Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Ward, Catriona (2021). A Última Casa em Needless Street. Porto: Porto Editora.

Tradutor: Miguel Marques da Silva

Nº de páginas: 336

Início da leitura: 22/11/2021

Fim da leitura: 27/11/2021

SINOPSE

Não vai acreditar no que se esconde na última casa em Needless Street…

Esta é a história de Ted, que vive com a filha Lauren e a gata Olívia, numa casa perfeitamente banal, ao fundo de uma rua igualmente banal.

Esta é a história de um assassino. De uma criança roubada. De vingança.

Tudo isto é verdade. E quase tudo isto é mentira.

Pode acreditar que sabe o que se esconde na última casa em Needless Street. Pode até achar que já ouviu esta história em algum lugar.

Mas, na última casa em Needless Street, nada é o que parece.

OPINIÃO

Desde o início que este livro me cativou. E, ainda que parecesse um livro cheio de pontas soltas, senti-me entusiasmada com a leitura a tal ponto que não me apetecia pousá-lo até o acabar. Tudo o que pudesse ponderar num determinado momento da história sobre o que poderia ter acontecido, era deitado por terra no capítulo seguinte, o que foi aguçando ainda mais a minha curiosidade. É um livro que nos espicaça, que não pode ser lido lentamente, correndo-se o risco de não o desfrutar plenamente. Mas deve ser lido, isso sim, com muita atenção! O facto de cada capítulo ser narrado por uma personagem diferente, também nos faz sentir que há uma série de fios soltos. Fios esses que, de forma engenhosa, se enlaçam já na reta final do livro. Bem escrito, com um ritmo fluidíssimo e empolgante em que o facto de nunca se dizer tudo ou de quase nada se dizer, nos capta ainda mais e nos prende irremediavelmente até ao fim da história. E, mesmo no fim, fiquei estarrecida com a forma como termina, com a explicação para tudo o que foi surgindo de forma engenhosa. É um livro que nos choca, nos amedronta, nos surpreende pelo inesperado, nos faz pensar que não conhecemos ninguém, impregnado de laivos góticos, de terror, de mistério, de suspense. É, com efeito, um thriller psicológico que foge ao comum dos thrillers, que cada vez surpreendem menos.

Confesso que, inicialmente, me senti algo perdida perante este Ted, com perturbações mentais e que prepara engenhosamente o que vai dizer ao seu terapeuta, procurando induzi-lo em erro. Depois, surge-nos uma gata que fala e que é uma devota leitora da Bíblia, acredita num ser superior e tem em si um lado negro. Finalmente, Lauren, supostamente uma filha adolescente de Ted, que vai passar alguns dias com o pai, muito problemática e com um comportamento nada recomendável. São personagens que nos deixam desconfortáveis, mas que penetram pelas nossas fibras nervosas pela forma como nos fazem viver intensamente a narrativa.

E mais não posso dizer! Apenas digo: leiam!


Louth, Nick (2015). Febre. Lisboa: Jacarandá.

Tradutora: Helena Serrano

Nº de páginas: 376

Início da leitura: 14/11/2021

Fim da leitura: 19/11/2021

SINOPSE

Amanhã devia ser o maior dia da vida de Erica Stroud-Jones. Daqui a 24 horas, esta brilhante jovem cientista irá apresentar o seu trabalho secreto numa conferência em Amesterdão - os resultados de uma investigação que promete revolucionar a luta contra uma doença tropical mortífera. Milhões de vidas poderão ser salvas; o Prémio Nobel adivinha-se.

À espera de a ver estão céticos e rivais, admiradores e inimigos. A atenção de Erica estará voltada para o escultor Max Carver, o seu novo namorado, a quem irá dedicar o seu êxito.

Mas o amanhã não chega a acontecer.

Erica desaparece durante a noite. Max, desesperado e assustado, começa a procurá-la, entrando num submundo repleto de crueldade e enganos. Mas até ele fica chocado com o terror que encontra no coração da mulher que tenta salvar.

OPINIÃO

Neste livro, vão alternando três narrativas, a de Erica e Max na atualidade, no momento em que Erica se prepara para apresentar, em público, os resultados de uma investigação que permitiria combater uma mortífera doença tropical; a de Erica e Paul, em 1992, escrita em forma de diário – o Diário de Erica; a do momento em que John Davies abre, numa viagem de avião, um tupperware aparentemente vazio, sem nada que fizesse prever um potencial perigo, que trará consequências terríveis. Max seguia nesse voo; é a partir daqui que surge uma suposta variante da Malária, uma febre tropical difícil de explicar e extremamente contagiosa.

Pensava eu que o momento do diário acalmasse o ritmo frenético da narrativa, mas estava enganada. A ação é bastante rápida, narrada de forma cinematográfica e empolgante.

Logo no início, quando já está tudo preparado para ouvir a conferência de Erica, esta desaparece. Max, o namorado, que a acompanhava, empreende todos os esforços para a encontrar.

É muito fácil embrenharmo-nos na história. Este é um thriller que se lê num ápice e tive pena de não ter tido mais tempo para o ler mais rápido. Foi com esforço que fui pousando o livro, impedida de continuar pela azáfama profissional, também ela tão ou mais frenética que a ação do livro.

Bem escrito, inteligente, é um thriller muito bem conseguido.

Aconselho a leitura.

Nesbø, Jo (2021). O Reino. Alfragide: Publicações Dom Quixote

Nº de páginas: 616

Tradutor: Ricardo Gonçalves

Início da leitura: 01/11/2021

Fim da leitura: 13/11/2021

SINOPSE

Quando os pais de Roy e Carl morrem inesperadamente, Roy tem de assumir o papel de protetor do impulsivo irmão mais novo. Porém, quando Carl decide partir para percorrer o mundo em busca de sucesso, Roy fica para trás na pacata vila, satisfeito com a sua vida de mecânico e proprietário da estação de serviço local.

Alguns anos depois, Carl regressa a casa com Shannon, a sua carismática mulher arquiteta. Chegam cheios de planos e entusiasmo para construírem um hotel de luxo na propriedade da família. Carl não quer fazer ricos só ele e o irmão, mas toda a vila.

E é apenas uma questão de tempo até que um triunfante regresso a casa desencadeie uma série de acontecimentos que ameaçam tudo o que Roy mais ama, e os perturbantes segredos de família, há muito enterrados, comecem a vir ao de cima…

OPINIÃO

Caso procurem neste livro a dinâmica de um thriller frenético, esqueçam! Escolheram o livro errado!

Este livro é um policial/thriller que acaba por ser muito mais do que um simples caso a resolver. Contrariamente a muitos policiais em que, no fim, dizemos “foi mais do mesmo”, este livro teve a capacidade de me surpreender.

