Histórias Soltas Presas Dentro de Mim
Pynia, Tomeu (2017). Uma Aldeia Branca - O Bar do Barbudo. Lisboa: Levoir.
Tradução: Carlos Xavier
N.º de páginas: 96
Início da leitura: 09/09/2026
Fim da leitura: 10/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Este livro assinala a estreia de mais um autor espanhol na colecção Novela Gráfica, é uma obra coral, povoada de personagens com histórias para contar e que, além de Rafa, o dono do bar, e de Núria e Marga, as empregadas, inclui naturalmente os clientes do bar.

Clientes como Pantaléon, o vagabundo carregado de histórias; Eduardo Corona, o escritor argentino em busca de inspiração; Ignacio, o velho criador de pombos; Lucia, a fotógrafa de guerra: Don Nicolas, que espera (e desespera) pelas cartas do seu velho amor; o marinheiro Bernet Colóm, um Ulisses que regressa sempre a Núria, a sua Penélope, Hugo, o desenhador que não compreende a arte moderna; Kurt, o alemão de aspecto ameaçador e coração de ouro; e Fátima, a Sherazade por quem Rafa sonhou toda a vida.

Em O Bar do Barbudo contam-se histórias que sabem a sal, à brisa do mar e a uma chávena de café. É ao balcão do seu bar que Rafa, o barbudo dono, ouve as histórias que os seus clientes lhe contam, em troca de comida ou de bebida, viajando deste modo por todos os mares do mundo, sem sair da sua pequena ilha.

Com prefácio de João Miguel Lameiras é um livro muito agradável de ler, é uma história de carácter intimista, com um ritmo calmo e com espaço para a reflexão, a sugestão, a nostalgia e o humor."
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Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, de Tomeu Pinya, é um livro, cuja premissa é simples: num bar situado numa ilha mediterrânica, Rafa, conhecido como o Barbudo, recebe clientes que, em troca de uma refeição ou de uma bebida, lhe oferecem aquilo que verdadeiramente trazem consigo, as suas histórias.
Rafa quase não precisa de sair do lugar para viajar. São os outros que lhe trazem o mundo, através das memórias, experiências e fantasias que partilham ao balcão. Por ali passam personagens tão diferentes como um escritor argentino que perdeu a inspiração, uma fotógrafa de guerra, um criador de pombos ou um marinheiro, cada um carregando uma história que, de alguma forma, acrescenta uma nova paisagem àquele pequeno espaço.
É precisamente essa estrutura que torna a leitura tão particular. Não estamos perante uma narrativa que procura conduzir-nos rapidamente para um grande acontecimento ou para um desfecho surpreendente. O livro constrói-se através de encontros e de pequenas histórias, permitindo que cada personagem deixe uma marca antes de seguir o seu caminho. O bar funciona como ponto de passagem, mas também como lugar de permanência, onde vidas muito diferentes se cruzam durante o tempo suficiente para que alguma coisa seja partilhada.
A viagem que o livro propõe é, por isso, sobretudo uma viagem através das palavras e das memórias. Cada relato abre uma janela para uma realidade diferente e mostra-nos como uma pessoa pode transportar consigo mundos inteiros, mesmo quando permanece sentada no mesmo lugar. Há aqui uma ideia muito bonita de que viajar não significa necessariamente partir: por vezes, basta escutar alguém.
O ritmo da novela gráfica acompanha essa ideia. A ação desenvolve-se de forma tranquila, sem pressa, quase como uma música que se deixa ouvir ao fundo e que nos vai conduzindo de uma história para outra. É uma leitura que pede disponibilidade e alguma contemplação. Em vez de procurar constantemente prender o leitor através da tensão, Tomeu Pinya cria uma atmosfera de quietude, deixando que sejam as personagens e aquilo que têm para contar a conduzir a narrativa.
Também a própria forma da novela gráfica contribui para essa sensação. A componente visual não está apenas ao serviço das histórias, mas ajuda a construir o ambiente da ilha, do bar e das pessoas que por ali passam. Há uma simplicidade que combina com o tom da obra e que permite que os momentos de silêncio tenham tanto significado como os diálogos.

Jackson, Shirley (2026). O Relógio de Sol. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Tradução: Miguel Romeira
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 05/09/2026
Fim da leitura: 08/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"A imponente mansão da família Halloran ergue-se isolada no meio de uma extensa propriedade. No seu jardim encontra-se um relógio de sol de pedra branca com a premonitória inscrição De Que Vale Este Mundo?

Após a morte suspeita do filho de Orianna Halloran, a despótica matriarca, a peculiar tia Fanny recebe uma mensagem sobrenatural do seu falecido pai anunciando que o mundo será destruído numa noite de catástrofe nunca vista e que apenas os habitantes da mansão serão salvos.

