Toni
Morrison foi a primeira escritora negra a ser distinguida, em 1993, com o
Prémio Nobel da Literatura. Foi esse facto que me levou a ler A Dádiva.
Um livro pequeno, mas que deve ser lido
com calma, com a devida atenção, para saborear as palavras da escritora, que
cativam logo desde as primeiras linhas e também porque a história nos é contada
em momentos diferentes e temos de nos situar, de perceber quando surgem as analepses
para podermos desfrutar ao máximo da obra.
É um romance extraordinário que se passa
na América do Norte de finais do século XVII, uma época marcada pela
escravatura, grandes divisões sociais e religiosas, tirania, preconceito e ódio
racial.
É neste contexto que Jacob Vaark, um
comerciante anglo-holandês, que, apesar de inicialmente se manter distante do
negócio dos escravos, acaba por aceitar, como pagamento de uma dívida de um
fazendeiro de Maryland, uma menina negra, Florens. É numa conjuntura de
submissão que Florens conhece a paixão, mas é também nesse contexto que descobre
o quanto a ausência de liberdade pode ser prejudicial para a alma.
Célia Gil
Zimler, Richard (2014). A Sétima Porta. Porto: Porto Editora.
Em A Sétima Porta, Zimler conduz-nos com uma extraordinária erudição,
a uma história que nos desperta vários sentimentos distintos – desde a repulsa
por determinadas atitudes ousadas, invulgares numa jovem, que, no início, tem
apenas catorze anos e que enfrenta os pais e a sociedade, erguendo sempre o seu
grito por aquilo em que acredita; e até um carinho pela compaixão que ela
consegue nutrir pelos abandonados, os marginalizados, portadores de
malformações, expostos à violência dos nazis; os sonhos que persegue e aos
quais se entrega de uma forma até aparentemente desarrazoada.
Sophie, ariana e
católica, que vive em Berlim com a sua mãe russa, o seu pai comunista e um
irmão autista, é a narradora desta história intensa, que decorre na década de
trinta e, quer pela curiosidade natural da idade, quer pela forma como perceciona
o mundo e pelos seus ideais, acaba por se relacionar, às escondidas dos pais e
do namorado, com judeus e portadores de malformações.
O pai de Sophie,
decide, como tantos outros comunistas da época, apoiar Hitler para proteger a
sua família. Atitude que não mantém quando não hesita, em compactuar com o
internamento do filho Hansi, quando este levará a injeção letal.
Sophie, envolve-se com
Isaac, um velho descendente de Zarco, judeu antissemítico detentor de uns manuscritos
que tenta descodificar para salvar a humanidade, de quem acaba por ter um filho.
Terá Isaac conseguido o
que pretendia? Terá atingido a sétima porta e encontrado em Deus as respostas?
O convite para embarcar
nesta viagem alucinante, explosiva e profética fica feito, basta que leiam “A
Sétima Porta”, de Richard Zimler.
O Presságio da
Sereia, Katy
Gardner, traduzido por Luísa Feijó, é um livro com uma história cativante do
início ao fim. Lê-se compulsivamente, pela sua intensidade, mistério e
suspense… Com um final completamente inesperado.
Cass
é uma professora de História que vive em Londres com o seu companheiro de há
quase dez anos, Matt, e que decide aceitar uma proposta para assistente
universitária em Brighton. É quando muda para Brighton, que todos os seus
problemas começam.
As
memórias dolorosas de um segredo que acabou de destruir o que restava da sua já
problemática infância e mudou a sua vida para sempre começam então a
assombrá-la. E a crescente sensação de que está a ser observada, numa altura em
que violentos ataques a estudantes estão a ocorrer em pleno campus universitário, transforma o seu
receio num imenso pânico que ameaça sugá-la. Será ela a próxima vítima? Ou
haverá uma razão mais sinistra para que tenha sido precisamente Cass a ser
transformada em alvo? Além disso, Brighton não é uma escolha natural para uma
mulher com um já antigo medo do mar. Cass pode ter tentado encerrar um capítulo
da sua vida ao deixar Londres, mas cedo vai descobrir que alguns elementos da
sua nova existência são igualmente perturbadores. Segredos que tinha conseguido
esquecer durante toda a sua vida são agora descobertos e revividos pela
protagonista deste livro. No percurso de Cass, existem dois alunos que vão ter
um papel muito importante na revelação deste segredo. Ao sentir-se pressionada,
a professora vê-se obrigada a contar que teve de abandonar um filho, fruto de
uma violação, quando tinha apenas 15 anos. Este é um livro capaz de nos
transmitir as mais variadas emoções. E, como nos é dito na capa do livro, “Os
segredos mais profundos arrastam consigo correntes sombrias”.
