Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

 O'Neill, Louise (2022). As Raparigas de Papel. Lisboa: Aurora Editora.

Tradução: Ana Teresa Barreiros e Raquel Almeida
Nº de páginas: 320
Início da leitura: 21/09/2023
Interrupção da leitura: 22/09 a 26/09
Retoma da leitura: 26/09
Fim da leitura: 26/09

**SINOPSE**
"Quando as mulheres são criadas para o prazer dos homens, a beleza é o primeiro dever de cada rapariga.
Num mundo em que as raparigas já não nascem de forma natural, são criadas em escolas, treinadas nas artes de agradar aos homens até que estejam preparadas para o mundo exterior. Quando terminam a formação, as raparigas com a melhor pontuação tornam-se «companheiras», autorizadas a viver com um marido e a gerar filhos rapazes até que deixem de ser úteis.

Para as raparigas deixadas para trás, o futuro — como concubina ou professora — é sombrio.
As melhores amigas freida e isabel têm a certeza de que serão escolhidas como companheiras, até porque estão entre as melhores e mais bem avaliadas. Mas, à medida que a intensidade do último ano começa a aumentar, isabel faz o impensável e deixa de se preocupar com o aspeto físico até ficar… gorda. É neste ambiente feminino fechado, de tensão e competitividade, que chegam os rapazes, ansiosos por escolher uma noiva. E freida tem de lutar pelo futuro, mesmo que isso signifique trair a única amiga, o único amor que alguma vez conheceu.

Numa escrita compulsiva e mordaz, Louise O’Neill faz uma crítica à sociedade atual, onde a beleza se tornou uma obsessão e as raparigas são, desde muito novas, cada vez mais sexualizadas e julgadas pelo aspeto físico.

Este livro foi anteriormente publicado com o título As Filhas de Eva."
A história deste livro baseia-se numa distopia, num futuro no qual as mulheres deixam de existir e começam a nascer em laboratórios, incubadas em úteros de plástico, programadas para serem perfeitas. Como é evidente, esta ideia em si, já nos cria alguma repulsa. Por outro lado, creio que a intenção da autora era mesmo a de alertar as jovens de hoje para não se deixarem programar por estereótipos que lhes são, muitas vezes, incutidos pela sociedade em que vivemos - as mulheres perfeitas são as magras, as que não comem (apesar de terem vontade), as que se devem entregar apenas após casarem, as mulheres fantoche apenas preocupadas com futilidades, como o que vestem, como se maquilham, o que as outras vestem, se as outras são mais bonitas, mais magras, o receio de ganharem uns gramas no peso. Tudo, porque têm de ser as melhores, para algum dos homens que esporadicamente as visita se interessar por elas e querer casar. Vivem em reclusão, num colégio, onde são vigiadas e "educadas" para serem perfeitas pelas castidades.
Se não conseguirem ser o que idealizam como perfeitas, até aos 16 anos, estas mulheres, designadas de "evas", sujeitam-se a outros destinos: tornarem-se concubinas ou castidades, neste último caso, ficam na escola a educar novas "evas". Portanto, o que de facto mais querem é serem escolhidas por algum dos homens que as visitam, apresentadas quase como um mostruário, o que as torna, na maior parte das vezes, rivais e até bullys.

« O número de evas desenhadas num determinado ano corresponde sempre a três vezes o número de rapazes nascidos nesse mesmo ano, de forma a dar satisfação às necessidades de companheiras e concubinas. Podemos ter sorte e ser desenhadas no ano em que o Presidente da Câmara, um Engenheiro Genético e um Cirurgião tenham tido filhos. Ou podemos ter sido desenhadas para companheiras dos filhos de merceeiros, sapateiros ... ou de fabricantes de carne, por misericórdia.»

As Filhas de Eva (p. 133)

à noite, quando se deitam, nos seus quartos, espelhados do chão ao teto, são difundidas mensagens, que se espera que sejam incutidas nas suas mentes durante o sono:

« Sou uma boa menina. Sou bonita. Sou sempre despreocupada. 
Sou uma boa menina. Sou atraente para os outros. Sou sempre agradável.
Sou bonita. Sou uma boa menina. Faço sempre o que me mandam.»

As Filhas de Eva (p.10)


Um livro que deve ser lido com um sentido crítico, especialmente por jovens, para que evitem e lutem contra estes estereótipos.

Katouh, Zoulfa (2023). Onde Crescem os Limoeiros. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Helena Sobral e Isabel Nunes
Nº de páginas: 368
Início de leitura: 16/09/2023
Fim de leitura: 20/09/2023

**SINOPSE**
 "Uma história de amor e perda.

Um país em plena revolução. Quanto estamos dispostos a pagar por aquilo em que acreditamos?

Quando os gritos pela liberdade se começam a ouvir na Síria, Salama está a estudar Farmácia. Por esses dias, ainda tem consigo os pais e o irmão mais velho, e há até um rapaz com quem se irá encontrar para falar de casamento.

Porém, de repente, a guerra civil instala-se no país e Salama vê-se no meio de um hospital onde cada vez mais pessoas chegam a precisar de ajuda. Agora voluntária, a jovem de 18 anos sente que o seu coração está como Homs, a cidade onde nasceu: destruído. Os pais e o irmão morreram. Só lhe resta Layla, a sua cunhada grávida, que quer tanto proteger.