Convencidos de que o futuro da humanidade está nas suas mãos, toda a família, empregados e hóspedes preparam-se para o novo mundo que há de vir num ambiente sufocante de intriga, medo, violência e crescente paranoia.

Nesta apocalíptica comédia de costumes e hilariante sátira social, Shirley Jackson, nome maior do gótico literário, cria, por meio de um terror subtil e psicológico, um mundo movido por tensões familiares, personagens grotescas e acontecimentos sobrenaturais onde o maior perigo não vem de fora, mas de dentro."

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Há livros cuja sinopse nos desperta imediatamente a curiosidade e O Relógio de Sol, de Shirley Jackson, foi, para mim, um desses casos. A ideia de uma família poderosa, reunida numa casa isolada, perante a notícia de que uma grande catástrofe se aproxima, parece desde logo reunir os ingredientes para uma história de tensão, mistério e sobrevivência. No entanto, à medida que a leitura avança, percebe-se que Shirley Jackson está menos interessada na catástrofe em si do que naquilo que ela permite revelar sobre as pessoas.
A história começa com a morte suspeita de um dos membros da família Halloran, uma família habituada ao poder, ao privilégio e a uma existência em que as relações parecem ser determinadas mais pelos interesses individuais do que pelos afetos. Pouco depois, Fanny recebe uma mensagem atribuída ao pai, já falecido, anunciando que o mundo está prestes a terminar numa grande catástrofe e que apenas se slavarão as pessoas que ficarem na casa de família. A partir desse momento, a casa transforma-se num espaço fechado, onde um grupo restrito de personagens se vê obrigado a conviver com a expetativa de um fim que ninguém sabe exatamente como será.
É nesse confinamento que o romance ganha verdadeira força. As doze personagens começam a discutir o que fazer, como organizar o futuro e, sobretudo, quem terá direito a esse futuro. A possibilidade de o mundo exterior deixar de existir parece dar-lhes ainda mais liberdade para exporem aquilo que normalmente procurariam esconder. As convenções sociais tornam-se frágeis e as relações familiares revelam uma crueldade que, em circunstâncias normais, talvez permanecesse dissimulada.
Shirley Jackson constrói estas personagens sem procurar torná-las particularmente simpáticas. Pelo contrário, há uma certa perversidade na forma como lhes permite manifestar egoísmos, ressentimentos, ambições e pequenas crueldades. São pessoas que, perante a possibilidade do fim do mundo, continuam preocupadas com a sua posição, com o controlo sobre os outros e com aquilo que poderão ganhar ou perder. A ameaça exterior acaba, assim, por ser quase secundária: o verdadeiro perigo encontra-se dentro da própria casa.
É também aí que o humor negro assume uma importância fundamental. Há situações que, pela sua própria natureza, deveriam ser perturbadoras, mas que a autora apresenta com um sentido de absurdo que provoca um sorriso desconfortável. A ideia de preparar o futuro quando se acredita que o mundo está prestes a acabar poderia ser trágica; nas mãos de Shirley Jackson, torna-se frequentemente grotesca. As personagens planeiam, fazem exigências, disputam posições e estabelecem regras como se fosse possível organizar racionalmente aquilo que está para lá do seu controlo.
Gostei particularmente desta combinação entre o inquietante e o absurdo. A autora não precisa de recorrer permanentemente ao terror convencional para criar desconforto. O que assusta é, muitas vezes, a normalidade com que as personagens aceitam determinadas situações e a facilidade com que o instinto de sobrevivência se mistura com o desejo de poder. O fim do mundo funciona quase como uma experiência que retira às personagens a obrigação de fingirem ser melhores do que realmente são.
A casa assume, por isso, um papel quase tão importante como as próprias personagens. É simultaneamente abrigo e prisão, um espaço onde se procura segurança enquanto se torna cada vez mais evidente que ninguém está verdadeiramente protegido. Quanto mais tempo estas pessoas permanecem juntas, mais difícil se torna separar a ameaça exterior das tensões que crescem entre elas.
Confesso, contudo, que terminei o livro a desejar um desfecho diferente. Não necessariamente porque considere que o final escolhido por Shirley Jackson seja inadequado, mas porque, depois de uma premissa tão forte e de toda a tensão acumulada ao longo da narrativa, esperava uma resolução que correspondesse de outra forma às expectativas que fui criando. O final deixou-me, por isso, com alguma frustração. Ainda assim, compreendo a opção da autora e reconheço que seria provavelmente menos coerente com o espírito do romance oferecer uma conclusão mais convencional ou mais próxima daquilo que o leitor pudesse desejar.