A escolha desta família, toda ela problemática (está-lhes nos génes), a forma lenta como nos vão sendo apresentados os lugares, as pessoas, podem cansar quem aprecia uma ação constante. Porém, eu apreciei esses momentos em que se para um pouco para refletir. E são essas reflexões, especialmente do protagonista anti-herói Roy que nos fazem admirar um vilão, o que nem sempre acontece. Este é um vilão contador de histórias e, em alguns momentos, um filósofo à procura de respostas para a essência do ser humano, para as suas dúvidas existenciais. É um vilão com um fundo bom que o leva a determinadas atitudes reprováveis. É um defensor da família, porque esta “é o primeiro, para o bem e para o mal. À frente do resto na humanidade”. Mas nem sempre a família justifica que se suje as mãos por ela.

Por incrível que pareça, nem sempre o que parece é e há personagens que pareciam tão inofensivas, mas que se vão despir do anjo-farsa e surpreender o próprio Roy. Porque nada é verdadeiramente o que parece. Porque, por mais que ele tenha ponderado todos os pormenores dos seus crimes, a maior parte para proteger o irmão Carl, até ele acaba por ser surpreendido.

A forma como a personagem vai pensando e agindo, é-nos apresentada com tanto pormenor, que entramos no seu íntimo e parece que a conhecemos de há longa data.

 É também uma análise à mente de um homem que, ou por circunstâncias imponderadas da vida ou por um passado de violência que lhe ficou na pele, ou por ambas, se torna num perigoso assassino.

A partir de meio do livro, a ação começa a ser mais dinâmica, se bem que as reflexões descritivas façam parte da história e da maneira de ser das personagens. Atrever-me-ia a terminar, referindo que “violência gera violência”, acabando por ser uma bola de neve sem fim.

O único senão deste livro, é a falta de revisão, o que tem sido um problema em termos editoriais. Não é concebível passarem determinados erros e gralhas.

Recomendo a leitura deste livro para quem gosta de ler com calma e refletir sobre o que lê!

Charles, Janet Skeslien (2021). A Biblioteca de Paris. Lisboa: Suma das Letras.

Nº de páginas: 448

Tradutora: Ester Cortegano

Início da leitura: 01/11/2021

Fim da leitura: 06/11/2021

SINOPSE

Paris, 1939. A jovem Odile Souchet tem tudo: um bonito namorado polícia e um emprego de sonho na Biblioteca Americana em Paris. No entanto, quando a guerra estoura e os nazis marcham sobre a cidade, Odile corre o risco de perder tudo o que é importante para ela, incluindo a sua amada biblioteca. Porque os livros contêm palavras proibidas e ideias que devem ser destruídas, sabe que, nos momentos difíceis, os templos da cultura estão em perigo.

Odile não pode permitir que isso aconteça: ela deve salvar essas páginas, para que possam alimentar a mente de quem chegar depois. Com os seus companheiros, junta-se à Resistência com as melhores armas que possui: os livros. Coloca o centro à disposição dos judeus: expulsos das suas casas, sentem-se seguros entre os livros, e Odile defendê-los-á, custe o que custar. Contudo, quando a guerra, finalmente, termina, em vez da liberdade, Odile sente o gosto amargo de uma indescritível traição.

Montana, 1983: Lily é uma adolescente solitária em busca de aventura. A sua velha vizinha solitária desperta-lhe o interesse. Conforme Lily vai sabendo mais sobre o passado misterioso da vizinha, descobre que partilham o amor pela linguagem, os mesmos anseios e o mesmo ciúme intenso, sem suspeitar que um obscuro segredo do passado as liga.

Baseada na verdadeira saga dos heroicos bibliotecários da Biblioteca Americana em Paris durante a Segunda Guerra Mundial, esta é uma inesquecível história de amor, amizade, família e sobre o poder da literatura para nos unir. A Biblioteca de Paris mostra que o heroísmo extraordinário pode, por vezes, ser encontrado nos lugares mais silenciosos.

OPINIÃO

Este é um livro que, como diz a autora na Nota final, “baseado em pessoas e eventos reais”, tendo sido alguns elementos ficcionados. E é o próprio espaço, a Biblioteca Americana de Paris (BAP), que chama, desde logo, a atenção, não apenas no título, mas no novelo de histórias que a autora vai desenrolando e oferecendo aos leitores.

Duas personagens, duas narradoras, duas épocas diferentes, que se vão alternando neste romance histórico. Odile vive em Paris, em 1939 e Lily, em Froid, uma pequena cidade no estado norte-americano de Montana, em 1983.

Odile consegue emprego na referida biblioteca. Faz o que gosta e é feliz. Entre os restantes funcionários da biblioteca e seus utentes, Odile sente-se realizada. Fala-nos dos seus autores preferidos, citando algumas passagens que mais a marcaram, da forte personalidade de Miss Reeder, a famosa diretora da biblioteca, que “escrevia artigos para os jornais e brilhava na rádio, onde convidava toda a gente a ir à biblioteca…Declarava categoricamente que havia ali lugar para toda a gente.” Era na BAP que se sentia feliz e mesmo que se sentisse em baixo “havia sempre alguém na BAP que conseguia” ampará-la. “A biblioteca era mais do que apenas tijolo e livros; a sua argamassa era constituída por pessoas que cuidavam umas das outras.”

Mas tudo muda quando a França se vê invadida pelos soldados alemães, na Segunda Guerra Mundial. O paraíso pode facilmente transformar-se no inferno.

Lily é uma adolescente de Froid, intrigada com os segredos que Odile, a Noiva de Guerra, sua vizinha, deveria esconder e fascinada com a origem francesa dela, acaba por se aproximar dela sob o pretexto de a entrevistar. É a partir daqui que as vidas delas se cruzam.

Gostei muito deste romance, sobretudo do trabalho efetuado nesta biblioteca que, mesmo quando muitos livros foram proibidos, mesmo quando proibiram os judeus de a frequentar, continuaram a fazer um digno trabalho comunitário, levando, às escondidas e pondo em risco as próprias vidas, os livros aos seus queridos utentes.

Um livro bem escrito, que nos cativa e nos absorve.

Recomendo a leitura!

Garcia, Maria Cecília (2020). Estranha Forma de Vida. Lisboa: Edições Vieira da Silva.

Nº de páginas: 148

Início da leitura: 30/10/2021

Fim da leitura: 31/10/2021

SINOPSE

«Eu era teimosa e alegre, tinha uma grande capacidade de me abstrair e de apaziguar o sofrimento.

Iria resistir, qual erva daninha que, depois de espezinhada, teima em renascer.

A vida não era um oceano pacífico e, para sobreviver, decidi que havia de ser feliz.

Sabias que havia dentro de mim um ser livre e que nem tu, nem ninguém, me roubaria essa liberdade.

