Histórias Soltas Presas Dentro de Mim




Sentia-se exausto. Mais uma vez, naquela postura cansada, sentado num banco, com o tronco a abalar-se nos joelhos, vergado pelo sentimento de derrota, pela frustração de quem falha na educação da filha, sabendo-se sozinho, sozinho há demasiados dias a fio, sentiu-se dominado por uma tempestade de lágrimas que o deixou encharcado, por um tufão de suspiros que lhe sorveu as poucas energias que lhe restavam, numa vida que deixara de ter chão e céu.
Pai e mãe, sem ninguém que lhe dissesse o caminho mais certo, as palavras ideais (se as há), aquelas palavras que aquecem, que mudam o rumo dos acontecimentos e criam uma bolha de ar em volta de qualquer tufão de emoções e onde apenas fica o que conforta, o que abraça, Júlio sentiu-se à beira do abismo, dele separado apenas pela sensação de dever, dele separado apenas por uma ínfima sensação de dependência (se é que esta existia para além do que é o estritamente material).
Porventura, fora muito duro, exigindo que fosse sempre boa estudante, que lutasse pelo seu futuro, que fizesse por si.
À procura dos seus erros, na memória dos últimos acontecimentos, Júlio só conseguia ouvir as palavras da filha a ferirem-lhe os ouvidos, deixando um rasto de dor em direção ao coração. “Eu faço o que quero. Quem és tu para me impores isto ou aquilo? Para me dares conselhos? Não vales nada. Não quero saber do que dizes. Não és pai, não és nada. Para ti, sou um empecilho. Eu é que sei da minha vida. Eu é que decido. E, se possível, o contrário daquilo que me dizes, que nada vale.” E tantas outras palavras que os ouvidos de um pai varrem da memória. Isto, entre gritos insolentes, palavras que ferem menos do que o olhar que as acompanha, um olhar de desprezo roçando o nojo, mais que uma chapada, um escarro na cara.
Nessas alturas, cai por terra tudo o que foi, os sacrifícios, o amor incondicional que sempre deu à filha, o quanto trabalhou para que nada lhe faltasse, as horas a passar a sua roupa, a limpar,  sem lhe pedir nada, para que ela não perdesse tempo e estudasse pelo seu futuro. Só nunca tivera consciência de que nesse futuro, ela não o incluía.
Afastados, meses sem se falarem, numa troca de olhares circunstanciais sem sentimento…
Sentado naquele banco, sozinho, agora abraçado aos joelhos, encharcava-se na sua tempestade de emoções. Sentia-se tão inútil, tão vazio… Errara na educação, errara na vida…Errara!

                                                                                                                   Célia Gil

Percorro um rasgo de luz
que embate no meu olhar.
A cada momento,
a cada novo olhar,
tudo se nos oferece,
tudo se nos revela.
À distância
de um olhar atento.
Alento que ilumina o dia,
lhe dá cor,
toque de sabor
a irradiar

luz, em mais um dia cinzento.

(https://unsplash.com/photos/qUFmzR-MKrs)

A zona do interior, onde vivo, tem também, como em todo o meu país, paisagens lindíssimas e de cortar a respiração! Partilho para que possam apreciar!

Monsanto situa-se a nordeste das Terras de Idanha, aninhada na encosta de uma elevação escarpada - o Alcandorada num cabeço que se impõe ao olhar na maior parte dos horizontes, a Aldeia Histórica de Portugal de Monsanto detém um encanto singular, para o que contribuem os dois títulos atribuídos no séc. XX – Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, em 1938, e o de Aldeia Histórica em 1995. Ícone turístico da região, Monsanto é uma experiência peculiar para quem a visita. Concederam-lhe foral D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Sancho II e D. Manuel. A parte mais antiga está no ponto mais alto, onde os Templários construíram uma cerca com uma torre de homenagem.
Monsanto (Mons Sanctus) - Trata-se de um local muito antigo, onde se regista a presença humana desde o paleolítico. Vestígios arqueológicos dão conta de um castro lusitano e da ocupação romana no denominado campo de S. Lourenço, no sopé do monte. 
In http://www.aldeiashistoricasdeportugal.com/monsanto










