Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

 Adlam, Carol (2025). A Detetive Russa. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: José Menezes
N.º de páginas: 112
Início da leitura: 16/01/2026
Fim da leitura: 20/01/2026

**SINOPSE**
"Nesta impressionante reimaginação de um thriller policial russo do século XIX do mundo de Dostoiévski, Carol Adlam apresenta Charlie Fox, jornalista, mágica, mentirosa e ladra, que relutantemente retorna à sua cidade natal, Nowheregrad, para investigar o assassinato de Elena Ruslanova, filha de um fabricante de vidro fabulosamente rico.
Em Nowheregrad, Charlie vê-se envolvida numa história de múltiplas camadas que é contada através dos dispositivos visuais ricamente variados da época. com a ajuda involuntária da sua amante, Netochka, Charlie desvenda o mistério da família Bobrov, apenas para enfrentar a verdade sobre si mesma.
Requintadamente desenhada e contada de forma convincente, a narrativa complexa e elegante de Adlam dá vida aos legados perdidos da ficção policial antiga e das primeiras mulheres jornalistas e detetives."

A Detetive Russa, de Carol Adlam, apresenta-se como uma reinvenção singular do thriller policial russo do século XIX, dialogando com o universo literário de Dostoiévski, não apenas na atmosfera sombria e moralmente ambígua, mas também na complexidade psicológica das personagens. Trata-se de uma novela gráfica pouco convencional, que desafia as expetativas habituais do género e exige do leitor um envolvimento atento e paciente.
A obra não se revela de leitura imediata ou linear. Em vários momentos, a articulação entre a componente gráfica e a narrativa torna-se exigente, chegando mesmo a parecer dispersa, o que pode dificultar a compreensão global da história. A linguagem visual não funciona aqui como mero apoio ao texto, mas como um elemento autónomo, por vezes enigmático, que obriga o leitor a interpretar e a estabelecer ligações nem sempre evidentes.
Carol Adlam apresenta como protagonista Charlie Fox, uma figura deliberadamente ambígua: jornalista, mágico, mentiroso e ladrão, cuja identidade oscila entre o masculino e o feminino. É esta personagem que, de forma relutante, regressa à cidade natal, Nowheregrad, para investigar o assassinato de Elena Ruslanova, filha de um fabricante de vidro extraordinariamente rico. Este acontecimento serve de ponto de partida para uma narrativa marcada por investigações sinuosas, intrigas constantes e sucessivas reviravoltas.
A leitura pode tornar-se complexa, e por vezes confusa, à semelhança de muitas investigações criminais, devido à multiplicidade de personagens suspeitas, às mentiras sobrepostas e à abundância de detalhes que exigem atenção permanente. 

Jónasson, Ragnar (2024). Morte no Sanatório. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 256
Início da leitura: 17/01/2026
Fim da leitura: 19/01/2026

**SINOPSE**
"Akureyri, Norte da Islândia, 1983
Outrora um hospital dedicado ao tratamento da tuberculose, o Sanatório de Akureyri é agora assombrado apenas pelos fantasmas do seu passado. Uma única ala permanece aberta, que se dedica a investigação científica, albergando seis funcionários: dois médicos, três enfermeiras e o zelador.

Quando Yrsa, uma das enfermeiras, é brutalmente assassinada, torna-se evidente que a morte nunca abandonou aquele lugar. É aberta uma investigação em torno dos cinco suspeitos, mas o caso é rapidamente encerrado.

2012
Helgi Reykdal, um jovem criminologista, decide regressar à Islândia após lhe ser oferecido emprego na polícia de Reiquiavique, no seguimento da reforma de Hulda Hermannsdóttir, uma das investigadoras responsáveis pelo caso de Yrsa. Embrenhando-se cada vez mais no passado, Helgi decide tentar encontrar os antigos suspeitos. o que encontra, no entanto, é uma teia terrível de segredos, traições e mentiras."
Morte no Sanatório, de Ragnar Jónasson, foi o segundo contacto que tive com a obra do autor, o que acabou por despertar a necessidade de recuar ao início e ler também o primeiro livro. Esta experiência revelou-se bastante gratificante, não só por permitir compreender melhor o universo narrativo do escritor islandês, mas também por confirmar a consistência do seu estilo e da sua abordagem ao género policial.
A ação decorre num antigo sanatório, outrora destinado ao tratamento de doentes com tuberculose, um espaço carregado de memória, isolamento e um certo peso histórico que o autor explora de forma muito eficaz. Embora a maior parte do edifício esteja desativada, uma ala permanece aberta para fins de investigação científica, criando um contraste interessante entre passado e presente. É neste cenário claustrofóbico e isolado que ocorre o assassinato de uma das enfermeiras envolvidas no projeto, transformando imediatamente os restantes cinco membros da equipa nos principais suspeitos.
Ragnar Jónasson constrói a narrativa com mestria, apostando mais na atmosfera, na psicologia das personagens e na tensão silenciosa do que na ação frenética. O ambiente fechado do sanatório funciona quase como uma personagem adicional, intensificando a sensação de desconfiança e de inevitabilidade. O leitor é constantemente levado a questionar as motivações e segredos de cada interveniente, num jogo subtil de pistas e falsas certezas.
Um dos grandes méritos do romance é a forma como o autor consegue envolver o leitor e surpreendê-lo quanto à identidade do assassino. A revelação final é coerente, mas inesperada, o que demonstra um domínio sólido da estrutura do enredo policial. Nota-se claramente a influência dos policiais clássicos, tanto na construção do mistério como no ritmo contido e na importância dada à dedução, mais do que ao espetáculo.
Morte no Sanatório confirma Ragnar Jónasson como um autor que respeita a tradição do género, mas que lhe imprime uma identidade própria, marcada por ambientes frios, isolados e psicologicamente densos. A sua escrita é segura, elegante e eficaz, tornando este livro uma leitura envolvente e recomendável para os amantes de romances policiais clássicos com um toque nórdico e contemporâneo.