Esta
obra fez-me realmente pensar nos segredos que todos escondem e não querem que
sejam descobertos. No entanto, isso nem sempre acontece! Por mais voltas que a
vida dê, se existir alguma coisa do passado que intimide, mais tarde ou mais
cedo, vem ao de cima. Neste livro, pode observar-se a reação de pânico que o
ser humano tem quando pensa que vai ser “descoberto”. É algo que a todos ultrapassa,
algo que nunca se consegue nem se vai conseguir controlar. Porém, por outro
lado, a revelação pode constituir o primeiro passo para a libertação, uma
autêntica catarse.
Stilwell,
Isabel (2001). Como Dei com o Meu
Psiquiatra em Louco. Lisboa: Editorial Notícias
Este
livro reúne dez contos, que são histórias com as quais nós, leitores, em algum
momento das nossas vidas, nos identificamos. No fundo, são metáforas, através
das quais a autora nos apresenta, de forma caricatural e um tanto absurda, mas
muito divertida, os segredos da psicologia humana. Como nos diz a própria sinopse do livro, e
passo a citar “desde homicídios com queijo, duelos de faca e garfo, juízes que
colocam os móveis em guarda conjunta, meias que fogem para a Terra das Meias,
meninas cujo cérebro se alojou no cotovelo e mulheres que dão alvíssaras a quem
lhes encontrar a alma perdida. Respire fundo e mergulhe sem medo. Vai ver que
estas histórias falam de si.”
Por
exemplo, no conto “A Cristaleira em Guarda Conjunta”, um juiz, questionado, um
dia, sobre se os móveis, como o nome indica, são feitos para permanecerem no
mesmo lugar ou para serem realmente “móveis”, decide colocar os móveis de um
casal sem filhos em guarda conjunta, devendo estes passar a estar quinze dias
em casa de um e quinze dias em casa do outro. Um assunto sério, no que se
refere à guarda partilhada dos filhos, transposta, de forma muito engraçada
para os móveis. Não podemos deixar de sorrir quando um elemento do casal refere
que os seus móveis são maltratados em casa do antigo cônjuge, porque nem um paninho
do pó a “outra lambisgóia” passa por eles. Finge que gosta deles, mas
ignora-os, mal ele vira costas.
Toda a história da obra Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de
Sandro William Junqueira, decorre no lote 19, onde vivem muitas pessoas, cada
uma com as suas especificidades: a Mulher Gorda, quer comprar jacintos e a
filha, a Rapariga Magra, que aceita tudo menos ficar igual à mãe. O Velho, que
sabe que não pode deixar que a morte o apanhe a dormir, enquanto o Homem
Desempregado não sabe como saciar a fome a não ser com a memória de refeições
passadas. E, entre estes e outros, a vida passa: para uns, traz vinganças e
ligações de amor e ódio; para outros, a apatia do que se deixou de sentir. Ao
lado, o lote 17, é um buraco à espera de construção - buraco como o das vidas
que o observam ao passar.
A história nasce de uma
multiplicidade de fragmentos, de pequenos momentos das vidas das várias
personagens, como que vistos pelo olhar de alguma entidade distante.
Todos estes momentos
estão escritos com a brevidade sintética de quem se cinge ao estritamente
essencial. Narram-se os factos, expressam-se os pensamentos e os sentimentos
como eles são, sem grandes elaborações nem divagações extensas.
Ao acompanhar tantas
personagens num livro tão breve, o autor realça precisamente aquilo que as
torna únicas - e, ao mesmo tempo, o que nelas mais desperta interesse, empatia
e solidariedade. No fundo, todas estas personagens têm algo de estranho - mas
do tipo de estranheza que existe nos recantos mais cruéis da realidade. E,
sendo certo que a vida não acaba no fim de uma história, também a história
destas personagens não acaba: ficam coisas por dizer, futuros possíveis, bons
ou maus. E este ponto de equilíbrio onde tudo termina - pondo fim a algumas
coisas, mas deixando tantas outras por dizer - faz um estranho sentido nesta
história em que todas as vidas são, por natureza, incompletas.
No país que em mim habito
não há lugar para a hipocrisia,
é um imaginário mundo bonito
de amor, cumplicidade e fantasia.
Neste lugar em que a concórdia mora,
habitam sentimentos que são só meus,
e tudo quanto me magoa, lá fora,
não entra neste meu reino dos céus.
Se assim não fosse destilaria maldade,
não seria,de todo, confiável,
lançaria o meu fel a qualquer oportunidade,
deixaria de ser eu, de ser amável.
Esta dualidade que em nós existe
espera uma brecha para se manifestar,
uma crueldade latente que não desiste
e insiste em de nós se apropriar.
Não quero perder de todo a razão,
e fico quieta no meu vagar,
calando em vão o coração,
que teima sempre em se manifestar.
Célia Gil
(imagem pesquisada em https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=246168)
não há lugar para a hipocrisia,
é um imaginário mundo bonito
de amor, cumplicidade e fantasia.
Neste lugar em que a concórdia mora,
habitam sentimentos que são só meus,
e tudo quanto me magoa, lá fora,
não entra neste meu reino dos céus.