 Rui, Manuel (2016). Quem Me Dera Ser Onda. Lisboa: Guerra & Paz.

N.º de páginas: 104
Início e fim da leitura: 03/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Um romance delirantemente divertido e luminosamente redentor
Angola, poucos anos depois da independência. Estamos mais precisamente em Luanda, em anos de esquemas de sobrevivência. Um pai de família desencanta um porco e leva-o para o seu apartamento, no sétimo andar de um prédio. Os filhos, Zeca e Ruca, apaixonam-se perdidamente pelo porquinho."

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Ler Quem me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, foi, para mim, uma forma de revisitar Luanda, embora não a Luanda que deixei em 1975. A cidade que encontrei neste pequeno romance é outra: a Luanda de 1982, marcada pelas consequências da guerra, pelas dificuldades do quotidiano e por uma realidade social e económica muito diferente daquela que guardava na memória. É uma Luanda que o autor apresenta através de uma história aparentemente simples, mas que rapidamente se percebe ser muito mais do que uma narrativa sobre uma família e o seu porco.
A história começa quando uma família passa a ter um porco em casa e decide criá-lo. Para os dois filhos, o animal depressa deixa de ser apenas uma possível fonte de alimento. Torna-se um companheiro, quase um membro da família, tratado com uma proximidade e uma ternura que contrastam com a intenção do pai, que vê naquele animal sobretudo a oportunidade de voltar a comer carne de porco, algo de que há muito está privado.
É precisamente desta diferença de perspetivas que nasce grande parte do humor do livro. Enquanto as crianças desenvolvem uma verdadeira afeição pelo animal e procuram protegê-lo de todas as formas, o pai vai pensando no momento em que poderá finalmente levá-lo para a mesa. O conflito entre aquilo que o porco representa para uns e para outros permite a Manuel Rui construir uma narrativa divertida, mas simultaneamente atravessada por uma realidade bem mais dura.
As tentativas das crianças para evitar o inevitável são particularmente reveladoras. Chegam a procurar aparas de carne num hotel, numa tentativa de satisfazer o desejo do pai e, desse modo, salvar o seu animal de estimação. Mas até aí a realidade se impõe: no hotel não há restos de porco para lhes dar, apenas carne de vaca. A situação, que poderia parecer apenas cómica, ganha uma dimensão quase absurda quando pensamos no contexto em que decorre. A escassez transforma tudo, desde a alimentação às relações familiares, e obriga as personagens a encontrar soluções pouco convencionais para problemas que, em circunstâncias normais, dificilmente existiriam.
É nessa capacidade de fazer coexistir o humor com uma realidade social difícil que me parece estar uma das maiores virtudes do livro. Manuel Rui não precisa de recorrer a uma narrativa pesada para falar de um período marcado pela guerra, pela falta de bens essenciais, pelas dificuldades económicas e pelas transformações de uma sociedade. Fá-lo através da ironia, da simplicidade e do olhar das crianças, permitindo-nos perceber, por detrás das situações cómicas, um país e uma cidade a tentar reconstruir-se.
Há crítica social, há retrato de uma época e há uma atenção evidente às dificuldades vividas pela população, mas tudo é atravessado por um humor que torna a leitura leve e, ao mesmo tempo, deixa espaço para a reflexão. O riso, neste caso, não apaga a dureza da realidade; antes a torna mais evidente.
Também a linguagem contribui para essa proximidade. A narrativa tem uma espontaneidade que combina com as personagens e com o ambiente em que a história se desenrola. Não sentimos estar perante uma descrição distante de uma realidade histórica, mas antes perante pessoas concretas, com os seus desejos, limitações, afetos e pequenas estratégias de sobrevivência.

Magalhães, Helena (2025). Atos de Desobediência. Lisboa: Edições ASA.

N.º de páginas: 336
Início da leitura: 01/09/2026
Fim da leitura: 02/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"O romance de estreia de Glória Brito foi aclamado pela crítica e adorado pelos leitores. O sucesso, porém, não se repetiu. A escritora está agora perto dos quarenta anos e começa a questionar o seu talento e o seu lugar no mundo. O medo instala-se.

Viver era mais simples no bairro onde cresceu, um tempo em que se sentia livre e a sua família ainda estava completa. Já não é assim. Glória abandonou o bairro, embora a sua memória teime em levá-la para lá. A liberdade não cumpriu a sua promessa de plenitude. A destruição da família alterou a sua relação com os outros e consigo mesma.

A única constante na sua vida é Lúcia, uma amiga que insiste em arrancá-la à solidão, mesmo quando Glória resiste. Serão as palavras crípticas de uma voz do seu passado a abalar essa resistência. Quem sabe, talvez o livro que precisa de escrever já esteja escrito.

