segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Grito de desespero

Célia Gil

Tanta maldade!
Há dias em que os nossos olhos choram o que a boca não ousa falar. É tão duro ver o meu país, assim, a debater-se, em vão, contra as chamas. Fico muda, petrificada e queimada por dentro. As imagens irrompem com tal força pelas minhas retinas dentro, que engasgam soluços, contorcem artérias, arrepiam o coração, trespassam a alma, ficam marcadas para sempre. 
Como é possível?
Quem é capaz de matar? Matar a natureza, que todos os dias nos presenteia com a sua beleza?
Matar os animais que por ali correm, esbaforidos e presos nas chamas?
Matar sonhos, de quem investiu uma vida inteira nas terras, nas casas, nas máquinas agrícolas e tantas outras coisas ardidas, perdidas?

Sonhos petrificados em rostos de dor, num baixar de braços ante a impotência que derrota a esperança!

Incendeiam-nos a esperança. Matam-nos os sonhos, a força, a coragem, a vontade.

Matar pessoas, PESSOAS! ANIMAIS! SERES VIVOS!

Como é que alguém é capaz de pôr fogo, depois de tantas calamidades?
E ficar indiferente...Em prisão domiciliária, a aguardar um julgamento que os deixa em liberdade... 
Então são doentes, são capazes de matar, porque são doentes...Mas dormem, conseguem fechar os olhos, à noite e repousar.
Quem, com cancro terminal, pensa em matar alguém? E isso, sim, é uma pessoa verdadeiramente doente e desesperada!
Se é loucura, se é demência, há que tratá-la. Mas não é deixando para depois, não é libertando, para voltarem a fazer o mesmo, vezes sem conta! 
Para quando? Para quando a prevenção? A prevenção não está apenas nas matas, a prevenção está na educação, no internamento, na terapia, na prisão! Não é possível deixar em liberdade, alguém que incendeia, porque foi traído pela mulher, alguém que incendeia, porque precisa de adrenalina, alguém que incendeia, para ganhar milhões com os incêndios! Esta é só mais uma forma de deixar andar... A prevenção e a resolução dão, provavelmente, muito trabalho e pouca adrenalina!!!

Matar? Há em qualquer dessas situações que mencionei, uma justificação para matar? Para destruir o nosso país? 
NADA justifica, NADA penaliza, NADA se faz e tudo continuará até Portugal estar completamente negro, mais do que já está.

Negro por fora, negro por dentro das almas que choram esta desgraça.

Apesar de alguns morrerem fisicamente, todos morremos um pouco por dentro. Já diz o ditado popular "Elas não matam mas moem". Bem verdade! Quem, digno, não se sente morrer a cada dia, a cada incêndio, a cada destruição? Quem não se sente impotente, chocado, abalroado com a realidade tão dura que nos sufoca a cada nova notícia, a cada nova imagem?

MORREMOS, morremos todos, quando nos morre o nosso país, quando nos morre a nossa gente!
                                                                                                                                              Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

4 comentários:

  1. Triste e impressionante isso! Que pena que há de se ver coisas assim acontecendo! Ficamos todos tristes! Que tudo acabe bem! bjs, chica

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  2. Oi Célia,
    Faço minhas as suas palavras. sinto Portugal como minha segunda pátria.
    Bjs

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  3. Célia o momento é de profunda tristeza, de total horror. Aprendamos.
    Abraço

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  4. O belo e triste choro da alma bem expresso aqui em forma de poesia.
    Que chegue o dia em que a vida a natureza tem um pouco mais de valor para a humanidade. Linda família vc tem. filhos lindos. Bjs amiga

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