi nossa, que me esmago na solidão do meu ser cansado, para me reencontrar naquilo que fui, naquilo que tive e que faz parte de um passado que transporto até hoje e para sempre.


O dia termina. Estou cansada da noite. O meu desabafo embala-me e o sono espreita pelas janelas deste humilde quarto em que me encontro a conversar contigo.


(excerto inicial)
                                                               Célia Gil
           

                 Hoje transpus-me para casa da minha madrinha, em África. A chave da memória não me permite ver o exterior, só o interior. Abro lentamente e vejo, à minha esquerda, a porta da cozinha aberta. Vejo-me a abrir o frigorífico para tirar um pouco de coco. Está fresco e sabe-me bem. Tenho um ar feliz. Vejo ainda chegar uma criada negra, muito bonita, mas não são as feições do seu rosto que vejo, são as unhas numas belas mãos esguias, unhas longas bonitas e pintadas. Eu e os meus primos escolhemos, cada qual, a sua unha e ela é tão nossa, tão meiga, que ter uma unha sua é um privilégio que nos enche a alma pequenina.
                Subo as escadas a correr e entro no quarto dos meus primos. Eles lêem banda desenhada e eu observo-os. Sempre me deu prazer observar as pessoas, estudar os sentimentos que transmitem em cada gesto, em cada relance de olhar, em cada palavra. Estou feliz! Tenho uns primos inteligentes! Eu sei que terão sucesso no futuro, porque o brilho dos seus olhos mo confessa, porque têm interesses, uma infância preenchida e uns pais que os adoram e farão tudo por eles. Sou, muitas vezes, a prima chata, mais nova, que têm de suportar por umas escassas horas. Mas sou feliz porque os tenho para os chatear, para os questionar ou apenas…para os observar.
                Fecho a porta e regresso, ultrapassando o espaço onde estou para estar com eles. O meu pensamento pousa-lhes uma mão no ombro para lhes dizer que tenho saudades destes tempos de infância, em que a nossa felicidade estava em coisas tão pequenas como na escolha das unhas de uma negra bonita. É incrível como pequenos pormenores nos marcam para sempre.
                                                                                                                            Célia Gil


A família é tudo o que nos prende à vontade de viver. É o nosso objetivo. O cerne de todos os nossos pensamentos. É preciso mantê-la unida. Lembrarmo-nos de quem nos é querido em todos os momentos. Em momentos em que a sociedade, os ditos "amigos" e os colegas tendem a julgar-nos sem se preocuparem com o que verdadeiramente somos ou sentimos, é a família que está sempre "ali" para nos apoiar. É ela que ama incondicionalmente. É ela que não aponta o dedo em riste, mas sugere o melhor caminho, sem condenar. É ela que não age por interesse, mas partilha o que de melhor lhe vai no coração. É ela que não nos deixa cair, nos dá sempre a mão. E mal de quem não pense assim da sua família, é porque não a considera tão "sua" quanto devia, não a preserva, não a merece.

E, por falar em família, aproveito para dar um grande beijo ao meu marido, que me conhece como ninguém, que me valoriza e se preocupa comigo. Abraço os meus filhos que me dão todas as razões para me orgulhar deles e um amor incondicional que é o melhor do mundo.

No próximo sábado, o meu filhote mais velho, de 16 anos, lançará o seu segundo livro, desta feita um romance policial envolvente, fluído, com um enredo dinâmico e que se lê num ápice. Não digo isto por ser meu filho, mas porque este é realmente o género literário para o qual ele está vocacionado. Desejo-lhe muito sucesso, todo o sucesso do mundo. Todo o sucesso que uma mãe pode desejar a um filho.


Bom fim de semana a todos!



                         (imagem do google)

Nas brumas da memória
dançam esqueletos de histórias antigas.
Cruzam-se fisionomias indistintas
traçadas a carvão em recordações de ardósia.
Ouço o seu canto,
longínquo canto perdido nas recordações,
vagueando sem ilusões
a ecoar no meu pranto.
                                               Célia Gil





(imagem do google)

Posso fechar os olhos,
perder-me,
adormecer,
esquecer-me quem sou,
que vou reconhecer-te sempre.
O teu cheiro,
os teus dedos na minha face,
a tua pele na minha,
a tua voz sussurrante
no meu ouvido,
o teu carinho…

Posso estar a entrar
no meu último sono,
que ainda abrirei
uma última vez os olhos
só para te ver,
te absorver
e te levar comigo.

