Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Da Nova, Rita (2023). As Coisas Que Faltam. Lisboa: Editorial Presença.
Nº de páginas: 256

Início da leitura: 26/04/2024

Fim da leitura: 27/04/2024

**SINOPSE**

 "«Esta ideia de que havia uma espécie de fio invisível a ligar as filhas aos pais fez sentido. Havia algo que me impelia a procurar o meu pai, a agarrar esse fio e a puxá-lo, até conseguir aproximá-lo de mim.»

Quando tinha oito anos, Ana Luís pediu pela primeira vez para conhecer o pai. Era muito comum a mãe dizer-lhe que não a tudo - não, não podia ir para casa das colegas porque tinha de estudar; não, não podia comer gelados porque eram só gelo e açúcar. De todas as respostas negativas que estava habituada a receber, porém, aquela foi a que doeu mais.

Ana Luís cresce a sentir que lhe falta algo e que não pertence a lado nenhum. a convivência com a mãe, uma mulher fria e dominadora, aprisiona-a num lugar solitário.

É na figura do pai que deposita todas as suas esperanças: ele é a peça do puzzle que falta e, quando o conhecer, a sua vida vai finalmente fazer sentido e sentir-se-á completa.

As Coisas que Faltam, o tão aguardado romance de estreia de Rita da Nova, traz-nos a história de uma mulher à procura do seu lugar no mundo.

Numa trama de densidade emocional crescente, a autora explora com destreza a complexidade da identidade humana, a importância do círculo familiar e as histórias que se repetem, às vezes de geração em geração."
Não consigo resistir à forma como Rita Da Nova escreve, a intensidade dramática com que o faz, o corpo que dá às personagens que nos envolvem nas suas relações e nos seus afastamentos e a linguagem simples e elegante como nos vai narrando os acontecimentos. Quantas e quantas relações mãe/filha(o) não são como a relação entre Ana Luís e a mãe? O conflito de gerações, a frieza aparentemente inexplicável da mãe em relação à filha, a falta de autoconfiança e autonomia de uma jovem, habituada a ser mandada pela mãe, que acaba por se acomodar a uma relação, que também ela a instiga a anular-se enquanto mulher, enquanto ser para ser apenas o que esperam de si são alguns dos temas que nos prendem logo à história. Conseguirá Ana Luís ganhar coragem e enfrentar de uma vez por todas os seus problemas? Conseguirá alguém apagar o passado? É possível ser-se diferente do estereótipo de mãe que foi a mãe de Ana Luís? Encontrará alguma vez o pai com que sonhou e este corresponderá ao sonho que construiu na sua mente?
Vale muito a pena ler este livro.
Fico a aguardar por mais.

 Penner, Sarah (2024) A Sociedade Espírita de Londres. Madrid: HarperCollins.

Tradução: Fátima Tomás da Silva
Nº de páginas: 336
Início da leitura:21/04/2024
Fim da leitura: 25/04/2024

**SINOPSE**

"1873. Num château abandonado nos subúrbios de Paris está prestes a começar uma lôbrega sessão de espiritismo a cargo da célebre médium Vaudeline D’Allaire. Mundialmente famosa pela sua perícia para invocar espíritos de vítimas de crimes, para identificar os seus assassinos, é altamente solicitada tanto por viúvas como por investigadores.

Lenna Wickes viajou para Paris em busca de respostas para a morte da sua irmã, mas, para as encontrar, terá de abraçar o desconhecido e superar os seus preconceitos racionais contra as ciências ocultas. Quando Vaudeline recebe uma carta que a convida a ir a Inglaterra para resolver um assassinato muito falado em Londres, Lenna acompanha-a como aprendiza. Assim que formam equipa com os homens poderosos da exclusiva Sociedade Espírita de Londres para resolver o mistério, começam a suspeitar que, além de tentar resolver um crime, talvez estejam envolvidas num...

Escrita com uma tensão que prende e uma prosa sedutora, a Sociedade Espírita de Londres é uma história fascinante que apaga as fronteiras entre a verdade e a ilusão e revela os grandes riscos que as mulheres estão dispostas a correr para vingar os seus entes queridos."
Gosto quando os livros têm um fundo histórico devidamente documentada e isso acontece com este romance, que parte de um clube de cavalheiros, "The Gost Club", criado em Londres, em 1862. Inspirada nestes clubes, onde as mulheres não entravam (a não ser que se disfarçassem de homens), nasce a ficcional Sociedade Secreta Espírita de Londres, que tem como protagonista Lenna Wickes, disposta a fazer parte desta Sociedade para perceber os contornos que envolveram a morte da irmã, Evie Wickes. A premissa era muito boa, mas, até ao último terço do livro, a narração torna-se um pouco repetitiva e monótona. Só mesmo no final, quando está prestes a ser desvendado o mistério que envolveu a morte de Evie, é que se torna mais envolvente. Um livro de escrita acessível e elegante, adequada à época em que a ação se desenrola, mas que ficou um pouco aquém das minhas expetativas.

Nova, Rita Da (2024). Quando os Rios se Cruzam. Lisboa: Editorial Presença.

Nº de páginas: 240
Início da leitura:19/04/2024
Fim da leitura: 20/04/2024

**SINOPSE**

"«Durante anos, imaginei o que aconteceria quando contasse tudo isto, quando cravasse a mão no peito para extrair a culpa lá de dentro. E posso concluir que foi como arrancar o meu próprio coração, com a desvantagem de continuar viva.»