Atos de Desobediência explora a intimidade feminina, as relações entre mulheres e homens, entre gerações e classes sociais, numa celebração tão apaixonada quanto crítica da literatura e da arte."

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Em Atos de Desobediência, Helena Magalhães constrói um romance centrado em Glória Brito, uma escritora cuja relação com a literatura está longe de ser pacífica. A dificuldade em encontrar leitores e reconhecimento para aquilo que escreve vai-se cruzando com um passado marcado por relações dolorosas e com uma visão desencantada das relações entre homens e mulheres. Entre a frustração profissional, a solidão e uma sucessão de relações que pouco ou nada parecem acrescentar à sua vida, Glória procura formas de preencher um vazio que a escrita, apesar de tudo, não consegue resolver.
A personagem vive também uma espécie de confronto permanente com aquilo que entende serem as desigualdades existentes no meio literário e na sociedade. A sua revolta perante o reconhecimento atribuído aos homens, por vezes independentemente do mérito que lhes reconhece, introduz no romance uma dimensão crítica que ultrapassa a história individual da protagonista. Helena Magalhães aborda, assim, questões relacionadas com as diferenças de oportunidades, com os papéis atribuídos a homens e mulheres e com a dificuldade de afirmação feminina num espaço que nem sempre parece oferecer as mesmas possibilidades a todos.
É neste contexto que surge Fernando, uma presença que altera o equilíbrio precário em que Glória se encontra. A relação que estabelece com ele coloca-a perante expetativas, ilusões e escolhas que revelam tanto a sua vulnerabilidade como a necessidade de acreditar que, finalmente, encontrou alguém capaz de dar um sentido diferente à sua vida. No entanto, aquilo que cada um está disposto a perder, ou a sacrificar, para que essa relação possa existir é uma questão que o romance vai deixando em aberto e que ganha importância à medida que a narrativa avança.
Apesar de reconhecer mérito à autora na forma como explora estas questões, terminei a leitura com sentimentos algo contraditórios. A escrita é, sem dúvida, um dos pontos fortes do livro, sobretudo na maneira como acompanha o mundo interior da protagonista e dá espaço às suas inquietações, ressentimentos e contradições. Há uma intenção clara de questionar determinadas estruturas sociais e profissionais, e essa dimensão crítica é interessante e, em vários momentos, pertinente.
Por outro lado, senti dificuldade em criar empatia com as personagens. Também algumas situações e conflitos me pareceram regressar demasiadas vezes aos mesmos lugares, contribuindo para um ritmo irregular e, em certos momentos, excessivamente repetitivo. Essa insistência acabou por retirar algum impacto a acontecimentos que, apresentados de forma mais contida, poderiam ter produzido maior efeito.
Talvez esta seja, em parte, uma questão de expetativas. A sinopse despertou em mim uma curiosidade que acabou por não encontrar correspondência total na leitura. Esperava uma narrativa com uma tensão diferente e uma maior capacidade de me envolver emocionalmente com as personagens. Encontrei, em vez disso, um romance sobretudo interessado nas suas inquietações, nas fragilidades das relações e nas questões de género e de reconhecimento que atravessam a protagonista.

Mãe, Valter Hugo (2026). O Século dos Imbecis. Porto: Porto Editora.
N.º de páginas: 340
Início da leitura: 25/08/2026
Fim da leitura: 29/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez.
Atravessamos o século da informação, mas parecemos resistir ao conhecimento. Como se o lúdico e o torpe definissem afinal o propósito dos colectivos que perdem a vergonha perante a folia de não saberem nada.
Agilulfo, um marquês em tempo de República, abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando desce. Por sinal, a tentação de o descer é maior do que a de o subir. A pequena vila vive em torno do estranho homem que, sem fazer mais do que cuidar de sua grande casa, está no centro dos interesses de toda a gente.
Entre o riso e o espanto, o absurdo e a mais nítida representação da esperança e da falha humana, a vida passa inteira por aqui."