Se assim não fosse destilaria maldade,
não seria,de todo, confiável,
lançaria o meu fel a qualquer oportunidade,
deixaria de ser eu, de ser amável.
Esta dualidade que em nós existe
espera uma brecha para se manifestar,
uma crueldade latente que não desiste
e insiste em de nós se apropriar.
Não quero perder de todo a razão,
e fico quieta no meu vagar,
calando em vão o coração,
que teima sempre em se manifestar.
Célia Gil
(imagem pesquisada em https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=246168)
Rebelo, Tiago (2008). O Último Ano em Luanda. Barcarena: Editorial
Presença.
Este romance começa
quando, em 1961, a UPA – União dos Povos de Angola, enceta a luta armada pela
independência.
Nesta obra descreve-se o
início de uma guerra de cerca de treze anos contra os três movimentos de
libertação de Angola – o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), o
FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e a UNITA (União Nacional para a
Independência Total de Angola).
Entretanto, em 1974, a
revolução em Lisboa apanhou de surpresa centenas de milhares de portugueses que
viviam em Angola, provocando a queda do regime em Lisboa, o que levou a que o
novo poder desistisse de Angola.
É no meio destes
acontecimentos, que nos são apresentadas as personagens deste romance. Nuno e
Regina conhecem-se em Lisboa. Regina tem 25 anos, é rebelde e sente uma grande
atração pelo perigo. Nuno era um pouco mais velho e tinha fama de marginal.
Terá sido este seu lado de enfant
terrible que cativou Regina na noite de Lisboa. Para fugir a problemas em que
se afundara e decorrentes de negócios escuros, Nuno propõe-lhe a ida para
Luanda. E é ali que vivem o seu romance e têm um filho. Quando o ambiente em
Angola se torna insustentável, Nuno propõe a Regina que regresse com o filho
para Lisboa, por uma questão de segurança. Nuno ficaria e continuaria a
utilizar o seu avião para os seus negócios escuros – como o transporte de
drogas e o último deles o transporte de armas para a UNITA - que o levariam a
pôr a sua vida em risco.
Regina, garantida a
tranquilidade do filho em Lisboa, com os pais que, entretanto, já lhe haviam perdoado
as suas atitudes levianas, sem notícias de Nuno pelos seus informadores, decide
voltar a Luanda determinada a trazer Nuno e é a sua determinação e coragem que conseguem
resgatá-lo.
A história é narrada de
forma intercalada e situada num momento histórico marcante, quando cerca de
trezentos mil portugueses se viram obrigados a deixar tudo em Luanda e a fugir,
por via aérea e marítima, para Portugal ou para a África do Sul, deixando tudo
para trás – casas, carros, animais, empresas, comércio… Tudo.
É no navio Niassa que Regina e Nuno regressam a
Portugal, pouco antes da independência entrar em vigor, em novembro de 1975,
com a vitória do MPLA. Entretanto, deixavam para trás um país devastado pela
guerra, guerra esta que prosseguiria numa mortífera guerra civil entre o MPLA e
a UNITA e que só terminaria em 2002, com a morte de Jonas Savimbi.
Um livro duro, com uma
narrativa em que as ações surgem alternadamente, de forma a que se percebam
aspetos fulcrais da narrativa no momento em que nos questionamos sobre um
qualquer episódio ou personagem. Um livro escrito de forma fluente, mas que
exige uma leitura atenta.
Célia Gil
Morris, Heather (2018). O Tatuador de Auschwitz. Queluz de
Baixo: Editorial Presença.
Hether Morris, a autora
de O Tatuador de Auschwitz (livro
traduzido por Miguel Romeira) entrevistou um idoso, nos últimos anos da vida deste, momento em que ele acedeu a contar a sua história para que o seu testemunho e passo a citar “ficasse registado” e "jamais torne a acontecer”.
Esta obra conta a
história de duas pessoas que se conheceram em circunstâncias terríficas,
privadas da liberdade e que vivenciaram todos os horrores do holocausto, em
Auschwitz II – Birkenau, entre 1942 e 1945.
Lale, judeu
recém-chegado a Auschwitz, é incumbido de tatuar o número de prisioneiro nos
braços de todos os que ali chegavam, tornando-se o tetovierer. É neste local, quando tatua Gita, que descobre o amor.
O relato dos tempos
passados em Auschwitz é comovedor e avassalador. No meio de tanta tristeza,
dor, fome, desespero e morte, Lale é perseverante e continua a acreditar que há
de sobreviver. Aprende que a obediência e o silêncio o poderão ajudar a
conseguir atingir o seu principal objetivo – continuar vivo.
Trava conhecimento com
dois dos homens que foram contratados para ajudar a construir os crematórios,
Vítor e Yuri, que começam a trazer-lhe alimentos em troca de jóias e dinheiro,
que algumas raparigas que trabalham na triagem do que os prisioneiros levam
consigo, lhe dão em troca de comida. Passa a trazer comida e a dividi-la.