Jónasson, Ragnar (2025). O Misterioso Caso da Escritora Desaparecida. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 16/01/2026
Fim da leitura: 17/01/2026

**SINOPSE**
"Numa noite de inverno, a autora bestseller de livros policiais, Elín S. Jónsdóttir, desaparece.

Não há quaisquer pistas sobre o seu desaparecimento, e cabe ao jovem inspetor Helgi Reykdal desvendar o caso antes que este chegue às mãos da imprensa.

Ao entrevistar as pessoas que lhe são mais próximas — uma editora, um contabilista, uma juíza reformada — percebe que a vida de Elín não era o que parecia. Na verdade, o seu passado é ainda mais estranho do que a sua ficção.

À medida que o caso da escritora de policiais desaparecida se torna mais misterioso a cada hora que passa, Helgi tem de descobrir os segredos inesperados de uma vida, antes que seja tarde demais…"

O Misterioso Caso da Escritora Desaparecida, de Ragnar Jónasson, confirma a habilidade do autor islandês para construir narrativas policiais depuradas, de leitura fluida e eficaz, onde o essencial nunca é sacrificado em nome do efeito fácil. Partindo de uma premissa simples, o desaparecimento súbito de uma escritora antes que a imprensa tenha conhecimento do caso, o romance aposta menos na espectacularidade da ação e mais na tensão psicológica e na progressiva revelação de camadas humanas. O jovem inspetor Helgi Reykdal, ainda a afirmar-se na polícia, funciona como um olhar atento e contido, cuja inexperiência relativa contribui para uma investigação marcada pela prudência e pela observação meticulosa.
A estrutura do romance, assente numa sucessão de entrevistas a figuras próximas de Elín, uma editora, um contabilista e uma juíza reformada, imprime ao texto um ritmo constante, quase inexorável, em que “os ponteiros do relógio estão sempre a mexer”. Jónasson sabe explorar o silêncio, as omissões e as pequenas contradições, transformando cada depoimento numa peça que tanto esclarece como adensa o mistério. A vida da escritora, que à superfície parecia organizada e respeitável, revela-se progressivamente fragmentada, marcada por dissimulações e zonas de sombra que colocam em causa a própria ideia de identidade.
Sem recorrer a reviravoltas artificiais ou a pistas evidentes, o romance assume-se sobretudo como um exercício de contenção narrativa e de entretenimento inteligente. É um livro que se lê com prazer, sustentado por uma escrita sóbria e precisa, fiel à tradição do noir nórdico, mas acessível a um público mais vasto. Jónasson não pretende reinventar o género; prefere afiná-lo, oferecendo uma história bem construída, atmosférica e envolvente, que mantém o leitor preso até à última página e confirma que, por vezes, o maior mistério não é o desaparecimento em si, mas aquilo que se esconde por trás de uma vida aparentemente comum.

Montes, Rafael (2014). Dias Perfeitos. Lisboa: Companhia das Letras.

N.º de páginas: 280
Início da leitura: 13/01/2026
Fim da leitura: 14/01/2026

**SINOPSE**

"Téo é um solitário estudante de Medicina que divide o seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e investigar cadáveres nas aulas. Durante uma festa, conhece Clarice. Obcecado por ela, começa então uma aproximação doentia, que o leva a tomar uma atitude extrema que estabelece entre o casal uma rotina repleta de tortura psicológica e sordidez.
Dias Perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão."
Dias Perfeitos, de Raphael Montes, é um romance que confirma o autor como uma das vozes mais eficazes da literatura brasileira contemporânea no domínio do suspense psicológico. Montes não escreve com intenções pedagógicas nem morais; o seu propósito é claramente o entretenimento, e cumpre-o de uma forma muto bem conseguida. A narrativa é conduzida por uma escrita ágil, envolvente e calculada, que transforma o romance num verdadeiro page-turner, mantendo o leitor num estado constante de inquietação e expectativa.
Neste livro, Raphael Montes constrói uma história onde o terror psicológico se cruza com a obsessão, o amor distorcido e o desespero. Acompanhamos Téo, um estudante de medicina reservado, metódico e socialmente isolado, cuja vida se resume às exigências académicas e aos cuidados prestados à mãe, Patrícia, uma mulher dependente de uma cadeira de rodas e totalmente subordinada ao filho nas tarefas mais íntimas do quotidiano. Este contexto inicial, marcado por uma rotina opressiva e por uma relação ambígua de dependência, prepara o terreno para a progressiva perturbação emocional do protagonista.
O encontro com Clarice, forçado por uma situação banal, um churrasco ao qual Téo é obrigado a comparecer, funciona como o elemento catalisador da narrativa. Clarice não corresponde a um ideal convencional de beleza, mas a sua inteligência, espontaneidade e diferença face ao universo fechado de Téo despertam nele uma obsessão avassaladora. A partir desse momento, o romance mergulha numa espiral de comportamentos extremos, em que o leitor assiste, com desconforto crescente, à transformação psicológica do protagonista e à normalização do absurdo e da violência no seu discurso interior.
Um dos grandes méritos de Dias Perfeitos reside precisamente na construção da voz narrativa. Raphael Montes consegue colocar o leitor dentro da mente de Téo, obrigando-o a acompanhar o seu raciocínio frio e aparentemente lógico, mesmo quando as suas ações se tornam moralmente inaceitáveis. Esta proximidade cria um efeito perturbador: não há julgamentos explícitos, apenas a exposição crua de uma mente obsessiva que confunde amor com posse e cuidado com controlo.
O autor constrói uma narrativa tensa, claustrofóbica e eficaz, onde o desconforto psicológico é mais relevante do que o choque explícito. Dias Perfeitos não pretende oferecer respostas nem lições; o seu impacto reside na capacidade de envolver, inquietar e prender o leitor até à última página. 