Sair do país parece ser a solução, mas Salama está tão ligada àquelas pessoas, à sua terra, onde, mais do que uma guerra, acontece uma revolução pela qual é preciso - e vale a pena - lutar. E Kenan, o rapaz de 19 anos que acaba de ali chegar, com os sonhos desfeitos e disposto a mostrar ao mundo o que se passa, pode ser mais uma grande razão para ­ficar. Porque a esperança é como os limoeiros em Homs: há-os em cada casa, em flor, e por mais que os tentem destruir, continuarão sempre a crescer."
Este é daqueles livros em que é impossível ler de ânimo leve. É com um nó na garganta que conhecemos um breve retrato da guerra na Síria. Cada acontecimento, cada pormenor, cada acontecimento, cada decisão, cada vida é um novelo de dor, que vai sendo desenrolado à nossa frente, com um discurso e linguagem tão intimistas, que nos sentimos lá, como observadores - sofredores. Como refere a narradora/protagonista, "O tempo é o melhor remédio para transformar as feridas em sangue em cicatrizes, e talvez os corpos esqueçam o trauma, e talvez os olhos aprendam a ver as cores como merecem ser vistas, mas essa cura não inclui as nossas almas."
Com efeito, será possível voltar a ser feliz, a um passado de paz, com o fim de uma guerra? Restará força para recomeçar? Será possível esquecer todo o horror, como a perda dos familiares mais próximos?
De facto, é impossível ficarmos indiferentes a todos os acontecimentos narrados neste livro. Penso até que os mais jovens (os que hoje discriminam os colegas "ucranianos", por não entenderem, na sua ignorância, as dificuldades e a dor psicológica que estão a sentir) deveriam ler este livro e refletir, refletir... 

Faria, Paula Lobato de (2017). Imaculada. Lisboa: Clube do Autor.

Nº de páginas: 312
Início da leitura: 13/09/2023
Fim da leitura: 15/09/2023

**SINOPSE**
"Esta é uma história inspirada em acontecimentos reais em que a dualidade de ser e de parecer, da lealdade e da traição, do amor e da obrigação nos leva a caminhos imprevisíveis.

Portugal, 1956
Tempo da ditadura de Salazar, da censura e da PIDE. Numa família da alta burguesia, no interior do país, o lema "Deus, Pátria e Família" é sagrado. Mas a vida estremece quando na casa dos Correia bate à porta o amor e o desejo de liberdade
.

«Apenas um por cento é baseado em memórias e todo o resto na imaginação, mas muitos leitores vão aqui identificar pessoas que conheceram durante a vida, pois os personagens desta trama são gente comum, de carne e osso», avança a autora nas primeiras páginas do romance."
Gostei muito de conhecer a escrita desta autora. De uma forma simples, com uma linguagem elegantíssima, fluída e cativante, somos conduzidos por uma história ficcional, situada num contexto histórico bem definido e adequado às situações narradas. A ação decorre numa pequena terra designada no romance como Imaculada, na região Centro do país - Castelo Branco (provavelmente pela devoção de muitas aldeias da região à Imaculada Conceição), vive-se a ditadura de Salazar e, ainda de forma mais acentuada, nesta zona do interior. A protagonista, bem como a grande parte das raparigas aqui nascidas, era super protegida e vigiada pelos pais, até casar (com alguém que considerassem conveniente). Mas, até que ponto se casava por amor? Até beijar o namorado era visto como um pecado e como um fator de desinteresse por parte do homem que só manteria interesse em casar se fosse aguçado pelo prazer da espera. Ora, se nem um beijo, muito menos se aceitava um bebé concebido antes do casamento. Depois, havia os casamentos por interesse...Havia denúncias, havia o medo!
O livro termina de forma bastante imprevisível, mas com a naturalidade com que terminavam muitas destas histórias.
Um livro que aconselho a ler!

 Robertson, S. D. (2017). Tempo de Dizer Adeus. Madrid: HarpeCollins.

Tradução: Fátima Tomás da Silva

Nº de páginas: 320

Início da leitura: 11/09/2023

Fim da leitura: 12/09/2023

**SINOPSE**

COMO ABANDONAS A PESSOA QUE MAIS AMAS?
Com seis anos, Ella, a filha de Will Curtis, sabe que o pai nunca a abandonará.
Afinal, ele prometera-lho quando a mãe morrera.
E fará tudo o que lhe for possível para manter a sua palavra.
O que o Will não sabe é que a promessa que fez à filha pode ser mais difícil de cumprir do que imaginava.
Quando confrontado com uma decisão impossível, Will descobre que a opção mais óbvia pode não ser a correta.
Mas o futuro está cheio de surpresas inesperadas.
E pai e filha estão prestes a embarcar juntos numa viagem inesquecível….
A temática deste livro não é, de todo, fácil e ligeira. Após a morte de um ente querido, todos nos questionamos, sofremos, porque tudo termina ali, naquele momento. Mas, afinal, o que passaria pela mente de quem morre em relação a quem fica? Sobretudo se, quem fica, é uma criança de seis anos, que já perdera a mãe e agora seria confrontada com a perda do pai.
Não posso contar mais, pois estaria a revelar excessivamente o que, só com a leitura, se deve compreender. 
A linguagem é muito simples, a história fluída. Mas, esperava mais e mais força nas palavras!