Penha Garcia
Na Beira Baixa, a poucos quilómetros de Espanha, uma povoação típica espraia-se pela encosta da serra. A sua posição privilegiada de defesa terá sido um dos motivos da fixação neste lugar de um povoado neolítico, mais tarde transformado num castro lusitano e, depois, numa povoação romana. Mas não terá sido menor a atração exercida durante séculos pela existência de ouro por explorar no leito do rio Pônsul. Hoje, os principais atrativos para quem visita Penha Garcia são, sem dúvida, a vista deslumbrante que rodeia a vila, a originalidade do seu castelo, empoleirado no cimo da penha, e as marcas que a natureza e a história deixaram neste lugar. Venha conhecer esta terra plena de lendas e tradições, com todo o encanto da Beira Baixa.
As muralhas de Penha Garcia
Construído, possivelmente, no reinado de D. Sancho I para ajudar a proteger a fronteira portuguesa das investidas de Leão, o castelo de Penha Garcia foi doado por D. Dinis aos Templários mais de cem anos depois, regressando à posse da coroa no século XVI, com a extinção das ordens.
Vale a pena subir ao cimo da penha para percorrer as imponentes muralhas e observar a magnífica paisagem que rodeia a povoação. As pedras contam-nos a lenda de que, naquele lugar, vagueia ainda o fantasma do antigo alcaide do castelo, D. Garcia. Depois de raptar a filha do governador de Monsanto, D. Branca, o nobre terá sido capturado e condenado à morte. Mas os apelos de D. Branca por misericórdia, valeram-lhe a redução da pena. Condenado a ficar sem um braço, D. Garcia é ainda hoje conhecido por “o decepado”.
Icnofósseis de Penha Garcia – as cobras pintadas
Se o homem deixou a sua marca em Penha Garcia, o mesmo se pode dizer da natureza. Um dos maiores tesouros da povoação encontra-se nas rochas quartzíticas com 490 milhões de anos. No tempo em que todos os continentes estavam unidos em torno do Pólo Sul, os mares eram habitados por organismos invertebrados que se deslocavam nos substratos arenoargilosos, deixando marcas. A essas marcas, que ficaram preservadas nas rochas sedimentares e são visíveis ainda hoje em Penha Garcia, o povo chama as cobras pintadas e os cientistas icnofósseis. E se as gentes de Penha Garcia se habituaram há muito à sua presença, os investigadores continuam a estudá-las, considerando-as um importantíssimo contributo para o conhecimento científico de um passado com milhões de anos.
In http://www.centerofportugal.com/pt/penha-garcia/












Coelho, João Pinto (2017). Os Loucos da Rua Mazur. Alfragide: Leya.


Neste romance, João Pinto Coelho aborda a história de uma comunidade da “rua Mazur”, situada na Polónia, uma sociedade que convivia pacatamente, não fazendo prever a crueldade praticada pelos cristãos em relação aos judeus durante a II Guerra Mundial. O convívio inicial é substituído, de forma perversa, pela denúncia e antissemitismo extremistas, que acontecia entre os polacos, sem que fossem necessários campos de concentração para se viver uma situação infernal de fragmentação da sociedade e de execução.
Uma narrativa que nos prende desde o início e para a qual é necessária alguma concentração, uma vez que vai mudando o espaço, o tempo da ação e os próprios acontecimentos se vão intercalando.
Tudo começa com dois velhos, Yankel, cego, dono de uma livraria em Paris, que só aceitava como amantes quem se transformasse nos seus olhos e lhe prometesse “maratonas de leitura” e Eryk, amigo de infância de Yankel, que o procura para escrever um livro, depois de anos a fio a escrever supostos ensaios do único que queria escrever. Para tal, considera que precisa da ajuda de Yankel que, apesar de cego, teve sempre uma visão mais ampla de todos os momentos e acontecimentos. Apresenta-se na livraria com a sua mulher, Vivianne, a fria editora de Eryk. Mas quem seria mesmo esta Vivianne? EryK está doente e não quer morrer sem se redimir com o livro que quer escrever.
A narrativa, a partir deste momento, passa a ser a duas vozes, a de Yankel, que fala e a de Eryk, que escreve, dando dinamismo e diferentes perspetivas de cada acontecimento.
Eryk decide começar este romance pela inocência e é assim que conhecemos a história de Yankel, Eryk e Shionka, na adolescência. Um triângulo perturbador de amizade e amor. O primeiro, cego e judeu; o segundo, cristão e maquiavélico e a última, uma bela jovem convenientemente muda. E é neste ambiente inocente que começa a ser brilhantemente abordada a história de uma comunidade polaca de shtetl, uma pequena cidade no leste da europa, de cristãos e judeus, de sãos e loucos, que se fragmenta com a invasão de alemães e russos, uma invasão cruel que haveria de a dizimar.
“Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.”
Os Loucos da Rua Mazur, prémio Leya 2017, é, sem dúvida, um livro marcante que aconselho vivamente à leitura.
                                                                                                             Célia Gil