No entanto, vacilei muitas vezes, não imaginas quantas vezes quis desistir. Nos momentos de angústia, olhava-me ao espelho, esbofeteava os pensamentos tristes e procurava de novo o brilho dos meus olhos.

Era isso o que te frustrava, saber que, depois de tudo, depois de pensares que me tinhas anulado, eu renascia livre como a Fénix.

Mas ninguém é mais irremediavelmente escravizado, dizia Goethe, do que aqueles que acreditam que são livres.

Eu precisava de ser feliz, e se a felicidade não existisse, inventava-a.

Agora que penso bem, era uma espécie de loucura!»

OPINIÃO

Este é um livro que deve ser lido, por todos, em especial pelos homens retratados neste homem a quem a narradora se dirige.

Como é que uma mulher independente, de 33 anos, que preza a sua liberdade, cujo sonho não passa pelo casamento, antes pelos estudos universitários, se deixa enredar numa relação de posse, de violência e de anulação do ser? Há explicações para isso, até porque, quem está do lado de fora, acha que se pode dar o direito de julgar.

E, apesar de os indícios estarem todos lá, há a paixão destes dois seres que “estacionaram os corpos nas traseiras do Jardim da Cerveja”. Uma paixão que ofusca a realidade, uma obsessão que, mesmo depois de tudo, leva esta personagem feminina, a calar-se e a anular-se.

É importante que se reflita sobre estas temáticas. A própria sociedade não ajuda as mulheres vítimas de violência doméstica, desculpabilizando os agressores, ignorando os pedidos de ajuda das vítimas e encarando de forma demasiado ligeira estas realidades. Sim, realidades. Há muitas mulheres que se devem rever nesta personagem e, mesmo que não chegue ao grau de violência a que chegou este homem, é necessário que ganhem força para se libertarem destas relações, que se tornem independentes, que não permitam estar sob a alçada destes pseudo “donos”, que levantem sempre a cabeça e encarem este problema que, se não as levar à morte, pode levar à loucura ou a um esvaziamento do ser, a esta morte “de tristeza”.

Gostei também da forma como Maria Cecília escreve, esta forma direta, sem deixar de revelar preocupação estética.

Gratz, Alan (2019). Refugiado. Alfragide: Edições ASA.

Nº de páginas: 320

Tradutora: Marta Pinho

Início da Leitura: 22/10/2021

Fim da Leitura: 30/10/2021

SINOPSE

Três crianças diferentes. Uma missão em comum: FUGIR!
JOSEF é um rapaz judeu que vive na Alemanha nazi, na década de 1930. Com a crescente ameaça dos campos de concentração, ele e a sua família embarcam num navio rumo ao outro lado do mundo…

ISABEL é uma rapariga cubana em 1994. Com motins e distúrbios a proliferarem no seu país, ela e a sua família partem num bote, esperando encontrar segurança na América…
MAHMOUD é um rapaz sírio em 2015. Com a sua pátria dilacerada pela violência e destruição, ele e a sua família encetam uma longa viagem em direção à Europa…

Estas três crianças protagonizam angustiantes viagens em busca de refúgio. Vão todas deparar-se com perigos inimagináveis - desde afogamentos a bombardeamentos e traições. Mas há sempre a esperança do amanhã. E apesar de Josef, Isabel e Mahmoud estarem separados por continentes e por décadas, factos chocantes acabam por ligar as suas histórias no final.

OPINIÃO

Este é daqueles livros que teria devorado em dois dias, não fosse ter de o ler com toda a atenção e ir fazendo perguntas para a fase escolar do Concurso Nacional de Leitura. Foi um livro em que me embrenhei, que me absorveu e me sugou para dentro dele. É impossível ficar indiferente a estas histórias que, apesar de ficcionais, como diz o autor na Nota Final do livro, partem de situações, contextos e histórias reais.

Cada uma à sua maneira, em épocas e contextos históricos muito distantes umas das outras, estas três crianças cativam-nos pela sua coragem, espírito de resiliência e luta pela sobrevivência. São preocupadas com a família, têm princípios e valores, em contextos tão cruéis e revoltantes, que é impossível não ficar rendida.

Josef, o rapaz Judeu, um dos passageiros do St. Louis, cujo pai estivera no campo de concentração de Duchau, é um menino atento, preocupado com a família.

Isabel, a cubana apaixonada por música, revela-se tão corajosa e, ao mesmo tempo, tão sensível, que é impossível não ficar comovido. Segundo Isabel, a sua vida era “uma sinfonia, com diversos andamentos e complexas formas musicais.”

Mahmoud, o rapaz sírio, vive no limite das suas forças, mas acaba por se impor, revelando uma enorme coragem, e deixar de ser invisível.

Três crianças que revelam uma maturidade que não é a que se espera na idade deles, em que deveriam andar a brincar despreocupadamente, mas que é superior à de muitos adultos.

Penso que todos deviam ler este livro. Confrontar-se e conhecer esta realidade dura, este viver no limiar da força humana física e psicológica. Provavelmente, não se reclamariam por problemas de somenos importância.

Recomendo vivamente!

Novo, Isabel Rio (2015). Rio do Esquecimento. Alfragide: Publicações Dom Quixote



Nº de páginas: 160

Início da leitura: 18/10/2021

Fim da leitura: 21/10/2021

SINOPSE

Inverno de 1864. Sentindo a morte a aproximar-se, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no velho burgo nortenho, no palacete conhecido como Casa das Camélias, com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia e torná-la sua herdeira. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Maria Ema Antunes, prima de Nicolau e governanta da Casa das Camélias, hábil e amargurada com a sua vida, urdirá entre todos uma teia de crimes, segredos e vinganças.
Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, Rio do Esquecimento descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e assinala o regresso à ficção portuguesa de uma escrita elegante que consegue tornar transparente a sua insuspeitada espessura.

OPINIÃO

Parti para a leitura deste romance com altas expetativas, uma vez que adorei o livro A Febre das Almas Sensíveis da autora. As minhas expetativas deviam estar demasiado elevadas, porque gostei muito mais do livro que li anteriormente.

Apesar de ter apreciado a contextualização histórica e a descrição de espaços do Porto do século XIX, as personagens não me cativaram. Achei-as algo insípidas, quase maquinais nos comportamentos e ações levadas a cabo. Muito desprovidas de sentimento. Como aquelas músicas que são lindíssimas, mas precisamos que o cantor faça passar a emoção ao ouvinte, também aqui não consegui sentir a emoção que a premissa prometia. Faltou a força narrativa capaz de nos confrontar com as virtudes e defeitos das personagens, ao ponto de sentirmos algo por elas, nem que fosse raiva, admiração, repugnância…algum sentimento, que não chegou, pelo menos a mim.