McFadden, Freida (2023). O Segredo da Criada. Lisboa: Alma dos Livros.

Tradução: Carla Ribeiro

Nº de páginas: 320

Início da leitura: 09/09/2023

Fim da leitura: 10/09/2023

**SINOPSE**

Cinco anos após os acontecimentos de A Criada, Millie pensa que pode construir uma vida «normal», formando-se como assistente social e trabalhando para outra família rica... mas está muito enganada!

MISTERIOSO, INTENSO E VICIANTE COMO UM VERDADEIRO THRILLER DEVE SER!

«Millie, nunca entre no quarto de hóspedes...» Uma sombra abate-se sobre o rosto de Douglas Garrick ao tocar na porta do quarto com a ponta dos dedos. «É que... a minha mulher... está muito doente». Enquanto me continua a mostrar o seu incrível apartamento penthouse num dos prédios mais vistosos da cidade, tenho um pressentimento terrível sobre a mulher fechada naquele quarto.

Mas não posso arriscar-me a perder este emprego - pelo menos se quiser continuar a manter o meu segredo. É difícil encontrar empregadores que não façam muitas perguntas, especialmente sobre o passado. Nesse aspeto, agradeço a sorte de os Garrick me terem contratado.

Posso trabalhar aqui durante algum tempo, ficar sossegada até conseguir o que quero. Arrumar e limpar a sua deslumbrante penthouse de vista panorâmica sobre a cidade e preparar-lhes refeições sofisticadas na sua cozinha reluzente. O emprego quase perfeito.

Só ainda não conheci a Sra. Garrick, nem espreitei o quarto de hóspedes.

Tenho a certeza que a ouço chorar às vezes. Também já reparei em manchas de sangue na gola das suas camisas de dormir quando estou a lavar a roupa. Um dia, não consigo evitar bater à porta. E, quando se abre suavemente, o que vejo lá dentro muda tudo..

A Criada foi um livro que, sem ser excelente, me entreteve, com um bom ritmo em termos de desenvolvimento da história. Já este, considero mais fraco. Estava à espera de um "segredo escabroso" por parte da criada e o que veio foi um pouco "mais do mesmo", com umas reviravoltas algo sensaboronas, que até nos fazem bocejar. O segredo, a criada vai arranjá-lo, após começar a trabalhar para um casal riquíssimo, cuja mulher é mantida presa num quarto, como uma pessoa doente e cheia de pruridos, quando, o que de facto sucede, é que é mantida ali fechada propositadamente, pelo marido. Millie, a criada, debate-se com a questão: deverá intervir e perder o emprego, ou manter o emprego e ignorar o que se passa? A partir daqui, já estão a ver o que sucede... Mas, nem tudo é o que parece. Nunca poderemos dizer que gostamos ou não de um livro se não o lemos, não é?
Lê-se bem e lê-se rápido. O que fica: muito pouco!

Letria, José Jorge (2018). Fernando Pessoa O Menino Que Era Muitos Poetas. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.


Nº de páginas: 42
Início da leitura: 08/09/2023
Fim da Leitura: 08/09/2023

**SINOPSE**

"Dar a conhecer Pessoa aos nossos leitores mais jovens é a proposta de Fernando Pessoa - o Menino que Era Muitos Poetas.

Páginas de beleza, magia e imaginação à solta, tal como dita a poesia, mas que diverte e ensina.

Era uma vez um menino
que era vários meninos
e em cada menino morava um poeta
e em cada poeta um outro poeta.
Assim, nunca mais ninguém
podia saber quantos poetas
havia, ao certo, dentro daquele menino
e quantos meninos havia,
ao certo, dentro daquele poeta.


Observação: Trata-se de uma 2ª edição deste livro que tem a recomendação do Plano Nacional de Leitura (leitura de apoio de projetos de História de Portugal e História Universal, para alunos do 3.º ao 6.º ano)."
Este é um livro que conta, em verso, a biografia de Fernando Pessoa, para crianças e jovens que ainda não o conhecem e que, lendo esta história, mais tarde, saberão de quem se fala, pelo menos. José Jorge Letria captou o essencial e, numa linguagem simples, consegue enaltecer o nosso grande Fernando Pessoa.

George, João Pedro (2022). O Super-Camões Biografia de Fernando Pessoa. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 976
Início da leitura: 01/09/2023
Fim da leitura: 08/09/2023

**SINOPSE**
Fernando Pessoa expôs-se heroicamente em tudo o que escreveu. Abriu o seu coração e mostrou mágoas e carências, angústias e frustrações, transitando entre o humor, o lirismo e o olhar racional. Apaixonou-se, sentiu a vertigem do sexo e interessou-se pelas perversões do erotismo e as manifestações do onanismo, da homossexualidade e da androginia.

Incapaz de se levar a sério e de falar demasiado de si próprio na presença dos amigos, andava sempre impecavelmente vestido e era amável e prestável, educado e atrevido, tímido e inteligente, atormentado e divertido (mais do que muitos supõem), autodestrutivo (regado a álcool e a tabaco) e de trato afável.