Entretanto, vai-se desenvolvendo o relacionamento amoroso entre Lale e Gita
que, sempre que podem, se encontram às escondidas, por exemplo, quando Lale
suborna com comida e jóias a Kapo que
tomava conta do edifício em que Gita se encontrava. Lale promete a Gita que,
quando saírem dali, farão amor onde e quando quiserem.
Quando são descobertos o
dinheiro, as jóias e a comida que escondia debaixo do seu colchão, Lale julgou
que seria o seu fim. Foi levado para o bloco 11, onde eram castigados até à
morte. Mas, os conhecimentos travados, a coragem de Lale e o amor por Gita são
os grandes impulsionadores que o movem para a vida e o levam a trapacear a
própria morte.
No entanto, o destino não lhe
traz a felicidade de mão beijada, nem mesmo quando, em 1945, se abrem os
portões que os encarceraram durante três anos e que testemunharam tantas mortes
e sacrilégios. Passa por muitas situações em que entre a vida e a morte existe
apenas um ténue fio, uma simples palavra, um gesto irrefletido.
Lale, apesar de não saber
se Gita está viva, nem onde se encontra, não desiste de a procurar.
Um amor que resiste a
tudo e que os faz acreditar que a felicidade talvez até
exista.
Como dizia Gita, mais
tarde, ao filho, em momentos mais difíceis das suas vidas “O que importa é
estarmos vivos e com saúde; tudo o resto se resolve.”
Foi esse o espírito que
os ajudou a reerguer a cada nova queda, sempre que a vida lhes pregou
rasteiras.
O Tatuador de Auschwitz
de Heather Morris é um livro emocionante, numa escrita fluida, pungente e
cativante.
Célia Gil
Kawabata, Yasunari (2009). Terra
de Neve. Espanha: Sant Vicenç dels Horts. Biblioteca Sábado.
Em Terra de Neve, de Yasunari Kawabata, que ganhou o prémio Nobel em
1968, traduzido por Armando da Silva Carvalho, o protagonista, Shimamura, viaja
de comboio, de Tóquio para um balneário das montanhas, no norte do Japão, com a
intenção de descansar nas termas e de se reencontrar com Komako, que conheceu
numa viagem anterior e que se teria tornado gueixa para pagar os tratamentos de
Yukio, filho de uma professora de música. A relação entre eles prolonga-se
durante o tempo em que o livro decorre, e que se concretiza durante as inúmeras
viagens que Shimamura faz para estar com ela.
As paisagens, atitudes e
acontecimentos são descritos de forma extremamente minuciosa, numa poética
observação que o narrador faz constantemente de tudo o que observa, até ao mais
ínfimo pormenor. Tudo o que descreve relativamente ao exterior, tem, no
interior do protagonista um efeito meditativo, levando-o a empreender várias
reflexões. Apesar de se sentir amado, Shimamura não deixa de sentir uma tristeza
inexplicável que o domina, uma sensação de que ele e Komako se afastarão
inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo.
Este livro permite ainda
conhecer lugares e tradições da cultura japonesa, imaginar as tecedeiras de chijimi,
um raro tecido de uma brancura imaculada feito a partir do “cânhamo colhido nos
campos em declive na montanha”, que Shimamura comprava em Tóquio e com que mandava
fazer alguns dos seus quimonos de Verão.
Ao longo da história paira
a sombra de outra mulher, que Shimamura contempla no reflexo do vidro do
comboio, cuja voz o seduz, quando fala e quando canta, Yoko. É uma personagem que
não se chega a conhecer bem e que tem um fim dramático. Nunca se chega a saber
a relação entre KomaKo, Yoko e Yukio, mistério sobre o qual Komako se recusa a
falar. O fim dramático desta mulher é, quanto a mim, simbólico, pois com a morte dela, algo deixa de fazer sentido, perdido o brilho do seu reflexo. Estaria a relação de Shimamura e Komako também condenada?
O ritmo da narrativa é tão
lento quanto a descrição é contemplativa, como a própria passagem do tempo nas
montanhas. É como se se sentisse, ao ler, o frio, a aragem de uma Terra de Neve a perder de vista, um frio
que repele e, ao mesmo tempo, prende e cativa.
Célia Gil
Couto,
Mia (2018). A Água e a Águia.
Alfragide: Editorial Caminho.
No
livro A Água e a Águia, escrito por
Mia Couto e brilhantemente ilustrado por Danuta Wojciechowska, tudo se passa e
passo a citar “quando não era ainda nenhuma vez”, num céu de aves sobre o
último rio do mundo.
