Não somos nada, nunca tenhamos pretensões de o ser. Estamos sós quando mais precisamos, ainda que rodeados da gente de "a mim a mim". Em último lugar... Remetemo-nos para último lugar... De resto, somos sombras de gente que desconhecemos. Escombros postos de lado, sem credibilidade. Vivemos uma vida que não é nossa, que não é a dos contos de fadas. A indiferença, a incompreensão pautam, de dia para dia, cada vez mais, a nossa vida. É fácil apontar o dedo em riste e atirar culpas, difícil mesmo, é a preocupação advinda do carinho, aquele que não pede nem exige satisfações, apenas compreende...
Célia Gil
Cruz, Afonso (2015). Flores. Lisboa: Companhia das Letras.
Este livro
chama-nos de imediato a atenção pela própria capa – as flores azuis, símbolo da
eternidade, captou-me e motivou-me para a sua leitura.
Depois de ler Os Livros que Devoraram o meu Pai,
fiquei curiosa em ler mais livros deste escritor. E foi assim que, e
aproveitando uma das frases mais proferidas no livro, entrei “mais dentro na
espessura”.
Numa linguagem
poética e fluída, somos conduzidos à história de um homem, que se encontra numa
fase difícil da sua vida – divórcio, distanciamento da filha – resultante,
também, da sua própria maneira de ser, ao alhear-se de algumas situações que o
rodeiam e da sua própria vida. Acaba por constatar que a relação com a mulher
falhou, porque já só se beijam “como quem faz a cama” e os beijos “sabem à
rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar a loiça”.
Sem conseguir
resolver os seus problemas e talvez até para fugir deles, decide ajudar um
vizinho, o Sr. Ulme, a recuperar as memórias perdidas, em virtude de uma doença
degenerativa, após ter sido operado a um aneurisma.
Enquanto se
embrenha na recuperação das memórias de Ulme, junto de pessoas que o conheciam,
com a ajuda da filha, que sente uma grande amizade por Ulme, faz por esquecer e
ultrapassar os seus próprios problemas. No fundo, ele e Ulme são duas pessoas
perdidas no mundo e a precisar de companhia.
Acaba por
perceber que a vida é efémera e que, à medida que passa, se vai perdendo a
própria razão de existir e até mesmo a existência. Urge, por isso, recuperar a
capacidade de acreditar no futuro e de lutar pelos próprios sonhos. O futuro
não é uma construção do passado, não há “armas capazes de disparar um futuro”.
O que se perde, custa a recuperar, até porque a pessoa que viveu essas perdas,
se vai transformando e tem de enfrentar as mudanças para poder habituar-se a viver
com elas, a ser feliz para além delas.
São personagens
muito atuais e é tecida uma crítica a esta realidade presente, em que as
pessoas se perdem nas teias da rotina (que acaba por funcionar como um ladrão
de amor), nas relações conjugais, familiares e, até, no amor-próprio.
Acabam por
recordar apenas os momentos especiais, os que não foram consumidos pela rotina.
A morte iminente
tem o poder de conferir sentido à vida, tornando as vivências mais intensas,
criando a vontade de mudar, de lutar diariamente.
Vale a pena
viajar “mais dentro na espessura” e conhecer estas personagens, que têm sempre
algo para nos ensinar.
Deixo uma passagem
do livro, sem dúvida aliciante:
“As mães são as fiéis
depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais
importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe
morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida.
Por isso trata-a bem” (pág. 80).
Vale a pena!
Penetrem “mais fundo na espessura”!
Célia Gil
No dia em que te esqueceste
de quem eu era, quem te era,
senti fugir o chão que me deste
e destruir-se toda a quimera.
A tua voz passou a ser vazia,
oca de histórias e de momentos,
uma voz sem contorno e vadia,
uma voz que não lê os pensamentos.
O teu sorriso também deixou de ser,
nos teus olhos já não moram ilusões,
quem te conhece há de compreender
o vazio em que vivem as tuas emoções.
Já não lês os sentimentos que me tomam,
não afloras os problemas, que desconheces.
E os dias são dias que apenas somam
horas e minutos de que logo te esqueces.
Passa a vida, a teu lado, ombro a ombro.
Tu olha-la de soslaio sem a reconheceres,
e todas as histórias que viveste são escombro
que olhas sem veres e sem entenderes.
E como criança outra vez nascida,
sucumbes ao carinho que ainda te acalenta.