Gosto, porém, da forma cuidada como Isabel Rio Novo escreve. Talvez os dois anos entre este livro e A Febre das Almas Sensíveis, tenham feito com que ganhasse maturidade literária e aprimorasse a forma como nos transmite os acontecimentos. Fico a aguardar novos livros para o comprovar.

Tokarczuk, Olga (2021). Casa de Dia, Casa de Noite. Amadora: Cavalo de Ferro.

Tradutor: Teresa Fernandes Swiatkiewicz

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 13/10/2021

Fim da leitura: 17/10/2021

SINOPSE

Casa de Dia, Casa de Noite, primeiro romance-constelação de Olga Tokarczuk, foi vencedor do Prémio Günter Grass e do Prémio Nike ainda antes de a autora receber o Prémio Nobel.

A vida na pequena cidade de Nowa Ruda, situada no coração da Europa, num território de passagem e de fronteiras instáveis, onde povos, guerras e regimes se sucedem, não é tão simples como aparenta ser. Os seus mais recentes habitantes polacos ocuparam as casas deixadas vazias pelos alemães em fuga no final da guerra, e nos bosques em redor há muitos segredos que se escondem debaixo da terra.

Com a ajuda de Marta, a sua velha e sábia vizinha, a narradora deste romance, recém-chegada à cidade, vai reunindo as histórias surpreendentes deste lugar, compondo um novelo de mitos, sonhos, episódios anedóticos, que muitas vezes transcendem o visível e o racional, misturando passado e presente.

OPINIÃO

Olga Tokarczuk tem, de facto, um estilo de escrita muito peculiar. Consegue, através de uma mistura de géneros, criar um género muito próprio. É um romance ficcional, onde se cruza a fantasia com uma espécie de gótico, de grande originalidade e misticismo. São-nos contadas várias histórias, da pequena cidade de Nowa Ruda, do bolor, da humidade, da ferrugem, do apodrecimento, da aspereza e da inflexibilidade que vão dominando a cidade. Uma cidade, por isso mesmo, enigmática. Desde histórias sobre habitantes da aldeia, como a da Santa, cujo pai rejeitou como filha, por ser mulher e que se terá transformado em homem, à história do monge que escreveu sobre a Santa e que se debateu com dúvidas de género, a sonhos quase dispersos, réstias de loucura, mitos…  Igualmente enigmáticas são as personagens. A narradora, uma observadora que nos vai narrando as histórias e descrevendo o espaço e a vida dos que aí habitam, tem uma especial curiosidade em relação à vizinha, com quem inicia uma amizade, também ela estranha. Esta idosa sábia, a Marta, confecionava perucas com mechas de cabelos, que um cabeleireiro famoso lhe oferecera, guardando-as numa arca, na sala. A narradora observava Marta, nos seus momentos de silêncio, imaginando inclusive de que forma a morte poderia entrar por ela.

As descrições são detalhadas, diretas, frias; no fundo, são o reflexo da velhice que vai dominando as personagens.

E este olhar detalhado vai-se dando conta das contradições entre a primavera e o inverno, a juventude e a velhice, o dia e a noite, o calor e o frio, a vida e a morte, não apenas percetível na natureza, mas também nas casas e nas pessoas, que “por dentro”, afinal, “são construídas como as casas – têm escadarias, entradas espaçosas, vestíbulos sempre mal iluminados que tornam difícil contar as portas para os quartos…”. As pessoas são como “casas de dia”, na juventude, na primavera, no calor e são “casas de noite” na velhice, no inverno, no frio.

Um livro que vale a pena ler!

Bennett, Brit (2021). A Outra Metade. Lisboa: Alfaguara Portugal.

Tradução: Tânia Ganho

Início da leitura: 08/10/2021

Fim da leitura: 12/10/2021

SINOPSE

As gémeas Stella e Desiree Vignes, tão idênticas de feições quanto diferentes de feitio, nasceram para contrariar a profecia.

Geração após geração, a comunidade negra desta pequena localidade, no Estado sulista de Luisiana, esforça-se por aclarar o tom da sua pele, favorecendo os casamentos mistos. Desiree e Stella são disso um bom exemplo, com a sua pele «cor de areia húmida», olhos castanho-avelã e cabelo ondulado. Mas a aparência não basta para as livrar do estigma, e acabam por assistir à morte violenta do pai, à humilhação da mãe depois disso.

Aos dezasseis anos, escolhem fugir juntas da terra sufocante. Pretendem escapar ao seu sangue e libertar o seu futuro. Mas a fuga para Nova Orleães acaba por ditar o afastamento das irmãs, até então inseparáveis.

Catorze anos mais tarde, Desiree volta à casa materna, arrastando pelas ruas poeirentas da terra uma filha de pele «negra como o alcatrão», que atrai todos os olhares do lugarejo retrógrado. Stella, por seu lado, tem a vida construída numa mentira: vive na Califórnia, faz-se passar por branca, e o marido nada sabe do seu passado.

Apesar de tantos quilómetros e tantas mentiras a separá-las, os destinos das gémeas estão inevitavelmente entrelaçados. E voltarão a cruzar-se, porque é impossível renegar a metade que nos pertence.

Na saga desta família que atravessa quatro décadas e vários Estados, Brit Bennett cria uma história de apelo universal e intemporal. Não se detendo no inevitável tema central da raça e da identidade, A Outra Metade reflete sobre o peso do passado no presente, pondera as consequências e os limites da reinvenção pessoal e oferece uma meditação poderosa sobre a família e a liberdade individual.

OPINIÃO

Que livro maravilhoso! Muito bem escrito e com uma história sublime!

Aborda a temática do racismo, mas de uma forma diferente, e, ainda que haja muitos autores que tenham escrito sobre esta mesma temática, a forma como Bennett o fez surpreende, comove e deixa-nos completamente rendidos. Vai muito para além do racismo dos brancos em relação aos negros, fala-nos do racismo entre os próprios negros, da negação da cor.

É a história de duas irmãs gémeas, de pele “cor de areia húmida”, que vivem numa localidade ficcional localizada no Estado do Luisiana. Uma localidade marcada pelo racismo ao ponto de considerarem que as jovens não se deviam casar com alguém de cor escura, de forma a que, com o tempo, conseguissem que a comunidade local fosse aclarando cada vez mais o seu tom de pele. Apesar de Stella e Desiree terem já uma cor mais clara, acabam por assistir à morte cruel do pai e à humilhação da mãe, o que as marca para toda a vida. Aos 16 anos, decidem fugir juntas para Nova Orleães. A partir daqui, temos um afastamento entre elas. Apesar de fisicamente semelhantes, têm maneiras de ser e pensar diferentes, o que leva Stella a decidir seguir a sua vida, longe da irmã, fazendo-se passar por branca e compactuando com o próprio ambiente racista que vai encontrar. Não é fácil perceber, mas também não deve julgar-se de ânimo leve. Tudo o que a personagem passou até aqui e o facto de poder muito bem passar por branca, faz com que se reinvente. Mas até que ponto ela o consegue? Pode apagar-se assim o passado? Até que ponto se consegue edificar uma vida, um seio familiar feliz com uma vida edificada em mentiras? É o que vos convido a tentar responder com a leitura deste livro de que é tão fácil gostar e tão difícil esquecer!