Ruiz Zafón, Carlos (2006). A Sombra do Vento. Lisboa: Dom Quixote. 8.ª edição.


Hoje venho sugerir a leitura de A Sombra do Vento, de Ruiz Zafón, um livro intrigante, emocionante e envolvente.  Com um ritmo alucinante, que prende o leitor nas primeiras páginas, é um livro de 507 páginas que apetece ler todo de seguida. A linguagem ora choca o leitor pela forma direta e abrupta como as palavras chicoteiam, ora deleita com a sua poeticidade.
Tudo começa na cidade espanhola de Barcelona, no ano de 1945. Daniel Sempere completou 11 anos. Ao ver o filho triste por não conseguir lembrar-se do rosto da mãe, que morrera, o pai dá-lhe um presente inesquecível: certa madrugada, leva-o a um lugar único e que se envolve em mistério, no coração do centro histórico da cidade, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Um lugar desconhecido por quase todos. É uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de A Sombra do Vento, de Julián Carax. Este livro desperta em Daniel um enorme encantamento por aquele autor desconhecido e pela obra, que ele descobre ser vasta. Obcecado, Daniel começa então a procurar os restantes livros de Carax e, para sua admiração, descobre que alguém tem queimado regularmente todos os exemplares de todos os livros que o autor já escreveu. Na verdade, o exemplar que Daniel tem em mãos pode ser o último existente. E ele logo irá entender que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles que ama poderão ter um destino terrível.

Quanto mais o interesse dele pelo livro aumenta, mais coisas estranhas acontecem e mais desconfortáveis ficam as pessoas que conhecem parte do mistério que envolve Carax. Outras personagens como Clara Barceló, Tomaz Aguilar, Beatriz Aguilar, o Inspetor Fumero e Fermín Romero são apresentados, todos contribuem para deixar a história cada vez mais envolvente, mas a personagem que se torna imprescindível para a compreensão do enredo, que deixa a Daniel uma carta esclarecedora antes de morrer, é Nuria Monfort.

Resultado de imagem para a sombra do vento
(Imagem retirada de: https://livretosepensamentos.wordpress.com/2018/04/12/veda-2018-a-sombra-do-vento-carlos-ruiz-zafon/)


                                                                                                         Célia Gil

Este ano tive o prazer de conhecer Gran Canária, que é uma das Ilhas Canárias espanholas a noroeste de África. É conhecida pelas praias de areia branca e de lava negra. As praias a sul incluem a movimentada Playa del Inglés e Puerto Rico, bem como as mais tranquilas Puerto de Mogán e San Agustín. A norte, a capital, Las Palmas, é paragem obrigatória para os navios de cruzeiro e para compras isentas de impostos. O interior da ilha é rural e montanhoso.

Deixo algumas fotos para poderem apreciar esta bela ilha! 