És uma gaivota do ninho perdida,
numa noite sem céu e nevoenta.
Célia Gil
Tanta maldade!
Há dias em que os nossos olhos choram o que a boca não ousa falar. É tão duro ver o meu país, assim, a debater-se, em vão, contra as chamas. Fico muda, petrificada e queimada por dentro. As imagens irrompem com tal força pelas minhas retinas dentro, que engasgam soluços, contorcem artérias, arrepiam o coração, trespassam a alma, ficam marcadas para sempre.
Como é possível?
Quem é capaz de matar? Matar a natureza, que todos os dias nos presenteia com a sua beleza?
Matar os animais que por ali correm, esbaforidos e presos nas chamas?
Matar sonhos, de quem investiu uma vida inteira nas terras, nas casas, nas máquinas agrícolas e tantas outras coisas ardidas, perdidas?
Sonhos petrificados em rostos de dor, num baixar de braços ante a impotência que derrota a esperança!
Incendeiam-nos a esperança. Matam-nos os sonhos, a força, a coragem, a vontade.
Matar pessoas, PESSOAS! ANIMAIS! SERES VIVOS!
Como é que alguém é capaz de pôr fogo, depois de tantas calamidades?
E ficar indiferente...Em prisão domiciliária, a aguardar um julgamento que os deixa em liberdade...
Então são doentes, são capazes de matar, porque são doentes...Mas dormem, conseguem fechar os olhos, à noite e repousar.
Quem, com cancro terminal, pensa em matar alguém? E isso, sim, é uma pessoa verdadeiramente doente e desesperada!
Se é loucura, se é demência, há que tratá-la. Mas não é deixando para depois, não é libertando, para voltarem a fazer o mesmo, vezes sem conta!
Para quando? Para quando a prevenção? A prevenção não está apenas nas matas, a prevenção está na educação, no internamento, na terapia, na prisão! Não é possível deixar em liberdade, alguém que incendeia, porque foi traído pela mulher, alguém que incendeia, porque precisa de adrenalina, alguém que incendeia, para ganhar milhões com os incêndios! Esta é só mais uma forma de deixar andar... A prevenção e a resolução dão, provavelmente, muito trabalho e pouca adrenalina!!!
Matar? Há em qualquer dessas situações que mencionei, uma justificação para matar? Para destruir o nosso país?
NADA justifica, NADA penaliza, NADA se faz e tudo continuará até Portugal estar completamente negro, mais do que já está.
Negro por fora, negro por dentro das almas que choram esta desgraça.
Apesar de alguns morrerem fisicamente, todos morremos um pouco por dentro. Já diz o ditado popular "Elas não matam mas moem". Bem verdade! Quem, digno, não se sente morrer a cada dia, a cada incêndio, a cada destruição? Quem não se sente impotente, chocado, abalroado com a realidade tão dura que nos sufoca a cada nova notícia, a cada nova imagem?
MORREMOS, morremos todos, quando nos morre o nosso país, quando nos morre a nossa gente!
Célia Gil
E, apesar de já termos entrado no outono, o calor continua a fazer-nos companhia, pelo que ainda é possível apanhar muitas framboesas maduras e suculentas.
Inspirada neste fruto, fiz uma sobremesa, que vou partilhar, porque, além de muito fresca, é igualmente saborosa e fácil de fazer.
Adiciona-se a 5 colheres de farinha maisena um pouco de leite. Mexe-se muito bem. Adiciona-se o restante leite até perfazer um litro. Juntam-se duas latas de leite condensado. Mexe-se bem e vai ao lume, mexendo sempre, até ficar em ponto de pudim.
Quando estiver morno, adiciona-se um pacote de natas batidas. Vai ao frigorífico refrescar.
Entretanto, faz-se uma gelatina instantânea de framboesas.
Quando estiver frio, colocam-se as framboesas (estas foram acabadinhas de colher!)
Entorna-se a gelatina já fria, com cuidado. E vai refrescar! Uma delícia!

O
Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel García Márquez
É um romance em que a história de Fermina
Daza e Florentino Ariza surge contada através de uma grande analepse e comprova
que o amor pode existir até à morte como
uma promessa adiada, mas inevitável, apesar das contingências, das fatalidades
e do envelhecimento das personagens. Estas são muito bem construídas e credíveis,
prendendo-nos desde o primeiro momento. Fermina exale sensualidade, distinção e
caráter.