Quando,
certa vez, deixou de chover, a sede invadiu plantas e animais e tudo começou a
morrer. Das aves caíam penas secas. Até que a águia mais velha teve uma ideia e,
decidida a enfrentar a desgraça, engoliu a letra i da palavra águia e
transformou-a na água com que saciou a sua sede. Imitada por todas as aves,
começaram a saciar a sede nos iis até que estes acabaram por esgotar, voltando
a sede a invadir e a dominar as águias. Sequiosas de letras, mas desconhecendo
o alfabeto da vida, lançaram-se a todos os iis, deixando até o rio sem i.
Questionando-se
sobre o que é a letra i, depois de muitas sentenças, foi uma avó águia que
propôs uma solução que passo a citar “a letra i era uma mulher carregando água
na cabeça. O que as águias iriam fazer seria regurgitar essa mulher." E esta
águia avó, com as últimas forças que lhe restavam, subiu ao cume da montanha e
regurgitou todos os iis que tinha bebido, voltando a encher o rio. Por isso as
águias sobrevoam as montanhas e, ao som do seu estridente piar, caem iis como
gotas de chuva.
Uma história brilhante pautada pela linguagem poética e metafórica a que já nos habituou Mia Couto. Um livro imperdível!
Célia Gil
Ciraolo,
Simona (2017). O Rosto da Avó. Lisboa:
Orfeu Negro.
Hoje
trago uma sugestão um pouco diferente, um livro infantil para ser devorado em todas
as idades.
Em
O Rosto da Avó, de Simona Ciraolo,
traduzido por Rui Lopes, no dia em que uma avó faz anos, questionada pela sua
neta sobre a razão por que parece que está um pouco triste e preocupada até, a avó
responde que talvez seja devido às linhas do seu rosto.
Então, a neta decide
questioná-la sobre cada uma das linhas do seu rosto e são deliciosas as
respostas desta avó cujas memórias estão guardadas em cada ruga, como pequenos
cofres que cobrem o seu rosto e o preenchem de vida.
Célia Gil
Faria,
Rosa Lobato de (2010). Os Três Casamentos
de Camilla S. Alfragide: Edições ASA.
Numa
narrativa pessoal, biográfica e emotiva, Os
Três Casamentos de Camilla S, de Rosa Lobato de Faria, é um romance envolvente,
que cativa não só pela intensidade das vivências narradas pela protagonista,
como pela beleza e expressividade da linguagem, num ritmo que envolve e prende
desde a primeira página.
Aos
90 anos, Camilla, entrega à sua neta os seus diários, para que ela os reveja,
corrija e os transforme num livro de, e paço a citar, “leitura amena e
portuguesa”.
Camilla
vive desde cedo com os tios, após a morte precoce dos pais, vítimas de
tuberculose. Paca é a sua ama de leite, uma adivinha, mestre em artes da
bruxaria, que a cria, a educa e que a acompanha ao longo da sua vida e a quem
Camilla considera como a sua verdadeira mãe.
Aos
doze anos, os tios comunicam-lhe que casará com um médico, Monsieur Seabra, de
pouco mais de quarenta anos e, de casamento marcado, Camilla apenas questiona
se pode levar consigo as suas bonecas.
Paca
ensina-lhe tudo o que Camilla tem de saber sobre o casamento, a puberdade e a
entrega ao marido, aconselhando-a a que, para ser feliz, deverá escutar o seu
sangue, abrir-se ao mistério e entregar-se ao prazer. O marido, entretanto,
aguarda pacientemente que ela se torne numa mulher.
Quando
Camilla faz 15 anos, o marido organiza um baile para a apresentar à sociedade.
Nesse baile, Camilla dança com André Sobral, a quem deixa elogiar, cortejar e
murmurar o desejo de um encontro no dia seguinte.
É
quando a vê nos braços de outro, que o marido se apercebe que já é uma mulher e
que lhe pertence.
Paca
prepara-a para a noite em que Emídio pretende ensiná-la, para que nunca se
esqueça, do que significa ser casada.
Mas
terá o seu envolvimento com André terminado, mesmo com o afastamento que se vai
impondo entre eles?
É
em Londres que Camilla é mãe pela primeira vez e que perde o marido.
Regressa
a Portugal para tentar recuperar a casa da Estrela, quando recebe uma carta a
mencionar as dívidas que o marido deixou em Lisboa.
Começa
a trabalhar como pianista para uma modista da época, uma tal Madame Armandine,
momento da vida de Camilla de que não se orgulha, mas que contribuiu para o seu
amadurecimento.
Volta
a casar, desta feita com Salomão, um engenheiro abastado, com quem também vive
um período de felicidade. Tem, entretanto, outro filho, desta vez de André.
Este
acontecimento acaba por levá-la a um divórcio.
Casa-se,
depois de alguns anos, com Alexandre, um antigo amigo da família, sogro do seu
filho mais velho, que lhe proporciona uma felicidade serena, um companheirismo,
cumplicidade e confiança, levando-a a prescindir da paixão.