Contrariamente ao que se poderia crer, não era um escritor de gabinete, isolado na sua torre de marfim, um desses artistas que se recolhem na sombra, rudes, rabugentos e taciturnos.
Homem comprometido com a sua época, com plena confiança na sua criatividade e genialidade, participou na vida cultural e política de Portugal, provocando polémicas e envolvendo-se em escândalos, revelando coragem e convicção nas opiniões pessoais.

Viveu muitas vidas ao mesmo tempo e reinventou-se numa multidão de personagens fictícias, antecipando alguns dos principais motivos da vida moderna: todos escondemos outras pessoas dentro de nós, todos somos fragmentários e vacilantes, marcados por tensões e ambivalências, oscilações e contradições, e a nossa coerência não cessa de se fazer e de se desfazer.

Apesar de ter morrido novo — com 47 anos —, escreveu e trabalhou incansavelmente. Resistiu ao desejo obsessivo de reconhecimento, de publicar só por publicar, e deixou grande parte da sua obra escondida dentro de uma arca, o seu cofre de pirata na ilha do tesouro.

Esta é a primeira biografia de Fernando Pessoa escrita por um português em mais de setenta anos, desde Vida e Obra de Fernando Pessoa — História duma Geração, de João Gaspar Simões, publicada em 1950. Conciliando o rigor intelectual com a clareza de expressão, sem recorrer ao jargão dos estudos literários nem a uma linguagem especializada, O Super-Camões estabelece uma relação de simpatia com a vida de Fernando Pessoa e aproxima a sua obra de todos os leitores e leitoras.

Um livro onde o prazer da escrita e o prazer da leitura encontram o seu denominador comum e ganham uma verdadeira cumplicidade."
Um livro que pode ser lido por quem gosta de biografias. Sem querer ser um livro técnico ou um estudo exaustivo, esta biografia de Fernando Pessoa, a primeira escrita por um autor português, de há mais de 70 anos para cá (após a de João Gaspar Simões), é uma forma muito agradável de conhecer melhor o ortónimo Pessoa e seus heterónimos. E, sobretudo, é uma forma de conhecermos o Pessoa menos cinzento, deprimido e corroído pelo tédio. Biografia de cariz mais pessoal e íntimo - fala-nos de Pessoa tímido, inteligente e com sentido de humor . Destina-se a ser lido não só por pessoas que conhecem, mas é perfeitamente adequado a quem não não conhece Fernando Pessoa, porque não exige conhecimentos sobre o autor. O título da obra foi inspirado numa profecia de Pessoa ("O Supra-Camões").

Com base em conversas do autor da obra com a sobrinha de Pessoa, Maria, Nogueira, chegamos a um Pessoa mais humano, que se divertia em brincadeiras com os sobrinhos. Aqui vamos conhecendo vários excertos textuais das várias obras de Pessoa, contactamos com excertos e considerações sobre os heterónimos, os semi-heteronimos e algumas personagens literárias. Tudo numa linguagem acessível, num tom de conversa com o leitor. 967 páginas, que não custam a ler! Aconselho.

 Pedrosa, Ana Bárbara (2023). Amor Estragado. Lisboa: Bertrand Editora.
Nº de páginas: 208

Início da leitura: 30/08/2023

Fim da leitura: 31/08/2023

**SINOPSE**

Dois irmãos contam a dissolução de uma família. Manel casou com Ema, e foi até que a morte os separasse como enfim os separou - pelas mãos dele. Habituado ao álcool e incapaz de lidar com as frustrações, não era a ele que mãe e irmãos deviam o amor sem reservas? Zé, casado, agora com três filhos, não vê no sangue uma desculpa para a vida do irmão. Pela mão da violência, que é pedra de toque, assistimos a uma família cujos laços se desfazem. E à vida transformada noutra coisa.

Com uma linguagem crua e destemida, que não raras vezes desarma o leitor, Amor Estragado é um romance sobre a família enquanto território a proteger, a traição da vida adulta face às certezas da infância, a inveja, o desgosto, a degradação que o vício impõe e o que custa perder um lugar de honra. E inevitavelmente sobre a culpa - do homem que mata e de quem não o impede.
Um livro fantástico. Primeiro, começa de forma a ficarmos irremediavelmente presos à história: "Matei a minha mulher." E queremos saber quem, o quê, porquê. Entramos nesta narrativa que vai sendo narrada por dois irmãos, nascidos no seio de uma família pobre, mas honrada, de Vizela. Estes dois irmãos são totalmente diferentes. Ambos casam. O Zé tem três filhos. O Manel apenas a mulher, que vai detestando cada vez mais, a Ema. E vai detestando cada vez mais a mulher, à medida que os seus olhos a começam a ver embargados pelo consumo excessivo de álcool. Invejava José e a mulher, bonita (como não considerava a dele), bem arranjada (como não seria a dele), delicada (como não seria a dele)... Dramas familiares, invejas, ciúmes, álcool, tudo é um pretexto para o desencadear da história. A linguagem é dura, recorrendo muito ao calão, que se encaixa bem nestes jovens e no meio em que cresceram. Um livro duro que traz a lume várias questões pertinentes, atuais e sobre as quais é necessário e importante refletir: o alcoolismo, a violência doméstica e o homicídio, pelo marido, de uma mulher.
Aconselho vivamente!

 Pessoa, Fernando. O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Filosóficos. Luso Livros, 2014.