Fermina, conquistada pelo romantismo de
Florentino, por meio de súplicas, músicas tocadas no seu violino, flores,
poemas líricos, sofre quando o pai decide afastá-la deste amor imprudente.
Quando regressa e reencontra Florentino, pondera se realmente o ama ou se criou
dele uma imagem que não existia, pois não sente a mesma atração de antes. Acaba
por casar com o médico Juvenal Urbino, com quem vive uma vida inteira e com
quem é feliz.
Pelo meio desta relação e das aventuras amorosas
de Florentino, ou a traição de Urbino com uma morena estonteante, ocorrem
encontros casuais, em que Fermina se mostra altiva e, aparentemente, o ignora.
Florentino, neste seu amor platónico não correspondido, envolve-se com várias
mulheres, sem nunca pôr de parte uma futura relação com Fermina.
Quando Urbino morre, ao tentar apanhar o
papagaio que lhe fugira para a mangueira, Florentino volta a acreditar que
ainda poderá resgatar o amor, malgrado toda uma vida que já passou e a sua
condição irremediável de velhos. Depois de conseguir que ela o aceitasse em sua
casa, em encontros de amigos, em longas conversas, em novas cartas, em esperas
indefinidas, consegue convencer Fermina a fazer uma viagem nos barcos fluviais,
onde acabou por enriquecer para a conquistar. Constituirá esta viagem a
concretização deste amor que os acompanhou ao longo de uma vida? Não serão
demasiado velhos para viver umas núpcias? Até onde poderá ir a obsessão de amor
de Florentino?
Vale a pena ler este romance pautado pelo
sentido de humor, pela poesia, pelo realismo, pelo ritmo alucinante, porque
constitui, com efeito, um hino à vida e ao amor.
Gabriel
García Márquez nasceu em 1927 em Aracataca, no México. Terminando os seus estudos
secundários, ingressou no curso de Direito da Universidade de Bogotá, mas não o
chegou a concluir. Fascinado pela escrita, transferiu-se para a Universidade de
Cartagena, onde recebeu preparação académica em Jornalismo. Publicou o seu
primeiro conto, "La Hojarasca", em 1947. No ano seguinte, deu início
a uma carreira como jornalista, colaborando com inúmeras publicações
sul-americanas. No ano de 1954 foi especialmente enviado para Roma, como
correspondente do jornal El Espectador mas, pouco tempo
depois, o regime ditatorial colombiano encerrou a redação, o que contribuiu
para que Márquez continuasse na Europa, sentindo-se mais seguro longe do seu
país.
Em 1955 publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de contos, "La Hojarasca".
Em 1967 publicou a sua obra mais conhecida, o romance Cien Años De Soledad ("Cem Anos de Solidão"), romance que se tornou num marco considerável no estilo denominado como realismo mágico. Escreveu ainda El Otoño Del Patriarca (1977); Crónica De Una Muerte Anunciada (1981, "Crónica de uma Morte Anunciada); El Amor En Los Tiempos De Cólera (1985, "Amor em Tempos de Cólera"), El General En Su Laberinto (1989). Em 2003, as Publicações D. Quixote editam, deste autor, Viver para Contá-la, um volume de memórias de Gabriel García Márquez, onde o autor descreve parte da sua vida. Gabriel García Márquez foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1982.
Morreu a 17 de abril de 2014, aos 87 anos, em sua casa na Cidade do México, ao lado da mulher Mercedes e dos seus dois filhos.
Em 1955 publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de contos, "La Hojarasca".
Em 1967 publicou a sua obra mais conhecida, o romance Cien Años De Soledad ("Cem Anos de Solidão"), romance que se tornou num marco considerável no estilo denominado como realismo mágico. Escreveu ainda El Otoño Del Patriarca (1977); Crónica De Una Muerte Anunciada (1981, "Crónica de uma Morte Anunciada); El Amor En Los Tiempos De Cólera (1985, "Amor em Tempos de Cólera"), El General En Su Laberinto (1989). Em 2003, as Publicações D. Quixote editam, deste autor, Viver para Contá-la, um volume de memórias de Gabriel García Márquez, onde o autor descreve parte da sua vida. Gabriel García Márquez foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1982.
Morreu a 17 de abril de 2014, aos 87 anos, em sua casa na Cidade do México, ao lado da mulher Mercedes e dos seus dois filhos.
Célia Gil
Nos confins ignotos da humana mente
sempre se consegue surpreender
mesmo quem incrédulo possa ser
porque é assim, a condição de gente.
