Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Bukowski, Charles (2012). Pulp. Lisboa: Alfaguara.

Tradução: Vasco Gato
N.º de páginas: 240
Início da leitura: 06/04/2026
Fim da leitura: 08/04/2026

**SINOPSE WOOK**
"O último romance de um dos mais conhecidos autores americanos contemporâneos.
O romance conta as desventuras de Nick Belane, detetive particular em Los Angeles. A procura do escritor clássico francês, Céline, é a desculpa perfeita para o detetive privado percorrer os bares da cidade e saciar a sua sede de álcool. Uma espiral de personagens e aventuras que se misturam num cocktail de pesadelo existencial.
Escrito enquanto Bukowski lutava contra a doença de que viria a morrer, Pulp é a despedida do autor aos seus leitores e um romance de corajosa autocrítica."

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Publicado já no final da vida de Charles Bukowski, Pulp surge como uma espécie de despedida literária que, longe de procurar consensos, acentua precisamente os traços mais desconcertantes da sua escrita. Trata-se de uma obra que pode causar estranheza, e até rejeição, sobretudo em leitores que não se reveem na estética deliberadamente crua e provocatória do autor.
A narrativa acompanha Nick Belane, um detetive privado que parece existir como caricatura de si próprio: grosseiro, desajustado e frequentemente desagradável. Mais do que construir uma personagem com a qual o leitor se identifique, Bukowski opta por levar ao limite um arquétipo degradado, quase paródico, do investigador clássico. Essa opção literária, embora coerente com o tom satírico da obra, criou, no meu entender, uma barreira difícil de ultrapassar, na medida em que afasta qualquer empatia imediata e me colocou numa posição de distanciamento crítico.
Por outro lado, a introdução de elementos insólitos - como a Sra. Morte ou referências a extraterrestres - contribui para uma atmosfera que oscila entre o absurdo e a alegoria. Ainda que se possam ler essas presenças como metáforas de alienação, decadência ou até da própria condição humana, o seu tratamento aproxima-se frequentemente de uma lógica de fantasia desconcertante, que nem sempre se articula de forma clara com o restante enredo. Para mim, pouco apreciadora deste tipo de registo, essa dimensão pode pareceu-me deslocada ou mesmo desestabilizadora.
A linguagem, por sua vez, mantém-se fiel ao estilo inconfundível de Bukowski: direta, rude e marcada por uma oralidade crua, onde o recurso a palavrões e expressões bruscas não é um desvio, mas antes um elemento estruturante da sua voz literária. Este traço, que para alguns constitui uma marca de autenticidade, mas, para mim, tornou-se excessivo ou cansativo, contribuindo para uma leitura pouco envolvente. Foi uma leitura completamente fora da minha zona de conforto. E não abandonei o livro, porque gosto sempre de lhe dar uma oportunidade até ao fim.

Panaccione, Grégory (2025). Alguém Com Quem Falar. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: Helena Guimarães
N.º de páginas: 256
Início da leitura: 05/04/2026
Fim da leitura: 06/04/2026

**SINOPSE WOOK**
"Sozinho em casa, na noite do seu aniversário, Samuel está pensativo.
Ele liga para o único número que sabe de cor: o da sua casa de infância.
Para sua surpresa, alguém atende.
Alguém que o fará perceber que é hora de assumir o controlo da sua vida…"


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Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione, é uma novela gráfica de grande delicadeza emocional, que aborda com sensibilidade temas como a solidão, o desencanto da vida adulta e a necessidade íntima de reconciliação consigo próprio. Trata-se de uma obra que comove não por excessos dramáticos, mas pela forma honesta e contida como expõe fragilidades universais, facilmente reconhecíveis por qualquer leitor.
A premissa narrativa, o diálogo entre o adulto que somos e a criança que fomos, funciona como um poderoso dispositivo simbólico. Quem nunca desejou, em momentos de perda ou frustração, poder falar com o seu “eu” de infância, alertá-lo para os erros futuros ou, simplesmente, voltar a ouvir os sonhos que um dia deram sentido ao caminho? É nessa tensão entre o que se sonhou e o que se viveu que o livro encontra a sua maior força, convidando o leitor a uma reflexão íntima sobre escolhas, renúncias e expetativas.
A linguagem gráfica de Panaccione acompanha eficazmente esta introspeção, com uma narrativa visual contida, expressiva e profundamente humana. O traço e o ritmo da obra contribuem para um ambiente de melancolia serena, em que o silêncio tem tanto peso quanto as palavras. A leitura faz-se com pausa, quase como se exigisse do leitor a mesma escuta atenta que o protagonista aprende a ter consigo próprio.
Mais do que uma história sobre arrependimento, Alguém Com Quem Falar é uma obra sobre escuta, reconciliação e reaprendizagem do sonho. Sem cair em sentimentalismos fáceis, lembra-nos que crescer não tem de significar abandonar aquilo que fomos, mas antes encontrar formas mais honestas de dialogar com essa parte essencial de nós. É um livro comovente, profundo e necessário, que permanece no leitor muito depois da última página.