Nº de páginas: 89 (versão digital)

Início da leitura: 29/08/2023

Fim da leitura: 30/08/2023

**SINOPSE**

Coletânea de contos de teor filosóficos e humorístico encontrados no espólio de Fernando Pessoa.

Este livro de Fernando Pessoa, publicado postumamente, integra os contos: "O Banqueiro Anarquista", "Na Farmácia do Evaristo", "No Jardim de Epíteto", "Um Grande Português", "A Pintura do Automóvel", "Na Floresta do Alheamento" e "A Hora do Diabo".
O primeiro conto, a que é dado relevo logo no título, abrange cerca de metade da obra, dá que pensar. Como pode um banqueiro ser um anarquista? Sem dúvida, um banqueiro muito original, com ideias muito próprias sobre a sociedade, as suas desigualdades e "ficções sociais" e as "convenções sociais que tornam essa desigualdade possível." E, num diálogo com o narrador, vai tecendo considerações sobre o seu anarquismo. Deixo algumas passagens:
"Tão mau é o dinheiro como o Estado, a constituição de família como as religiões (...). Ora qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista, completamente, é uma ficção também."
A propósito do real conceito de anarquista, o nosso banqueiro refere que "A diferença é só esta: eles são anarquistas só teóricos, eu sou teórico e prático; eles são anarquistas místicos, e eu científico; eles são anarquistas que se agacham, eu sou anarquista que combate e liberta... Numa palavra: eles são pseudo-anarquistas, e eu sou anarquista."

Destaco, também, o conto "Na Floresta do Alheamento", onde o narrador, a propósito de um homem que se encontra perdido numa floresta, vai refletindo sobre a razão de viver, a verdade, o amor, o sono e o sonho. Gostei imenso da poeticidade deste conto e passo a citar algumas passagens:
"Mais vale, filhos, a sombra de uma árvore do que o conhecimento da verdade, porque a sombra da árvore é verdadeira e dura, e o conhecimento da verdade é falso no próprio conhecimento."
"Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser. ..Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão - e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos."
"Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos."

Por fim, falo ainda do último conto, "A Hora do Diabo", diabolicamente bem construído na própria desconstrução de ideias pré-concebidas. Neste conto, o narrador, o Diabo, vai mencionando várias obras e autores que dele falam sem nada saber sobre ele, que o "insultam" e "caluniam". De acordo com ele, é "o Deus da Imaginação, perdido", porque não cria. É "o espírito que cria sem criar, cuja voz é o fumo, e cuja alma é um erro."

Ainda que tenha gostado, continuo a preferir a poesia de Fernando Pessoa.

Recomendo a quem ainda não leu.
Esta é uma obra cuja versão digital é legal e gratuita. Poderá encontrá-la, tal como muitos outros clássicos em https://www.luso-livros.net/ .

 Pietrantonio, Donatella Di (2017). A Filha Devolvida. Alfragide: Edições ASA.


Tradução: Tânia Ganho

Nº de páginas: 200

Início da leitura: 27/08/2023

Fim da leitura: 28/08/2023

**SINOPSE**

"Aos treze anos, uma menina descobre brutalmente que o homem e a mulher que a criaram não são seus pais. Filha única, privilegiada, com uma casa à beira-mar e aulas de ballet, é obrigada a abandonar o lar onde cresceu para ser devolvida à família biológica. Não lhe é dada qualquer explicação. Leva consigo uma mala e um saco de sapatos. Começa agora uma nova e inesperada vida.

A família biológica é pobre, caótica e pouco acolhedora. Naquela que é agora a sua casa, na aldeia, tem de partilhar um colchão com a irmã e o quarto com os três irmãos mais velhos. A violência, a fome, os costumes… tudo lhe é incompreensível. Mas há a pequena Adriana, que a recebe com a candura típica das crianças; e há Vincenzo, o irmão mais velho, que a protege mas também a olha como se fosse já uma mulher…

É na sua relação com eles que a jovem irá encontrar forças para começar de novo e - quem sabe? - construir a sua própria identidade."
Um livro pequeno, de fácil mas intensa leitura. Duro, mas subtil na forma como aborda uma questão tão relevante e verosímil, os filhos que são dados a criar a outros familiares. O próprio título já nos dá imediatamente pistas sobre a história.
De acordo com o que percebi, a narradora, já adulta, recorda a sua infância, sobretudo o momento marcante em que, aos 13 anos, lhe é dito que será devolvida à sua família biológica, sem que lhe sejam dadas explicações. A família que a criou, deu-lhe todo o conforto e condições para vir a ter um bom futuro, realizar os seus estudos e sonhos. Porém, a família biológica, que tem mais uma série de filhos, é muito pobre, dormindo todos amontoados em beliches, tendo de se habituar à urina dos irmãos que se descuidam... Tudo nesta sua nova vida é diferente, além de ser recebida, especialmente pelos adultos, como uma intrusa, mais um encargo, como se não tivessem já suficientes... Como decorrerá a vida da protagonista junto dos pais e irmãos? Por que razão a família que a criou a mandou embora? Estas são questões que, ao longo da história vão sendo respondidas, aumentando o "suspense" no leitor até ao final, um final também ele, muito "sui generis".
Convido à leitura desta pequena pérola!

 Hucke, Petra (2023). A Mulher Que Ergueu Nova Iorque. Lisboa: Alma dos Livros.