  





Com a mesma simplicidade
com que respiro,
com a mesma intensidade
com que suspiro,
com a mesma naturalidade
com que inspiro.
Sem imposições de moda,
sem técnicas ou tendências...
Escrever como quem acorda,
vê o mundo, faz inferências.
Escrever como a planta
que expande as suas raízes,
pela folha em branco,
ideias desconexas
conectadas por sentimento.
Escrever como quem ainda se espanta
em cada novo olhar,
em cada nova primavera, 
em cada novo lugar,
em cada nova esfera...
Apenas ser.
Escrever.
                          Célia Gil

Carvalho, Rodrigo Guedes de (2009). A Casa Quieta. Leya.


     Este livro, que vai sendo narrado por diferentes personagens, permite-nos ter uma perceção do que pensa cada uma delas, pelo que facilmente ficamos íntimos destas personagens tão reais. Salvador, um arquiteto, é casado com Mariana, que se debate, em fase terminal, com um cancro que a vai consumindo. O irmão de Salvador, António, é um antigo combatente, sofre de um trauma de guerra. Todo este enredo triste é tão convincente que somos levados a sofrer com as personagens.
     Os capítulos têm sempre o mês a que se referem no início, não seguindo um tempo cronológico linear, com analepses que nos explicam pormenores anteriores, que, curiosamente, sentimos necessidade de ir percebendo.
     Com uma escrita oralizante, intimista, Guedes de Carvalho aborda uma temática quotidiana para quem já perdeu para o cancro um ente querido, de forma tão real que conseguimos sentir a dor das personagens, as suas dúvidas mais comezinhas e as suas considerações mais comuns.
     Passo a ler algumas passagens demonstrativas do poder das palavras de Guedes de Carvalho:
“É então isto a morte. Abrires os olhos à espera de uma revelação e esbarrares no nada.” (Pág. 9)
“Havia um relógio de parede que nunca funcionou mas de que gostávamos como se funcionasse, como se tivesse préstimo. Eram as nossas coisas. Agora são coisas.” (pág. 247)
Tu eras (…). Tu eras as luzes acesas. Eras uma casa à minha espera. (…) A fechares o mundo lá fora”. (Pág. 247)
“Filhos, doutor, (…) levam o que temos de melhor sem nunca nos devolverem, ainda que esperemos, (…)”
“Um bebé é só mais uma pessoa que vai morrer. Havemos de cuidar dele, de o entreter, de lhe comprar roupa e dar a papa, de o levar à escola, de o levar ao dentista. Ele há-de estudar, tirar boas ou más notas, vestir-se sozinho (…), tirar a carta, abrir guarda-chuvas e rir das tempestades, rebolar-se na cama com outros corpos igualmente frescos secos firmes robustos, consultará as pautas de notas afixadas, irá festejar a passagem de ano, há-de abrir e oferecer presentes, dizer amo-te e sofrer por amor. (…) Um bebé é só mais uma pessoa que vai morrer.” (pág. 242).

                                                               Célia Gil


Fitzgerald, Penelope. A Livraria. Lisboa: Clube do Autor. 2011.
  
Penelope Fitzgerald é uma das mais notáveis escritoras da ficção britânica. Foi distinguida, em 1959, com o seu romance Offshore, com o Booker Prize.



A Livraria foi traduzido por Eugénia Antunes e conta a história de Florence Green, uma mulher de meia idade, viúva, que decide abrir uma livraria numa pequena vila costeira, em Inglaterra, a única livraria da terra. Para tal, adquire um casarão, o Old House, que, apesar de decrépito e com um suposto fantasma, é desejado por pessoas influentes que queriam transformá-lo num Centro de Artes.
Inesperadamente, Florence recebe um convite para uma festa do General e de Mistress Gamart, onde a cortesia com que é recebida, tem oculta a intenção subjacente de a convencer a não abrir a dita livraria. Mas, contra tudo e todos, Florence leva avante o seu sonho e abre a livraria. Tarefa pouco facilitada por alguns habitantes da aldeia.
Só uma jovem de 10 anos, Christine, se oferece para a ajudar nas suas horas livres, depois da escola.
Com a sua influência, os opositores e interessados na Old House conseguem determinar a criação de uma nova lei que determinava que os edifícios antigos deveriam ser sujeitos a aquisição compulsiva ainda que no momento se encontrassem ocupados, contando que se tivessem encontrado vagos no passado durante mais de cinco anos.
Quando Old House foi requisitada ao abrigo desta nova lei, Florence sentiu-se a mais naquela vila, apanhou o comboio para Liverpool Street, com a perfeita noção de que a vila nunca quisera verdadeiramente uma livraria.
                                                                                                    Célia Gil