 Dillies, Renaud e Padula, Grazia La (2017). Jardim de Inverno. Lisboa: Kingpin Books.

Tradução: Mário Miguel Freitas
N.º de páginas: 64
Início da leitura: 12/01/2026
Fim da leitura: 13/01/2026

**SINOPSE**
"A gota de água. O transbordar do copo. Ou como o gotejar periódico e crescente vindo do andar de cima levará Sam, um jovem barman de um clube de jazz, a conhecer um velho afável, mas aparentemente senil. Poderá ser ele, porém, o providencial jardineiro das coisas simples e belas que Sam negligenciou durante tanto tempo?

Um relato invernoso feito de cruéis abandonos, adiados reencontros e chuvosos recontros, e de uma rotina aparente capaz de encerrar, afinal, inusitadas revelações. Inusitadas e belas como um jardim."


Jardim de Inverno, de Renaud Dillies, com ilustrações de Grazia La Padula, apresenta-se como uma obra de leitura silenciosa e contemplativa, em que a aparente simplicidade da narrativa esconde uma reflexão profunda sobre a vida contemporânea e a erosão dos laços humanos. O livro constrói um retrato de existências repetitivas, marcadas por dias iguais entre si, onde a rotina mecanizada vai esvaziando o verdadeiro sentido de família, de amizade e de relação. As personagens surgem como figuras quase autómatos, semelhantes a bonecos de corda, presas a movimentos previsíveis e a emoções amortecidas, num mundo onde o hábito substitui o afeto e a presença do outro se torna cada vez mais distante.
É neste cenário de imobilidade emocional que Jardim de Inverno introduz a ideia de libertação. A obra fala da reaprendizagem dos sentimentos, do lento regresso à empatia e ao cuidado pelas pessoas de quem gostamos, num processo que não é súbito nem fácil, mas profundamente humano. O jardim assume aqui um valor simbólico central: espaço de pausa, de reconexão e de esperança, capaz de abrir pequenas fendas de luz mesmo nos dias mais cinzentos e chuvosos do inverno. Trata-se de um convite à redescoberta do que nos liga aos outros e ao mundo.
As ilustrações de Grazia La Padula são particularmente eficazes na tradução visual destas ideias. Com uma linguagem gráfica expressiva e sensível, acompanham e aprofundam o discurso do texto, reforçando a sensação de clausura inicial e, progressivamente, a abertura emocional que a narrativa propõe. Texto e imagem dialogam de forma harmoniosa, transmitindo com clareza a intenção do autor e conferindo ao livro uma coerência estética e temática notável. Jardim de Inverno afirma-se, assim, como uma obra delicada e reflexiva, que interpela o leitor sobre a forma como vive, sente e se relaciona, deixando no final uma impressão de esperança discreta, mas persistente.

Campaniço, Carlos (2025). A Cinco Palmos dos Olhos. Lisboa: Casa das Letras.

 

N.º de páginas: 272
Início da leitura: 08/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026

**SINOPSE**
"Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha - o lugar onde decorre a acção deste romance - a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução.

Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e veem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento.

Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia - na qual o bulício das vidas individuais funciona como uma espécie de música de fundo - é curiosamente o carteiro - aquele que passa em todas as ruas e portas - o elo de ligação entre o padre, o merceeiro, o médico, a amante, o corno, o ricaço, o presidente da Junta e muitos outros, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa.

Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos mais uma obra profundamente original."

A Cinco Palmos dos Olhos, de Carlos Campaniço, é um livro que se constrói na delicada fronteira entre a intimidade das personagens e a memória coletiva de um país em transformação. Situado na pequena Aldeia Velha, espaço simbólico e concreto nos confins de um Portugal rural do pós-25 de Abril, o romance revela-se menos interessado nos grandes gestos históricos do que nos seus ecos silenciosos, aqueles que se infiltram na vida quotidiana de quem ficou à margem da mudança.

Campaniço demonstra uma notável capacidade de observação humana. Cada personagem surge desenhada com rigor e empatia, carregando consigo segredos, traumas antigos, marcas de pobreza material e afectiva, mas também uma obstinada vontade de sobreviver. Não há aqui figuras idealizadas: há homens e mulheres imperfeitos, frágeis, por vezes duros, que aprendem a viver com aquilo que lhes foi dado ou retirado. É precisamente nessa imperfeição que o romance encontra a sua força, permitindo ao leitor reconhecer-se nos silêncios, nas culpas e nos afectos contidos.

A Aldeia Velha funciona como microcosmo de um país que acorda lentamente para a liberdade, mas que continua preso a estruturas sociais, económicas e emocionais profundamente enraizadas. O Portugal que emerge destas páginas é um território de contrastes: entre a esperança e o desencanto, entre o desejo de mudança e o peso da tradição, entre a proximidade física das pessoas e a distância emocional que tantas vezes as separa, esses “cinco palmos” que dão título ao livro e que sugerem tanto intimidade como incomunicabilidade.

A escrita de Carlos Campaniço é contida, mas carregada de densidade emocional. Não cede ao sentimentalismo fácil nem à nostalgia excessiva; antes opta por uma linguagem precisa, que confia no não dito e no ritmo lento da narrativa. O tempo do romance é o tempo da aldeia e da memória: pausado, circular, atento aos pequenos gestos que revelam mais do que longos discursos.

Lafebre, Jordi (2025). Sou um Anjo Perdido. Estoril: Arte de Autor.