Para Leonor, ir de Erasmus significava começar de novo, aqueles meses em Turim seriam o balão de oxigénio de que tanto precisava para se afastar da mãe controladora, talvez até libertar-se da pessoa reservada e observadora que tinha aprendido a ser a casa. Onde ninguém a conhecesse, poderia ser quem quisesse.

Na cidade italiana, ela descobre partes de si que ignorava existirem, muitas delas novas e entusiasmantes. Mas há um outro lado de si que se revela, uma parte que a envergonha e amedronta, atitudes em que não se reconhece e cujas consequências vão ficar consigo para sempre.

Dez anos depois, mais uma vez a adiar o reencontro com o passado, Leonor dá por si a revelar a uma estranha tudo o que aconteceu naqueles meses e de que forma o fogo, até então tão inofensivo, acabou por lhe deixar marcas eternas.

Depois de um romance de estreia que se tornou um sucesso imediato, Rita da Nova está de volta com uma personagem complexa em busca de si própria, que procura conciliar as suas várias versões. Afinal, somos mais nós quando estamos junto das pessoas que nos conhecem ou quando estamos longe de tudo e podemos ser quem quisermos?"
Este é o segundo romance da autora, o primeiro que leio. Agora não descansarei enquanto não ler também o primeiro.
Gostei muito, pela escrita fluída, pela forma como a narrativa surge contada, pela linguagem elegante, direta e desprovida de pretensiosismos. 
Começamos, numa fase atual, em que a protagonista desta história, Leonor, se senta junto de uma mulher que desconhece e, numa conversa sobre fogo e fumo, quando a mulher lhe pergunta "- Mas ardeu-lhe alguma coisa, foi?", começa a contar-lhe a sua história de vida, a sua relação com a mãe, com o pai e com o tio e, o momento crucial, a sua ida para Turim, em 2012 em Erasmus, as amizades que fez, a "outra" Leonor que descobriu, as dúvidas, as perdas, a culpa... Fiquei presa à história do início ao fim e recomendo vivamente!

Shemilt, Jane (2016). A Filha Desaparecida. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria João Freire de Andrade
Nº de páginas: 332
Início da leitura: 15/04/2024
Fim da leitura: 18/04/2024

**SINOPSE**
As horas passam mas Naomi não aparece. A noite avança e Jenny desespera. A filha adolescente já devia ter voltado da escola, onde participou numa peça de teatro. A vida de Jenny, uma médica casada com um neurocirurgião de sucesso, está prestes a mudar.
Um ano depois da noite fatídica, Naomi continua desaparecida. A polícia procurou em vão e os piores cenários (rapto ou homicídio) parecem hipóteses remotas. A busca obsessiva de Jenny, que não desiste da filha, sugere outra explicação: as pessoas em quem confiava e que julgava conhecer têm escondido segredos - sobretudo a própria Naomi.
Não sendo um livro fabulosos, serve o propósito de entreter. Até um terço do livro, ficamos presos à história, pelo menos até ao desaparecimento de Naomi, uma adolescente, e enquanto começam a decorrer as investigações.
Naomi, que vivia com os pais e irmãos, num ambiente familiar supostamente harmoniosos e feliz, desaparece numa noite em que, segundo ela, teria uma festa com os elementos do tetaro em que ensaiava.
A partir do momento em que Naomi desaparece e se iniciam as investigações, começam a surgir as mentiras e os segredos que nos mostram outra face da família que, afinal, parece que não seria assim tão feliz.
Quando as investigações avançam, a ação, em vez de acompanhar num ritmo crescente de "suspense", começa a desenrolar-se deamsiado lentamente, o que acaba por cansar. Qaunto ao final, é de ficar boquiaberto (quanto a mim, tão imprevisível quanto ilógico).

Woods, Evie (2024). A Livraria Perdida. Lisboa: Singular. 

Tradução: Elsa T. S. Vieira
Nº de páginas: 368
Início da leitura: 13/04/2024
Fim da leitura: 19/04/2024

**SINOPSE**

Numa rua tranquila de Dublin, uma livraria perdida está à espera de ser encontrada.


Opaline, Martha e Henry parecem não ter nada em comum além de terem sido, durante demasiado tempo, personagens secundárias nas suas próprias vidas. Opaline tem de fugir de Londres para não ser obrigada a casar-se, Martha parece inevitavelmente presa numa relação tóxica, e Henry está noivo de uma mulher que não ama.

É em Ha’penny Lane, uma pacata rua de Dublin, que os caminhos destas personagens se cruzam. Era ali que devia estar a livraria fundada por Opaline, onde Henry entrou uma noite, pouco depois de chegar à Irlanda… mas não só não está, como também não há registos capazes de provar que alguma vez tenha existido.

Seguindo o pouco que sabem sobre a incrível vida desta misteriosa mulher, Henry e Martha tudo farão para encontrar a livraria perdida e descobrir os seus segredos. Por entre os ramos de uma árvore que teima em crescer numa cave da capital irlandesa, páginas que sussurram, mistérios literários desvendados e livros que aparecem em prateleiras sem que alguém os tenha posto lá, as histórias destas três personagens que o destino põe à prova serão reveladas, mostrando que até a vida mais banal pode tornar-se tão fascinante como as que se encontram nas páginas dos melhores livros.