Pedro, João Ricardo (2012). O Teu Rosto Será o Último. Alfragide: Leya.


  
Prémio Leya 2011, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, é um livro que nos conta a história de uma família que, sem ser uma história linear, pois trata-se de três gerações, que vão sendo retratadas de forma alternada, encaixam-se todas no final, através de uma personagem que serve de elo de ligação entre elas, Duarte, uma criança. Uma família marcada por longos anos de ditadura, pela revolução de abril, pela repressão política e pela guerra colonial.
Em traços muito gerais, tudo começa com Augusto, o avô de Duarte, um médico que compra uma casa na Gardunha, entre o Fundão e Alpedrinha e que aí se estabelece (curiosamente, a certa altura é explicado que Gardunha quer dizer “refúgio, ou esconderijo. Em árabe”). Compra a propriedade a um amigo, Policarpo, que segue o seu sonho de viajar pela Europa e lhe vai escrevendo cartas que ele guardará na sua biblioteca. Estas cartas serão, mais tarde, lidas pelo próprio neto, o Duarte, ajudando a formar a sua personalidade.
António, o pai de Duarte, teve, por sua vez, uma vida de sacrifício, fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra, que havia de ser a mãe de Duarte, numa livraria.
Duarte, uma criança dotada de um grande talento, um pianista precoce e prodigioso, cresce no meio destas histórias, das cartas de Policarpo ao avô, de tragédias familiares, da morte do seu amigo Índio, da doença da mãe, e cresce nele uma revolta que o deixa de costas voltadas para o piano. Nem o médico o consegue ajudar a resolver esta incompatibilidade:

“Depois de um longo silêncio, o médico perguntou-lhe se, quando ouvia essas músicas tocadas por outros pianistas, experimentava a mesma sensação.
Duarte respondeu que nunca ouvia música. Não tinha discos. Não ia a concertos.
O médico perguntou-lhe se gostava de música.
Duarte não soube responder.
O médico perguntou-lhe porque começara a tocar piano.
Duarte disse: “Não fui eu que comecei a tocar piano. Foram as minhas mãos.”

Se ainda não leu, não pode deixar de conhecer esta família, os episódios hilariantes, contados com um grande sentido de humor, bem como os dramas que constituem a vida de tantos portugueses. Um romance a não perder, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro. 
                                                                            Célia Gil
Um poema meu em Itupeva, São Paulo! Achei o máximo!

Márai, Sándor. As Velas Ardem até ao Fim. Lisboa: Dom Quixote. 2001.