Tradução: Nazaré Matias

Nº de páginas: 368

Início da leitura: 24/08/2023

Fim da leitura: 27/08/2023


**SINOPSE**

"Nova Iorque, 1865. A recém-casada Emily Warren Roebling entra em pânico quando juntamente com o marido fica presa dentro de um ferry a meio da travessia do gelado East River. Não seria o primeiro acidente de ferry com consequências graves. Mas, felizmente, os passageiros saem ilesos.

Mais tarde, as cidades de Nova Iorque e Brooklyn decidem, por fim, avançar com a construção de uma ponte suspensa que una as duas margens do rio. Nessa altura, Emily está longe de imaginar que será ela a derradeira obreira dessa colossal tarefa.

A construção inicia-se, e John A. Roebling é escolhido para liderar o projeto, que prossegue, depois da sua morte, sob a supervisão do seu filho Washington Roebling, o marido de Emily. Devido aos trabalhos e às submersões aquáticas em condições adversas, Washington adoece gravemente.

É então que Emily assume a responsabilidade do enorme e perigoso estaleiro de construção, enquanto teme pela vida do seu amado marido, o engenheiro-chefe da Ponte de Brooklyn. Nesta gloriosa caminhada, vai ter de provar que acredita no sonho que partilham e ainda mostrar ao mundo que uma mulher pode unir duas cidades e erguer uma maravilha do mundo."

É sempre interessante ler sobre o poder e as façanhas de grandes mulheres, que ficaram na História. Esta é mais uma biografia romanceada, que resgata uma época histórica, para lhe conferir força e esplendor. Já tinha lido o de Anna Freud e falta-me apenas o de Maria Montessori.
Não vou contar a história, uma vez que a sinopse já o faz sobejamente para quem quiser ler e saber de antemão sobre o que versa este livro.
Destaco a protagonista, Emily, que se interessava por assuntos "de homens" e que refere constantemente que gostaria de ter tido uma "profissão de homem". Corajosa, irreverente, persistente, quando surge a oportunidade de tomar as rédeas (quando o marido adoece), não há nada que a detenha e a esmoreça, tornando-se responsável pela construção da ponte de Brooklyn. 
Aponto como aspeto negativo a morosidade da narrativa e a repetição de ideias, que eram desnecessárias. De resto, aconselho a leitura.

Ribeiro, Anabela Mota (2023). O Quarto do Bebé. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 280
Início da leitura: 22/08/2023
Fim da leitura: 24/08/2023

**SINOPSE**
Escrito em grande parte durante o confinamento e a doença, e concluído após uma longa gestação, O Quarto do Bebé é um romance autoficcional em forma de diário íntimo.

Depois da morte de um conhecido psicanalista, a filha, sua única herdeira, encontra entre os papéis que ele deixou o diário de uma paciente. Tem título - Fala Orgânica - e está assinado: Ester do Rio Arco. O que começou por ser uma curiosidade transformou-se numa obsessão e objeto de leitura compulsiva. Neste manuscrito, a filha do psicanalista vai encontrar não apenas uma forma de conviver com o pai, como também inúmeros pontos de identificação com a paciente dele.

Os temas são os do dia a dia do isolamento e da doença, a escrita, o corpo, a mutilação, a relação com a mãe e com as origens, a ligação profunda a uma amiga (figura tutelar e espécie de mãe de Ester) e a morte dela. Em suma, a perda, a infertilidade, maternidade e filiação, nascimento e morte. O arco narrativo desenha-se a partir do que poderia vir a ser um quarto de bebé, mas que nunca albergará uma criança, até à transformação desse quarto num lugar físico e mental de criação, nomeadamente da escrita.

Daqui emerge ainda um retrato antropológico do país em que os pais estiveram na guerra e as mães escreveram aerogramas, e é exposta a violência que a sociedade patriarcal exerce sobre as mulheres. Com ecos do universo literário da recentemente nobelizada Annie Ernaux, uma das grandes referências da autora, O Quarto do Bebé é um relato cru e corajoso que revela uma nova e envolvente faceta de Anabela Mota Ribeiro.
Que livro! Intenso, alternando entre passagens poéticas e coloquiais, num constante diálogo com o leitor, um diálogo cru e nu, em que, como diz o narrador, "Escrever é fazer um pão. É dar forma ao medo, torná-lo comestível, ser capaz de o cuspir." ou "Escrever é conseguir estar nua, desorbitada, fora do tempo cronológico. É avançar nua e intrépida, E sem vergonha, que é o mais difícil." Difícil ou não, a autora conseguiu-o, atingiu-me, abanou-me, fez-me pensar e colocar-me na pele da protagonista (afinal, quem já teve familiares a passar pelo cancro, consegue mais facilmente entender que, muitas das questões que a personagem foi levantando, ao longo da progressão da doença, são credivelmente fáceis de compreender como real, como um processo normal). Quando se tem uma doença oncológica que vai invadindo uma pessoa até a tornar num ser vegetativo, é normal que se sinta "perseguida pelo luto."
Esta protagonista feminina, que teve um passado de pobreza, que conseguiu sonhar, inverter por pouco que fosse, o percurso da vida, diz-nos, enquanto narradora, que "a maior parte das mulheres sofre na sua vida alguma espécie de violência sexual, psicológica, moral. E não conta. Carrega os seus túmulos em vida, como se não fosse nada." Ora, já era tempo de ser feliz do que ver a sua vida, durante a pandemia por COVID, invadida por uma doença que a persegue "como uma sombra".
Com poucas possibilidades de ter um bebé, sente-se, muitas vezes regredir à posição fetal, ao momento em que foi ela própria um bebé. Na impossibilidade de gerar um bebé, acredita que o seu filho é o diário que está a escrever. "A escrita de um diário é a célula primordial, dá som ao silêncio, ao inexprimível, alumia a escuridão. Escrever é ser capaz de gerar".
A presença da metaliteratura, também nos aguça a curiosidade, que fiquei com interesse em ler alguns dos livros mencionados (outros, como já li, melhor compreendi as associações feitas) e até analisados em comparação com os acontecimentos que marcam a vida da protagonista.
Gostei muito e aconselho vivamente.