Adichie, Chimamanda Ngozi (2009). A Coisa À Volta do Teu Pescoço. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 224

Tradução: Ana Saldanha

Início da leitura: 04/10/2021

Fim da leitura: 07/10/2021

SINOPSE

Depois de Meio Sol Amarelo (Orange Prize 2007) e A Cor do Hibisco (Commonwealth Writers’ Prize 2005), Chimamanda Ngozi Adichie regressa com doze histórias protagonizadas por heroínas memoráveis. Divididas entre dois continentes - África e América -, estas mulheres lutam por um lugar e uma identidade no mundo moderno, mas também pela preservação dos valores da sua cultura de origem. Quer vivam no inferno de um país como a Nigéria ou num subúrbio aparentemente calmo dos Estados Unidos, elas não têm uma vida fácil. As ameaças que enfrentam podem ter origem na guerrilha ou no funcionamento de um forno microondas mas os seus dilemas contêm toda a história de um continente.

OPINIÃO

Este é um livro de contos e, em cada conto, as personagens destacam-se pelo seu caráter. São histórias de dois continentes, África e América, que nos mostram que, em qualquer dos continentes, há vítimas de injustiças e de discriminação. Estas são personagens que demonstram bem todas as humilhações, o sofrimento, as dificuldades de integração, a solidão e o abandono que marcaram as suas vidas.

A forma como Adichie escreve é, apesar de direta e dura, quase poética. E, ainda que não seja um livro de fácil leitura, é um livro que nos prende a cada história e que nos deixa com água na boca cada vez que termina uma e começa outra, pois queríamos mais. Cada uma destas personagens dava um romance, tal a riqueza da narrativa, a força da verosimilhança com a própria realidade, que choca, precisamente porque se sabe real. É um livro para refletir!

Recomendo a leitura.

Bradbury, Ray (2003). Fahrenheit 451. Porto: Colecção Mil Folhas.



Tradução: Mário Henrique Leiria

Nº de páginas: 162

Início da leitura: 03/10/2021

Fim da leitura: 03/10/2021

SINOPSE

O sistema era simples. Toda a gente compreendia. Os livros deviam ser queimados, juntamente com as casas onde estavam escondidos...

Guy Montag era um bombeiro cuja tarefa consistia em atear fogos, e gostava do seu trabalho. Era bombeiro há dez anos e nunca questionara o prazer das corridas à meia-noite nem a alegria de ver páginas consumidas pelas chamas... Nunca questionara nada até conhecer uma rapariga de dezassete anos que lhe falou de um passado em que as pessoas não tinham medo. E depois conheceu um professor que lhe falou de um futuro em que as pessoas podiam pensar. E Guy Montag apercebeu-se subitamente daquilo que tinha de fazer...

De implicações assustadoras, a forma como reconhecemos o nosso mundo naquele que é retratado em Fahrenheit 451 é impressionante.

OPINIÃO

Esta é uma distopia desconcertante e que devia ser lida por todos, em especial pelos mais jovens, pelo facto de levantar muitas questões atuais e pertinentes.

O mundo surge comandado por um governo com leis muito peculiares, que mudam a forma de agir, de pensar e de viver da sociedade. As pessoas são comandadas pela televisão, são-lhes apresentadas as ideias de forma normativa e não é instigado o pensamento, a reflexão, pois esse pode corromper as pessoas. Estas submetem-se a um processo de anulação, tornando-se todas iguais, cinzentas, como robôs desinteressantes, sendo que até a sua felicidade é pura fachada. Num mundo assim, como é evidente, os livros não podem existir, porque os livros suscitam dúvidas, criam pensamentos, levantam problemáticas. Os livros tornam as pessoas livres para pensar, questionar, duvidar e ser.

Os bombeiros, neste novo mundo, não apagam fogos. Muito pelo contrário, provocam incêndios, queimando os livros (e até as casas e as pessoas abolicionistas do sistema).

Há, porém, um bombeiro, Montag, que, confrontado por uma jovem com a questão “És feliz?”, fica incomodado, a ponderar se não estarão a tornar-se fantoches sociais, sem vida própria, completamente vazios, ao ponto de se tentarem suicidar (como a sua esposa), de as conversas girarem em torno de ideias feitas e pré-concebidas, de  considerarem a velocidade um anti-stress, de viverem numa aparência que esconde o medo que lhes perpassa sempre que alguma regra seja quebrada ou posta em causa.

Será Montag capaz de salvar os seus livros? Haverá outra forma de salvar os livros? O autor encontrou essa outra forma, de uma maneira também muito criativa. Leiam! Não se vão arrepender! Grande livro!  

Kidd, Sue Monk (2015). A Invenção das Asas. S. Pedro do Estoril: Chá das Cinco.

Nº de páginas: 416

Tradutora: Fernanda Semedo

Início da leitura: 30/09/2021

Fim da leitura: 02/10/2021

SINOPSE

Hetty, uma escrava do início do século XIX, sonha com uma vida para lá das paredes sufocantes da opulenta mansão Grimké.

Sarah, a filha dos Grimké, desde cedo que quer fazer algo pelo mundo, mas é sufocada pelos limites rígidos impostos às mulheres.

Tudo tem início quando Sarah faz onze anos e lhe dão Hetty, um ano mais nova, para ser sua aia. Nas décadas seguintes, cada uma à sua maneira, as jovens lutam por liberdade e independência. Moldando o destino uma da outra, vivem uma intensa relação de amizade marcada pela culpa, rebeldia, separação, os caminhos ínvios do amor e também pelo nascimento do movimento abolicionista que mudará as suas vidas para sempre. Será que a religião, a sociedade e a família podem enfrentar os sonhos de duas jovens?

Inspirada pela figura histórica de Sarah Grimké, Sue Monk Kidd transcende o registo histórico para nos oferecer um testemunho deslumbrante e poderoso da luta das mulheres e dos escravos em nome da liberdade. A Invenção das Asas é um triunfo da arte de contar histórias, abordando um tema sensível e atual, de uma forma honesta e poética.