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O Século dos Imbecis é uma obra de forte dimensão alegórica, construída a partir de uma crítica mordaz à superficialidade, à ignorância e à facilidade com que tantas vezes nos pronunciamos sobre tudo sem verdadeiramente conhecermos aquilo de que falamos. Valter Hugo Mãe recorre ao humor e ao absurdo para nos colocar perante uma realidade que, apesar de situada num tempo indefinido, tem uma desconcertante atualidade.
A história de Agilulfo decorre num Portugal também ela difícil de situar com precisão, algures por volta de 1910, durante a I República, numa aldeia que poderia ser qualquer aldeia portuguesa. É aí que encontramos a Malandrinha, a casa onde grande parte da ação se concentra e que acaba por adquirir uma importância muito para além da de simples cenário. A casa é quase uma personagem, com uma presença própria, e funciona como um pequeno espaço de uma sociedade que, apesar de parecer distante no tempo, reflete comportamentos que reconhecemos facilmente no presente.
É precisamente nessa indefinição temporal que reside uma das ideias mais interessantes do romance. O passado não é apresentado apenas como memória, mas como uma espécie de antecipação do futuro. Aquilo que encontramos naquele espaço rural, como a cobiça, a procura de estatuto, a ambição, o desejo de poder e a preocupação com as aparências, não pertence exclusivamente à sociedade retratada. Pelo contrário, projeta-se sobre o mundo contemporâneo e parece igualmente capaz de sobreviver no futuro.
O humor tem aqui um papel fundamental. Os neologismos e os jogos com a linguagem conferem à narrativa uma dimensão quase caricatural e fazem-nos sorrir, mas esse sorriso vem muitas vezes acompanhado da perceção de que estamos perante uma ironia bastante séria. A linguagem torna-se, assim, uma das principais ferramentas da crítica: brinca, desconcerta e exagera para nos obrigar a olhar com maior atenção para aquilo que, por ser tão familiar, já quase deixámos de questionar.
E é impossível não relacionar esta reflexão com uma das passagens mais fortes do livro, na página 234, quando o autor distingue claramente informação de conhecimento. Vivemos, efetivamente, no século da informação, mas isso não significa que sejamos necessariamente uma sociedade do conhecimento. Temos acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação, mas isso não implica que a compreendamos, que saibamos distingui-la ou, sobretudo, que permitamos que ela transforme a nossa forma de pensar e de agir.
É uma ideia com a qual concordo inteiramente. Talvez nunca tenhamos tido tanta informação ao nosso alcance e, simultaneamente, tanta dificuldade em transformá-la em conhecimento, discernimento ou sabedoria. Opina-se sobre tudo, comenta-se tudo, reage-se imediatamente a tudo, muitas vezes sem tempo ou vontade para compreender. A necessidade de participar e de ter uma opinião parece, por vezes, sobrepor-se à necessidade de saber. E, nesse sentido, a crítica de Valter Hugo Mãe torna-se particularmente incómoda porque reconhecemos no romance comportamentos muito presentes na sociedade atual.
A frase antiga de que “o silêncio é de ouro” ganha, por isso, uma nova atualidade. Saber calar pode ser uma forma de inteligência; reconhecer que não sabemos pode ser uma forma de conhecimento. No universo criado pelo autor, porém, parece existir uma tendência contrária: mais importante do que saber é parecer que se sabe, mais importante do que compreender é opinar e, muitas vezes, mais importante do que pensar é entreter-se.
Também a cobiça e a procura incessante de poder e de estatuto são alvo dessa crítica. As personagens movimentam-se num mundo em que possuir, aparentar e subir na hierarquia social parecem constituir objetivos fundamentais. O dinheiro e a posição social tornam-se instrumentos de afirmação e, por vezes, substitutos de valores que deveriam ser muito mais importantes. Mais uma vez, aquilo que poderia ser lido como uma sátira de uma determinada época acaba por funcionar como um espelho do nosso próprio tempo.
Um dos aspetos que mais me chamou a atenção foi ainda o peso das personagens femininas. Existe uma força nelas que contrasta de forma evidente com muitas das figuras masculinas, frequentemente dominadas pela ambição, pela vaidade ou pela necessidade de afirmação. Essa diferença não parece meramente circunstancial e abre espaço para uma questão que o próprio romance deixa pairar: poderá estar nas mulheres uma possibilidade diferente de futuro? Poderá o sonho de construir uma sociedade mais digna depender precisamente daqueles que conseguem olhar para o mundo para além da obsessão pelo poder e pelo estatuto?
Não é uma leitura que procure oferecer respostas simples. O que mudou realmente na sociedade ao longo de um século? Teremos evoluído assim tanto na forma como pensamos, se continuamos a ser conduzidos pela cobiça, pelas aparências e pela necessidade de opinar? E de que serve termos acesso a tanta informação se não estivermos dispostos a aprender?
O Século dos Imbecis é, nesse sentido, uma sátira que ultrapassa largamente o tempo em que a sua história parece decorrer. O passado transforma-se numa lente através da qual observamos o presente e, simultaneamente, num aviso sobre aquilo que poderemos transportar para o futuro se não formos capazes de mudar comportamentos.
Aconselho vivamente!