     Uma obra traduzida por Mária Magdolna Demeter, As Velas Ardem até ao Fim de Sándor Márai, lê-se num ápice.  Além de pequeno, prende o leitor, que quer saber a história de dois amigos, Konrád e Henrik, que se reencontram na velhice.
     Henrik, um velho general que vive num castelo recôndito e decadente, na Hungria, aguarda ansiosamente o regresso do amigo de longa data e recorda os tempos passados, a sua família, a forma como acolheram Konrád, até à sua partida inesperada para os trópicos. Espera ver esclarecidas algumas dúvidas que não o deixarão descansar em paz, dúvidas que apresenta com laivos de uma vingança decorrente de traição. O seu melhor amigo não o tinha apenas traído com a esposa, tinha, sobretudo, traído a sua amizade, a cumplicidade as vivências que tiveram, de quem cresceu e formou a sua personalidade em conjunto, de quem foi dependente, de quem amou profundamente. Precisava compreender por que razão Konrád o quisera matar, durante uma caçada, e por que não o fizera.
     O momento do reencontro, 41 anos depois, descrito como: “Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. (…) É o último segundo em que a profundidade e a altura, a luz e a escuridão, tanto universal como humana, ainda se tocam (…)”, foi um momento marcado por longos silêncios, pelo monólogo de Henrik, a que Konrád responde no seu silêncio, por recordações dolorosas, pela reflexão sobre o valor da amizade, os segredos, a solidão decorrente do afastamento, a desilusão ante a “fuga” inesperada e a noção da inutilidade do ciúme, da vingança e dos remorsos. Uma longa conversa, em que “As Velas Ardem até ao Fim”. Um livro de Sándor Márai que não pode deixar de ler. 
                                                                                              Célia Gil
                                                                                                                                              

Szabó, Magda. A Porta. Cavalo de Ferro.



         Um romance escrito pela húngara Magda Szabó, traduzido por Ernesto Rodrigues, conta-nos a estranha história de uma relação entre duas mulheres – a patroa, jovem escritora e a sua empregada, Emerence, já idosa.
         Quando contrata Emerence, Magda percebe que ela é diferente das outras empregadas. É ela que sujeita a patroa a um exame que a fará perceber se quer ou não trabalhar para Magda. Aliás, chega a afirmar “Não lavo a roupa suja de qualquer um”.
           É ela que estabelece as regras.
         Emerence é dura, rude, fria e enigmática, mas também muito trabalhadora, atenta, e surpreendentemente dedicada. É esta personalidade que faz com que seja respeitada e até temida pela vizinhança.
         Da sua vida pessoal, nada dá a saber, mantendo o seu passado em segredo, a sua vida fechada a sete chaves, atrás de uma porta que não abre para ninguém.
         Apesar da aparente impossibilidade de se entenderem, Magda e Emerence, dadas as suas diferenças (Magda é escritora, Emerence não lê, nem sequer jornais; Magda é religiosa, Emerence despreza a religião; Emerence não compreende o emprego de Magda enquanto escritora, pois, segundo ela, um emprego era algo que exigia esforço físico), não conseguimos deixar de ficar surpreendidos, perturbadoramente fascinados, quando percebemos a forte relação existente entre elas.
         Magda chega a dizer “Segui-a com os olhos perguntando-me porque se agarrava a mim, quando era tão diferente dela, não percebia do que ela gostava em mim. Eu já escrevia, era ainda jovem, não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento lógico, mortal, imprevisível…”
         O certo é que, aos poucos, estabeleceu-se entre elas uma amizade, ainda que comandada por Emerence, que vai dizendo até onde esta amizade pode ir.
         Até o cão de Magda é a Emerence que obedece, é a ela que vê como dona. O magnetismo que tem com o cão, a quem deu o nome de Viola, é o mesmo com que atrai Magda para a sua vida, para o seu mundo secreto, para a sua porta.
         O seu passado é desvendado aos poucos, como se também não quisesse ser dado a conhecer.
         A Porta é um romance escrito na primeira pessoa, com laivos de autobiografia, onde a própria Magda Szabó nos fala desta amizade e dos erros que considera que vai cometendo. Um romance imperdível. Este é o meu conselho de leitura.
                                                                                                   Célia Gil




Um pequeno filme que aprendi a fazer no Studio Stop Motion, ainda muito simples. Mas foi divertido!