Tradução: Helena Romão
N.º de páginas: 128
Início da leitura: 05/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026

**SINOPSE**

"Óculos escuros, cigarro nos lábios, pele sobre uma mini saia, a psiquiatra excêntrica Eva Rojas está de volta! Dezoito meses após os episódios relatados em Je suis leur silence, ela observa de cima de um guindaste duas pernas que sobressaem de uma laje de betão, o que não augura nada de bom. A inspetora Merkel e o seu adjunto Garcia terão de interrogá-la como única testemunha ocular. Mas nada é simples com Eva: ela aceita responder, mas apenas na presença do seu... psiquiatra! E então conta em detalhe à polícia, mas também ao Dr. Llull, os sete dias que antecederam o incidente. Um dos seus pacientes, João, 19 anos, estrela em ascensão do futebol, desapareceu.

O clube responsabiliza-a e exige que ela o encontre em seis dias. Para o bem e para o mal, Eva pode contar com as «vozes» que a acompanham, as de suas antepassadas, falecidas há muito tempo, mas ainda muito presentes! E ainda mais presentes quando Eva visita sua mãe no hospital psiquiátrico ou quando se aproxima um pouco demais dos neonazistas..."

Sou um Anjo Perdido confirma Jordi Lafebre como um autor capaz de dar continuidade a um universo narrativo sem lhe retirar frescura ou ousadia. Enquanto sequela de Sou o Teu Silêncio, retoma a figura inesquecível de Eva, a psiquiatra excêntrica que já então se destacara pela sua irreverência, lucidez caótica e frontal desafio a todas as convenções. Tal como no livro anterior, a leitura não desilude: reencontramos uma protagonista excessiva e fascinante, politicamente incorreta, corajosa e sensual, cuja loucura aparente é, afinal, uma forma singular de liberdade.

Eva continua a mover-se num território instável, onde a razão e o delírio se entrecruzam, acompanhada pelas vozes femininas que habitam a sua mente, presenças do passado que funcionam simultaneamente como consciência crítica e refúgio emocional. São elas que lhe dão profundidade e humanidade, apoiando-a ou confrontando-a, mas permanecendo sempre como o seu porto de abrigo num mundo que raramente a compreende.

A narrativa estrutura-se a partir de um episódio perturbador: um homem encontrado morto, enterrado em cimento de cabeça para baixo. As tatuagens denunciam-no como neonazi, e este detalhe aparentemente isolado revela-se o ponto de partida para uma intriga que liga futebol, violência e memória. Eva surge como única testemunha ocular, e o seu depoimento, prestado à inspetora Merkel e ao seu adjunto Garcia, na presença do seu próprio psiquiatra, conduz-nos numa viagem retrospetiva pelos sete dias que antecederam o desfecho trágico. O desaparecimento de João, um dos seus pacientes e jovem promessa do futebol em ascensão, desencadeia uma investigação pessoal que expõe Eva a perigos reais, ainda que ela pareça não temer nada, ou não ter plena consciência da dimensão do risco que corre.

Combinando suspense policial e humor mordaz, Lafebre constrói uma história envolvente, ambientada mais uma vez em Barcelona, onde o ritmo narrativo se equilibra entre tensão e ironia. O absurdo e o trágico convivem de forma natural, refletindo a própria personalidade da protagonista.

As ilustrações merecem destaque especial: expressivas e dinâmicas, não se limitam a acompanhar o texto, mas ampliam-no, transportando o leitor para o centro da ação. Contribuem decisivamente para a imersão numa trama tão bizarra quanto emocionalmente intensa, reforçando o caráter singular desta obra.

 Aramburu, Fernando (2025). O Menino. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Tradução: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 224
Início da leitura: 05/01/2026
Fim da leitura: 07/01/2026

**SINOPSE**
Inspirado num acidente real ocorrido no País Basco em 1980, este romance mergulha na devastação de uma família. Uma história comovente, uma história de resistência, como só Aramburu sabe contar.
Nicasio, já reformado, costuma ir às quintas-feiras ao cemitério de Ortuella visitar a sepultura do neto. É um dos muitos falecidos na sequência de uma explosão de gás numa escola daquela localidade, um acidente que sacudiu o País Basco e toda a Espanha em 1980.
Pelas andanças do avô, uma figura que se afirma até se tornar indelével, pelo testemunho da mãe, muitos anos depois, pela crónica objetiva do que sucedeu à família, descobriremos como aquela tragédia dilacerante trouxe à baila aspetos desconhecidos das suas personalidades e como transtornou para sempre as suas vidas.
Com a mestria habitual de Aramburu, o leitor ver-se-á imerso numa história de emoções inesperadas, uma exploração psicológica e literária que o manterá preso até à última linha, para entender e se comover com o destino das personagens. Pelo tratamento extremamente humano que lhes é dado, e pelos recursos estilísticos utilizados, O Menino é um romance memorável, um prodígio literário do melhor Aramburu.
Em adaptação pela Netflix."
Fernando Aramburu regressa, em O Menino, a um território que lhe é particularmente caro: o da dor coletiva e íntima que nasce de um acontecimento traumático. Inspirado num facto real ocorrido em 1980, na localidade basca de Ortuella - uma explosão de gás numa escola primária que matou cinquenta crianças entre os cinco e os seis anos e três adultos -, o romance afasta-se de qualquer tentação sensacionalista para se concentrar no impacto humano da tragédia.
A narrativa organiza-se em torno de Nuco, uma das crianças vitimadas, e da sua família: os pais, Mariaje e José Miguel, e o avô Nicasio. A morte do menino funciona gera uma sucessão de ondas de choque emocionais, revelando diferentes formas de viver o luto. Cada personagem carrega a perda à sua maneira, num retrato subtil e profundamente humano da dor, da culpa e da incomunicabilidade.
É precisamente Nicasio quem assume maior relevo. Um avô devastado pela consciência de ter sido ele a levar o neto à escola naquele dia, vive um luto marcado por uma culpa obsessiva que o isola da comunidade. A sua dor, silenciosa e persistente, não encontra compreensão em Ortuella, onde a tragédia é rapidamente absorvida por uma necessidade coletiva de seguir em frente. Aramburu expõe assim, com grande sensibilidade, a tensão entre o sofrimento individual e a memória social, mostrando como o tempo não cura de forma igual todas as feridas.
A escrita de O Menino é contida, despojada de artifícios retóricos, o que reforça o impacto emocional do texto. Aramburu opta por uma linguagem clara e direta, que não dramatiza em excesso nem procura comover pelo exagero. É precisamente essa sobriedade que torna a leitura tão tocante: a emoção surge de forma natural, quase inevitável, sem nunca resvalar para o sentimentalismo.
Outro dos aspetos mais marcantes do romance é a sua construção formal, invulgar e eficaz. A narrativa articula-se a três vozes, a do narrador, a da mãe e a do próprio livro, criando um jogo metanarrativo que se revela um dos grandes trunfos da obra. Nos momentos em que o testemunho da mãe é interrompido, o livro “ganha vida” e dirige-se diretamente ao leitor, comentando, esclarecendo ou acrescentando informação. Esta alternância entre narradores não só quebra a linearidade do relato, como reforça a consciência de estarmos perante uma construção literária que reflete sobre si própria e sobre os limites da representação da dor.