Passo
a citar duas passagens nas quais Camilla resume bem o que significaram para ela
os seus casamentos e a forma como vivenciou as suas relações:
“Não
sei se conseguirei acabar de contar a minha vida, se é que ela já não se contou
a si própria. Mas pelo menos, gostaria de falar dos meus três casamentos porque
eles pautam a vivência de três mulheres diferentes que são todas eu. Poderia considerar
três ciclos que se interligam e se separam, se sobrepõem e se distinguem, que
entre si se criticam, se julgam e se perdoam: o ciclo do sonho, o ciclo do
corpo e o ciclo do coração. Espero serenamente o ciclo da alma”.
“Pensa-se
que uma mulher se deita com um homem sempre pelo mesmo motivo, mas não é assim.
Há mil razões para uma mulher receber um homem no seu corpo. Ao longo da minha
aventurosa vida deitei-me por obrigação, por paixão, por medo, por necessidade,
por amor ou por prazer mas nunca, como com o Alexandre, por ternura infinita,
por repouso secreto, por procura da paz.”
Célia Gil
O
livro de contos A Última Colina de Urbano Tavares Rodrigues é daqueles livros
que pedem para ser lidos. Realista e crítico, não deixa de conciliar a
intervenção social com um lirismo estonteante, bem como a realidade crua e dura
com o fantástico, o onírico e um raio de luz a acender os olhos da esperança.
A
abrir os contos, “Judas” é um conto que nos fala do confronto entre patrão e
funcionários, no qual o patrão tenta convencer Jesualdo a ser seu mediador para
com uma multidão em fúria. Jesualdo não se deixa subornar, nem mesmo quando é
chamado de Judas por outros funcionários. Acaba por regressar a casa levando apenas
na roupa as medalhas de sangue da derrota.
É
do meio dos escombros, quando um grupo de jovens tenta socorrer os sobreviventes,
após um sismo, que o narrador consegue ver um raio de esperança. Foi preciso um
sismo para que em “Um Dia na Vida”, acordassem estes conservadores do seu
ceticismo, para um empenho e fraternidade que o narrador pensara já não
existirem.
Em
“Aquém da Luz”, Jesualdo é um padre que cumpre os rituais de extrema-unção com
a mesma aparente dignidade de sempre, apesar de há muito, depois de vastas leituras
à margem da igreja, ter deixado de acreditar na religião e ter perdido a fé.
Cumpre o ritual com Adosinda, sua iniciadora nos prazeres do corpo; com o Dr.
Rego Cortês, um pecador que tentou violar a própria filha; uma mulher idosa
que, vítima de maus tratos por parte do marido, confessa que o matou para se
libertar. Sente-se dividido entre a repulsa e a solidariedade.
Nem
sempre “A Mais Bela do Baile”, título de outro dos contos, acaba por ficar com
o príncipe e vive feliz para sempre. Falena casa com um homem que lhe consome a
herança no Casino do Estoril e que foge para Las Vegas, deixando-a com dois
filhos. Nem sempre se aprende à primeira e Falena volta a envolver-se
emocionalmente, desta vez com um homem casado, que acaba por optar pela família
quando é descoberto pela mulher. O filho mais velho parte para a Alemanha em
busca de riqueza e Falena fica a viver com o filho mais novo, um falhado, que
não consegue arranjar emprego estável, vive às custas da mãe, deixa-se consumir
pelo álcool e acaba por morrer num acidente.
Estes
são apenas 4 dos 36 contos que compõem esta obra onde os nossos olhos descobrem
frases tão belas como:
“Estávamos
a meio da Primavera, o sol parecia latir nas paredes brancas e o seu peso
aquecia-me os ombros”
“Adosinda,
deitada de barriga para o ar, na cama baixa e um pouco descomposta, como um
cobertor de lã excessivo sobre as ruínas do seu corpo, ergue para Jerónimo uns
olhos implorativos”
“…a divina mãe floresta…é a grande mãe
universal, amantíssima consoladora, que por toda a parte se esconde e por vezes
se recolhe na claridade dos rios, na névoa que outras vezes palpita nas matas.
Ou nos lábios da própria terra gretada.”
“O
dia amanheceu triste, com aves naufragando na brancura do espaço e sinais de
ausência à minha volta”.
Entre
contos que evocam memórias alentejanas, celebram os jubilosos dias de abril,
trazem África e o desespero dos tempos coloniais, recordam Lisboa de outros
tempos, lembram praias de Raúl Brandão, Urbano também aborda temas intensos
como o nazismo, a Inquisição, o lesbianismo, a bruxaria, com um olhar atento, crítico,
simultaneamente perplexo, onde a luz e os escombros se encontram e permanece a
ideia de que a esperança se pode alcançar, ainda que seja necessário subir até
à “Ultima Colina”.
Célia Gil
Célia Gil
O Tempo
Entre Costuras é um romance arrebatador de Maria Dueñas, com uma narrativa
de ritmo imparável e que, apesar de extenso (624 páginas), se lê rapidamente,
porque prende o leitor logo desde as primeiras linhas.