Este é um livro que respira livros e mistério em duas histórias, aparentemente distintas, mas que se cruzam a páginas tantas. Foi-me oferecido por amigas livrólicas muito especiais.
Intercalam-se dois momentos: um que se passa entre 1921 e 1952 e um segundo momento, que decorre no presente. A história antiga, que, no fundo, está no cerne da história atual, temos como protagonista Opaline, uma jovem que foge a um casamento por interesse da família e que deseja ser comerciante de livros. Da sua vivência em Dublin destaco o seu interesse por livros antigos e a descoberta de um segundo volume de uma escritora de renome que nunca terá sido publicado. É com interesse que acompanhamos a história, venturas e desventuras de Opaline.
A par desta narrativa, surgem outras duas, que se cruzam no tempo: Henry é um jovem "falhado", um noivo pouco confiante no seu futuro, que procura uma livraria que não encontra, mas que empreende todas as diligências necessárias na sua procura. Martha foge de um lar onde é vítima de violência doméstica e acaba por arranjar emprego como governata em casa da idosa Madame Bowden, que acaba por ter também um papel determinnate nesta história. Martha acaba por alugar uma casinha pequena, que esconde muitos segredos.
Este é um livro de aconchego, onde nos sentimos em casa. Escrito de forma simples, o seu enredo cativa. Aconselho a leitura!
"Comecei a ler o livro à noite. Havia algo sagrado naquelas horas de silêncio e escuridão que fazia com que parecesse um momento especial." (pág. 129)

Perrin, Valérie (2023). Os Esquecidos de Domingo. Barcarena: Editorial Presença.

Tradução: Maria de Fátima Carmo
Nº de páginas: 312
Início da leitura: 09/04
Fim da leitura: 12/04

**SINOPSE**
"Aos 22 anos, Justine vive com os avós e o primo, Jules, desde que os pais de ambos morreram num acidente. Os dias de Justine parecem suceder-se sem que nada se altere: trabalha nas Hortênsias, um lar de idosos na pequena aldeia onde habita, e adora conversar com os residentes. Entre eles, está Hélène, uma centenária cujo sonho sempre foi aprender a ler.

Justine e Hélène criam um profundo laço de amizade, alimentado pelas horas que passam a escutar-se e a partilhar memórias e sentimentos. E eis que, enquanto as conversas se multiplicam, três coisas acontecem: Justine começa a interrogar-se sobre a morte dos pais, compra um caderno no qual começa a escrever regularmente, e, no lar, surgem estranhos telefonemas que vão provocar uma pequena revolução nas Hortênsias… De que forma se entrelaçam as histórias? Como podem as antigas e novas memórias fazer Justine mudar o rumo da sua vida?

Como já nos habituou, Valérie Perrin deslumbra-nos com a sua enorme sensibilidade ao tratar os temas mais delicados das nossas vidas num romance em que a melancolia e a graça andam de mãos dadas e nada é deixado ao acaso do destino."
Valérie Perrin escreve maravilhosamente! Neste livro, acompanhamos Justine, que trabalha no lar de idosos das Hortênsias. Entre ela e Hélène, uma das idosas de quem cuida, nasce uma amizade que é feita de cumplicidade, de desabafos (que parecem alucinações), de uma história de vida, que Justine vai escrevendo no seu caderno e que surgem de forma entrecortada (momento em que Justine se torna narradora da sua própria história). Ficamos a conhecer a história de vida de Hélène, que ficará para sempre na praia da sua memória, onde espera pelos olhos de que jamais esquecerá, com a gaivota que lhe faz companhia. Ficamos, ao mesmo tempo, a saber que Justine perdeu muito cedo os pais, que terão morrido num acidente de viação, tendo sido criada por uma avó intransigente.
Apenas ressalvo que estas histórias surgem de tal forma interligadas, que se fundem e confundem, caso não seja uma leitura atenta. É um livro que exige pré-disposição mental e que nos deixa uma lição de vida: cada vez mais os idosos se tornam nos "esquecidos de domingo", enquanto os filhos vão adiando visitas, deixando para o domingo, acabando mesmo por não se fazer. Por seu turno, Justine sente que também foi esquecida pelos pais, que morreram quando iam para um batizado, numa manhã de domingo. Por vezes, as histórias enlaçam-se de tal maneira que se tornam numa única história. Recomendo!
Deixo uma passagem:
"O domingo é o dia das visitas. Não para todos. Por isso bebi cinco cafés para conseguir ocupar-me dos que não as recebem. O domingo é um dia que é preciso «tratar com pinças». Está carregado de desgosto.Aqui, poderia pensar-se que todos os dias são domingo, mas não é assim. É como um relógio biológico. Todos os domingos, os velhos sabem que é domingo."

Valadão, Isabel (2017). O Rio das Pérolas. Lisboa: Bertrand Editora.

Nº de páginas: 248
Início da leitura: 04/04
Fim da leitura: 08/04

**SINOPSE**
"Maria e Mei Lin podiam ser duas pessoas diferentes. Na verdade, são duas facetas da mesma mulher. Quando Mei Lin, uma menina irreverente, com grandes sonhos, foge do convento e das freiras que a criaram para não se ver condenada a uma vida sem fulgor, predestinada por outros, estava longe de imaginar que a sua escolha a precipitaria para o submundo das casas de ópio e de prostituição de Macau. Mas o destino prega-lhe uma partida e Mei Lin acaba por ser vendida como pei-pa-chai — no fundo, uma escrava sexual. É então que conhece Manuel, filho de uma das famílias portuguesas mais importantes do Território, alguém que lhe pode dar outra vida.