Powers, Richard (2008). O Eco da Memória. Lisboa: Casa das Letras.

Tradução: Eugénia Antunes
N.º de páginas: 532
Início da leitura: 01/01/2026
Fim da leitura: 05/01/2026

**SINOPSE**
"National Book Award
Finalista do Prémio Pulitzer

Numa noite de Inverno, numa estrada remota do Nebrasca, Mark Schlutter, sofre um acidente quase fatal. A sua irmã Karin regressa à sua cidade natal para tomar conta de Mark. Porém, ao despertar de um prolongado coma, Mark acredita que esta mulher — que se assemelha, age e fala como a sua irmã — é, na verdade, uma impostora. Magoada pela recusa do irmão em reconhecê-la, Karin contacta o neurologista Gerald Weber, famoso pelas suas investigações sobre o mundo infinitamente bizarro dos distúrbios cerebrais. Weber acredita que Mark sofre de uma perturbação rara conhecida como síndrome de Capgras — a ilusão de que as pessoas que nos rodeiam são impostores.

O que o médico descobre em Mark mina lentamente as suas próprias noções sobre o «eu». Entretanto, Mark, armado apenas de um bilhete deixado por uma testemunha anónima, tenta descobrir o que aconteceu na noite do seu inexplicável acidente. A verdade sobre essa noite mudará profunda e inalteravelmente a vida dos três.

O Eco da Memória é um cativante mistério que explora o poder e os limites da inteligência humana."

O Eco da Memória é uma obra exigente, de construção densa e ambição temática evidente, que se dirige sobretudo a leitores interessados em ficção científica de pendor reflexivo e em questões profundas relacionadas com a mente humana, a identidade e a memória. Richard Powers articula a narrativa num território híbrido, onde a ciência neurológica se cruza com o drama familiar e com uma reflexão ética sobre o uso, e eventual abuso, das histórias humanas enquanto matéria literária.
A premissa do romance é, sem dúvida, um dos seus pontos mais fortes. O caso do jovem do Nebraska que, após um acidente grave e um período de coma, recupera quase todas as suas memórias exceto a da própria irmã, remete para o síndroma de Capgras e abre espaço a uma exploração fascinante dos limites entre reconhecimento, afeto e construção da identidade. Este interesse é reforçado pela figura do neurologista, personagem central que encarna simultaneamente o saber científico e uma ambiguidade moral profunda: alguém que construiu a sua reputação e fortuna narrando as tragédias neurológicas dos outros, transformando o sofrimento alheio em objeto de consumo cultural.
É precisamente nesta dimensão, a da mente humana e da neurociência, que o romance se revela mais estimulante para quem, como leitora, se interessa menos pela ficção científica enquanto género e mais pelas questões cognitivas e psicológicas que lhe servem de base. O confronto do neurologista com a sua própria consciência, ao perceber o carácter intrusivo do seu trabalho, introduz uma camada ética relevante e levanta questões pertinentes sobre os limites da divulgação científica e da literatura baseada em casos clínicos reais.
No entanto, apesar da solidez conceptual e da riqueza temática, a execução narrativa revela-se desigual. O ritmo lento, por vezes excessivamente monótono, e a tendência para a repetição de ideias e situações acabam por diluir o impacto da história. A introspeção constante, embora coerente com o tom reflexivo da obra, compromete a progressão narrativa e pode afastar leitores que, apesar de interessados na temática, procuram maior dinamismo e economia narrativa.

 Morgado, André F. (2025). A Vida Oculta de Fernando Pessoa.Lisboa: Iguana.


Ilustrador: Alexandre Leoni
N.º de Páginas: 96
Início da Leitura: 24/12/2025
Fim da Leitura: 26/12/2025

**SINOPSE**
Em plena Lisboa do século XX, Fernando Pessoa move-se entre dois mundos: o que todos conhecem… e o das sombras, onde opera como agente de uma ordem secreta que combate uma ameaça silenciosa prestes a alastrar-se pela sociedade portuguesa. Ele sabe que só há uma forma de o impedir. Mas cada missão deixa marcas. E essas marcas obrigam-no a escrever.
Nesta narrativa sombria e original, onde o real se mistura com o sobrenatural, A Vida Oculta de Fernando Pessoa transforma o nascimento dos heterónimos numa resposta a um trauma profundo — uma tentativa de manter vivos aqueles que foi forçado a eliminar.
Dez anos depois da publicação original, um dos principais sucessos comerciais da BD nacional está de regresso... e dizem que o mal também.
A obra A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado, parte de uma premissa extremamente ousada: Fernando Pessoa é retratado como um agente secreto pertencente a uma sociedade que combate zombies e forças ocultas. Esta abordagem fantástica procura explicar, de forma criativa, o surgimento dos heterónimos, estabelecendo desde o início um tom irreal e provocador.