(https://unsplash.com/photos/ll3fwwExWc0)

Dulce estava consciente de que a vida galgava a um ritmo alucinante. Entre milhares de tarefas diárias, sentia se, no entanto, só. Na sua luta diária, tantas vezes incompreendida, onde criara o hábito de corresponder ao que queriam dela - ia às compras, preparava as refeições, arrumava, limpava, tratava da roupa, dos horários e... esperava. Aprendeu a esperar calada, porque tudo o que espontaneamente dizia, era erroneamente interpretado. E ai dela se ousasse queixar-se! Não fazia nada de mais, tomara muita gente! Tinha uma vida de rainha! E todos os dias as tarefas de todos os dias se repetiam ao som dos ponteiros de um relógio inimigo e imparável.
Dulce aprendeu a calar-se, a consentir, a assentir. Porém, aos poucos, foi deixando de ser, até se esvaziar qual autómato que se limita a responder a vozes de comando, uma boneca de trapos cada vez mais velha e inútil.
Os olhos foram apagando o brilho. As lágrimas secaram, deixando um olhar baço de desamor. Os seus olhos ainda seguiam o rasto do afastamento dos que amava. Afastavam-se sob falsos pretextos, vivendo vidas paralelas, onde ela deixara de pertencer, onde  fora remetida ao mesmo valor dos objetos da casa.
Deixara de ser, de se pertencer. Apagara-se-lhe a sede de viver, de sorrir com as pequenas coisas, de chorar com outras tantas. A porta fechava-se-lhe irremediavelmente por fora e por dentro e o lugar que habitava na alma fora escurecendo até deixar de o ver, de o sentir, de o temer nas suas penumbras, onde a ausência de tudo são paredes vazias de encontro às quais a alma embate.
E se  o coração ainda lhe bate, é porque tenta ignorar e não se consciencializa da ausência de vida que arrasta.
Dulce, numa vida tão amarga quanto a demência. Mais amarga que a demência, porque lhe resta uma lucidez que a faz continuar a ter consciência da sua degradação, do seu não eu. 

                                                                                                                      Célia Gil
Um romance duro, que nos faz questionar a vida, as escolhas, os caminhos que seguimos e as motivações que lhe são inerentes.


Kafka, Franz. A Metamorfose. Barcarena: Editorial Presença, 1996.


         Gregor, um caixeiro viajante que trabalhava muito, passando diariamente por imensas provações (“martírio das viagens impostas”, “preocupação de apanhar as ligações do comboio”, as refeições más e irregulares”, “um relacionamento humano instável” e muitas outras situações que nos levam a alguém desgastado por uma vida entregue ao trabalho), acorda como um inseto.
Tenta levantar-se para cumprir a sua rotina diária, mas não consegue. Pensa apenas em como dizer ao patrão que não conseguirá, pela primeira vez, cumprir com as suas obrigações. Um trabalho que mantém devido ao seu sentido de responsabilidade para com a família, que vive às suas custas. Mesmo na situação em que se encontra, tenta e pensa em como poderá levantar-se da cama e ir trabalhar. Perante o gerente, que vai lá a casa ver o que se passa e o porquê daquele atraso que nunca ocorrera antes, Gregor insiste que levará mais tempo, mas levantar-se-á, não admitindo a sua perfeita incapacidade para o fazer.
Desiste, quando vê que não consegue dar a volta à situação. Entristece-se quando ouve a família conversar sobre o orçamento familiar e o que terão de realizar para fazer face às dificuldades inerentes ao problema de Gregor. Sente-se completamente inútil.
Apesar desta metamorfose física exterior, esta animalidade que lhe impõe limites, permanece humano consciente, o que lhe permite conhecer melhor os pais e irmã. Tornado parasita, desmascara o parasitismo em que vivia a sua família, às suas custas. Através deste aprisionamento num animal – metáfora do inútil – liberta-se da vida que levava e, não sabendo lidar com ela, caminha para a fatalidade.