Narcejac, Thomas; Boileau, Pierre. Vertigo A Mulher que Viveu Duas Vezes. Lisboa: Edições ASA, 2017.
Tradução: Maria de Jesus Páscoa
N.º de páginas: 176
Início e fim da leitura: 02/04/2026

**SINOPSE WOOK**
"Paris, 1940. O ex-detetive Roger Flavières é contactado por um velho conhecido, que lhe pede um estranho favor. A mulher tem tido um comportamento invulgar - ausências misteriosas, uma melancolia que a leva a contemplar as águas do Sena durante horas a fio, visitas a um cemitério - e ele quer que o amigo a vigie para descobrir o que se passa. Intrigado, Flavières aceita… e dedica-se a seguir todos os passos da estonteante Madeleine. A curiosidade depressa dá lugar à obsessão, os sonhos ao pesadelo, à medida que a linha entre realidade e ilusão se esbate. De Paris a Marselha, de Madeleine a Renée, esta é a história de um homem desesperado, atormentado pela busca da verdade, e que acaba por ser destruído por um segredo obscuro e terrível.

Foi este livro que serviu de inspiração ao filme de Alfred Hitchcock, A Mulher Que Viveu Duas Vezes, com James Stewart e Kim Novak nos papéis principais, considerado obra-prima e filme de culto."

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Publicado em 1954, Vertigo: A Mulher que Viveu Duas Vezes, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, apresenta-se à partida como um policial de contornos clássicos, mas cedo revela uma ambição mais inquietante e ambígua. A intriga é desencadeada quando o ex-detetive Roger Flavières aceita vigiar Madeleine, a mulher de um antigo conhecido, cuja conduta enigmática, feita de silêncios, ausências e uma melancolia quase espectral, parece apontar para algo que escapa à explicação racional.
O que poderia ser apenas um exercício de observação transforma-se, gradualmente, numa descida a um território dominado pela obsessão. Flavières não se limita a seguir Madeleine; deixa-se absorver por ela, pela sua aura de mistério e pela estranha teatralidade dos seus gestos. A narrativa constrói-se, assim, menos sobre a resolução de um enigma exterior do que sobre a progressiva desagregação interior do protagonista. A tensão não advém tanto de “o que aconteceu”, mas de “como se sente” e “até onde pode ir” alguém capturado por uma ideia fixa.
Boileau e Narcejac demonstram aqui um domínio notável da sugestão e do ritmo. A escrita, aparentemente simples e despojada, é cuidadosamente calibrada para gerar inquietação. Há momentos em que o leitor se sente deliberadamente desorientado, como se a lógica da narrativa fosse sendo substituída por uma lógica emocional, mais difusa e perturbadora. Essa estratégia pode, por vezes, criar uma sensação de confusão, mas é precisamente nesse desconforto que reside parte da força do romance.

Pereira, Madeleine (2025). Borboleta. Alfragide: Edições ASA.


Tradução: Alice Pereira e Hélio Pereira
N.º de páginas: 176
Início da leitura: 01/04/2026
Fim da leitura: 02/04/2026

**SINOPSE WOOK**
«"Ei, Madeleine, é óbvio que você é portuguesa, você até tem Pereira no apelido."

Constantemente trazida de volta às suas origens, o conhecimento de Madeleine sobre Portugal limita-se a Cristiano Ronaldo, piadas xenófobas sobre o Guesh e a língua, mesmo assim, algo que o seu pai lhe transmitiu. Mas este último, chegou a França aos doze anos, recusou-se a vida toda a falar do seu país natal e da sua infância sob a ditadura...