Cada heterónimo surge como uma entidade com voz própria, embora sempre ligada à psique do poeta. O recurso ao diálogo entre Fernando Pessoa e os seus heterónimos revela-se eficaz, permitindo explorar os seus conflitos internos de forma dramática e, em certos momentos, humorística. Este aspeto contribui para uma leitura dinâmica e imaginativa.

Um dos pontos mais positivos da obra é, sem dúvida, a integração de poemas reais de Fernando Pessoa. O autor consegue inserir versos autênticos nos diálogos de forma natural, reforçando a atmosfera e a carga emocional das cenas, sem que estes pareçam deslocados ou forçados no enredo.

Apesar destes méritos, a obra não foi totalmente do meu agrado. O retrato de um Fernando Pessoa extremamente violento causa algum estranhamento. Embora se compreenda que o objetivo seja explorar criativamente aquilo que desconhecemos da vida do autor, esta caracterização não vai ao encontro do meu gosto pessoal. Além disso, o enredo parece excessivamente elaborado, o que acaba por dificultar a minha identificação com a narrativa.

 Ridzén, Lisa (2025). Quando as Aves Voam para Sul. Lisboa: Suma das Letras.

Tradução: João Reis
N.º de páginas: 352
Início da leitura: 22/12/2025 
Fim da leitura: 23/12/2025

**SINOPSE**
"Bo vive uma vida tranquila no norte da Suécia, rodeado pelas suas memórias, telefonemas com o amigo Ture e a companhia fiel do seu cão Sixten. Mas a velhice chega com perdas — de autonomia, de espaço, de voz — e o seu filho, com quem sempre teve uma relação difícil, quer agora levar-lhe tudo o que lhe resta: o cão.

Na iminência de perder Sixten, Bo sente-se obrigado a resistir. É nesse confronto que emergem os silêncios de uma vida inteira, os amores mal expressos e a urgência de se reconciliar com o que — e quem — realmente importa.

Terno e lúcido, Quando as Aves Voam para Sul é um romance comovente sobre envelhecer, lutar por dignidade e encontrar palavras para o que nunca se soube dizer."
Gostei muito deste livro. Quando as Aves Voam para Sul, de Lisa Ridzén, é um romance de uma delicadeza comovente que aborda a velhice não como um acontecimento súbito, mas como um inverno que se aproxima em silêncio, retirando lentamente aquilo que julgávamos como adquirido. A narrativa acompanha Bo, um homem idoso que vive no norte da Suécia, num quotidiano feito de rotinas simples, memórias persistentes, telefonemas com o amigo Ture e da presença insubstituível do cão Sixten. É nesse espaço íntimo e contido que o romance constrói a sua força: na atenção ao detalhe, na escuta do que se perde antes mesmo de ser nomeado, na dignidade silenciosa de quem continua a amar apesar de tudo.
A leitura é, inevitavelmente, triste e dolorosa. Ridzén escreve sobre a perda de autonomia, de lugar no mundo e, sobretudo, de voz, essa forma subtil de desaparecimento que tantas vezes antecede o fim. A relação difícil entre Bo e o filho intensifica este sentimento de expropriação: quando este decide que o pai já não pode cuidar do cão, ameaça retirar-lhe o último vínculo afetivo que ainda lhe dá sentido aos dias. A iminente separação de Sixten não é apenas um conflito narrativo; é o símbolo maior daquilo que a velhice impõe sem pedir consentimento. Ainda assim, o romance recusa o melodrama fácil. A resistência de Bo é discreta, quase frágil, mas profundamente humana, e é nela que reside a coragem de envelhecer com dignidade.
Distinguido com o Prémio de Melhor Livro do Ano na Suécia, Quando as Aves Voam para Sul confirma-se como um romance comovente sobre o amor e a perda, mas também sobre a persistência dos afetos quando tudo o resto ameaça desaparecer. Lisa Ridzén escreve com contenção e empatia, oferecendo ao leitor uma experiência de leitura que dói, mas que permanece. Gostar deste livro é aceitar a sua tristeza, reconhecer-se na sua verdade e compreender que, no inverno da vida, aquilo que mais importa são, muitas vezes, as pequenas coisas que nos ligam uns aos outros, antes que as aves partam para sul.

 Clemmons, Zinzi (2018). O Que Perdemos. Lisboa: Almedina.

Tradução: Inês Fraga
N.º de páginas: 196
Início da leitura: 21/12/2925
Fim da leitura: 22/12/2025

**SINOPSE**
"Criada na Pensilvânia, Thandi vê o mundo da infância da sua mãe em Joanesburgo demasiado longínquo, mas ao mesmo tempo indelevelmente presente. Sente-se diferente onde quer que vá, no intervalo entre ser branca e negra, americana ou estrangeira. Tenta juntar todas estas peças da sua vida e, enquanto a sua mãe sucumbe ao cancro, Thandi procura por uma âncora: alguém, algo, para amar.