Rodrigues, José (2017). O Rio de Esmeralda. 
N.º de páginas: 250
Início da leitura: 24/08/2026
Fim da leitura: 25/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"«O tempo não apaga tudo, sobretudo quando no tudo está incluído um grande amor.»

Esmeralda e António viveram, em jovens, um amor profundo, bruscamente interrompido quando Esmeralda se vê forçada a abandonar a aldeia onde ambos viviam. Os jovens prosseguiram, entretanto, as suas vidas, felizes com o que o destino lhes proporcionou.

Quando ambos estão já na idade madura, a inauguração de um empreendimento turístico na aldeia é o pretexto ideal para o reencontro há muito desejado. Sentimentos há muito esquecidos voltam à superfície, mais fortes do que nunca, e o que antes era desvio parece ser agora o melhor dos caminhos. Entre a doçura da memória e a realidade do presente, a escolha nem sempre é linear…"

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Em O Rio de Esmeralda, José Rodrigues recupera um tema tão antigo quanto a própria literatura: o amor que não chegou verdadeiramente ao fim. Um amor interrompido pelas circunstâncias, que ficou algures suspenso no tempo e que, apesar de a vida ter seguido outros caminhos, permanece como uma história por encerrar.
É junto ao rio que viu nascer e crescer essa relação que o passado continua a marcar as personagens. Entretanto, ambos refizeram as suas vidas, construíram outros caminhos e aprenderam a viver com as escolhas que fizeram. No entanto, determinadas circunstâncias profissionais acabam por proporcionar o regresso de ambos ao lugar onde tudo começou. E esse regresso ao espaço do passado traz consigo o confronto com aquilo que ficou para trás.
José Rodrigues explora, ao longo do romance, essa ideia de que algumas histórias amorosas podem permanecer dentro de nós mesmo quando julgamos tê-las ultrapassado. O passado ganha uma espécie de força própria e o reencontro funciona como uma oportunidade para revisitar sentimentos, decisões e possibilidades que, em determinado momento, ficaram por concretizar. O rio assume, neste contexto, uma presença simbólica importante: é testemunha de uma história que pertence a outro tempo, mas que continua a projetar-se sobre o presente.
Há uma certa melancolia nesta narrativa, sobretudo na forma como o autor olha para o amor perdido e para as marcas que determinadas relações podem deixar. Não se trata apenas da possibilidade de recuperar uma relação, mas da necessidade de compreender o que ela significou e de encontrar uma conclusão para aquilo que ficou incompleto. É uma reflexão sobre o tempo, sobre as escolhas e sobre a dificuldade que, por vezes, temos em aceitar que algumas histórias simplesmente terminam sem o desfecho que imaginámos.
A premissa é interessante e oferece ao autor espaço para explorar uma dimensão mais introspectiva das personagens. No entanto, foi precisamente neste ponto que a minha leitura se tornou mais distante. Acredito que, quando duas pessoas seguem caminhos diferentes e conseguem reconstruir as suas vidas, o próprio tempo acaba por conferir uma outra perspetiva ao passado. O que em determinada idade poderia parecer uma ferida aberta pode, anos mais tarde, ser encarado com maior serenidade e distanciamento.
É essa a principal reserva que me fica em relação ao romance. Na minha opinião, o capítulo estava, em grande medida, encerrado no momento em que ambos decidiram seguir em frente e construir novas vidas. O reencontro poderia naturalmente despertar memórias, emoções ou alguma nostalgia, mas esperaria das personagens, já numa fase mais madura da existência, uma capacidade maior para olhar para esse passado sem a necessidade de lhe atribuir novamente um lugar central no presente.
Talvez seja precisamente essa diferença de perspectiva que tenha condicionado a minha apreciação do livro. A história procura dar uma resposta àquilo que ficou por dizer, enquanto eu, enquanto leitora, senti por vezes que algumas coisas não precisam necessariamente de ser resolvidas para poderem ficar para trás. Há histórias que permanecem inacabadas não porque aguardem um último capítulo, mas porque a vida simplesmente continuou.
Ainda assim, O Rio de Esmeralda apresenta algumas das características que encontramos na escrita de José Rodrigues: uma forte componente sentimental, personagens marcadas pelas suas escolhas e uma narrativa construída em torno das relações humanas e da passagem do tempo. O rio, além de espaço físico, funciona como uma espécie de memória permanente, ligando o passado ao presente e dando ao romance uma atmosfera particularmente nostálgica.
Não foi, contudo, um dos livros do autor de que mais gostei. Reconheço-lhe a sensibilidade e o interesse da premissa, mas a forma como é trabalhada a necessidade de revisitar esse amor não me convenceu inteiramente. Talvez porque, para mim, existe também uma forma de encerramento na própria passagem do tempo: quando seguimos em frente, construímos uma nova vida e chegamos a uma idade em que somos capazes de olhar para o passado com a distância necessária. 