Como resultado, Madeleine mal sabe que Salazar era um ditador e não apenas um bruxo malvado em Harry Potter. Porém Madeleine sente uma necessidade profunda de se reconectar com suas raízes, e se seu pai não quiser ajudar, então ela terá de procurar respostas em outro lugar. Começando pelos muitos amigos, imigrantes portugueses, que têm.

Da região de Paris a Lisboa, Madeleine vai recolhendo as suas histórias de vida. Aos poucos, traça o fio da história de Portugal e, através dele, tenta conhecer mais sobre si mesma.»

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Borboleta, de Madeleine Pereira, é uma obra autobiográfica que cruza a memória individual com momentos decisivos da história recente de Portugal, nomeadamente o 25 de Abril de 1974 e as emigrações portuguesas para França, muitas vezes motivadas pela necessidade de fugir à prisão e à repressão do regime ditatorial. A autora constrói uma narrativa que avança sem esforço, despertando a curiosidade do leitor e evitando o cansaço, ao mesmo tempo que ilumina experiências comuns a muitas famílias portuguesas do século XX.
A estrutura do livro assenta numa autorrepresentação em diferentes tempos da vida da autora: a infância, a adolescência e a idade adulta. É já enquanto adulta que Madeleine Pereira procura convencer o pai a contar a história da família, no âmbito de um projeto de banda desenhada, e é desse diálogo, por vezes difícil, marcado por silêncios e resistências, que nasce grande parte da força emocional da obra. A memória surge aqui não apenas como recordação, mas como construção, negociação e, em certa medida, reparação.
Um dos grandes méritos de Borboleta reside na forma como o privado e o coletivo se entrelaçam. A história familiar nunca se fecha sobre si mesma: está sempre atravessada pela História com maiúscula, pelas marcas da ditadura, pela experiência do exílio, pela condição do emigrante e pela identidade portuguesa vivida fora de Portugal. Nesse sentido, trata-se de uma obra profundamente portuguesa, não por recorrer a lugares-comuns, mas por dar voz a vivências que fazem parte do imaginário e da memória coletiva do país.
Do ponto de vista gráfico, porém, o livro apresenta um aspeto mais discutível. A ilustração da capa é belíssima e cria uma expectativa que nem sempre se confirma no interior da obra. Embora o uso da cor seja interessante e expressivo, o traço das personagens revela-se pouco apelativo: são figuras marcadamente feias, por vezes difíceis de ler visualmente, obrigando o leitor a deter o olhar durante algum tempo para compreender o que está representado. Esse contraste entre a capa e as ilustrações internas constitui, na minha opinião, o principal ponto menos conseguido do livro.

Fante, John. A Primavera Há de Chegar. Lisboa: Alfaguara, 2022.

Tradução: Rui Pires Cabral
N.º de páginas: 248
Início da leitura: 30/03/2026
Fim da leitura: 31/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Retrato da América durante a Grande Depressão, este primeiro romance da saga de Arturo Bandini é uma obra-prima da literatura norte-americana moderna.

Enquanto a América agoniza no meio da grande crise dos anos 30, Arturo Bandini, filho de emigrantes italianos, faz a passagem da infância para a adolescência, numa pequena cidade do Colorado, desoladora no Inverno, com o seu manto de neve. O pai, pedreiro, desespera com a falta de trabalho e procura consolo no vinho e nas mulheres. A mãe, católica fervorosa, é tão submissa quanto autoritária. À espera da primavera, Arturo debate-se com o primeiro amor e sonha libertar-se do ambiente familiar sufocante.

Com Arturo — alter ego de John Fante —, vislumbramos a vida de toda uma comunidade imigrante italiana, pobre, marginalizada e castrada pela religiosidade, imaginamos o que é não ter oportunidades num país que as promete, reconhecemos que a vulnerabilidade dos mais frágeis é inescapável num país que apregoa o sucesso.