Mas será a nova família capaz de a aceitar? E será que o passado ficou verdadeiramente para trás? Uma viagem por Macau nas décadas de 40, 50 e 60 e pelas contradições da vida num território português às portas da China, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial e da guerra sino-japonesa."
Este é um livro de leitura fácil e rápida. Carecia, quanto a mim, de um maior desenvolvimento, uma vez que a época em que a ação decorre, bem como o local, são especialmente importantes na História (anos 40-60 em Macau, enquanto território português às portas da China).
Neste contexto, uma criança (como era comum, no caso de crianças do sexo feminino), é abandonada num convento de freiras, que a criam e de onde foge na adolescência, acabando entregue à prostituição no submundo de Macau. Cresce, assim, num meio de exploração, escravidão sexual, ópio e prostituição.
No meu entender, faltou também algum caráter a esta personagem, Mei Lin ou Maria, para superar os traumas do passado, quando lhe surge oportunidade para isso, como se esse passado fosse uma veste que nunca mais conseguirá despir.
Deixo uma passagem do livro:
"Pela primeira vez na sua vida aquela noviça deparava-se com uma situação muito comum em Macau - o abandono de recém-nascidos, normalmente do sexo feminino. Era, aliás, uma situação que acontecia por toda a China. Nascidas em circunstâncias menos favoráveis, marcadas pelo estigma da desvalorização da mulher para o trabalho nas regiões mais pobres, o destino de muitas raparigas era o abandono à porta das igrejas ou orfanatos ou, frequentemente, serem afogadas à nascença."

 Garin, Alix (2023). Não Me Esqueças. Alfragide: Edições ASA II.


Tradução: Helena Guimarães
Nº de páginas: 224 páginas
Início da leitura: 24/03
Fim da leitura: 25/03

**SINOPSE**
"«Marie-Louise, dá um beijo ao mar, por mim. » ALIX GARIN
Foi a última coisa que a minha mãe me disse.
- Sabe o que mais, avó? E se lá fôssemos mesmo?

A avó de Clémence sofre da doença de Alzheimer. Perante o seu desespero, Clémence toma a decisão de tirar o lar e de levar numa viagem em busca da casa hipotética de sua infância. Uma fuga, uma busca, uma insanidade, uma oportunidade para se reencontrar. A menos que tudo seja, afinal, uma despedida..."
Esta é uma novela gráfica doce e, ao mesmo tempo, muito nostálgica. 
Após várias tentativas de fuga do Lar por parte da avó de Clémence, supostamente para regressar a sua casa, onde estariam "os pais dela", preocupados com a sua ausência (a avó tem Alzheimer), Laurence decide levar a avó até à sua terra. Esta viagem preenche praticamente toda a narrativa e é uma viagem "de amor" entre avó e neta, mesmo que, na maior parte dos momentos a avó não se recorde dela. É, ainda, uma viagem ao passado delas, às memórias que esse passado encerra. Confesso que me comoveu, pela forma doce como é abordado um tema tão duro. Gostei das ilustrações e recomendo muito!

Mafi, Tahereh (2019). Intocável. Amadora: Topseller.

Mafi, Tahereh (2022). Inquebrável. Amadora: Topseller.

Tradução: Renato Carreira
Nº de páginas do Intocável - 352
Nº de páginas do Inquebrável - 416
Início da leitura - 19 de março
Fim da leitura - 24 de março

**SINOPSE**
Autora bestseller do New York Times e do USA Today

Tenho uma maldição.
Tenho um dom.
Sou um monstro.
Sou um ser humano.
Sou uma arma.
Sou uma lutadora.
O mundo está em colapso. As doenças dizimam a população, a comida escasseia, os pássaros não voam e as nuvens têm a cor errada. E, com apenas 17 anos, a Juliette está presa por homicídio. Na verdade, ela tem um poder incrível que mais se assemelha a uma maldição? O seu toque pode matar.
Perante a eclosão de uma guerra, o Restabelecimento vê nesse poder letal um dom. A Juliette não é apenas uma alma atormentada dentro de um corpo venenoso, mas uma arma imprescindível para a manutenção da ordem.
Só que esta extraordinária rapariga já escolheu o seu próprio caminho. Após uma vida sem liberdade, ela encontra por fim a força necessária para lutar e reagir ? e tentar construir um futuro com o amor da sua vida, um rapaz que ela julgara ter perdido para sempre. Conseguirá a Juliette sair vitoriosa?
Um livro imperdível para os fãs das sagas Crepúsculo e Jogos da Fome."
Escolhi estes livros, há muito na estante, para um desafio do Bingo dos Livros - Fantasia. Falta-me ainda ler o terceiro, porém ainda terei de o adquirir.
Apesar de não gostar muito de fantasia, estes livros são também distopias, que aprecio mais.

Em relação ao Intocável, que poderei eu dizer? O que poderá fazer-se a uma jovem que pode matar alguém com o toque?Encerrá-la? Matá-la? Utilizá-la? Esta é a história de Juliette, que está encarcerada há 264 dias. Quem a quererá ver morta? Por que quiseram os pais livrar-se dela? Quem lhe resta? Estas são algumas das perguntas colocadas no início da narrativa e cujas respostas poderá (ou não) encontrar ao ler este livro. De leitura fácil e rápida. Um pouco previsível  e excessivo no que toca ao romance. Preferia ver mais ação em determinados momentos.