Cada dia uma página se vira,
escrita em linhas travessas do ser
linhas nas quais ousa permanecer
a vida sem se consumir pela ira.
Seguimos, cada dia, renovando
a existência, com novo fulgor.
Novos conceitos que, improvisando,
lhe vão conferindo novos sentidos
insuflados de todo um esplendor
em etéreos futuros prometidos.
Célia Gil
Com um fim de semana maior, em virtude do feriado, nada como aproveitar para ler! Hoje trago uma proposta divertida, para relaxar e dar umas boas gargalhadas!
Townsend, Sue (2012). A Mulher que Decidiu Passar um Ano na Cama. Editorial Presença: Lisboa.
Neste livro de ficção para adultos, a protagonista, Eva, quando os
gémeos entram para a Universidade, ficando longe de casa, sobe as escadas que a
levam ao seu quarto e decide passar um ano na cama. Provavelmente, é o que
apeteceria a muitas mulheres que se veem anos a fio confrontadas diariamente
com as lides domésticas, com as decisões mais importantes, a casa, o marido e
os filhos para cuidar.
E quando se toma uma decisão destas, quem cuida dela? Os gémeos, que
nunca foram meigos, que vão a casa contrariados e para quem os pais têm imensos
defeitos? O marido, um astrónomo que se preocupava com o sistema planetário e
tinha uma amante? A sogra, que acaba por morrer vítima de tabagismo (ao
desequilibrar-se quando tentava chegar a um maço de cigarros), a mãe, que vai
ficando cada vez mais esquecida? Quem passará a cuidar de Eva? Como reage o
marido ao facto de já não ter quem lhe passe as camisas ou faça o jantar? Quem
vai tratar da casa?
E quando começa a circular, pela população, que Eva é etérea, tem
poderes extrassensoriais, é uma santa, cercando-lhe os fãs a casa, para serem
ouvidos e aconselhados por ela, como é que ela reage? Responderá ela a dezenas
de cartas que recebe dos seus fãs todos os dias?
O que aprende Eva durante todo o tempo que passa na cama? Esta doença
autoinfligida durará até quando? Conseguirá Eva o que pretendia? Será que
pretendia alguma coisa?
Um livro através do qual se faz uma crítica às relações familiares, de
forma tão hilariante que o leitor pode preparar-se para dar por si a soltar
umas valentes gargalhadas.
Sue Townsend foi autora de vários
livros e peças teatrais, mãe de quatro filhos, assistente social e bolseira da
cadeia de televisão "Thames TV".
Quando, aos 36 anos, escreveu o Diário Secreto de Adrian Mole, não concebeu o sucesso que viria a alcançar, não só em Inglaterra, como em quase todos os países da Europa e até no Japão.
Para além dos 6 volumes da série Adrian Mole, publicou A Rainha e Eu e Número Dez. Morreu a 10 de abril de 2014.
Quando, aos 36 anos, escreveu o Diário Secreto de Adrian Mole, não concebeu o sucesso que viria a alcançar, não só em Inglaterra, como em quase todos os países da Europa e até no Japão.
Para além dos 6 volumes da série Adrian Mole, publicou A Rainha e Eu e Número Dez. Morreu a 10 de abril de 2014.
Um
leitor, no verdadeiro sentido da palavra, é o leitor que compreende, interpreta
e intervém, que é consciente e livre. E é a leitura que lhe permite desenvolver
o domínio da linguagem (...).
A
originalidade do escritor não nasce consigo, ainda que possa existir uma
aptidão pela escrita. Um escritor tem de ser crítico, ao ser o primeiro leitor
do seu próprio texto (...), ousar pôr em causa o que se decide a escrever;
pesquisar, para confirmar e ser o mais fidedigno possível; questionar o que diz
e por que diz; observar com perspicácia, para poder relatar, ainda que possa
recriar; ser convicto de que consegue ultrapassar obstáculos e alcançar o
objetivo a que se propôs; ser obstinado, para não desistir, para não se deixar
levar pela inércia e pela derrota de um livro inacabado e, por último,
trabalhar incansavelmente no seu projeto (...).
O
escritor é aquele que escreve com prazer e que se distingue do autor, o
profissional que dá a conhecer a sua obra e se vai esquecendo de que foi, antes
de ser um autor, um escritor (...).