Esta é a minha sugestão de leitura, “A Metamorfose” de Franz Kafka, em que sou a Célia Gil



Welch, Wendy (2012). A Minha Pequena Livraria. Lisboa: Clube do Autor
  
     Hoje convido a entrar numa mansão eduardiana, um lugar mágico, que é uma pequena livraria de livros em segunda mão, que constituiu o sonho de Jack Beck e Wendy Welch, um sonho concretizado pelo casal, mais cedo do que previam. Vai, com toda a certeza, deixar-se surpreender pelo ambiente familiar, acompanhado de um chá, sob o olhar atento de dois gatos belíssimos. Aqui conhece uma história e, em troca, tem a possibilidade de dar a conhecer a sua.
     Poderia, com efeito, ter sido, logo à partida, um sonho concretizado com sucesso, não fosse o local escolhido uma pequena cidade mineira na Virgínia, no interior dos Estados Unidos, na qual estes novos habitantes eram olhados com desconfiança e vistos como responsáveis por um projeto falhado.
     Numa altura de recessão, onde se compra tudo pelo ebay, onde se começa a substituir o livro de papel por ipads, e-books e kindles, só quem fosse realmente louco pensaria em abrir uma livraria de livros usados. A acrescer a estes entraves, estava ainda o facto de não serem dali e, como tal, serem vistos como intrusos.
     Afinal, os sonhos dão muito trabalho – havia uma série de batalhas a serem travadas por este casal: onde arranjar os livros, se tinham gasto tanto dinheiro na casa? Como cativar potenciais clientes, num local onde eram vistos como forasteiros? Como deixar de ser invisível e adquirir projeção enquanto negócio? Como passar a pertencer àquela cidade e não apenas integrá-la?
     Termino este convite com a leitura de uma das muitas passagens de que gostei:
“Os livreiros, pelo menos até conseguirem ser replicados online, são o motivo por que as pequenas livrarias ainda existirão mesmo depois do último leviatão desaparecer, arpoado por um e-reader. As livrarias físicas são pontos de convergência para os espíritos e intelectos humanos. Os e-readers e as livrarias on-line não nos permitem contar a história por trás da compra de um determinado livro… Quando nos escutamos validamo-nos uns aos outros.”
   Esta sugestão de leitura foi feita por mim, que sou a Célia Gil e que também tive o privilégio de ter tido, numa determinada fase da minha vida, uma pequena livraria. Não deixem de ler A Minha Pequena Livraria, de Wendy Welch.


Brontë, Emily. O Monte dos Vendavais. Lisboa: Editorial Presença, 2009.




  
Tudo começa em 1801, com a chegada de Lockwood, um novo inquilino, à Herdade dos Tordos, para passar uma temporada nos ares do campo. Este dirige-se então à propriedade do Monte dos Vendavais, com o intuito de conhecer e falar com o Sr. Heathcliff sobre o aluguer da casa.
Acaba por se ver confrontado com pessoas que de hospitaleiras têm muito pouco, num ambiente hostil, onde reinam ódios antigos e mistérios. Devido a um temporal, é obrigado a passar a noite no Monte dos Vendavais, uma noite que não esquecerá, pois o quarto onde ficou a dormir está estranhamente repleto de livros assinados por Catherine Earnshaw. Acaba por sonhar com esta, um sonho tão real, que chega a ponderar ter visto o fantasma dela a bater-lhe na janela para entrar no quarto. Deste sonho e perante a reação de Heatcliff ao contar-lho,  tira a ilação da existência de um passado misterioso que o enche de curiosidade.
Ao regressar à Herdade dos Tordos, Lockwood solicita à governanta, Nelly, que lhe conte a história de Heathcliff. É com Nelly por narradora, que nós, leitores, somos conduzidos à estranha história passada de Heathcliff e Catherine e que estará na origem da hostilidade que se vive no Monte dos Vendavais.
Nelly conta-lhe que Heathcliff foi adoptado pelo Sr. Earnshaw (pai de Catherine e Hindley) e logo se tornou inseparável de Catherine e odiado por Hindley. Apesar de apaixonada por Heathcliff, Catherine acaba por casar com Linton e este facto leva ao desaparecimento de Heathcliff.
Este, volta, mais tarde, para se vingar.
Terá Heatcliff conseguido o que queria? Até onde poderia ir a sua vingança?
Não deixe de ler este livro, um clássico da literatura, envolvente, de um realismo perturbador. Se espera um romance com pessoas perfeitas, heróis típicos, desengane-se. São os seus defeitos e as suas atitudes, que tornam estas personagens tão surpreendentes.



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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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