OPINIÃO

Este é o segundo livro que leio da autora e, mais uma vez, não me desiludiu. Gosto da forma como escreve, pois consegue imprimir uma certa doçura a uma história de vida dura e que mexe intimamente com o leitor.

Partindo de acontecimentos históricos reais, que envolveram uma grande pesquisa por parte da autora, esta consegue transformá-los, ficcioná-los, de uma forma impressionante.

Inspirou-se na vida das irmãs Sarah e Angelina Grimké, apresentando-as como personagens admiráveis, uma vez que nasceram e foram criadas no seio de uma família aristocrata, que tinha e torturava os seus escravos e, ainda assim, lutaram, de forma bastante interventiva, contra a escravatura, a igualdade de género, o ostracismo, os valores proclamados pela Igreja, enfrentando e afrontando toda uma sociedade fechada no seu egoísmo, censura, hostilidade e violência.

Apesar de ficcionar a história destas grandes mulheres, a autora permaneceu fiel aos princípios por que elas se debateram.

Sentiu, porém, necessidade, de recriar a outra parte: a dos escravos. E fê-lo de forma sublime. Handful e a mãe são personagens que nos marcam. A colcha feita pela Charlotte, mauma de Handful, retrata toda a sua vida. Cada quadrado corresponde a um momento da sua vida. A ideia da colcha foi inspirada nas colchas de uma escrava que usou a técnica da aplicação africana para contar histórias.

Poderia dizer muito mais sobre este magnífico livro, mas não quero desvendar mais para vos permitir o mesmo prazer que eu tive ao ler este livro.

Forna, Namina (2021). As Mulheres Douradas. Alfragide: Gailivro.

Nº de páginas: 384

Início da leitura: 26/09/2021

Fim da leitura: 29/09/2021

Tradutora: Ana Pereira

SINOPSE

Somos raparigas ou somos demónios? Vamos morrer ou vamos sobreviver?

Deka, de 16 anos, devido à sua intuição e natureza sente-se diferente e vive com medo do ritual do sangue, o qual irá determinar se pode ou não ser um membro da sua aldeia. Se o seu sangue correr vermelho, será aceite pela comunidade. Mas no dia da cerimónia o seu sangue revela ser dourado - a cor da impureza, de um demónio, e as consequências serão pior do que a morte.

A jovem vê-se forçada a abandonar a aldeia onde sempre vivera na companhia de uma mulher misteriosa e a juntar-se a um exército de raparigas como ela - as alaki. Um grupo de raparigas quase imortais com dons raros e as únicas capazes de travar a maior ameaça do império.

Mas, à medida que avança até à capital para treinar para a derradeira batalha, Deka descobre que a grande cidade murada encerra em si muitas surpresas. Nada nem ninguém é exatamente o que parece ser - nem mesmo Deka…

OPINIÂO

Sendo este um romance de fantasia Young Adult, parti para a sua leitura sem grandes expetativas. Sinceramente, decidi lê-lo, porque gostei muito da capa.

Apesar de não ser dos livros que mais gostei, acabei por me ver embrenhada na história, seguindo Deka, uma jovem que se sentiu sempre desprezada, com um tom de pele mais escuro do que as jovens que viviam na mesma localidade, acabando por se considerar feia. A mãe terá morrido de varicela e vive apenas com o pai. O sonho dela é vir a comprovar-se, durante um típico ritual da aldeia, que é uma jovem pura, de sangue vermelho, para poder continuar a viver ali.

O que não sucede…

Mas, então, o que acontece a Deka?

Não vou entrar em pormenores, mas posso afirmar que nada é o que parece e tudo pode acontecer. As características que se destacam nesta personagem é a sua necessidade de afeto, o seu espírito de resiliência, a coragem e a perseverança.

É um livro de fantasia que me fez lembrar a distopia de Os Jogos da Fome ou até da coleção Divergente/Convergente/Insurgente. Quem gostou destes livros, vai adorar As Mulheres Douradas.

Pepetela (1997). Parábola do Cágado Velho. Lisboa: Círculo de Leitores.

Nº de páginas:190

Início da leitura: 23/09/2021

Fim da leitura: 25/09/2021

SINOPSE

"Falo de um amor e de uma transgressão." "Quem sabe, talvez a transgressão nunca fosse possível. Mas a granada existiu, essa granada que traçou no ar espantado do planalto a figura da mulher amada. Mas uma granada, mesmo com tal magia, pode materializar um Mundo?"

Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Licenciou-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio. Foi guerrilheiro do MPLA, político e governante. A partir de 1984, foi professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e tem sido dirigente de associações culturais, com destaque para a União de Escritores Angolanos e a Associação Cultural Recreativa Chá de Caxinde. A atribuição do Prémio Camões (1997) confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona.

OPINIÃO

Como é que estive até agora sem ler este livro? Uma fábula simplesmente fabulosa!

É notório que Pepetela nos remete, nesta obra, para a guerra civil angolana, num ambiente rural e sob a perspetiva dos habitantes do kimbo (ou povoado).

Esta fábula tem claramente uma função pedagógica, uma vez que transmite vários ensinamentos.

Não tenciono contar a história, mas destaco a relação de Ulume com um cágado velho que, todos os dias, se deslocava calmamente até às águas do regato para beber. Quando o cágado acabava de beber, dirigindo-se à sua gruta, Ulume bebia da mesma água e perdia-se em profundas meditações, pois ele acreditava que o cágado possuía uma sabedoria ancestral. Desejava que este, um dia, respondesse às suas perguntas. É o único habitante que mantém esta relação com o cágado, que acredita na sua sabedoria.

Luzolo e Kanda, filhos de Ulume, partem para a guerra, mantendo-se cada um em “facções” opostas, num confronto que realça bem o caráter absurdo desta guerra civil.

Durante os ataques, os soldados aproveitam para saquear os bens alimentares dos povos, raptavam raparigas e engravidavam outras, destruindo os kimbos.

A par da guerra, surge o amor de Ulume por Munakazi e, a par das tradições destas povoações, surgem novas formas de pensar. Por exemplo, quando Munakazi rejeita a proposta de casamento com Ulume por este ser casado, e considerar que os tempos eram outros, já não era o pai que mandava nela, ela é que tinha de decidir se aceitava ou não e considerava que nenhuma mulher se deveria sujeitar a partilhar o homem com outra mulher.

Saliento, por fim, a capacidade de Ulume em recomeçar do zero, de cada vez que o kimbo era destruído, a perseverança, a coragem, a resiliência que poderiam muito bem servir de exemplo a todos os angolanos.

Um livro muito bem escrito, de que aconselho muito a leitura e a reflexão sobre a história que Pepetela nos apresenta desta bela forma metafórica.