Alguns excertos:
O início da narrativa: "Estou trancada há 264 dias."
"Às vezes, penso que a solidão dentro de mim explodirá para fora da minha pele e, às vezes, não sei se chorar, gritar ou rir enquanto dura a histeria resolverá alguma coisa." (pág. 17)
"Todos precisamos de aprender a controlar os nossos talentos da melhor forma possível. Não serve de nada não conserguirmos controlar o nosso corpo." (pág. 341)

Tal como o livro já referido, no Inquebrável encontramos as mesmas personagens. Juliette depara-se com a incapacidade de se livrar de Warner, o chefe do Restabelecimento, que a quer utilizar para destruir o inimigo. Conseguirá Juliette libertar-se e voltar ao Ponto Ómega para reencontrar o seu amado Adam? Ou a obsessão que Warner tem por si despertará nela também emoções que julgava não sentir? Poderão os monstros ser lindos de morrer? Mais um livro de capítulos breves e de leitura rápida. O ritmo é um pouco lento e excessivo, como o anterior, no que concerne às emoções (principalmente físicas) da protagonista. Gosto dos momentos de reflexão pessoal.
Excerto:
"A solidão é uma coisa estranha. Aproxima-se sorrateira, em silêncio, senta-se a nosso lado na escuridão, acariciando-nos o cabelo enquanto dormimos. Abraça-se aos nossos ossos, apertando tanto que quase não consegues respirar. Deixa-nos mentiras no coração, deita-se a nosso lado à noite, suga-nos a luz de cada canto. É uma companhia constante, apertando a nossa mão apenas para nos puxar para baixo quando tentamos levantar-nos." (pág. 106)

Vicente, Gil e Morgado André F. (2024). Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. Lisboa: Levoir.

Nº de páginas: 64
Início da leitura: 16 de março
Fim da leitura: 17 de março

**SINOPSE**
"Inês Pereira é uma jovem caprichosa, ambiciosa e emancipada, sabe ler e escrever, procura um marido que a faça feliz não ouvindo os concelhos que a mãe lhe dá, não quer ter uma vida submissa, acabando por se casar com o homem que quer, mas fica desencantada e desiludida, transformando-se na esposa infiel do segundo marido.

A Farsa de Inês Pereira ilustra o ditado "antes quero burro que me leve que cavalo que me derrube", de forma bastante caricata e viva."
Esta Banda desenhada respeita a obra de Gil Vicente e mostra-se arrojada em termos gráficos, permitindo recordar uma obra emblemática do autor, que a escreveu para provar aos que levantavam falsos testemunhos sobre a originalidade da sua obra, através de um tópico que lhe fora indicado: "Mais vale asno que me carregue, que cavalo que me derrube.
Sendo uma farsa, há imensos momentos de ironia, que nos fazem rir. Porém, a par disso, reflete sobre temas importantes, como a tensão entre o Portugal velho (sociedade agrária) e os que viviam o Portugal novo (orientado para o comércio e para as ilusões de riqueza) e o conflito geracional entre mãe e filha.
Ainda assim, poderia ter sido alvo de uma revisão mais cuidada. Um dos balões de fala está apontado para uma personagem à qual não corresponde a fala e há gralhas no dossiê final, que não deviam constar. A pressa em lançar um novo título nem sempre é amiga da perfeição e era evitável.

Moura, Pedro (2018). Os Regressos. Lisboa: Polvo.

Nº de páginas: 65
Início da leitura: 18 de março
Fim da leitura: 20 de março

**SINOPSE**
"Prémio de Melhor Desenho para Álbum Português no Amadora BD 2018

Os Regressos, livro de estreia de Pedro Moura (argumento) e Marta Teives (desenho), é uma novela curta e densa, visualmente rica, que explora a fragilidade de como as pessoas constroem o mundo à sua volta e se tentam consolar entre si.

Madalena está de regresso à pequena aldeia onde viveu e cresceu com a avó, entretanto falecida.

Se a visita a Corvelo serve para tratar de assuntos mundanos, é também tentativa de virar uma página e fechar o passado, que se recusa libertá-la.

Os segredos da sua infância reaparecem, mostrando sofrimentos, reativando feridas, mas ao mesmo tempo revelando uma dimensão inesperada."
Esta é uma novela gráfica que se enquadra na categoria Fantasia. 
A protagonista regressa, após vários anos, à casa da avó, dois meses após a sua morte. Quando chega a casa da avó, invadem-na recordações da infância e, com elas, vêm as visões, que faziam com que fosse rotulada de louca, deixando de ter as oportunidades que os irmãos tiveram. 
A premissa era boa, mas não apreciei a forma como foi desenvolvida, nem o desfecho. As imagens são incipientes e não retratam as emoções das personagens. Os cartuchos (falas do narrador) aparecem com o conteúdo cortado, não se conseguindo ler na totalidade em algumas vinhetas. Gostaria de ter visto cor, que se adequaria muito bem à história narrada.

Pérrin, Valerie (2022). A Breve Vida das Flores. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria de Fátima Carmo
Nº de páginas: 448
Início da leitura: 04 de março
Fim da leitura: 07 de março

**SINOPSE**
"Íntimo, poético e luminoso.
O romance protagonizado por uma mulher que, contra tudo e contra todos, nunca deixa de acreditar na felicidade.

