Não Me Perguntes, Jeff Abbott

Aboott, Jeff (2021). Não Me Perguntes. Porto: Porto Editora. 

Tradução: Carlos Sousa de Almeida
N.º de páginas: 373
Início da leitura: 26/01/2026
Fim da leitura: 29/01/2026

**SINOPSE**
"Em Lakehaven, um próspero e pacato bairro de Austin, Texas, o corpo de Danielle Roberts é descoberto num banco de jardim pelo próprio filho, Ned. Estimada naquela comunidade, Danielle era uma advogada especialista em processos de adoção internacional, que ajudara a levar as alegrias da parentalidade a muitas famílias locais. A violência do crime choca profundamente Lakehaven.
No entanto, talvez ninguém esteja tão devastado como os Pollitts, que viviam a duas casas de Danielle e que a viam quase como um membro da família. O homicídio e a investigação policial subsequente desencadearão um turbilhão de suspeitas e intrigas. «Farei o que for preciso para o salvar», promete Julia Pollitt, referindo-se a Ned. «Os teus pais sempre te mentiram» é dito num e-mail anónimo para o filho adotivo dos Pollitts, Grant. «Ninguém poderá saber a verdade agora», pensa o pai, Kyle. «Não me perguntem o que faria para proteger a minha família», afirma convictamente a mãe, Iris.
Os Pollitts sempre acreditaram que estariam lá uns para os outros. Porém, quando começam as suspeitas no seio da família, a força dos laços que os unem será duramente testada, resultando num thriller fascinante sobre as consequências fatais de determinadas perguntas."

Não me perguntes, de Jeff Abbott, constrói-se como um thriller contido e metódico, assente mais na progressão psicológica e moral do que na ação imediata. A narrativa decorre em Lakehaven, um bairro próspero e aparentemente pacato de Austin, no Texas, cenário que o autor explora com eficácia enquanto espaço de contrastes: por detrás da normalidade suburbana escondem-se segredos, silêncios cúmplices e zonas de sombra que só a violência extrema vem expor. A descoberta do corpo de Danielle Roberts, advogada respeitada na comunidade, encontrada morta num banco de jardim pelo próprio filho, Ned, funciona como o detonador de uma história que se recusa a avançar por caminhos simples ou lineares.
Danielle era especialista em processos de adoção internacional, tendo sido responsável por ajudar várias famílias locais a concretizar o desejo de parentalidade. Entre elas destacam-se os Pollitt, um casal com dois filhos: uma rapariga, filha biológica, e um rapaz adotado na Rússia através dos contactos profissionais da advogada. A proximidade entre Ned e o filho adotivo dos Pollitt introduz, desde cedo, uma tensão subtil, que se adensa à medida que os interrogatórios policiais avançam. Estes surgem transcritos em capítulos próprios, intercalados com a narrativa principal, e são conduzidos por Jamika Ponder, detetive do Departamento do Xerife do Condado de Travis, e Carmen Ames, da polícia de Lakehaven, com o acompanhamento de Juan Castillo, conselheiro juvenil e advogado. Este dispositivo narrativo confere ao romance um ritmo deliberadamente lento, quase claustrofóbico, obrigando o leitor a ouvir, interpretar e desconfiar de cada testemunho.
A questão central, se as adoções acompanhadas por Danielle estarão na origem do seu assassinato e por que motivo, sustenta-se numa construção paciente, feita de pequenas revelações e de memórias fragmentadas, em particular as da Sra. Pollitt, que revisita o passado e o período da adoção do filho. Abbott opta por um registo contido, onde a verdade nunca é imediata nem confortável, e onde a moralidade das personagens se revela ambígua. O peso da culpa, do medo e da proteção familiar atravessa todo o romance, conferindo-lhe uma densidade que ultrapassa o simples enigma criminal. Gostei!

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