Quantas Madrugadas Tem a Noite, Ondjaki

 Ondjaki (2010). Quantas Madrugadas Tem a Noite. Alfragide: Editorial Caminho.

N.º de páginas: 192
Início da leitura: 07/12/2025
Fim da leitura: 07/12/2025

**SINOPSE**
"Quantas Madrugadas Tem a Noite" está destinado a ser um marco na literatura angolana e na literatura de língua portuguesa em geral. Com uma extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua capacidade para a criação de tipos e situações carregados de significado, se a sua capacidade para elevar a linguagem coloquial a um altíssimo nível literário. O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes sentimentos são aqui convocados e expostos, com a fluência de quem conta, simplesmente, uma história, na Luanda dos dias de hoje. Assim:
«Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.
Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias...
Uma noite, quantas madrugadas tem?»
Tinha este livro há muito perdido entre outros da estante, porque, apesar de gostar da escrita do autor, foi perdendo prioridade para outros mais recentes e porque nunca gostei desta capa. Mas foi desta!
Em Quantas Madrugadas Tem a Noite, Ondjaki conduz-nos para uma noite suspensa no tempo, num bar de Luanda onde o narrador, amante de cerveja, de conversas longas e de estórias picantes, nos toma diretamente como interlocutores. Através dele, avançamos madrugada adentro e entramos na vida (e sobretudo na morte atribulada) de Adolfo Dido, figura de nome insólito e destino ainda mais improvável. A morte, causada por uma simples mordidela da carraça do enorme cão da Kota das Abelhas, está longe de trazer sossego: as ex-mulheres de Adolfo, Dona Divina e Kibebucha, tentam aproveitar a última política governamental de apoio às viúvas de antigos combatentes e inventam, sem pudor, um passado militar para o falecido. A farsa cresce a tal ponto que se abre um processo judicial, arrastando para o centro da intriga amigos, familiares e até o aparentemente intocável cão tratado como um autêntico sultão.
Uma das características mais marcantes do livro é o registo linguístico: Ondjaki escreve num português angolano popular, vivo, de rua, conferindo ao texto uma musicalidade própria e uma autenticidade difícil de replicar. O glossário final, longe de distrair, funciona como ponte cultural para o leitor menos familiarizado com certas expressões, sem nunca quebrar o ritmo da narrativa. A intriga, original e cheia de reviravoltas, sobressai não só pelo humor, mas também pela subtileza com que expõe tensões sociais e económicas de uma Angola marcada pela guerra e pelas cheias.
Gostei particularmente da forma como o narrador, com a sua alegria simples e espontânea, nos leva a refletir sobre temas de maior fôlego: a mudança, o peso do passado, o valor das pequenas coisas, a morte e, claro, o número quase infinito de madrugadas que pode caber numa só noite. Entre riso, melancolia e devaneio, Ondjaki compõe um retrato afetivo do povo angolano, mostrando como, mesmo nas situações mais absurdas, há sempre espaço para humanidade, ternura e espanto.

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