Para
chegar ao leitor, o escritor precisa de ser criativo, crítico e ativo, sem
deixar de escrever com autenticidade, havendo, para tal, também a necessidade
de uma boa seleção de fontes. Até porque o escritor precisa de ter em
consideração a existência de diversos tipos de leitor – aquele que lê poucas
páginas, porque de cada vez que lê, a sua mente vagueia, acabando por
afastar-se do livro; aquele que lê atentamente, detendo-se nos mais ínfimos
pormenores, considerando-os todos preciosos, e relê para encontrar ideias
escondidas nas entrelinhas; aquele que relê os livros, encarando esta releitura
como a primeira vez, pois continua a deslindar emoções e acontecimentos novos e
que, ao reler consegue aumentar a distanciação crítica; o leitor que considera
que cada livro que lê faz parte do grande livro único que constitui o conjunto
das suas leituras; o leitor que entende que o livro único é o que existe para
além do tempo, procurando em cada leitura o livro da sua infância, que não é
fácil de encontrar; o leitor que se detém sempre antes no título, na capa, no
início do livro, para o qual mais importante que a leitura é a promessa da
leitura; aquele para o qual o mais importante é o que está para lá do final do
livro e que ele procura desvendar. São tantos os tipos de leitor, que nem
sempre é fácil escrever para um em específico. Às vezes, o próprio escritor
fica surpreendido com os tipos de leitor que consegue captar para a leitura do
seu livro. Por isso, o escritor tem sempre a aprender com o próprio leitor, que
lhe vai dando indicações do que gosta, como gosta e porque gosta (...).
Em
suma, não basta querer ser-se escritor, é preciso ser-se empenhado, crítico,
ter em conta o leitor a quem se pretende chegar (sem contar aquele a que pode
chegar sem que tenha sido previsto), sem desistir do seu sonho de escrever, mas
investindo nesse sonho com paixão, dedicação e persistência.
In O
Sonho no Texto Poético de Expressão Portuguesa, Célia Gil

Eis um espanta-espíritos que fiz para motivar os alunos da minha escola para a leitura e a que atribuí o seguinte título:
Porque a leitura também
"espanta-espíritos..."
Deixo, também, uma
proposta de leitura:
Moyes, Jojo (2013). Viver depois de
ti. Porto: Porto Editora.
Viver
Depois de Ti é um romance dramático que, apesar
das suas 422 páginas, se lê com uma rapidez impressionante. As personagens, bem
construídas, sólidas, credíveis, envolvem-nos numa história que nos questiona,
nos leva a ponderar sobre o que somos, a efemeridade de tudo, a vida e a morte.
Louisa
Clark é uma jovem com uma vida simples - um namorado estável, trabalhador,
saudável, obcecado pelo desporto e uma família unida - que nunca saiu da aldeia
onde sempre viveu.
Ao
ver-se sem emprego, sente-se na obrigação de aceitar um emprego em casa de Will
Traynor, que vive preso a uma cadeira de rodas, depois de um acidente.
Will,
que sempre tinha vivido intensamente antes do acidente - grandes negócios,
desportos radicais, viajante incansável – vê-se confinado a uma cadeira de
rodas, com apenas 35 anos, totalmente dependente de terceiros, numa vida que
não queria para ele e com que nunca se poderia conformar. Louisa é contratada
por seis meses pela família de Will como cuidadora, pelo seu temperamento
alegre, com a esperança de o demover da ideia de embarcar numa morte assistida,
numa clínica na Suíça, como tencionava fazer.
Will
encontrava-se mergulhado numa profunda solidão e depressão. Com a sua alegria
genuína, a sua paciência e complacência, Louisa acaba por entrar no seu mundo.
Ela teria de fazer tudo por tudo, em seis meses, para o demover da sua ideia
inicial. Will descobre com Louisa que afinal há uma série de coisas que pode
fazer, ainda que numa cadeira de rodas. Mas será Louisa capaz de o demover da
sua ideia inicial? Ou a liberdade de escolha de Will não seria também uma forma
de libertar Louisa? Will descobre em Louisa uma jovem com grande potencial,
incentiva-a a deixar o seu mundo, estudar e viver. Mas faria a sua vida sentido
sem Will?
Viver
Depois de Ti é um conto de fadas envolto em
realidade. Existe esperança, amor, revolta, desespero e todo um leque
de sentimentos reais para quem sofre diariamente. Um livro com o qual
se ri e chora. Temas controversos e atuais, como a eutanásia e a deficiência
são o mote desta história empolgante.
