Passeron, Anthony (2025). As Crianças Adormecidas. Porto: Porto Editora.
Tradução: Diogo Paiva
N.º de páginas: 192
Início da leitura: 19/02/2026
Fim da leitura: 20/02/2026
**SINOPSE WOOK**
"Na década de oitenta, a explosão do consumo de heroína e o surgimento da epidemia da sida tiveram um efeito devastador em toda uma geração de jovens. Quarenta anos depois da morte do seu tio Désiré, Anthony Passeron decidiu investigar a história silenciada da sua família e analisar o que no campo científico internacional corria em paralelo. O resultado é As Crianças Adormecidas, uma narrativa comovente que entrelaça memórias íntimas, sociologia e história, olhando para o sofrimento solitário de uma família em particular e para a competição entre hospitais e centros de investigação franceses e norte-americanos, até à identificação, em 1983, de um vírus que matou milhões de pessoas em todo o mundo. Este é um retrato sóbrio de uma época de caos, vibrante com ânsias de liberdade, de expressão de orgulho, de viver o novo, perplexa com um terror desconhecido, uma dor indizível, um luto asfixiado pelo estigma.
«Sem nunca levantar a voz, desfez o silêncio familiar cicatrizado sobre a tragédia e construiu um texto tão poderoso, tão comovente, que permanece connosco muito após a sua leitura. Sublime.»
Annie Ernaux"
À VENDA NA WOOK EM: https://www.wook.pt?a_aid=698b2dc997d71
Em As Crianças Adormecidas, de Anthony Passeron, encontramos uma narrativa que recusa qualquer indulgência sentimental. Trata-se de um livro duro, direto e cru, que parte de uma história familiar para iluminar um dos períodos mais sombrios da Europa recente: a devastação provocada pela heroína nos anos 1980 e a subsequente propagação da Sida.
Passeron constrói o texto a partir da memória dos seus antepassados, em particular de um tio cuja vida foi tragada pela dependência. O que poderia ser apenas um exercício de luto íntimo transforma-se numa reflexão mais ampla sobre marginalidade, silêncio e estigma. A heroína surge não apenas como substância destrutiva, mas como sintoma de um contexto social específico, zonas rurais francesas esquecidas, juventudes sem horizonte, famílias incapazes de compreender o que as atinge. A contaminação pelo VIH, numa época em que pouco se sabia e quase tudo se temia, acrescenta uma camada de tragédia e isolamento.
O mérito maior do livro reside na forma como articula o plano pessoal com o científico e o histórico. A par da história familiar, o autor introduz a corrida médica e científica para identificar o vírus da Sida, criando um contraponto rigoroso e informativo que impede o texto de resvalar para o mero testemunho emocional. Esta alternância entre a intimidade e o relato quase documental confere densidade e equilíbrio à obra.
O estilo é contido, sem adornos supérfluos. Há uma sobriedade que amplifica o impacto dos acontecimentos: Passeron escreve como quem escava, camada após camada, expondo fragilidades, culpas e silêncios. Não há dramatização excessiva; há, antes, uma tentativa de compreender. Essa contenção torna a leitura ainda mais perturbadora, porque o horror não é ampliado por efeitos retóricos, é apresentado na sua nudez factual.


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