Num
ambiente que contempla a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), somos convidados a conhecer a história de uma jovem
espanhola, Sira Quiroga, que trabalha na costura com a mãe, no ateliê da D.
Manuela, em Madrid. De casamento marcado, deixa-se envolver por Ramiro, um
charmoso vendedor de máquinas de escrever, deixando para trás o noivo. Em pouco
tempo, conhece o seu pai, Gonzalo Alvarado, um empresário de sucesso que
resolve assumir a filha e lhe dá uma avultada quantia de dinheiro e jóias.
Sira, na sua ingenuidade e cegueira de amor, confia tudo ao amante, que acaba
por convencê-la a abandonar Madrid e a mãe e a partir com ele para Marrocos.
Em
Tânger, depois de momentos envolventes, a relação amorosa começa a esmorecer e
Ramiro acaba por fugir com a herança de Sira, deixando-lhe apenas as dívidas. É
aqui que, quanto a mim, começa verdadeiramente a história de Sira. As pessoas
com que se cruza, depois deste momento, serão determinantes para o seu futuro.
Consegue provar que é uma grande costureira, à custa de situações em que acaba
por se ver envolvida e que constituem autênticas missões de espionagem.
Transforma-se numa mulher madura, segura de si, que pesponta a história ao
ritmo dos seus interesses e consoante as circunstâncias com que se vai
deparando.
Com
excelentes críticas por parte da imprensa, é um livro com mais de um milhão de
livros vendidos em Espanha.
Célia Gil
Sentia-se
exausto. Mais uma vez, naquela postura cansada, sentado num banco, com o tronco
a abalar-se nos joelhos, vergado pelo sentimento de derrota, pela frustração de
quem falha na educação da filha, sabendo-se sozinho, sozinho há demasiados dias
a fio, sentiu-se dominado por uma tempestade de lágrimas que o deixou encharcado, por um tufão de suspiros que lhe sorveu as poucas energias que
lhe restavam, numa vida que deixara de ter chão e céu.
Pai
e mãe, sem ninguém que lhe dissesse o caminho mais certo, as palavras ideais
(se as há), aquelas palavras que aquecem, que mudam o rumo dos acontecimentos e
criam uma bolha de ar em volta de qualquer tufão de emoções e onde apenas fica
o que conforta, o que abraça, Júlio sentiu-se à beira do abismo, dele separado
apenas pela sensação de dever, dele separado apenas por uma ínfima sensação de
dependência (se é que esta existia para além do que é o estritamente material).
Porventura, fora muito duro, exigindo que fosse sempre boa estudante, que lutasse pelo seu
futuro, que fizesse por si.
À
procura dos seus erros, na memória dos últimos acontecimentos, Júlio só
conseguia ouvir as palavras da filha a ferirem-lhe os ouvidos, deixando um rasto
de dor em direção ao coração. “Eu faço o que quero. Quem és tu para me impores
isto ou aquilo? Para me dares conselhos? Não vales nada. Não quero saber do que
dizes. Não és pai, não és nada. Para ti, sou um empecilho. Eu é que sei da
minha vida. Eu é que decido. E, se possível, o contrário daquilo que me dizes,
que nada vale.” E tantas outras palavras que os ouvidos de um pai varrem da memória. Isto, entre gritos insolentes, palavras que ferem menos do
que o olhar que as acompanha, um olhar de desprezo roçando o nojo, mais que uma
chapada, um escarro na cara.
Nessas
alturas, cai por terra tudo o que foi, os sacrifícios, o amor incondicional que
sempre deu à filha, o quanto trabalhou para que nada lhe faltasse, as horas a
passar a sua roupa, a limpar, sem lhe
pedir nada, para que ela não perdesse tempo e estudasse pelo seu futuro. Só
nunca tivera consciência de que nesse futuro, ela não o incluía.
Afastados,
meses sem se falarem, numa troca de olhares circunstanciais sem sentimento…
Sentado
naquele banco, sozinho, agora abraçado aos joelhos, encharcava-se na sua
tempestade de emoções. Sentia-se tão inútil, tão vazio… Errara na educação,
errara na vida…Errara!
Célia Gil
A
zona do interior, onde vivo, tem também, como em todo o meu país, paisagens
lindíssimas e de cortar a respiração! Partilho para que possam apreciar!
Monsanto
(Mons Sanctus) - Trata-se de um local muito antigo, onde se regista a presença
humana desde o paleolítico. Vestígios arqueológicos dão conta de um castro
lusitano e da ocupação romana no denominado campo de S. Lourenço, no sopé do
monte.
