Se há livros que têm de ser relidos, este é um deles.
Início da releitura: 20/02/2026
Fim da releitura: 22/02/2026
Em Misericórdia, de Lidia Jorge, encontramos um dos textos mais intensos e luminosos da sua obra. É um livro que emociona com uma força rara, não pela exploração fácil da fragilidade ou da morte, mas pela afirmação obstinada da vida quando esta parece estar a extinguir-se. Há nele uma vibração íntima que dificilmente se explica; sente-se antes de se compreender.
Sabemos que a origem do romance reside num pedido feito pela mãe da autora, pouco antes de morrer: que escrevesse um livro chamado “misericórdia”, para que se tivesse compaixão pelas pessoas e se tratassem como seres na plenitude da vida. Esse gesto inaugural marca profundamente o texto, mas o que poderia resvalar para o sentimentalismo transforma-se, pela mestria de Lídia Jorge, numa meditação poderosa sobre dignidade, resistência e esplendor. Não é um livro piegas sobre a morte; é, como a própria escritora sublinhou, um livro sobre a vida, sobre a energia que persiste, sobre os atos magníficos de resistência que se manifestam no fim do percurso.
A voz que nos guia é a de D. Alberti, Maria Alberta, residente no Hotel Paraíso, um lar de idosos que se torna palco de observação minuciosa do humano. Apesar da mobilidade reduzida que a prende a uma cadeira de rodas, D. Alberti é dona de uma lucidez impressionante, de uma coragem que não se deixa domesticar pela rotina institucional, de um humor e de uma frontalidade que surpreendem. A sua consciência percorre não apenas os corredores do lar, mas também as vastidões do pensamento, da memória e da imaginação.
É através dela que conhecemos os cuidadores, as suas origens, as suas mãos, a delicadeza ou a pressa dos seus gestos, e os restantes residentes, figuras suspensas entre o passado que os habita e o presente de clausura. O Hotel Paraíso surge como microcosmo de uma sociedade que tende a afastar os mais velhos para uma espécie de antecâmara do fim. A imagem das dezenas de pessoas imóveis, sob a bênção contínua da televisão, é de uma crueza quase insuportável. E, no entanto, é dessa imobilidade aparente que irrompe a voz vibrante de D. Alberti, recusando a anestesia, literal e metafórica, que lhe querem impor.
Particularmente marcante é a relação da protagonista com a noite, essa entidade quase personificada que a desafia e tenta submeter. Ao recusar os comprimidos que a fariam “sossegar”, D. Alberti reivindica o direito à consciência até ao último instante. Nas suas conversas com a noite, formula imagens de grande beleza e densidade simbólica: o além como lugar onde se guardam as trouxas com os bens mais preciosos da vida; o além como livro infinito, em que cada página é uma vida. Esta metáfora final condensa a essência do romance, a ideia de continuidade, de memória, de inscrição do vivido num espaço que não se esgota.
Há ainda um traço profundamente comovente na forma como a personagem observa o leitor que visita o lar, deixando-se cativar pela sua voz, pela capacidade de tornar belo o que à partida não o era. D. Alberti, mulher que sempre gostou de ler e de viajar pelo mundo através de um globo doméstico, permanece fiel a essa curiosidade intelectual. Mesmo quando aconselha finais felizes, mesmo quando critica a filha escritora por histórias demasiado tristes, revela uma perceção lúcida e despojada da realidade.
Misericórdia toca-nos porque reconhecemos nesta mãe ficcional algo das nossas próprias mães, das suas forças silenciosas, das suas fragilidades escondidas, das suas exigências de dignidade. O romance não fala apenas do envelhecimento; fala da permanência do desejo, da inteligência e da individualidade até ao fim. E fá-lo com uma escrita depurada, intensa, capaz de unir reflexão e emoção sem nunca cair no excesso.
É, por tudo isto e mais, um livro magnífico, que nos confronta com a vulnerabilidade humana mas também com a sua grandeza. Um livro que comove profundamente porque nos recorda que tratar alguém com misericórdia é reconhecê-lo como inteiro, mesmo quando o corpo falha. Uma leitura que permanece, que nos acompanha, e que merece ser recomendada sem reservas.
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