domingo, 1 de outubro de 2017

Do leitor ao escritor

Célia Gil

Um leitor, no verdadeiro sentido da palavra, é o leitor que compreende, interpreta e intervém, que é consciente e livre. E é a leitura que lhe permite desenvolver o domínio da linguagem (...).
A originalidade do escritor não nasce consigo, ainda que possa existir uma aptidão pela escrita. Um escritor tem de ser crítico, ao ser o primeiro leitor do seu próprio texto (...), ousar pôr em causa o que se decide a escrever; pesquisar, para confirmar e ser o mais fidedigno possível; questionar o que diz e por que diz; observar com perspicácia, para poder relatar, ainda que possa recriar; ser convicto de que consegue ultrapassar obstáculos e alcançar o objetivo a que se propôs; ser obstinado, para não desistir, para não se deixar levar pela inércia e pela derrota de um livro inacabado e, por último, trabalhar incansavelmente no seu projeto (...). 
O escritor é aquele que escreve com prazer e que se distingue do autor, o profissional que dá a conhecer a sua obra e se vai esquecendo de que foi, antes de ser um autor, um escritor (...). 
Para chegar ao leitor, o escritor precisa de ser criativo, crítico e ativo, sem deixar de escrever com autenticidade, havendo, para tal, também a necessidade de uma boa seleção de fontes. Até porque o escritor precisa de ter em consideração a existência de diversos tipos de leitor – aquele que lê poucas páginas, porque de cada vez que lê, a sua mente vagueia, acabando por afastar-se do livro; aquele que lê atentamente, detendo-se nos mais ínfimos pormenores, considerando-os todos preciosos, e relê para encontrar ideias escondidas nas entrelinhas; aquele que relê os livros, encarando esta releitura como a primeira vez, pois continua a deslindar emoções e acontecimentos novos e que, ao reler consegue aumentar a distanciação crítica; o leitor que considera que cada livro que lê faz parte do grande livro único que constitui o conjunto das suas leituras; o leitor que entende que o livro único é o que existe para além do tempo, procurando em cada leitura o livro da sua infância, que não é fácil de encontrar; o leitor que se detém sempre antes no título, na capa, no início do livro, para o qual mais importante que a leitura é a promessa da leitura; aquele para o qual o mais importante é o que está para lá do final do livro e que ele procura desvendar. São tantos os tipos de leitor, que nem sempre é fácil escrever para um em específico. Às vezes, o próprio escritor fica surpreendido com os tipos de leitor que consegue captar para a leitura do seu livro. Por isso, o escritor tem sempre a aprender com o próprio leitor, que lhe vai dando indicações do que gosta, como gosta e porque gosta (...).
Em suma, não basta querer ser-se escritor, é preciso ser-se empenhado, crítico, ter em conta o leitor a quem se pretende chegar (sem contar aquele a que pode chegar sem que tenha sido previsto), sem desistir do seu sonho de escrever, mas investindo nesse sonho com paixão, dedicação e persistência. 


                                               In O Sonho no Texto Poético de Expressão Portuguesa, Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

3 comentários:

  1. Um ótimo texto e dele podemos tirar belos ensinamentos e recados. Gostei! Valeu! bjs, tudo de bom,chica

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  2. Se fosse fácil ... eu até escrevo corretamente, mas ... falta o golpe de asa.
    Beijinhos

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  3. Oi Célia,
    Uma ótima reflexão. Devo ser uma boa leitora, pois sou bastante reflexiva.
    Bjs

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