Destaco algumas das frases que me despertaram a atenção. Claro está, entre muitas outras… E passo a citar:

“A guerra voltou. Aviões e canhões destruíram os Kimbos e as gentes tornaram a se entranhar nas profundezas das Mundas para sobreviver e lutar. Anos e anos. E a fome sempre presente, pois é difícil cultivar ou tratar do gado se vivemos escondidos em fuga. Ulume entendeu as razões desta dura guerra contra a fome, o imposto e a palmatória.” (pág. 21)

“…homem prudente dá uma volta ao rochedo antes de urinar nele…” (pág. 58)

“E não posso aceitar ser segunda mulher. São outros tempos, aprendemos ideias novas.” (pág. 60)

Kawabata, Yasunari (2009). Mil Grous. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 152

Início da leitura:19/09/2021

Fim da leitura: 21/09/2021

Tradução: Mário Dias Correia

SINOPSE

Com uma contenção que mal disfarça a ferocidade das paixões das suas personagens, um dos grandes romancistas japoneses do pós-guerra conta uma luminosa história de desejo, arrependimento, e da saudade quase sensual que liga os vivos aos mortos. Quando Kikuji é convidado para uma cerimónia do chá organizada por uma antiga amante do falecido pai, não está à espera de se ver envolvido com a rival e sucessora desta, a senhora Ota. Nem suspeita do sofrimento profundo que nascerá dessa relação. Mas, na cerimónia do chá, cada gesto tem um significado. E, em Mil Grous, até o toque mais fugaz ou o comentário mais casual têm o poder de iluminar vidas inteiras... por vezes no mesmo instante em que as destroem.

OPINIÃO

Com uma linguagem aparentemente simples, os livros de Kawabata têm de ser lidos nas entrelinhas, dada toda a simbologia evocada em cada comportamento, em cada personagem e até nos objetos que a nós nos poderiam parecer mais corriqueiros.

Começando pelo título, o grou é um dos símbolos mais tradicionais do Japão. Os japoneses acreditam que o grou é uma ave sagrada que simboliza paz e longevidade. Elas também simbolizam o amor conjugal e a fidelidade, porque essas aves são monogâmicas, unidas até à morte. Nos casamentos, muitos costumam juntar os amigos e parentes para dobrar mil origamis de grous dourados para dar sorte, fortuna e desejar ao casal uma vida longa e feliz.

Não consegui, porém, talvez me tenha escapado algo, compreender totalmente a relação entre o título e a história em si, salvo o momento em que o protagonista masculino fica encantado com o lenço de uma jovem com um padrão de grous.

Porém, não foi essa felicidade, essa longevidade que encontrei neste livro, antes uma imensa fragilidade humana, a infidelidade, a complexidade que é a mente humana nas suas decisões, relações e obsessões. Há, neste livro, algum surrealismo e não se torna fácil juntar as peças para lhe conferir um total sentido.

Considerei algo confusas as relações entre as personagens e fiquei com a sensação de que estas carregam em si as relações dos seus antepassados, como uma sina.

Gostei imenso das descrições dedicadas à preparação do chá, “a mais excelente das bebidas para cultivar o espírito”, os rituais, o culto dos utensílios utilizados para beber o chá, a preparação do chá no recipiente de ferro sobre as brasas, muito bem planeada, o recolhimento necessário, a concha de bambu, o silêncio, os gestos, a sensualidade…

Há uma efemeridade humana que contrasta com a longevidade dos utensílios onde é servido, cerimoniosamente, o chá. Mas este é também ele efémero.

As plantas do chá demoram tanto até dar a flor que, efemeramente, murcham para se apreciarem num breve momento em que se saboreia o chá. Não serão também as pessoas flores que, inevitavelmente, murcham?

Gosto de ler Kawabata, apesar de toda a complexidade, há na sua narrativa uma efusão que nos aquece o espírito.

Peixoto, José Luís (2014). Galveias. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 280

Início da leitura: 18/09/2021

Fim da leitura: 19/09/2021

SINOPSE

Galveias está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.

O universo toca uma pequena vila com um mistério imenso. Esse é o ponto de acesso ao elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, ergue um mundo.

Como uma condensação de portugalidade, Galveias é um retrato de vida, imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.

OPINIÃO

Galveias é uma vila no Alentejo, onde nasceu José Luís Peixoto e dá nome ao livro. A ação decorre nesta vila em 1984.

A história começa com a queda de “a coisa sem nome”, um possível meteorito que liberta um intenso cheiro a enxofre que se propaga por toda a vila e, numa zona rural como Galveias, em que se trabalha essencialmente sob um céu aberto e em que se acredita nos desígnios de Deus e dos céus, aquela pedra não vaticinava nada de bom. Durante toda a narrativa, as personagens sabem que tudo está diferente, tudo está impregnado daquele cheiro, tudo sabe a enxofre e nunca mais nada foi igual (é o caso do pão, que agora tem um amargor que nunca se lhe sentiu. Ora, simbolicamente o pão não significa apenas o alimento do corpo, mas também o alimento espiritual, a vida, a renovação, a prosperidade, a humildade e o sacrifício. E, como diz o provérbio, “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”). Mas ninguém se atreve a aproximar-se muito de “a coisa sem nome”, a única coisa sem nome na vila.

Apesar de neste romance surgirem muitas personagens, todas elas têm o seu lugar no romance e em Galveias. São as personagens que todos nós, ainda que não sendo de Galveias, reconhecemos das nossas aldeias: o padre, as viúvas, os bêbados, os velhos, a professora primária, o mecânico das motorizadas, os homens da guarda, o senhor doutor, as prostitutas, cada um com a sua devida alcunha. Reconhecem-se os espaços: as tascas, a escola, a barbearia, o salão de cabeleireira, a discoteca…Afinal, também eu vivo no interior de Portugal e, apesar de muita coisa ter mudado, algumas das nossas aldeias preservam as suas tradições, as suas “personagens”, os seus cheiros, os seus sabores, o frio cortante do inverno e o calor abafado do verão, as paixões, as rixas, as decisões, a loucura, a pobreza, o duro trabalho no campo, as superstições, a crença... Pena que outras estejam a desaparecer, as escolas a fechar e as memórias a ficarem perdidas num tempo passado.

É numa escrita dura, por vezes irónica, que nos chegam as histórias destas gentes de Galveias, numa prosa limpa, com uma maior preocupação com o conteúdo do que com os floreados linguísticos. Simples, como simples é Galveias da memória do autor.

Termino com três excertos, de entre muitos que poderia citar:

“Todos temos um lugar onde a vida se acerta. Cada mundo tem um centro. O meu lugar não é melhor do que o teu, não é mais importante: Os nossos lugares não podem ser comparados porque são demasiado íntimos. Onde existem, só nós os podemos ver. Há muitas camadas de invisível sobre as formas que todos distinguem (…)” (Fala de Dona Fátima – pág. 202).