In http://www.aldeiashistoricasdeportugal.com/monsanto
Penha Garcia
Na
Beira Baixa, a poucos quilómetros de Espanha, uma povoação típica espraia-se
pela encosta da serra. A sua posição privilegiada de defesa terá sido um dos
motivos da fixação neste lugar de um povoado neolítico, mais tarde transformado
num castro lusitano e, depois, numa povoação romana. Mas não terá sido
menor a atração exercida durante séculos pela existência de ouro por explorar
no leito do rio Pônsul. Hoje, os principais atrativos para quem visita Penha
Garcia são, sem dúvida, a vista deslumbrante que rodeia a vila, a originalidade
do seu castelo, empoleirado no cimo da penha, e as marcas que a natureza e a
história deixaram neste lugar. Venha conhecer esta terra plena de lendas e
tradições, com todo o encanto da Beira Baixa.
As
muralhas de Penha Garcia
Construído,
possivelmente, no reinado de D. Sancho I para ajudar a proteger a fronteira
portuguesa das investidas de Leão, o castelo de Penha Garcia foi doado por D.
Dinis aos Templários mais de cem anos depois, regressando à posse da coroa no
século XVI, com a extinção das ordens.
Vale
a pena subir ao cimo da penha para percorrer as imponentes muralhas e observar
a magnífica paisagem que rodeia a povoação. As pedras contam-nos a lenda de
que, naquele lugar, vagueia ainda o fantasma do antigo alcaide do castelo, D.
Garcia. Depois de raptar a filha do governador de Monsanto, D. Branca, o nobre
terá sido capturado e condenado à morte. Mas os apelos de D. Branca por
misericórdia, valeram-lhe a redução da pena. Condenado a ficar sem um braço, D.
Garcia é ainda hoje conhecido por “o decepado”.
Icnofósseis
de Penha Garcia – as cobras pintadas
Se
o homem deixou a sua marca em Penha Garcia, o mesmo se pode dizer da natureza.
Um dos maiores tesouros da povoação encontra-se nas rochas quartzíticas com 490
milhões de anos. No tempo em que todos os continentes estavam unidos em torno
do Pólo Sul, os mares eram habitados por organismos invertebrados que se
deslocavam nos substratos arenoargilosos, deixando marcas. A essas marcas, que
ficaram preservadas nas rochas sedimentares e são visíveis ainda hoje em Penha
Garcia, o povo chama as cobras pintadas e os cientistas icnofósseis. E se as
gentes de Penha Garcia se habituaram há muito à sua presença, os investigadores
continuam a estudá-las, considerando-as um importantíssimo contributo para o
conhecimento científico de um passado com milhões de anos.
Coelho,
João Pinto (2017). Os Loucos da Rua Mazur.
Alfragide: Leya.
Neste
romance, João Pinto Coelho aborda a história de uma comunidade da “rua
Mazur”, situada na Polónia, uma sociedade que convivia pacatamente, não fazendo
prever a crueldade praticada pelos cristãos em relação aos judeus durante a II
Guerra Mundial. O convívio inicial é substituído, de forma perversa, pela denúncia
e antissemitismo extremistas, que acontecia entre os polacos, sem que fossem
necessários campos de concentração para se viver uma situação infernal de fragmentação
da sociedade e de execução.
Uma
narrativa que nos prende desde o início e para a qual é necessária alguma
concentração, uma vez que vai mudando o espaço, o tempo da ação e os próprios
acontecimentos se vão intercalando.
Tudo
começa com dois velhos, Yankel, cego, dono de uma livraria em Paris, que só
aceitava como amantes quem se transformasse nos seus olhos e lhe prometesse “maratonas
de leitura” e Eryk, amigo de infância de Yankel, que o procura para escrever um
livro, depois de anos a fio a escrever supostos ensaios do único que queria
escrever. Para tal, considera que precisa da ajuda de Yankel que, apesar de
cego, teve sempre uma visão mais ampla de todos os momentos e acontecimentos.
Apresenta-se na livraria com a sua mulher, Vivianne, a fria editora de Eryk.
Mas quem seria mesmo esta Vivianne? EryK está doente e não quer morrer sem se
redimir com o livro que quer escrever.
A
narrativa, a partir deste momento, passa a ser a duas vozes, a de Yankel, que
fala e a de Eryk, que escreve, dando dinamismo e diferentes perspetivas de cada
acontecimento.
Eryk decide começar este romance pela inocência e é assim que conhecemos a história
de Yankel, Eryk e Shionka, na adolescência. Um triângulo perturbador de amizade
e amor. O primeiro, cego e judeu; o segundo, cristão e maquiavélico e a última,
uma bela jovem convenientemente muda. E é neste ambiente inocente que começa a
ser brilhantemente abordada a história de uma comunidade polaca de shtetl, uma pequena cidade no leste da europa,
de cristãos e judeus, de sãos e loucos, que se fragmenta com a invasão de
alemães e russos, uma invasão cruel que haveria de a dizimar.
“Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um
judeu, um cristão e um livro por escrever.”
Os Loucos da Rua
Mazur, prémio
Leya 2017, é, sem dúvida, um livro marcante que aconselho vivamente à leitura.
Célia Gil
Sobre mim
Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.
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