Violette Toussaint é guarda de cemitério numa pequena vila da Borgonha. A sua vida é preenchida pelas confidências - comoventes, trágicas, cómicas - dos visitantes do cemitério e pelos seus colegas: três coveiros, três agentes funerários e um padre. E os seus dias pareciam ser assim para sempre. Até à chegada do chefe de polícia Julien Seul, que quer deixar as cinzas da mãe na campa de um desconhecido.

A história de amor clandestino da mãe daquele homem afeta de tal forma Violette, que toda a dor que tentou calar, toda a tristeza pela morte da sua filha vêm ao de cima. É tempo de descobrir o responsável por aquela tragédia.

Atmosférico, tocante e - tantas vezes - hilariante, este é um romance de vida: dos que partiram e vivem em nós, da luz que se pode revelar mesmo na mais plena escuridão. Porque às vezes basta a simplicidade de um gesto, basta a frescura da água viva para nos devolver ao mundo, a nós mesmos e aos outros."
Não consigo compreender as críticas negativas a este livro que aborda tantas temáticas interessantes: o abandono, as famílias de acolhimento, o crescimento prematuro; as drogas e álcool, o amor, a entrega, a ausência a frieza, a solidão, o renascer das cinzas, o medo, a crueldade, a lei... entre muitos outros.
Foi um livro que me cativou do início ao fim e que ficará na minha memória.
Gostei também da alternância de narrativas e da elegância da escrita, tantas vezes poética. Gostei das personagens, tão credíveis quanto encantadoras! Recomendo sem reservas.

Deixo um excerto:
"Crescerás de outro modo, no amor que sempre te terei. Crescerás de outro modo, no murmúrios do mundo, no Mediterrâneo, na horta do Sasha, no voo de uma ave, no nascer do dia, no tombar da noite, através de uma jovem com quem me cruzarei por acaso, na folhagem de uma árvore, na prece de uma mulher, nas lágrimas de um homem, na luz de uma vela, renascerás mais tarde, um dia, sob a forma de uma flor ou de um rapazinho, com uma outra mamã, estarás em todo o lado onde o meu olhar pouse. Onde o meu coração habitar, o teu continuará a bater," (pág. 295).

Klune, TJ (2022). A Casa no Mar Celúleo. Lisboa: Desrotina.


Tradução: Alexandra Cardoso

Nº de páginas: 400

Início da leitura: 01 de março

Fim da leitura: 04 de março

**SINOPSE**

"Uma ilha mágica. Uma tarefa difícil. Um segredo destruidor.

Linus Baker leva uma vida solitária e sossegada. Aos quarenta anos, vive na cidade, onde só chove e os dias são cinzentos, numa velha casa, na companhia de uma gata mal-humorada e dos seus discos de vinil."
Escolhi este livro pela capa fantástica e porque já tinha ouvido falar muito bem dele.
Não sendo um género literário que aprecie muito, reconheço o mérito de quem o escreveu. É um livro sobre crianças peculiarmente diferentes e diferentes entre si, que aprenderam a respeitar-se e a preocupar-se com os próximos. Não deixam de ser crianças, com os seus sonhos, gostos pessoais, sentimentos, carências e afetos.
A mensagem transmitida é a de que nem sempre a diferença é má, pois pode ser o que nos torna especiais. Recomendo sem reservas.

Excertos:
Um texto escrito por uma das crianças diferentes:
"Sou apenas papel. Frágil e fino. Ergo-me contra o Sol e este brilha através de mim. Escrevem sobre mim e nunca mais poderei ser usado. Estes rabiscos são uma história. São história. Contam coisas para os outros lerem, mas estes só veem as palavras e não aquilo no qual as palavras estão escritas. Sou apenas papel r, embora existam muitos como eu, nenhum é exatamente o mesmo. Sou um pergaminho ressequido. Tenho linhas. Tenho buracos. Molhem-me e derreto. Incendeiem-me e ardo. Peguem-me com mãos endurecidas e amachuco-me. Rasgo-me. Sou apenas papel. Frágil e fino."

Drnaso (2019). Sabrina. Porto: Porto Editora.

Tradução: José Lima

Nº de páginas: 204

Início da leitura: 9 de março de 2024

Fim da leitura: 15 de março de 2024

**SINOPSE**

"O que terá acontecido a Sabrina? A resposta surge escondida numa cassete de vídeo, enviada às redações de vários órgãos de comunicação social e que, rapidamente, se torna viral.
Sabrina é uma novela gráfica que vem estabelecer um marco na história deste género literário, tendo sido a primeira a ser selecionada para o Man Booker Prize, consensualmente aclamada como uma das mais empolgantes e comoventes narrativas dos últimos anos.
Fábula dos tempos modernos, marcada por uma ansiedade no limite da paranoia e onde um rastilho de fake-news, teorias da conspiração e muita especulação anuncia uma explosão que pode ocorrer a qualquer momento, este é um livro que fala daqueles que são apanhados pelos destroços de uma tragédia, que tem algo a dizer sobre o modo como vivemos e que promete desinquietar quem o ler.
"Uma obra-prima", nas palavras de Zadie Smith, "maravilhosamente escrita e desenhada. possuindo todo o pode político da polémica e em simultâneo toda a delicadeza da verdadeira grande arte. Assustou-me. Adorei."