Afirmando-se simultaneamente como uma radiografia das dores da adolescência, dos laços de família que se desfazem e dos grilhões que deitam por terra os sonhos dos menos favorecidos, esta é uma trama intensa e comovente.

A Primavera Há-de Chegar, Bandini é o primeiro livro dos quatro que compõem a saga de Arturo Bandini, a grande obra de um nome clássico da literatura americana, mentor de vultos como Charles Bukowski."

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Em A Primavera Há de Chegar, Bandini, John Fante inaugura o ciclo de Arturo Bandini com uma narrativa que se fixa na instabilidade da adolescência. Situado na América dos anos 1930, sob o peso da Grande Depressão, o romance acompanha um rapaz de catorze anos que observa mais do que age, e cuja consciência moral, moldada pelo catolicismo e pela pobreza, se torna o verdadeiro campo de batalha do livro.
Filho de imigrantes italianos, Arturo vive entre a aspereza de um pai pedreiro, nem sempre presente e quase nunca afetuoso, e a fragilidade silenciosa de uma mãe, cuja doença nunca plenamente nomeada, se traduz numa melancolia persistente. A casa, partilhada com dois irmãos, é menos um refúgio do que um espaço de compressão: a neve constante da pequena cidade do Colorado funciona como metáfora eficaz desse isolamento, abafando movimentos e desejos. Fante constrói, assim, um cenário onde a pobreza não é apenas circunstância económica, mas condição existencial que se infiltra na linguagem, nos gestos e nas expetativas.
O interesse maior do romance reside na forma como a interioridade de Arturo é exposta. A passagem pelo confessionário, recorrente, não é um simples ritual religioso: é uma forma de o protagonista tentar ordenar o mundo, distinguindo pecados veniais de mortais como quem procura uma gramática para o desejo e para a culpa. Vive numa tensão constante entre o dever, o primeiro amor, a inveja, a culpa ou a vergonha social. 
Ao mesmo tempo, Arturo assiste, quase em surdina, ao afastamento entre os pais. Fante evita o dramatismo explícito e prefere sugerir a desintegração através de ausências, silêncios e pequenos gestos de falha. Essa contenção formal intensifica o impacto emocional, porque desloca o foco para o olhar do rapaz, que tenta compreender sem dispor ainda de instrumentos para o fazer. 
Há, contudo, um elemento de impulso que impede o romance de se fechar sobre si mesmo: o desejo de fuga. Arturo sonha com a escrita, com a cidade, com uma vida que rompa as amarras familiares e a marca da miséria. 
O estilo linguístico de Fante, sóbrio e direto e aposta numa clareza que não exclui a ironia. É precisamente essa economia expressiva que confere densidade ao texto: ao não sobrecarregar a narrativa com explicações, o autor deixa espaço para que a experiência de Arturo se imponha na sua crueza. Se, por vezes, o ritmo parece deliberadamente contido, isso decorre de uma opção coerente com a posição do protagonista, a de quem observa, recolhe e tenta dar sentido.

Tabucchi, Antonio. A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2022.
Tradução: Theresa de Lancastre
N.º de páginas: 224
Início da leitura: 29/03/2026
Fim da leitura: 30/03/2026

**SINOPSE WOOK"
«O cenário desta triste, tenebrosa e, acrescentaríamos ainda, truculenta história, é a risonha e laboriosa cidade do Porto. Nem mais: a nossa portuguesíssima Cidade Invicta, acariciada por doces colinas e sulcada pelo plácido Douro», afirma o enviado especial Firmino na sua matéria exclusiva para o jornal lisboeta O Acontecimento.
O artigo revela a identidade de Damasceno Monteiro, um rapaz que descobre o poderoso tráfico de droga comandado por um oficial da Guarda Nacional e acaba decapitado e abandonado num terreno baldio.
Em A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, uma mistura de thriller com investigação jornalística, o foco continua na opressão, abordando os problemas do abuso policial, da tortura e da marginalização social das minorias étnicas.»