Allende, Isabel (2023). O Vento Conhece o Meu Nome. Porto: Porto Editora.
Tradução: Carla Ribeiro
Nº de páginas:272
Início da leitura: 20/08/2023
Fim da leitura: 22/08/2023 

**SINOPSE**
"Viena, 1938. Samuel Adler tem apenas 5 anos quando o pai desaparece, na infame Noite de Cristal – a noite em que a sua família perde tudo. Procurando garantir a segurança do filho, a mãe consegue lhe o lugar num comboio que transporta crianças judias para fora do país, agora ocupadas pelo regime nazi. Samuel embarcou sozinho, deixando a família para trás, tendo o seu violino como única companhia.
Arizona, 2019. Anita Díaz e a mãe tentam entrar nos EUA, fugindo à violência que reina no seu país, El Salvador. No entanto, são separados na fronteira, ao abrigo de uma nova lei que regulamenta a imigração, forçando à separação das famílias. A mãe desaparece sem deixar rasto, e Anita é colocada em instituições de acolhimento abandonadas. O caso chamou a atenção de Selena Durán, uma californiana de ascendência latina, e de Frank Angileri, um advogado promissor, que tudo preparou para reunir de nova mãe e filha. Juntos, vão conhecer de perto a violência que muitas mulheres sofrem em silêncio, sem que dela consigam escapar.
Entrelaçando passado e presente, O vento conhece o meu nomeconta-nos a história desses dois personagens inesquecíveis, ambos em busca da família e de um lar. É uma sentida homenagem aos sofrimentos que fazemos em nome dos filhos e uma carta de amor às crianças que sobrevivem a perigos inimagináveis ​​– sem nunca deixarem de sonhar.

«Pensava que Azabahar era o refúgio da Anita, o sítio para onde ia quando precisava de fugir deste mundo, mas agora sei que é mais do que isso. É o reino misterioso da imaginação e só se consegue ver bem com o coração.»"

A história entrelaça dois momentos históricos: a infame Noite de Cristal na Alemanha nazi e 2019, nos EUA, por altura da controversa política de imigração implementada por Donald Trump. É nestes contextos que nos são contadas as histórias de duas crianças, vítimas da guerra e da inevitável migração. Ambas à procura de um lar e de uma família.
Samuel Adler tem apenas 5 anos quando o pai desaparece, na infame Noite de Cristal, em 1938, em Viena.
Anita Díaz e a mãe tentam entrar nos EUA, com o intuito de fugir à violência que se apodera do seu país, El Salvador. No entanto, são separadas na fronteira, ao abrigo de uma nova lei que regulamenta a imigração, forçando à separação das famílias, em 2019, no Arizona.
São sempre histórias que nos tocam, quando as vítimas são crianças inocentes, que não devem nem podem deixar de sonhar. Este livro é uma bela homenagem a estas crianças. A escrita é a cuidada e elegante a que já nos habituou a autora. Recomendo!

 Wolfe, Leslie (2023). A Cirurgiã. Lisboa: Alma dos livros.

Tradução: Carmo Vasconcelos Romão e Carla Ribeiro

Nº de páginas: 280

Início da leitura: 17/08/2023

Fim da leitura: 18/08/2023

**SINOPSE**

"Antes do meu mundo desabar, eu tinha tudo. A carreira de sucesso com que sempre sonhara. A bela casa onde podia sentar-me e relaxar confortavelmente depois de um longo dia de trabalho. O marido mais bonito e dedicado que poderia desejar, cujo sorriso encantador sempre me fizera sentir segura.

Até hoje nunca tinha perdido um doente.

Até hoje nunca tinha operado ninguém que odiava.

Quando declarei o óbito, a minha voz estava firme: «Hora da morte 13:47». Todo o pessoal, médicos e enfermeiros na sala de operações ficaram em silêncio à minha volta, a olhar para mim, confusos e preocupados. As minhas mãos tremiam dentro das luvas. O meu olhar deslizou pelas frias paredes de azulejo, com o coração a bater aceleradamente dentro do meu peito.