"Uma obra de arte esmagadora." The New York Times

"Uma análise inteligente e arrepiante sobre a natureza da confiança e da verdade e a erosão de ambas na era da internet." The Guardian

"O primeiro grande romance americano do século XXI, uma novela gráfica que foi capaz de captar o mundo que vivemos." El País."

Li a sinopse e as críticas e pareceu-me interessante.
Esta é uma novela gráfica que ganhou o prémio Grampo de Ouro, no brasil e, em 2010, foi a primeira, neste género literário, a ser selecionada para o Booker Prize.
Na minha opinião, tem mérito pela atualidade do tema das "Fake News" e o estado depressivo e paranoico a que podem conduzir as pessoas nelas implicadas. Aborda, ainda, outras temáticas, paralelamente, do dia a dia da civilização atual. Nãso gostei, porém, das ilustrações. Faltou-me sentir as emoções no olhar das personagens, nos gestos... uma maior intensidade e qualidade gráfica. As letras são minúsculas, o que dificulta a leitura e as personagens assemelham-se todas entre si em termos gráficos.

Excerto: "Nós continuamos complacentes, ainda que a sensação de mal-estar, de isolamento e de raiva seja palpável. Esta cólera podia ser aproveitada e canalizada para a direção certa, mas em vez disso, nós viramos a nossa abjeta frustração uns contra os outros".

Sala, David (2018). O Jogador de Xadrez. Lisboa: Levoir.

Tradução: João Miguel Lameiras
Início da leitura: 5 de março
Fim da leitura: 8 de março
Nº de páginas: 128

**SINOPSE**

"Ano de 1941: nos salões de um paquete com destino à argentina, o campeão do mundo de xadrez defronta numa última partida um aristocrata vienense, cujo extraordinário e estranho domínio do jogo foi aprendido sob o jugo da tirania.

Esta história desesperada e dolorosa da barbárie nazi foi escrita antes do suicídio do autor no Rio de Janeiro."
Esta novela gráfica é uma adaptação da obra de Stefan Zweig e está incrivelmente bem conseguida. A ilustração é original, de traços fortes e estilizados; o olhar das personagens, os gestos e emoções estão todos retratados nas ilustrações, de cores muito atrativas, adequadas aos anos 40. A sala é o espaço principal, onde decorrem os jogos de xadrez e onde é palpável toda a tensão, angústia e inquietação de cada jogo. Recomendo muito.

Deixo algumas das belíssimas ilustrações:


Wind, Eddy de (1946). Última Paragem Auschwitz. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2019.

Tradução: Maria Leonor Raven

Início da leitura: 22/02/2024

Fim da leitura: 29/02/2024

**SINOPSE**

"Em 1942, o médico judeu Eddy de Wind apresentou-se como voluntário para trabalhar em Westerbork, um campo de trânsito de judeus, no este dos Países Baixos, onde conheceu Friedel, uma jovem enfermeira. Os dois apaixonam-se e casam. Em 1943, foram deportados para Auschwitz num comboio de mercadorias e são separados, indo Eddy para o Block 9 e Friedel para o 10, onde se realizavam experiências médicas.
Quando os russos se começam a aproximar de Auschwitz, no Outono de 1944, os nazis decidiram apagar os seus vestígios e foi ordenado aos prisioneiros, entre os quais se encontrava Friedel, recuar até ao interior da Alemanha, no que se conheceria depois como «marchas da morte». Eddy, pelo contrário, escondeu-se e ficou em Auschwitz, onde encontrou um lápis e um caderno e começou a escrever."
Este é um livro sobre uma pessoa real, uma história real, o que, nesta temática, penso que é importante. É também uma temática dura de ler, requer pausas, requer reflexão. Ainda assim, é igualmente uma história de amor entre Eddy e a esposa, Friedel. E é muito bom quando compreendemos que o amor opera milagres, porque dá força, coragem, esperança, que são armas poderosas contra o sofrimento que foi infligido a cada um deles. Recomendo.

Marsé, Juan. O Feitiço de Xangai. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010. 

Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Nº de páginas: 240
Início da leitura: 16/02/2024
Fim da leitura: 19/02/2024

**SINOPSE**
"Os sucessivos aparecimentos e desaparecimentos dos maquis que vêm do outro lado da fronteira são a única coisa que anima a vida cinzenta de um bairro de Barcelona na época mais dura do pós-guerra. Este romance é o relato da aventura de um desses heróis míticos, que embarca rumo a Xangai para cumprir uma missão perigosíssima entre pistoleiros, ex nazis, belas mulheres e sinistros clubes noturnos; é ainda a história do efeito que tal relato provoca num grupo de jovens que se encontra sem rumo na vida. Daí que o feitiço deste romance não esteja tanto na apresentação da vida real quanto na da imaginada, provavelmente a única verdadeira.
O Feitiço de Xangai, um dos mais significativos romances de Juan Marsé, é uma lufada de ar fresco num tempo morto de um país morto e, ao mesmo tempo, um magistral romance dentro do romance."
Este livro foi publicado, pela primeira vez, em 1993, por Juan Marsé, um escritor de Barcelona, falecido em 2020, que recebeu vários prémios literários. Gostei muito deste livro, da forma envolvente como nos é contada a história. Esta passa-se entre Barcelona do Pós-Guerra Civil até ao exótico submundo de Xangai. Em Barcelona, o narrador, um jovem, que deixara a escola e se ainda não tinha trabalho, revela talento para a pintura. Conhece, entretanto, o alucinado capitão Blay que empreende uma luta solitária contra o vazamento de gás e a poluição de uma fábrica, pensando resolver a situação com um abaixo-assinado contra essa situação. Porém, as pessoas pouco ligam ao ambiente e poucas assinam o documento. Daniel, o jovem narrador, começa a ajudá-lo nesta tarefa e o capitão Blay faz-lhe uma proposta: para que as pessoas realmente acreditem nele, era preciso que Daniel fizesse um retrato da menina Susana, uma jovem que não podia sair da cama, por ter um pulmão infetado pela tuberculose. Para provar que o gás estivera na origem da doença e que ficariam todos doentes, agravando-se também a doença de Susana, Daniel teria de a pintar a definhar na sua cama. Seria Daniel capaz de corresponder às expetativas depositadas por Blay na sua capacidade artística? Vale a pena ler para descobrir!