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A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, de Antonio Tabucchi, apresenta-se, à superfície, como um romance policial, mas rapidamente se revela uma obra de maior densidade ética e política. Inspirado num caso verídico, o homicídio de Carlos Rosa, encontrado decapitado, o enredo instala desde o início um clima de inquietação que ultrapassa o mero mistério narrativo para se fixar numa reflexão mais ampla sobre a justiça, o poder e a dignidade humana.
A narrativa decorre maioritariamente no Porto, num espaço periférico marcado pela presença de comunidades marginalizadas, como os acampamentos ciganos. É precisamente aí que Manolo, figura a quem a mulher trata por “El Rei”, descobre o corpo sem cabeça, num episódio inaugural que define o tom perturbador do romance. A partir deste momento, o que poderia seguir os trilhos convencionais do género policial transforma-se numa investigação de contornos mais difusos e profundamente humanos.
A chegada de Firmino, jovem jornalista, enviado de Lisboa por um jornal sensacionalista, funciona como dispositivo narrativo que conduz o leitor pela trama. Contudo, Firmino não é apenas um observador: a sua progressiva imersão no caso traduz também um percurso de amadurecimento moral. No Porto, conta com o apoio de duas figuras marcantes - D. Rosa, a pragmática dona da pensão, e sobretudo o excêntrico advogado Dom Fernando - que desempenham papéis fundamentais não só no desenrolar da ação, mas também na dimensão reflexiva da obra.
É, aliás, nas conversas entre Firmino e Dom Fernando que o romance atinge o seu ponto mais alto. Longe de serem meros diálogos funcionais, estes momentos suspendem a narrativa policial para abrir espaço a discussões sobre filosofia, justiça, direitos humanos e o papel das instituições. Dom Fernando, com a sua excentricidade e erudição, surge como uma espécie de consciência crítica, questionando o funcionamento do sistema judicial e denunciando formas de abuso de poder que permanecem, muitas vezes, ocultas.
A construção do romance revela, assim, uma notável capacidade de equilíbrio entre tensão narrativa e profundidade reflexiva. O mistério do crime mantém o leitor envolvido, mas é a dimensão ética que confere verdadeira substância à obra. Tabucchi não se limita a contar uma história: problematiza-a, desmonta-a e obriga-nos, a nós leitores, a confrontarmo-nos com realidades incómodas.

Cau, Bibbiana (2026). A Parteira. Lisboa: Editorial Presença. 

Tradução: Inês Guerreiro
N.º de páginas: 376
Início da Leitura: 24/03/2026
Fim da Leitura: 28/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Uma história de coragem, redenção e liberdade.

Mallena não é uma deles. Chegou a Norolani dezasseis anos antes, vinda de fora, mas, com o tempo, tornou-se um verdadeiro ponto de referência. É que Mallena é uma llevadora, uma parteira que, aplicando um saber antigo transmitido pela mãe, ajuda todas as mulheres no momento do parto, mesmo as das famílias mais humildes, sem nunca pedir nada em troca.

No entanto, tudo se desmorona em 1917, quando o marido regressa da guerra, ferido no corpo e na alma. Para pagar os tratamentos médicos de que ele necessita, Mallena exige em voz alta ao conselho municipal que o seu trabalho seja fi­nalmente remunerado. Um pedido tão justo quanto mal recebido, que altera o rumo da sua história e traz para a aldeia outra mulher, outra parteira: Angelica.

Mallena e Angelica, destinadas a ser rivais, descobrem ser duas faces da mesma moeda: unidas pelo desejo de liberdade, pela traição sofrida e pela injustiça que recai sobre as mulheres. Quando o passado regressa e a situação se torna insustentável, toda a comunidade de Norolani é forçada a exigir, pela primeira vez, verdadeira justiça.

Uma grande história no feminino que retrata, através da língua, dos aromas, da poesia e da aspereza da vida, a Sardenha do início do século XX. Uma protagonista que, guiada por uma sabedoria ancestral e pela solidariedade entre mulheres, desperta para uma nova consciência."

