sábado, 28 de outubro de 2017

Flores, de Afonso Cruz

Célia Gil


Cruz, Afonso (2015). Flores. Lisboa: Companhia das Letras.

Este livro chama-nos de imediato a atenção pela própria capa – as flores azuis, símbolo da eternidade, captou-me e motivou-me para a sua leitura.
Depois de ler Os Livros que Devoraram o meu Pai, fiquei curiosa em ler mais livros deste escritor. E foi assim que, e aproveitando uma das frases mais proferidas no livro, entrei “mais dentro na espessura”.
Numa linguagem poética e fluída, somos conduzidos à história de um homem, que se encontra numa fase difícil da sua vida – divórcio, distanciamento da filha – resultante, também, da sua própria maneira de ser, ao alhear-se de algumas situações que o rodeiam e da sua própria vida. Acaba por constatar que a relação com a mulher falhou, porque já só se beijam “como quem faz a cama” e os beijos “sabem à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar a loiça”.
Sem conseguir resolver os seus problemas e talvez até para fugir deles, decide ajudar um vizinho, o Sr. Ulme, a recuperar as memórias perdidas, em virtude de uma doença degenerativa, após ter sido operado a um aneurisma.
Enquanto se embrenha na recuperação das memórias de Ulme, junto de pessoas que o conheciam, com a ajuda da filha, que sente uma grande amizade por Ulme, faz por esquecer e ultrapassar os seus próprios problemas. No fundo, ele e Ulme são duas pessoas perdidas no mundo e a precisar de companhia.
Acaba por perceber que a vida é efémera e que, à medida que passa, se vai perdendo a própria razão de existir e até mesmo a existência. Urge, por isso, recuperar a capacidade de acreditar no futuro e de lutar pelos próprios sonhos. O futuro não é uma construção do passado, não há “armas capazes de disparar um futuro”. O que se perde, custa a recuperar, até porque a pessoa que viveu essas perdas, se vai transformando e tem de enfrentar as mudanças para poder habituar-se a viver com elas, a ser feliz para além delas.
São personagens muito atuais e é tecida uma crítica a esta realidade presente, em que as pessoas se perdem nas teias da rotina (que acaba por funcionar como um ladrão de amor), nas relações conjugais, familiares e, até, no amor-próprio.
Acabam por recordar apenas os momentos especiais, os que não foram consumidos pela rotina.
A morte iminente tem o poder de conferir sentido à vida, tornando as vivências mais intensas, criando a vontade de mudar, de lutar diariamente.
Vale a pena viajar “mais dentro na espessura” e conhecer estas personagens, que têm sempre algo para nos ensinar.
Deixo uma passagem do livro, sem dúvida aliciante:
“As mães são as fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso trata-a bem” (pág. 80).
Vale a pena! Penetrem “mais fundo na espessura”!
                                                                                                                Célia Gil



Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

1 comentários:

  1. Oi Célia,
    O livro parece ser interessante, mas nunca vi nada deste autor no Brasil, acho que ainda não foi lançado por aqui.
    Bjs

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