Jojo
Moyes estudou Jornalismo e foi correspondente do jornal The Independent durante
10 anos, até se dedicar a tempo inteiro à escrita criativa. Foi uma das poucas
escritoras a receber por duas vezes o prémio Romantic Novel of the Year,
primeiro com Foreign Fruit (2003) e mais tarde com A
Última Carta de Amor (2011).
É com o romance Viver Depois de Ti que Jojo Moyes alcança os tops de vendas nos 44 países onde o livro está publicado. Com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, Viver Depois de Ti vê a sua adaptação ao cinema, para grande alegria dos seus leitores em todo o mundo.
Jojo Moyes escreveu até à data 14 romances, dos quais destacamos Silver Bay – A Baía do Desejo, Um Violino na Noite, Retrato de Família, A Última Carta de Amor, Viver Depois de Ti, O Olhar de Sophie e Viver Sem Ti, que figuram no catálogo da Porto Editora.
Célia Gil
É com o romance Viver Depois de Ti que Jojo Moyes alcança os tops de vendas nos 44 países onde o livro está publicado. Com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, Viver Depois de Ti vê a sua adaptação ao cinema, para grande alegria dos seus leitores em todo o mundo.
Jojo Moyes escreveu até à data 14 romances, dos quais destacamos Silver Bay – A Baía do Desejo, Um Violino na Noite, Retrato de Família, A Última Carta de Amor, Viver Depois de Ti, O Olhar de Sophie e Viver Sem Ti, que figuram no catálogo da Porto Editora.
Célia Gil
Desde cedo, aprendemos a viver para os outros, em função dos outros e pelo que os outros pensam.
Aprendemos a viver para alcançar sucessivos objetivos: a formação escolar, o casamento, o lar, o marido, os filhos, a família, a profissão...
Na ânsia de querermos dar o melhor de nós em cada circunstância, constatamos que a vida foi passando e que não vivemos. Passámos por tudo a correr, continuamos a correr...
Para quê? Para onde?
Há que parar um pouco para nos questionarmos. Afinal onde queremos ir? O que procuramos tão desesperadamente? Que nos leva a não ter um minuto para o que realmente somos e gostamos?
Já paramos para nos questionarmos sobre a razão de viver nesta ansiedade, que nos consome as forças? Esperamos, porventura, que a tristeza em que vivemos o presente seja a cruz que nos permitirá a redenção futura? Que redenção? Estaremos à espera de viver quando já não tivermos força ou até vontade? Quando verificamos que a vida nos passou ao lado e que estamos cansados, cansados até de pensar em viver. Tão cansados, que já nem prazer sentimos quando alcançamos algo que desejamos a vida toda.
Não nos rimos desalmadamente, porque ficava mal. Não fizemos algo, porque era incorreto. Não saímos, porque tínhamos obrigações que nos encarceravam. Não ignorámos nunca o que a sociedade pensa, a forma como somos vistos, a imagem que queremos passar. Esquecemo-nos, isso sim, que, agindo desta forma, deixámos, muitas vezes, de ser quem somos, do que nos fazia realmente felizes e ficámos de tal forma acomodados a uma vida que vivemos, que nos esquecemos da vida que sonhámos. Isto pode ficar mal... Isto pode fazer-me mal...Podia, mas nunca fez, porque nunca nos demos a oportunidade de "pular a cerca" das suposições.
E andamos uma vida inteira com duas palas nos olhos, enxergando um objetivo predefinido pela própria sociedade, uma capa social que serve a todos, e que deixa a descoberto apenas o que poderemos ser, fazer ou viver. Uma capa social que restringe quem quer fazer a diferença, abafa a personalidade de cada um e não deixa respirar a felicidade.
A vida estava, afinal, ali mesmo, no que permanece para lá das palas, no que nos faz realmente felizes, no que não é programado ou exigido, no que seria genuinamente ser feliz.
Célia Gil
(imagem do google)
Sou folha que cai
a cada novo chão de outono.
Sou gemido que sai,
me invade, levando-me o sono.
E caio... Assim, lentamente...
contorcidamente, em direção ao chão.
Num amarelecer de gente
que rodopia pela vida sem razão.
Sou folha que vai, triste condição,
perder a cor, escurecer.
Ignorada, largada pelo chão,
à espera de apodrecer.
E o amarelo, dourada ilusão,
fez parte do processo de dissolução.
Sou aquela folha esquecida
numa página que se virou,
com uma mensagem perdida
no livro que se encerrou.
Célia Gil
Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.
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