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A Parteira, de Bibbiana Cau, é um romance que desafia a impaciência do leitor contemporâneo, habituado a ritmos mais imediatos. Numa primeira fase, a narrativa arrasta-se, com uma ação pouco dinâmica e uma cadência que pode facilmente ser vista como monótona. A construção do ambiente e das personagens, embora cuidada, não se revela de imediato cativante, o que pode levar à tentação de abandono precoce da leitura.
Contudo, é precisamente quando surge a nova parteira na aldeia que o romance sofre uma inflexão decisiva. A partir desse momento, a história ganha densidade e vitalidade, como se finalmente encontrasse o seu verdadeiro pulso narrativo. As relações entre as personagens tornam-se mais complexas, os conflitos adensam-se e o enredo passa a desenvolver-se com uma fluidez que prende o leitor até às últimas páginas.
Este contraste entre um início mais moroso e um desenvolvimento posterior envolvente acaba por funcionar como uma espécie de prova de persistência. 
Um dos aspetos mais conseguidos da obra reside na forma como retrata as tradições e o quotidiano da comunidade. Episódios como a matança do porco, onde nada se desperdiça, são descritos com um realismo quase etnográfico, revelando um modo de vida assente na subsistência e na valorização de cada recurso. Do mesmo modo, crenças ligadas à morte, como a necessidade de deixar um prato de comida ao falecido, para que o seu espírito possa usufruir de uma última refeição, contribuem para criar uma atmosfera rica em simbolismo e profundamente enraizada na cultura local.
Particularmente marcante é também a resistência das mulheres da aldeia à chegada de uma parteira formada. A sua revolta não é apenas um gesto de rejeição do novo, mas antes uma afirmação de confiança numa figura que faz parte da memória coletiva e afetiva da comunidade, a parteira tradicional, com as suas mezinhas e saber empírico, responsável pelo nascimento de grande parte das crianças da aldeia. Este confronto entre conhecimento científico e saber popular constitui um dos eixos mais interessantes do romance, levantando questões sobre autoridade, tradição e identidade.

 Fagan, Kate (2026). As Três Vidas de Cate Kay. Lisboa: Marcador.

Tradução: Ana Saragoça
N.º de páginas: 304
Início da leitura: 22/03/2026
Fim da leitura: 23/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Escolha do Reese’s Book Club - Janeiro de 2025
Um dos livros imperdíveis do ano, segundo a Stylist e a Cosmopolitan.
Um page-turner entre Nova Iorque e Hollywood
Cate Kay é um fenómeno: a sua trilogia tornou-se um sucesso internacional e deu origem a um aclamado filme de Hollywood. Contudo, a sua verdadeira identidade é um segredo bem guardado. Ninguém imagina que, por trás de Cate, se esconde Cass Ford; e por trás de Cass, Annie, uma rapariga de uma cidade pequena com um segredo trágico. Agora, na sua villa nas colinas de Hollywood, ela escreve as suas memórias. Pela primeira vez, decide contar o que realmente aconteceu, pondo em risco não só o anonimato, mas também a própria vida.

Um romance envolvente sobre identidade, amizade e o poder das histórias. Emotivo, surpreendente e arrebatador até à última página."

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As Três Vidas de Cate Kay, de Kate Fagan, parte de uma premissa que, à primeira vista, se revela promissora: a desconstrução identitária de uma autora de enorme sucesso que, após anos de anonimato protegido por um pseudónimo, decide confrontar o passado e assumir a sua verdadeira história. A ideia de múltiplas vidas, literais e simbólicas, sugere um romance introspetivo, possivelmente tenso, centrado na memória, na culpa e na reinvenção pessoal.
No entanto, a execução narrativa fica aquém desse potencial. A estrutura fragmentada, assente em constantes alternâncias temporais, em vez de enriquecer a compreensão da protagonista, acaba por comprometer o ritmo e a fluidez da leitura. As transições nem sempre são claras ou eficazes, o que gera uma sensação de dispersão e dificulta o meu envolvimento  com o fio condutor da narrativa.
A própria construção das personagens revela-se pouco convincente. Cate Kay, enquanto figura central, não adquire a densidade emocional que se esperaria de alguém dividido entre identidades e marcado por um passado que procura ocultar. As restantes personagens surgem, em grande medida, como acessórios funcionais à progressão do enredo, sem verdadeiro desenvolvimento ou capacidade de suscitar empatia.
A narrativa sofre ainda de uma certa monotonia, agravada por repetições temáticas e estilísticas que retiram impacto aos momentos que deveriam ser mais reveladores. A promessa de um desenlace surpreendente ou de uma revelação transformadora não se concretiza, deixando uma sensação de estagnação ao longo da leitura.

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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