Se tivesse sabido antes de quem se tratava teria pedido a um colega que me substituísse. Ninguém estranharia; é um procedimento habitual não operar amigos, familiares ou... qualquer outra pessoa que possa comprometer a capacidade do cirurgião agir na sala de operações. Teria sido fácil. Mas que outra escolha podia ter feito depois de o reconhecer na sala de operações? E o que vou fazer para me proteger, se alguém descobrir?"
Este é um livro que entretém, ideal para uma época de férias, em que se pretende descomprimir e deixar assuntos mais sérios para outra altura. 
A premissa é boa, as personagens bem concebidas e a história vai sendo desenvolvida com o adequado "suspense", apesar de o ritmo, contrariamente a outros policiais, não ser rápido. A  narradora vai-nos entretendo com acontecimentos que vão tentando ser desvendados a ritmo lento, para, no fim, nos deixar boquiabertos com os acontecimentos que fecham a narrativa.
No meu entender, em determinado momento, a história fica num impasse e um pouco repetitivo.

Autissier, Isabelle (2021). Subitamente Sós. Alfragide: Casa das Letras (Leya).
Tradução: do francês, por Luísa Benvinda Álvares
Nº de páginas: 160
Início da leitura: 16/08/2023
Fim da leitura: 17/08/2023

**SINOPSE**
"Louise é uma alpinista experiente, Ludovic um jovem bem constituído. Destemidos e desejosos de um ano de liberdade, deixam o apartamento em Paris e uma vida bastante convencional para se lançarem numa aventura: darem a volta ao mundo num veleiro.

A ilha onde aportam, no polo sul, atrai-os pela beleza selvagem: picos nevados, crateras geladas, um lago seco. Mas de repente surge uma nuvenzinha escura ao longe… Quando a tempestade levanta, destrói tudo à sua volta e o barco desaparece. Os dois ficam subitamente sós; os pinguins, as otárias, os elefantes-marinhos e as ratazanas passam a ser a sua única companhia numa velha estação baleeira, abandonada há décadas.

A aventura romântica torna-se um pesadelo e a relação do casal deteriora-se a cada dia. Será possível sobreviver numa natureza tão estranha e hostil? Durante quanto tempo? Como poderão lutar contra a fome e a exaustão num lugar tão isolado? E, se sobreviverem, como será regressar para junto dos seres humanos? Como contar-lhes o inenarrável?

Subitamente, Sós é uma obra notável sobre o engenho e as estratégias de sobrevivência e, ao mesmo tempo, um aviso sério relativo ao poder da natureza sobre o homem."

Isabelle Autissier foi a primeira mulher velejadora a dar a volta ao mundo em solitário.
Escreveu romances, contos e ensaios, entre os quais Kerguelen (2006), Seule la mer s’en souviendra (2009), L’amant de Patagonie (2012) e, com o escritor Erik Orsenna, Salut au Grand Sud (2006) e Passer par le Nord (2014). Atualmente, é presidente honorária do World Wildlife Fund France (WWF).
Inicialmente, tive a sensação de estar perante dois jovens que retratam a atual sociedade, um pouco vazios e pensei que estava perante uma história de amor cliché. Mas, à medida que a ação avança, a história vai ganhando força, prendendo-nos completamente, envolvendo-nos. A degradação gradual do ser humano que não está, de todo, preparado para lutar pela sobrevivência, numa ilha sem o que comer, a não ser as lapas, algas e os pinguins. Lutar pela sobrevivência é pôr de parte qualquer sentimento, é, até mesmo, uma luta desumana, animalesca, onde a degradação física é acompanhada pela degradação psicológica. Há um amadurecimento e um envelhecimento inevitáveis. Para trás, ficam, para sempre, os jovens levianos que tudo tinham. Torna-se fácil matar, torna-se fácil ser-se egoísta, quando o que veem pela frente é a solidão total, a passagem dos dias sem ninguém que os salve, a morte...Ter-se-ão Ludovic e Louise salvado? Aconselho muito a leitura deste livro.


 Peixoto, José Luís (2012). Nenhum Olhar. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 224
Início da leitura: 14/08/2023
Fim da leitura: 16/08/2023

**SINOPSE**
"Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade. «... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»"
Nenhum olhar é um romance complexo, nostalgicamente belo, que ganhou o Prémio Literário José Saramago em 2001.
Numa prosa poética que chega até nós pelas palavras de vários narradores, situamo-nos num espaço real, o Alentejo. O meio onde ocorrem as várias sequências narrativas é extremamente pobre e, quanto maior a pobreza, maior a crença no sobrenatural, no demónio, no gigante, numa cadela de "passos solenes", na voz presa dentro de uma arca, no homem com mais de 150 anos... Real e fantástico conjugam-se numa história que nos fala de amor, de sofrimento, de morte, num ambiente onde domina a noite e o silêncio, envolvendo as personagens e o próprio leitor numa grande nostalgia. Afinal, "... o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.”
A personagens são, também elas, fruto do meio em que vivem. De entre elas, destaco os gémeos siameses, Moisés e Elias, cujo único elemento distintivo era o facto de Elias não falar se não ao ouvido de Moisés, que reproduzia oralmente as palavras do irmão. De realçar a morte da mãe dos gémeos no parto (algo que, antigamente, acontecia com alguma frequência). E todos, tudo converge para um fim, em que nada somos, a solidão apodera-se das pessoas e só ela avança. Pelo caminho, tudo morre: morrem as crianças, morrem as mães, morrem as promessas, morre o engano, esse "engano de uma manhã que nasceu nos teus olhos", esse sonho cego, dominado pela morte, em que todos se tornam terra.
Recomendo!

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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