Sobral, Luísa (2026). Da Minha Janela. Lisbos: Publicações Dom Quixote.

N.º de páginas: 200
Início da leitura: 22/08/2026
Fim da leitura: 23/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"Pequenas histórias que abrem uma janela sobre o quotidiano da autora, tão familiar e reconhecível quanto divertido.

Diz a autora do presente livro que a crónica a conquistou antes de tudo como exercício de escrita, mas que acabou também por moldar a sua forma de olhar para as coisas e de observar o mundo; e que já não sabe se são determinados acontecimentos que a levam a fazer uma crónica, se afinal é ela própria quem provoca situações irregulares para arranjar assunto para escrever.

Neste belíssimo livro a que Luísa Sobral chamou Da Minha Janela, os leitores riem com a sua falta de jeito para armar uma tenda para os filhos brincarem, mas podem também irritar-se com um edredão que escorrega permanentemente para o chão, ficar indignados com o comportamento de um motorista de TVDE e até preocupar-se com a saúde de alguém muito próximo.

Estes textos fazem-nos pensar sobre o dia a dia de uma maneira mais profunda e mais estruturada e, de repente, é como se a janela da autora fosse, afinal, também a da nossa casa."
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Da Minha Janela, de Luísa Sobral, é um livro que se lê com a sensação de estarmos à conversa com alguém que sabe contar uma boa história. Reunindo um conjunto de crónicas de carácter pessoal, a autora parte de episódios do quotidiano, memórias e pequenas peripécias para construir uma obra despretensiosa, leve e, acima de tudo, muito divertida.
Não é preciso que aconteça nada de extraordinário para Luísa Sobral encontrar matéria para uma história. É precisamente nos pequenos acontecimentos, nos momentos aparentemente insignificantes e nas situações com que qualquer pessoa se pode identificar que está grande parte do encanto deste livro. A autora observa o mundo a partir do seu próprio lugar e transforma aquilo que poderia passar despercebido numa narrativa capaz de despertar um sorriso.
O grande mérito está na forma como o faz. A escrita é simples, espontânea e muito próxima, sem procurar efeitos literários excessivos. Há uma naturalidade na voz narrativa que torna a leitura particularmente agradável e transmite a sensação de que as histórias estão a ser contadas diretamente ao leitor. Luísa Sobral demonstra, aqui, ser uma excelente contadora de histórias, sobretudo porque sabe perceber que o humor nem sempre está nos grandes acontecimentos, mas, muitas vezes, na maneira como olhamos para eles.
O tom é predominantemente descontraído e bem-humorado, mas isso não significa que as crónicas sejam vazias ou superficiais. Por detrás da leveza existe uma atenção às relações, às situações do dia-a-dia e às pequenas contradições da vida. A autora consegue rir de determinadas circunstâncias sem que esse humor se torne forçado, e é essa autenticidade que aproxima o leitor das histórias.
Outro aspecto que contribui para o prazer da leitura é o ritmo. As crónicas são curtas, a linguagem é acessível e a narrativa flui sem dificuldades. O livro não exige uma leitura concentrada ou demorada; pode ser lido aos poucos, entre outras leituras, ou de uma só vez. E talvez seja precisamente esta última possibilidade que melhor demonstra a sua capacidade de entretenimento: quando damos por nós, já chegámos ao fim.

Lehane, Dennis (2026). Um Brinde Antes da Guerra. Lisboa: Alma dos Livros. 

Tradução: Ana Pinto Mendes
N.º de páginas: 304
Início da leitura: 20/08/2026
Fim da leitura: 22/08/2026

**SINOPSE WOOK**
Patrick Kenzie e Angela Gennaro cresceram nas ruas operárias de Dorchester e conhecem demasiado bem as regras não escritas da cidade: quem tem poder manda; quem não tem, aprende a sobreviver. Como detetives privados, estão habituados a lidar com pequenos casos, segredos de bairro e pessoas desesperadas.

Quando três influentes políticos os contratam para encontrar uma empregada de limpeza desaparecida que terá roubado documentos sensíveis, tudo parece um trabalho rápido e discreto: recuperar os ficheiros, localizar a mulher e passar a pasta a quem paga. Mas nada é simples quando o poder está em jogo.

À medida que seguem o rasto da mulher desaparecida, Kenzie e Gennaro descobrem que os documentos escondem segredos capazes de abalar muito mais do que algumas carreiras políticas. O que parecia um pequeno roubo revela-se parte de uma teia sombria de conspirações, corrupção política e crime organizado.