Numa prosa perturbadora e fugaz, acompanhamos a vida de Thandi, desde a perda da mãe à habituação de viver num mundo sem a figura que moldou a sua existência, até às suas aventuras românticas e maternidade inesperada. Através de pequenas descrições, Clemmons cria um retrato fabuloso sobre a força de escolher viver depois de enfrentarmos uma grande perda."
O Que Perdemos, de Zinzi Clemmons, parte de uma experiência profundamente íntima e universal, o luto, a identidade e a herança emocional, e constrói uma narrativa marcada pela introspeção e pela contenção. No entanto, apesar da sensibilidade com que os temas são abordados, a leitura deixou-me a sensação de que faltava algo essencial para que o impacto fosse pleno. A história privilegia fragmentos de pensamento e momentos quase ensaísticos em detrimento de um desenvolvimento mais aprofundado das personagens, o que dificulta a criação de uma ligação mais sólida entre o leitor e as figuras que atravessam o livro. As personagens surgem esboçadas, mas raramente exploradas em profundidade, ficando a impressão de que se conhece mais o tom emocional da narradora do que a sua complexidade interior ou a dos que a rodeiam. Essa escolha estilística, embora coerente com uma escrita mais contemplativa e minimalista, acaba por limitar o envolvimento e deixa a sensação de potencial não concretizado. Assim, O Que Perdemos revela-se um livro delicado e bem-intencionado, mas que teria beneficiado de um maior desenvolvimento das personagens e de uma exploração mais profunda das suas relações, de forma a tornar a experiência de leitura mais completa e emocionalmente marcante.


Fadden, Freida (2024). A Professora. Lisboa: Alma dos Livros. 

Tradução: carla Ribeiro
N.º de páginas: 353
Início da leitura: 19/19/2025
Fim da leitura: 21/19/2025

**SINOPSE**
Eve tem uma vida boa. Levanta-se todos os dias de manhãzinha, recebe um beijo do seu marido, Nate, e vai dar aulas de matemática na escola secundária da cidade em que vivem. Tudo é perfeito, tal como deve ser. Exceto que
No ano anterior, um escândalo abalou a Escola Secundária de Caseham. No centro de toda a polémica, estava Addie, uma aluna, sobre a qual corriam rumores de que tinha um caso com um dos professores. Eve tem a certeza de que, por trás do escândalo, se esconde uma verdade bem mais sombria.
Addie não é de confiança. A rapariga mente. Magoa as pessoas. Destrói vidas. Pelo menos, é o que toda a gente diz.
Porém, ninguém conhece a verdadeira Addie. Os segredos que guarda poderão vir a arruiná-la, por isso fará de tudo para que as coisas se mantenham exatamente como estão."
A Professora, de Freida McFadden, acabou por confirmar a desilusão que já vinha do contacto anterior com a autora, tornando esta segunda oportunidade particularmente frustrante. A história centra-se em Eve, uma professora de matemática com uma vida aparentemente perfeita, no seu marido Nate, professor de inglês, e em Addie, uma aluna do secundário envolvida num escândalo por alegadamente ter mantido uma relação com um antigo professor. Apesar de o ponto de partida ser provocador e de, no início, parecer relativamente fácil antecipar o rumo da narrativa, o livro acaba por seguir caminhos inesperados, recorrendo a reviravoltas sucessivas que chocam mais pela gratuitidade do que pela eficácia narrativa, ao ponto de quase afastarem o leitor da vontade de concluir a leitura. As personagens revelam-se pouco desenvolvidas, funcionando mais como instrumentos ao serviço do choque do que como figuras credíveis e complexas, o que compromete o impacto emocional da história. O desfecho surge apressado, deixando várias pontas soltas e a sensação de que o enredo foi forçado até ao limite sem o cuidado necessário na sua resolução. No conjunto, A Professora revelou-se uma leitura desapontante, com uma execução frágil e escolhas narrativas questionáveis, deixando uma sensação de desconforto e até de repulsa, difícil de ignorar, e levantando inevitavelmente a pergunta de como uma premissa com tanto potencial resulta num livro tão pouco conseguido. Ainda não foi desta que a autora me conquistou.

Tavares, Gonçalo M (2014). Uma menina está perdida no seu século à procura do pai. Porto: Porto Editora.

N.º de páginas:200
Início da leitura: 18/12/2025
Fim da letura: 19/20/2025

**SINOPSE**
Hanna e Marius, Berlim, Século XX.
Marius encontra uma menina perdida à procura do pai. Hanna, rapariga, cabelos castanhos, olhos pretos, catorze anos. Hanna fala com dificuldades, entende mal o que lhe acontece, não percebe o raciocínio dos outros. Está perdida.
Marius está com pressa mas muda o seu percurso, acompanha-a.
A sua busca leva-os até Berlim, a um hotel com corredores que lembram fantasmas da guerra — e os dois circulam entre as obsessões e os escombros do seu século.
"- E vocês? De onde vêm?
Tentei explicar-lhe que não era um homem falador. Gosto de ouvir, disse-lhe, não tenho muito para dizer.
Ele perguntou, virado para Hanna:
- Como te chamas?
Hanna respondeu. Ele não percebeu. Hanna repetiu, ele continuou sem perceber. Eu repeti:
- Chama-se Hanna.
- Hanna - disse Fried. - Bom.
- Que idade tens?
- Catorze - respondeu, e agora percebeu-se.
Fried sorriu para ela, simpaticamente. Ela disse:
- Olhos: pretos. Cabelo: castanho.
Eu disse: - Ela aprendeu assim.
Depois ela disse:
- Estou à procura do meu pai.
Fried sorriu, não disse nada."
"Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares, apresenta uma premissa que, à partida, desperta curiosidade e promete um percurso emocional e simbólico forte: a procura do pai como metáfora de identidade, pertença e reconstrução num mundo ferido. No entanto, apesar do potencial da ideia central, a forma como é desenvolvida cria distanciamento no leitor, sobretudo para quem não se revê na escrita fragmentária e conceptual do autor. A narrativa dispersa-se em histórias paralelas que surgem frequentemente de modo desgarrado, mais próximas de exercícios filosóficos do que de um enredo coeso, o que enfraquece o envolvimento emocional e a progressão da história principal. O contexto remete claramente para um pós-Segunda Guerra Mundial reconhecível, mas a realidade apresentada afasta-se da reconstrução histórica expectável, optando antes por um universo alegórico e artificial, quase abstrato. Essa escolha estilística, embora intencional e coerente com o projeto literário de Tavares, pode gerar frustração em leitores que esperavam maior aprofundamento psicológico das personagens ou um desenvolvimento narrativo mais linear. Assim, o livro revela-se mais estimulante a nível intelectual do que narrativo, funcionando melhor como reflexão do que como romance no sentido tradicional."