E quando me cerrares as pálpebras,
beija-as mais uma vez,
para sentir o calor dos teus lábios,
na minha fria tez.
Não me dês agora a nossa flor,
vou de tudo despojada,
mas não vou desamparada,
que levo o teu amor.
                              Célia Gil


(imagem do google)

Quieta, no meu lugar comum,
sinto-me invadir por ti,
nos espaços mais recônditos da minha alma,
sem que te espere,
sem que te anseie,
sem que te deseje.
Penetras os meus espaços sagrados,
rasgas ideias pré-concebidas,
vens destruir a autoconfiança,
deitar as tuas sementes do medo,
da angústia, do desassossego.
Espezinhas ínfimas partículas de felicidade,
expremes-me a alma até rolar
em grossas gotículas de lágrimas,
edificas em meu redor paredes de insegurança.

E o que resta de mim?
Um ser a tentar ser sem o perceber.
Uma sombra a tentar ganhar consistência.
Uma miragem de um sonho que não se concretizou.
Partícula de um passado que acabou.
                                                            Célia Gil


(imagem de cá)

Na minha alma impera o outono,
há sentimentos contraditórios
que se difundem no meu peito,
sentimentos puros, simplesmente ilusórios
aos quais me submeto, me sujeito.
Impregna-me o perfume da instabilidade,
a beleza dos campos de cogumelos semeados,
medronhos vermelhos dão cor ao castanho
das folhas secas caídas de ramos cansados.
Cheira a humidade, a caruncho, a terra...
É a natureza, aos poucos,  a apodrecer,
a reagir ao frio estonteante que a aterra.
E a nossa alma também hiberna,
também precisa morrer para renascer,
também ela apodrece, se prostra na caserna
à espera de um novo amanhecer.
Faltam ideias, vontade, iniciativa,
sobeja a preguiça, a ronha, a rotina,
é a mente cansada que já não se sente viva
que precisa de mudar a sua sina.
É preciso acordar a vida que adormece
nesta cama de folhas outonais,
tornar em novo dia a noite que escurece
recuperar todas as forças vitais.
                                                    Célia Gil




Hoje venho apenas apresenta-vos um fenómeno interessante que foi captado por cima da minha casa.
(imagem de cá)

Uma nuvem estranha pairava no céu. 
Por um lado, parece um coração, provavelmente porque em minha casa reina o amor. 
Por outro, parece estarmos a ser invadidos ou alvo de estudo por extraterrestres que se deslocaram aqui através desta nave espacial. 
O céu é um enigma e é incrível a forma como as nuvens se apresentam!
                                                                                                                      Célia Gil

(imagem do google)

No fulgor dos dias citadinos
agitam-se passos apressados
e os dias correm
sem destino, desesperados.
Multiplicam-se imagens passageiras
que são logo substituídas por outras,
todas efémeras, derradeiras
imagens sem vida, ocas.
Vagueiam sentimentos nulos de sentido,
sentimentos sem coração.
Cada ser é um ego perdido
na imensidão de uma vida sem razão.
Soltam-se notas e acordes musicais
que perdem rumo nas ondas auditivas,
ecos de quem não ouve mais
e se desvia, em manifestações fingidas.
Cidade nua de memórias,
onde se perde a identidade,
onde não se cultivam histórias...
Onde está a minha verdadeira cidade?
Quero andar sem pressa,
sentir cada cheiro,
analisar cada gesto
e sentir-me em casa.
Quero dizer bom dia, olá, até amanhã,
respirar a minha cidade,
sentir-me em paz
viver sem ansiedade,
ter a minha interioridade.
                                   Célia Gil
Hoje venho apresentar-vos o nosso mais recente membro da família, o Becas. Tem quatro meses e que sobreviveu porque foi criado à mão, alimentado com uma seringa.
É muito meigo, já diz olá e deixa fazer miminhos a toda a gente. Tem umas asas espetaculares.
Adora beijinhos e o meu marido não perde a ocasião.

O Dragão, nosso cão mais velho, não estranhou o Becas, pois já tínhamos tido outro papagaio.
É um shitsu, meia-leca, que se considera o maior e gosta de se atirar aos cães maiores.

Já de outra forma reagiu o nosso cão mais novo, o Hulk, de onze meses, que tem imensa curiosidade em relação ao Becas. Passa o tempo a olhar para ele e a seguir os seus movimentos.

                                                                                                      Célia Gil









(imagem do google)

Nas mãos temos a paz e a guerra.
Com elas damos, entregamos, compartilhamos.
Com elas tiramos, acusamos, recusamos.
Nas mãos temos a fé e a derrota.
Com elas acreditamos, fazemos justiça, lutamos.
Com elas esmorecemos, desistimos, enlouquecemos.
Nas mãos temos o amor e o ódio.
Com elas acarinhamos, amamos e nos damos.
Com elas nos vingamos, invejamos, ultrajamos.
Nas mãos temos de tudo um pouco,
E de tudo o que temos não temos nada.
São de Deus quando as estendemos na bondade,
São do demónio quando as fechamos à humanidade.
                                                                        Célia Gil

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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