“Havia demasiada noite a preencher o céu e os campos. A lua era pouco mais do que uma linha arqueada e, mesmo assim, continuava a minguar, como se quisesse desaparecer e desresponsabilizar-se. As estrelas cobriam o mundo de relevo, desenhavam outeiros na escuridão, propunham um terreno invertido, onde se pudesse imaginar outra vida” (pág. 233).

“O futuro está cheio de momentos impossíveis à espera de acontecerem.” (pág. 247).

Escusado será dizer que gostei muito deste livro e que recomendo vivamente a sua leitura!

Moriarty, Liane (2014). O Segredo do Meu Marido. Alfragide: Edições ASA.


Nº de páginas: 416

Início da leitura: 15/09/2021

Fim da leitura: 17/09/2021

O Segredo do Meu Marido é um romance escrito por Liane Moriarty e traduzido por Helena Ruão.

SINOPSE

A carta do marido dizia: "Para ler apenas após a minha morte."

Mas ele estava vivo. E escondia um segredo aterrador.

Cecilia encontrou a carta acidentalmente. Na penumbra do sótão, soube de imediato que não devia lê-la. Que devia devolvê-la ao seu esconderijo, fingir nunca a ter encontrado e respeitar a vontade do marido. Afinal amava John-Paul. Juntos, tinham três filhos e uma vida sem sobressaltos. Argumentos que de pouco serviram perante a sua curiosidade crescente. E quando começou a ler, o tempo parou. A confissão de John-Paul fulminou-a como um raio, dividindo a sua vida em dois: o antes e o depois da carta. Cecilia vai ficar agora perante uma escolha impossível.

Se o segredo do seu marido for revelado, tudo o que construíram será destruído. Mas o silêncio terá um efeito igualmente devastador. Porque há segredos com os quais não se pode viver…

OPINIÃO

Apesar de a premissa principal ser a do segredo do marido de Cecilia, neste romance cruzam-se muitas outras histórias, muitas outras personagens, muitos outros segredos que, de certa forma, parecem estar todos interligados numa teia intricada da qual, uma vez captados e presos, parece impossível sair.

No início do livro, a autora, vai buscar o “mito de Pandora”. Tal como Pandora não resiste a abrir o vaso que contém todos os males que atormentarão para sempre a humanidade, neste livro, uma vez revelado um segredo, parece que estes não têm fim e, tal como o vaso de Pandora, trazem com eles uma quantidade infindável de sofrimento, de dramas, de dúvidas que parecem não ter fim.

Gostei bastante deste livro. O facto de cada capítulo entrar em casa de uma família diferente, pode parecer-nos, no início, um pouco confuso. Mas, à medida que vamos conhecendo melhor as personagens, sentimos necessidade em continuar a acompanhá-las e cada capítulo termina num ponto-chave, deixando-nos curiosos em relação à continuação daquele ponto da história. Uma alternância das ações muito bem conseguida e que nos faz querer continuar a ler.

Gostei das personagens, porque as achei credíveis nos seus dramas e dilemas diários, nas suas dúvidas, nas suas fraquezas e angústias. Cada uma com o cérebro a fervilhar de dilemas, de segredos por revelar, de escolhas para fazer, de decisões para tomar.

Ruiz Zafón, Carlos (2008). O Jogo do Anjo. Alfragide: Dom Quixote.

Nº de páginas: 576

Início da leitura: 12/09/2021

Fim da leitura: 15/09/2021

Da tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos de Carlos Ruiz Zafón, tinha lido apenas A Sombra do Vento e faltavam-me os outros três. Agora li O Jogo do Anjo. O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos ficarão para uma próxima oportunidade. Tenho necessidade de ir intercalando leituras e raramente leio dois seguidos do mesmo autor.

Foi traduzido por Isabel Fraga.

Sinopse:

“Na turbulenta Barcelona dos anos de 1920, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe a proposta de um misterioso editor para escrever um livro como nunca existiu, em troca de uma fortuna e, talvez, de muito mais.

Com um estilo deslumbrante e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo à Barcelona de o Cemitério dos Livros Esquecidos para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos, onde o encantamento dos livros, a paixão e a amizade se conjugam num romance magistral.”

Opinião:

Zafón é Zafón, com o seu estilo muito próprio, que marca todas as suas obras. Concilia romance, policial, thriller, terror, fantasia, gótico, drama, pelo que é muito difícil integrar os seus livros numa categoria específica da literatura.

Depois, a forma como nos são narradas as histórias, quase sem pausas, sem momentos mortos, num ritmo alucinante, com descrições cinematográficas, prende-nos de tal maneira, que é com alguma contrariedade que pousamos os seus livros. Este não foi exceção. E penso que tem de ser lido nesse ritmo que se quer alucinante, uma vez que tem imensas personagens e episódios enigmático, sem intervalarmos muito as leituras, para não corremos o risco de nos perdermos na narrativa e termos de retomar um pouco atrás. Neste livro, contrariamente ao que sucedeu em A Sombra do Vento, temos, de facto, momentos em que é difícil acompanhar e entender na totalidade alguns acontecimentos, uma vez que o narrador, protagonista da obra, é acometido por vários devaneios de loucura e ficamos, em alguns momentos, na dúvida do que aconteceu e do que é fruto dessa demência.

A linguagem de Zafón é magistral, é dura, direta, mas muito bem conseguida. Os discursos diretos das personagens, tornam-nas tão reais, mesmo que fantasiada a história, que as conseguimos perfeitamente imaginar. A linguagem de cada personagem é a sua linguagem e uma marca da personalidade, da forma de estar e encarar a vida. E cada personagem é diferente da outra. Tantas e tão bem trabalhadas! Que pena tenho de não podermos ser contemplados com novas obras do autor! Pudesse ele usufruir dos poderes do “patrão”, “o anjo negro” de O Jogo do Anjo, que o pudesse trazer de novo à vida e poderíamos continuar a deliciar-nos com os seus livros…

Neste livro, voltamos a Barcelona, nas primeiras décadas do século XX. O protagonista é David Martín, um jovem jornalista que anseia ser escritor e que assume o papel de narrador. Não terá um percurso muito fácil e, quando se deslumbra com a proposta de um editor, Andreas Corelli, ver-se-á obrigado a tentar descobrir o preço que terá de pagar e que faça jus à incrível oferta monetária de Corelli. Destaco como personagens que apreciei particularmente o livreiro Sempere, um bom amigo, que parece ler a alma de David. Gostei também muito da Isabella, uma personagem muito autêntica, com uma força inesgotável e que, também ela, constituirá uma força positiva na vida de David.

Termino com uma das muitas passagens da obra que poderia realçar, e passo a citar:

“Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um teto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele.”

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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