Roca, Paco (2016). A Casa. Lisboa: Levoir.

Tradução: Carlos Xavier
Nº de páginas: 136
Início da leitura: 14/02/2024
Fim da leitura: 16/02/2024

**SINOPSE**
"Paco Roca (Valencia, 1969) é um versátil autor de banda desenhada e ilustrador, e um dos mais premiados autores espanhóis da atualidade. De entre as suas obras, destacamos O Inverno do Desenhador, editado pela Levoir e pelo Público na série de Novelas Gráficas de 2016, vencedor do Prémio de Melhor Obra e Melhor Argumento no Salón del Cómic de Barcelona em 2011. Com A Casa, obra intimista em torno da figura do seu pai desaparecido, Paco Roca afirmou-se como autor de primeiro nível internacional. Ao longo dos anos, o dono de uma casa enche-a de recordações, testemunhos silenciosos de uma vida. Uma casa é a imagem fiel do seu dono. Como os casais que vivem longos anos juntos. Assim, quando o seu ocupante desaparece para sempre, o recheio da casa fica intacto, à espera do regresso do seu dono. Os três irmãos que protagonizam esta história, tornam um ano após a morte do seu pai à casa de família onde cresceram. A sua intenção é vendê-la, mas em cada velharia que deitam fora, enfrentam as suas memórias. Temem estar a apagar o passado, a memória do seu pai, e as suas próprias memórias."

Que novela gráfica sublime! A história e as ilustrações numa harmonia perfeita. Simplesmente, inesquecível!
Tudo começa com a saída de um idoso de casa, uma saída que se vê que é tão lenta quanto dolorosa, numa metáfora da partida ou da morte. A casa permanece vazia durante várias estações do ano, até à chegada dos filhos, que vêm arranjar o que for necessário para venderem a casa. Mas esta é a CASA, assume aqui dimensões humanas, oferece às personagens memórias do passado, recordações de momentos com o pai, que foi o impulsionador de tudo. Os filhos recordam-na com mágoa, pois, para eles, que eram convidados pelo pai a trabalhar para a erguer e manter, representou a impossibilidade de irem de férias, de usufruírem de momentos de puro lazer. Agora, todos casados e afastados, voltam e, apesar da intenção inicial, ainda se questionam? Ficamos com a casa?
Aconselho a ler esta história que é a história de tantas famílias, de tantas pessoas que lutam uma vida inteira para terem a casa dos seus sonhos (ou o mais semelhante a isso) para, no fim, ninguém dar o real valor (será?).
E mais não digo. Apenas sugiro que se deixem habitar pela casa desta história.

Sumino, Yoru (2024). Quero Comer o Teu Pâncreas. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Ana Saldanha
Nº de páginas: 304
Início da leitura: 12/02/2024
Fim da leitura: 13/02/2024

**SINOPSE**
"O sentido da vida e a alegria de amar num romance que desafia todas as convenções. Sakura é uma rapariga popular e extrovertida. Mas há algo que ela mantém em segredo, algo de que apenas a sua família tem conhecimento: está a morrer de uma doença no pâncreas. Acima de tudo, Sakura não quer que as pessoas passem a tratá-la de forma diferente, mas um dia a sua condição é descoberta por um colega de turma. Ele percebe que lhe resta pouco tempo de vida e ela fá-lo prometer não contar a ninguém. Sakura decide então tirar o melhor partido da situação e realizar os seus últimos desejos na companhia do rapaz, um introvertido e solitário amante de livros.

É assim que Sakura e o estudante dão por si a partilhar um segredo devastador. E o que resulta é uma amizade única, tão intensa quanto breve, tão poderosa como a própria vida."

Quando escolhi este livro, um pouco em função do título bizarro, estava longe de imaginar a história que ia ler. Conhecer Sakura, uma jovem do 11º ano, com uma doença terminal, foi uma surpresa muito positiva. Para além de ser uma jovem muito positiva, sociável e amigável, é uma jovem que desafia as convenções, que se entrega a uma amizade improvável com o rapaz menos sociável da escola. E foi ele o escolhido para partilhar o que ninguém, a não ser a família sabia: tinha, no máximo, um ano de vida. Sakura não queria que os amigos sofressem. O tempo que passam juntos é um tempo de crescimento pessoal, de uma cumplicidade que comovem e nos enchem a alma. Gostei tanto deste livro! Recomendo muito!

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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