Couto, Mia (2025). As Sementes do Céu. Alfragide: Editorial Caminho. 

Ilustração: Susa Monteiro
N.º de páginas: 40
Início e fim da leitura: 18/12/2025

**SINOPSE**
"«Um dia, o avô espreitou pela janela e contemplou as montanhas. Deu um passo atrás, com as mãos no peito, como se lhe faltasse o ar. Apontou para o topo dos montes, lá onde vivia uma imensa floresta. Agora, restava apenas areia e pedra. Tinham cortado as árvores todas.»

Um conto de grande atualidade, narrado com sensibilidade e poesia, que brota do silêncio e da espera pelo momento certo de nascer. Uma história que convida à reflexão sobre a preservação do meio ambiente e ao diálogo entre gerações, assinada por uma dupla de autores de reconhecida qualidade literária e artística, que aqui se reúne pela primeira vez num álbum ilustrado."
As Sementes do Céu, de Mia Couto, é um livro breve, mas profundamente sugestivo, que confirma a capacidade do autor de dizer muito com poucas palavras. Trata-se de uma obra que pode ser lida por leitores mais jovens, mas que revela camadas de significado especialmente ricas para o público adulto, convidando à reflexão sobre a relação entre o ser humano, a natureza e a memória.
A narrativa constrói-se a partir do olhar de uma criança e da sua ligação ao avô, numa relação marcada pela escuta, pela transmissão de saberes e pela contemplação do mundo. É nesse diálogo intergeracional que o livro encontra o seu centro emocional. A paisagem, caracterizada pela ausência de árvores e pela degradação ambiental, transforma-se num poderoso símbolo de perda, mas também de possibilidade de regeneração. As “sementes” do título representam não apenas a esperança num futuro mais equilibrado, mas também as histórias, os valores e os gestos que passam de geração em geração.
Mesmo num registo mais contido e aparentemente simples, Mia Couto não abdica da sua linguagem poética e metafórica. As frases são cuidadosamente trabalhadas, com um ritmo próprio e uma musicalidade que convida a uma leitura pausada. Não é um livro de ação ou de acontecimentos rápidos; é, antes, uma obra de contemplação, em que o silêncio e o não dito têm tanto peso quanto as palavras.
A brevidade do texto pode deixar alguns leitores com vontade de uma maior exploração das personagens ou dos temas, mas essa concisão parece ser uma escolha deliberada. Aconselho.

Morgan, Sarah (2023). O Clube de Leitura de Natal. Alfragide: Quinta Essência.

Tradução: Salomé Castro
N.º de páginas: 392
Início da leitura: 14/12/2025
Fim da leitura: 17/12/2025

**SINOPSE**

"Será que este Natal vai ser o início de um novo capítulo?

Uma amizade duradoura
Todos os anos, Erica, Claudia e Anna reúnem-se para as férias do clube do livro. Une-as uma longa amizade e um profundo amor pelos livros, mas ainda escondem muitas coisas umas das outras...

Este ano, o destino leva-as a um hotel acolhedor e à sua adorável proprietária.

Uma escapadela de Natal perfeita
No hospitaleiro Hotel Maple Sugar, Hattie é especialista em realizar os sonhos dos seus hóspedes, mas neste Natal ela só quer sobreviver à época festiva. Entre gerir o hotel e ser mãe solteira, Hattie está perto do limite. Ela só espera que o recente beijo de tirar o fôlego a Noah, o amigo de longa data, não a faça perder o equilíbrio...

O começo de uma nova história?
Ao longo de uma semana agitada, Hattie percebe que as amigas escondem verdades por dizer e que a bagagem emocional delas é maior do que os presentes debaixo da sua árvore de Natal!

Mas nada a prepara para a forma como a sua história se vai entrelaçar com as delas.

Poderá este Natal ser o fim do clube do livro ou o início de um novo e emocionante capítulo?"

O Clube de Leitura de Natal é um romance que se assume, sem reservas, como um livro de leitura leve e reconfortante. Sarah Morgan constrói uma narrativa simples e descontraída, pensada para ser apreciada sem grandes exigências interpretativas, funcionando como um verdadeiro refúgio literário, especialmente adequado à época natalícia.
A obra destaca-se sobretudo pela forma como aborda temas universais como a amizade, a família e a concretização de sonhos pessoais. As relações entre as personagens são o eixo central da narrativa, transmitindo uma sensação constante de proximidade e calor humano. O espírito de partilha, tão associado ao Natal, manifesta-se não apenas nos encontros do clube de leitura, mas também na forma como cada personagem encontra apoio nos outros para enfrentar inseguranças, perdas e mudanças de rumo.
Do ponto de vista estilístico, a escrita é fluida e acessível, o que torna a leitura rápida e agradável. A autora não pretende surpreender o leitor com grandes reviravoltas narrativas, e a previsibilidade da história é, ao mesmo tempo, uma limitação e uma escolha consciente. Para leitores mais exigentes, essa previsibilidade pode reduzir o impacto emocional ou literário; contudo, para quem procura conforto e familiaridade, ela contribui para a sensação de segurança e tranquilidade que o livro oferece.
Embora não apresente grande profundidade psicológica nem inovação estrutural, o romance cumpre eficazmente o seu propósito: proporcionar momentos de lazer, descanso e bem-estar. O Clube de Leitura de Natal não ambiciona ser uma obra marcante do ponto de vista literário, mas sim um livro acolhedor, que celebra os laços humanos e o poder das histórias partilhadas.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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