Das salas do poder aos bairros mais violentos, a cidade transforma-se num campo minado onde cada passo pode desencadear uma guerra. Gangues entram em confronto, alianças quebram-se e segredos enterrados começam a emergir.

Num mundo onde o poder compra silêncio e a justiça raramente é clara, descobrir a verdade pode custar-lhes a vida.

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Em Um Brinde Antes da Guerra, Dennis Lehane apresenta-nos Patrick Kenzie e Angela Gennaro, dois detetives privados que conhecem bem as ruas de Dorchester, o bairro operário de Boston onde cresceram. Aquilo que começa por parecer um trabalho relativamente simples, como localizar uma empregada de limpeza negra que desapareceu levando consigo documentos confidenciais pertencentes a um senador, depressa se transforma numa investigação muito mais perigosa, que os conduz por um território onde a política, o crime organizado, a corrupção e as tensões raciais se cruzam de forma avassaladora.
Lehane constrói a narrativa a partir dessa aparente simplicidade inicial para, progressivamente, revelar uma realidade muito mais complexa. À medida que Patrick e Angie avançam na investigação, tornam-se evidentes os interesses e relações de poder que se escondem por detrás dos acontecimentos. O caso deixa de ser apenas uma questão profissional e passa a envolvê-los num ambiente cada vez mais hostil, marcado pela violência e pela ameaça de um conflito entre gangues que encontra nas tensões raciais um terreno particularmente fértil.
É, aliás, essa dimensão social que dá ao romance uma força que vai para além do thriller policial. Lehane não se limita a construir um mistério para ser resolvido: utiliza a investigação para explorar as desigualdades, os preconceitos e os jogos de poder de uma cidade onde diferentes mundos convivem lado a lado, mas nem sempre em condições de igualdade. A política surge longe da imagem institucional e respeitável que normalmente lhe associamos, enquanto o crime e os interesses económicos parecem encontrar formas muito próprias de atravessar fronteiras e de se aproximarem uns dos outros.
No centro de tudo estão Patrick Kenzie e Angela Gennaro, e é na relação entre ambos que o livro encontra uma das suas maiores forças. Mais do que uma simples dupla de investigadores, são duas pessoas ligadas por uma história comum e por um conhecimento profundo um do outro. Cresceram no mesmo bairro e carregam consigo as marcas desse passado, o que faz com que a relação profissional seja constantemente atravessada por uma cumplicidade difícil de ignorar. O humor sarcástico, as provocações e a lealdade que demonstram mesmo nas situações mais extremas conferem leveza a uma narrativa bastante violenta, enquanto a tensão sentimental entre os dois permanece subtil, sem se sobrepor à investigação.
Patrick funciona também como uma voz particularmente adequada ao universo criado por Lehane. A sua perspetiva permite-nos acompanhar não apenas a investigação, mas também as pessoas e os lugares que fazem parte daquele mundo. Não é um herói convencional nem um detetive distante dos problemas que encontra. Conhece as ruas, conhece as pessoas e sabe que, naquele ambiente, as fronteiras entre certo e errado podem ser bastante menos claras do que parecem à primeira vista.
Outro dos grandes méritos do romance é a atmosfera. A Boston de Lehane está longe de ser apenas um cenário. É uma cidade áspera, marcada pelas diferenças sociais, pela violência e pela identidade própria dos seus bairros, e o autor consegue transmitir essa realidade com grande eficácia. Dorchester, em particular, ganha uma presença quase física na narrativa. As ruas, os bares, os bairros e as pessoas contribuem para criar um ambiente sombrio e simultaneamente muito concreto, tornando fácil imaginar cada um dos lugares por onde as personagens passam.
O ritmo é outro ponto forte. Um Brinde Antes da Guerra é um thriller dinâmico, com uma narrativa que raramente permite que a tensão desapareça durante muito tempo. Lehane sabe construir cenas de ação sem perder completamente de vista as personagens e os conflitos que as movem, e a escrita tem um carácter muito visual. Há momentos em que a narrativa parece pedir uma adaptação cinematográfica, não apenas pela violência ou pelo movimento, mas sobretudo pela forma como o autor constrói os espaços, os diálogos e a progressão da investigação.
Apesar de ser um livro bastante focado na acção, não deixa de existir espaço para uma reflexão sobre o poder e sobre a facilidade com que interesses aparentemente distintos podem acabar por se cruzar. A corrupção política, o crime organizado e os conflitos sociais não surgem como elementos isolados, mas como partes de uma estrutura em que todos parecem ter alguma coisa a ganhar e quase ninguém está verdadeiramente protegido das consequências.

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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